Imagem Análise dos desafios institucionais na gestão de dificuldades escolares medicalizadas

19 de fevereiro de 2026

Análise dos desafios institucionais na gestão de dificuldades escolares medicalizadas

Thaís Helena Lopes Claudino Carvalho; Natália Capristo Navarro

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisou a tendência de medicalização das dificuldades escolares e os desafios institucionais decorrentes. A pesquisa investigou como a gestão de uma escola privada lida com as demandas pedagógicas e externas por diagnósticos, discutindo os desdobramentos da inclusão e os modelos de intervenção adotados. O trabalho examina a intersecção entre práticas pedagógicas, políticas institucionais e pressões por nomeações clínicas, avaliando como a escola equilibra seu papel educacional com as recomendações de profissionais externos.

A investigação parte do cenário onde discursos como “hoje em dia tudo é laudo” se tornaram recorrentes, refletindo a tensão entre a percepção das dificuldades e as soluções propostas. Isso desafia os educadores a mediar as necessidades dos estudantes e as pressões por diagnósticos simplificadores. A análise se fundamenta em teóricos que questionam a natureza dos problemas de aprendizagem. Paín (1985) conceitua o problema de aprendizagem como um sintoma influenciado por múltiplos fatores, contrastando com a rigidez dos diagnósticos clínicos. Essa visão critica a nomeação excessiva, que pode posicionar o estudante em um lugar passivo, com características vistas como imutáveis, enquanto a missão da escola é promover o desenvolvimento.

A perspectiva da inclusão, defendida por Mantoan (2003), reforça o papel da escola em garantir o acesso ao conhecimento e as condições de desenvolvimento para todos. A instituição escolar não é apenas transmissora de conteúdo, mas o principal agente na avaliação das circunstâncias da aprendizagem, sendo sua avaliação pedagógica fundamental para contextualizar e questionar diagnósticos. A educação formal, como aponta Fonseca (2018), promove o desenvolvimento humano, social e cultural por meio da atividade cognitiva sistematizada. Portanto, a mediação do educador é insubstituível na compreensão das dificuldades e na elaboração de estratégias, o que reforça a necessidade de a escola assumir protagonismo.

Collares & Moysés (2020) aprofundam a crítica à patologização da vida cotidiana, questionando como padrões de comportamento se tornam critérios para definir o “normal” e o “desviante”. Nesse contexto, a medicina é convocada para rotular comportamentos que não se alinham às expectativas, resultando na proliferação de diagnósticos como TDAH e dislexia. As autoras argumentam que muitas dificuldades de aprendizagem estão mais relacionadas a fatores sociais, culturais e pedagógicos do que a condições neurobiológicas. Essa medicalização frequentemente leva ao uso de medicamentos, ignorando as múltiplas dimensões que influenciam o aprender e desconsiderando o contexto de produção das queixas escolares.

Historicamente, a compreensão sobre as diferenças no processo de aprendizagem é recente (Cardoso, 2004). Por muito tempo, dificuldades foram vistas como incapacidades, levando à exclusão. A legislação brasileira, como a Constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases (Lei nº 9.394/96), consolidou o direito à educação inclusiva. Diante desse imperativo legal e do aumento de diagnósticos, a gestão escolar deve não apenas cumprir a lei, mas desenvolver uma compreensão crítica sobre as dificuldades de aprendizagem para dimensionar intervenções eficazes e eticamente responsáveis.

A pesquisa adotou uma metodologia documental, com abordagens quantitativa e qualitativa, focada em uma instituição de ensino privada do interior de São Paulo. O corpus incluiu o Projeto Político Pedagógico (PPP), o Plano Escolar e o documento interno “Propostas de adaptações e encaminhamentos para alunos com dificuldades escolares” (2022). Este último, elaborado pela gestão, detalha vinte e três possíveis ações institucionais para lidar com diferentes perfis de dificuldades, servindo como guia para a prática pedagógica e administrativa.

A dimensão quantitativa envolveu a tabulação de dados de 87 laudos e avaliações clínicas de estudantes do 6º ao 9º ano (10 a 15 anos), de especialidades como neuropsicologia, psicologia e fonoaudiologia. A coleta, realizada entre abril e agosto de 2025, buscou identificar padrões em variáveis como tipo de diagnóstico, idade, motivo da busca pelo laudo e recomendações. A abordagem documental, conforme Bigaton (2024), permite uma análise crítica de informações existentes, interpretadas pelo pesquisador para gerar novo conhecimento sem interação direta com os sujeitos.

A gestão documental da instituição revelou um sistema organizado. Laudos e relatórios são arquivados sob responsabilidade da Orientação Educacional e da Psicopedagoga Institucional, com um registro interno detalhando diagnóstico, validade e recomendações. O acesso aos documentos completos é restrito à equipe gestora, que compartilha com os professores apenas as informações pertinentes ao trabalho docente. Essa prática visa proteger a privacidade do estudante e fornecer aos educadores orientações práticas, contornando a dificuldade que professores especialistas teriam ao interpretar a linguagem técnica dos laudos (Silva e Molina, 2018).

A gestão escolar utiliza esses dados em momentos estratégicos, como nas reuniões de planejamento. A equipe docente é apresentada a um panorama das dificuldades nas turmas e recebe orientações para incorporar estratégias inclusivas. A instituição promove formações continuadas para habilitar os professores a fazerem escolhas metodológicas mais assertivas. Os dados dos laudos também justificam flexibilizações em avaliações, como tempo adicional, garantindo direitos. Essa prática demonstra o esforço da gestão para traduzir diagnósticos em ações pedagógicas concretas.

A análise quantitativa dos 87 documentos revelou a prevalência de determinados diagnósticos. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) foi o mais frequente, com 39 casos (44,8%). Em seguida, destacam-se o Déficit de Processamento Auditivo Central (12 casos), Dislexia (6 casos) e Transtorno de Desenvolvimento de Aprendizagem (6 casos). Outros diagnósticos como Transtorno do Espectro Autista (4 casos), Altas Habilidades/Superdotação (3 casos) e Transtorno de Ansiedade (2 casos) também foram identificados. Os números corroboram a percepção de um aumento na nomeação de transtornos, especialmente o TDAH, que Sorbara (2016) descreve como uma “epidemia” de diagnósticos que tende a buscar explicações biológicas para comportamentos socialmente influenciados.

Os dados indicaram que a maioria das avaliações foi solicitada pela escola (49 casos), seguida pela iniciativa dos responsáveis (32 casos) e por encaminhamento de outros profissionais (14 casos). A faixa etária com maior concentração de avaliações foi entre 10 e 12 anos, período de transição para os Anos Finais do Ensino Fundamental, quando as demandas acadêmicas se complexificam. A análise qualitativa dos laudos revelou que muitos diagnósticos foram estabelecidos a partir de consultas únicas ou escalas preenchidas por pais e professores, o que, segundo Sorbara (2016), representa um risco de análises superficiais que podem levar a encaminhamentos farmacológicos precipitados.

Uma questão crítica identificada foi a natureza das “Recomendações para a escola” presentes nos laudos. Um pequeno número de profissionais (seis no total) foi responsável pela maioria dos documentos, resultando em recomendações padronizadas e repetitivas, mesmo para estudantes com perfis distintos. Essa prática sugere uma desconexão entre a avaliação clínica e a realidade escolar. Recomendações genéricas, que não consideram a cultura da instituição ou a metodologia de ensino, têm pouca aplicabilidade e podem gerar conflitos com a proposta pedagógica.

Esse conflito tornou-se evidente em casos específicos. Um laudