
19 de fevereiro de 2026
Estrutura organizacional e a transformação inovadora em empresas tradicionais
Thaís Ferreira Alves; Marcel Jaroski Barbosa
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo descreve a estrutura organizacional e os processos de inovação em empresas de perfil tradicional, analisando como a estrutura influencia a inovação em corporações conservadoras. Utiliza-se um estudo de caso múltiplo com 3M, Nestlé e Petrobras, organizações relevantes que buscam inovar em contextos consolidados. A pesquisa visa descrever seus elementos estruturais, identificar processos de inovação, analisar o papel da comunicação e autonomia, e discutir como conciliam tradição com práticas inovadoras. O problema central investigado é como empresas com legados de estabilidade e controle podem adaptar suas estruturas organizacionais para fomentar a agilidade e a criatividade necessárias para competir no cenário contemporâneo, sem comprometer a eficiência operacional que as tornou bem-sucedidas.
A urgência desta investigação é amplificada pelo atual ambiente de negócios, caracterizado por uma aceleração sem precedentes da disrupção tecnológica, pela reconfiguração de cadeias de valor globais e por uma crescente pressão por sustentabilidade e responsabilidade social corporativa. Nesse contexto, a capacidade de inovar deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito fundamental para a sobrevivência e relevância organizacional (Tidd & Bessant, 2015).
Para empresas tradicionais, frequentemente construídas sobre pilares de estabilidade, previsibilidade e controle hierárquico, a transição para um modelo mais inovador representa um desafio sistêmico profundo. Sua estrutura organizacional, que define as linhas de autoridade, os fluxos de comunicação e a distribuição de poder, pode inadvertidamente funcionar como uma barreira à experimentação e à criatividade (Daft, 2010). Modelos excessivamente rígidos, hierárquicos e centralizados tendem a sufocar a iniciativa individual, retardar a circulação de novas ideias e criar um ambiente cultural avesso ao risco; o medo do fracasso supera o desejo pela descoberta. A teoria organizacional clássica oferece lentes valiosas para explorar essa tensão inerente. O trabalho seminal de Burns e Stalker (1961) diferenciou estruturas mecanicistas, eficientes em ambientes estáveis e previsíveis, de estruturas orgânicas, mais adequadas para contextos dinâmicos e incertos. As primeiras são caracterizadas por alta formalização, centralização decisória e comunicação vertical estrita, otimizadas para a eficiência e a padronização.
Em contrapartida, as estruturas orgânicas valorizam a flexibilidade, a descentralização, a comunicação horizontal e a colaboração em rede, elementos essenciais para fomentar a inovação. Na mesma linha, Mintzberg (1979) identificou a “adhocracia” como a configuração organizacional mais propícia à inovação radical, por sua natureza fluida e baseada em projetos. Diante desse dilema, muitas empresas líderes têm buscado soluções intermediárias, desenvolvendo modelos estruturais híbridos que procuram equilibrar os imperativos de controle e eficiência com a necessidade de agilidade e inovação.
A análise aprofundada dos casos da 3M, Nestlé e Petrobras, corporações que enfrentam desafios semelhantes em setores distintos (manufatura diversificada, bens de consumo e energia, respectivamente), permite compreender como esse equilíbrio é buscado e gerenciado na prática. O recorte temporal selecionado, de 2020 a 2025, é particularmente relevante por abranger um período de intensificação da transformação digital, acelerada pela pandemia de COVID-19, e de crescente pressão por práticas de negócios sustentáveis (ESG), forçando essas empresas a inovar em seus produtos, processos e modelos de negócio. A relevância desta investigação se desdobra em duas frentes principais: teórica e prática. Do ponto de vista teórico, o estudo contribui para a literatura ao aprofundar a compreensão de como os modelos organizacionais clássicos se aplicam e são adaptados em contextos contemporâneos.
Ele explora a emergência de estruturas híbridas como uma solução pragmática para o paradoxo entre estabilidade e mudança, oferecendo nuances aos modelos dicotômicos tradicionais.
Para gestores e líderes empresariais, a pesquisa oferece insights práticos e acionáveis sobre os mecanismos estruturais e culturais que podem estimular a inovação sem desmantelar completamente a cultura corporativa e os processos que garantem a operação do negócio principal. Ao analisar como gigantes globais gerenciam essa complexa transformação, o estudo destaca o papel fundamental da estrutura organizacional não apenas como uma restrição, mas como um fator habilitador da capacidade de inovação. A abordagem metodológica adotada é de natureza qualitativa, configurada como um estudo de caso múltiplo com finalidade exploratório-descritiva. A escolha pelo estudo de caso se justifica por sua capacidade de permitir uma investigação aprofundada e contextualizada do fenômeno em seu ambiente real (Yin, 2015), sendo particularmente adequada para explorar as relações complexas e multifacetadas entre estrutura organizacional e processos de inovação.
A utilização de múltiplos casos, com a análise comparativa entre 3M, Nestlé e Petrobras, visa identificar padrões recorrentes e particularidades contextuais, o que aumenta a robustez e a generalização analítica dos resultados. A seleção dos casos foi intencional, buscando empresas que são líderes em seus respectivos setores, possuem um legado tradicional e demonstram um compromisso público e estratégico com a inovação. A opção por fontes secundárias deveu-se à ampla disponibilidade de informações públicas detalhadas sobre as empresas selecionadas e à inviabilidade logística de conduzir uma coleta de dados primários em múltiplas organizações globais. Os dados coletados foram submetidos a um processo de análise de conteúdo, seguindo as diretrizes de Bardin (2016), que envolveu a codificação sistemática do material para identificar temas, categorias e padrões emergentes relacionados à estrutura e à inovação.
Para analisar a estrutura organizacional de cada empresa de forma sistemática, foi desenvolvida uma régua analítica baseada nos construtos teóricos de Burns e Stalker (1961), Mintzberg (1979) e Lawrence e Lorsch (1967). Com base nesses indicadores, as estruturas foram classificadas em um espectro que varia de predominantemente mecanicistas a predominantemente orgânicas, incluindo a identificação de configurações híbridas.
A análise dos casos revela abordagens diversificadas e contextualmente adaptadas para o fomento da inovação. A 3M exemplifica uma cultura de inovação profundamente enraizada e estruturada. Sua estrutura organizacional é predominantemente orgânica (Burns & Stalker, 1961), caracterizada por uma acentuada descentralização e uma notável autonomia decisória concedida às suas múltiplas divisões de negócio. Estas divisões operam com um grau significativo de independência, em uma configuração que se assemelha ao modelo divisionalizado de Mintzberg (1979), o que permite ciclos de inovação mais rápidos e uma maior capacidade de resposta aos mercados específicos. A empresa institucionalizou a tolerância ao erro e o incentivo à experimentação, materializados na célebre “15% rule”, que permite aos funcionários dedicar uma parte de seu tempo de trabalho a projetos de interesse pessoal. Essa política foi a gênese de produtos icônicos como o Post-it (Gundling, 2000).
A inovação na 3M é um processo sistêmico e contínuo, sustentado por times multidisciplinares que quebram silos funcionais e por metas corporativas ambiciosas que atrelam uma parcela significativa da receita a produtos recém-lançados (FGV, 1999). O caso 3M demonstra que a flexibilidade estrutural, quando combinada com incentivos culturais e financeiros, cria um ciclo virtuoso de criatividade e renovação.
Para superar essa inércia, a empresa embarcou em um processo de descentralização seletiva, concedendo maior autonomia às suas unidades de negócio regionais e locais. Essa mudança permitiu que equipes locais desenvolvessem e lançassem produtos adaptados às preferências dos consumidores de cada mercado com muito mais agilidade, alinhando-se aos princípios de diferenciação e integração de Lawrence e Lorsch (1967).
Para evitar a fragmentação e garantir o alinhamento estratégico global, a Nestlé investiu pesadamente em plataformas de comunicação interna e na promoção da colaboração interfuncional, utilizando equipes de projeto multidisciplinares para gerenciar o desenvolvimento de novos produtos. Adicionalmente, a empresa estabeleceu uma rede global de centros de P&D e lançou programas de inovação aberta, como o R+D Accelerator, para se conectar de forma ágil com startups, universidades e centros de pesquisa externos (Nestlé, 2019). Seu modelo pode ser classificado como híbrido, mantendo um forte controle estratégico centralizado enquanto delega poder operacional e de inovação incremental, mostrando que é possível ajustar uma estrutura tradicional para obter maior agilidade sem perder as vantagens da escala. A Petrobras representa um modelo de estrutura híbrida em plena transformação, operando em um setor de alto risco, alta regulação e intensivo em capital.
Sua estrutura central permanece predominantemente mecanicista, com uma hierarquia rígida e processos altamente formalizados, o que é essencial para garantir a segurança operacional, a conformidade regulatória e a eficiência em projetos de grande escala. Contudo, a crescente pressão competitiva e a urgência da transição energética levaram a empresa a criar “bolhas” de inovação que operam com uma lógica orgânica e ágil. A estratégia da Petrobras tem sido a coexistência de um núcleo burocrático robusto com unidades periféricas flexíveis e focadas em exploração. Isso se manifesta na criação de espaços como o Centro de Pesquisas (CENPES), que funciona com maior autonomia, e em programas de inovação aberta como o “Conexões para Inovação”, que visam conectar a empresa ao ecossistema de startups e universidades para resolver desafios tecnológicos (Silva et al., 2020).
Essas iniciativas permitem explorar novas tecnologias em projetos piloto de menor escala e risco controlado, que, se bem-sucedidos, podem ser escalados e integrados à estrutura maior. O caso da Petrobras ilustra vividamente que mesmo em organizações altamente rígidas é possível fomentar a inovação por meio da criação de espaços organizacionais paralelos e protegidos.
A análise comparativa dos três casos revela que não existe uma fórmula única ou uma solução universal para o desafio da inovação em empresas tradicionais. A 3M adota um modelo predominantemente orgânico; a inovação é culturalmente enraizada e permeia toda a organização. A Nestlé implementa um modelo híbrido mais equilibrado, que combina a escala e o controle globais com a agilidade e a adaptação local. A Petrobras, por sua vez, utiliza um modelo híbrido paralelo; a rigidez do núcleo operacional coexiste com ilhas de flexibilidade e experimentação. Os resultados reforçam a tese de que a transformação inovadora em empresas de perfil conservador é um processo gradual e evolutivo, que depende mais de ajustes estruturais estratégicos do que de uma revolução organizacional completa.
O equilíbrio dinâmico entre rigidez e flexibilidade parece ser o caminho mais viável, permitindo que essas corporações preservem sua identidade e seus pontos fortes operacionais enquanto se adaptam às novas demandas do mercado. Os casos estudados validam e, ao mesmo tempo, complexificam os modelos teóricos clássicos. Eles confirmam a relevância da dicotomia de Burns e Stalker (1961), mas mostram que, na prática, as configurações híbridas são a norma, e não a exceção, para grandes organizações. A experiência dessas empresas oferece lições valiosas sobre como criar espaços seguros para a experimentação, como equilibrar a descentralização com a necessidade de integração e alinhamento, e como gerenciar a tensão entre a exploração de novas oportunidades e a otimização do negócio existente. A principal lição que se extrai deste estudo é que a estrutura organizacional não deve ser vista como um elemento estático, mas como uma ferramenta adaptativa e dinâmica a serviço da estratégia.
A inovação, portanto, é menos sobre desmantelar completamente o antigo e mais sobre construir pontes inteligentes e funcionais entre o presente operacional, que gera os resultados de hoje, e o futuro estratégico, que garantirá a relevância de amanhã.
A análise dos casos da 3M, Nestlé e Petrobras reforça que a estrutura organizacional é um fator determinante na capacidade de inovação de empresas tradicionais. Estruturas excessivamente rígidas e formalizadas criam barreiras significativas à criatividade e à agilidade, mas a transformação é possível sem uma ruptura completa com a identidade e a história da organização. Estratégias como a criação de unidades autônomas, a adoção de modelos híbridos que equilibram controle e flexibilidade, o fortalecimento da comunicação interna e a descentralização gradual de decisões são mecanismos eficazes para conciliar tradição e inovação. Este estudo contribui para o campo da inovação organizacional ao apresentar evidências práticas de como diferentes arranjos estruturais podem fomentar um ambiente mais dinâmico, mesmo em contextos historicamente conservadores.
As limitações da pesquisa, por se basear exclusivamente em dados secundários, indicam a necessidade de futuros estudos empíricos, com coleta de dados primários, para aprofundar a compreensão dos mecanismos culturais e de liderança que acompanham essas mudanças estruturais.
Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a conciliação entre estruturas tradicionais e práticas inovadoras é viabilizada por meio de modelos organizacionais híbridos, descentralização seletiva e o fomento a espaços de autonomia e experimentação.
Referências:
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
BRAND, Stewart. The 15 percent solution. Wired Magazine, jan. 1998.
BURNS, Tom; STALKER, G. M. The management of innovation. London: Tavistock, 1961.
COSTA, Rafael A. Cooperação tecnológica e inovação: a relação Petrobras–Coppe/UFRJ. Sociedade e Estado, v. 26, n. 2, p. 315–340, 2011.
DAFT, Richard L. Organização: teoria e design organizacional. São Paulo: Cengage Learning, 2010.
DAMANPOUR, Fariborz. Organizational innovation: a meta-analysis of effects of determinants and moderators. Academy of Management Journal, v. 34, n. 3, p. 555-590, 1991.
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS (FGV). Estudo de caso: 3M Corporation. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
GUNDLING, Ernest. The 3M way to innovation: balancing people and profit. New York: Kodansha America, 2000.
LAWRENCE, Paul R.; LORSCH, Jay W. Organization and environment: managing differentiation and integration. Boston: Harvard Business School Press, 1967.
MINTZBERG, Henry. The structuring of organizations. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1979.
NESTLÉ. Nestlé launches R&D accelerator to boost innovation. Press Release, 2019.
NESTLÉ. Open innovation. 2019.
PETROBRAS. Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello (CENPES).
PETROBRAS. Inovação aberta – conexões para inovação.
SILVA, Daniel; COSTA, Henrique; LIMA, Felipe. Estrutura organizacional e inovação: o caso Petrobras. Revista de Administração Contemporânea, v. 24, n. 3, p. 315-332, 2020.
TIDD, Joe; BESSANT, John. Innovation and entrepreneurship. 3. ed. Chichester: Wiley, 2015.
TRAITLER, Helmut; SAGUY, I. Sam. Creating successful innovation partnerships. Journal of Food Science, v. 75, n. 1, p. R108–R114, 2010.
YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.
YOSHIZUMI, Luciana C. A gestão da inovação tecnológica na Petrobras. 2011. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2011.
ZALTMAN, Gerald; DUNCAN, Robert; HOLBEK, Jonny. Innovations and organizations. New York: Wiley, 1973.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
Saiba mais sobre o curso; clique aqui:






































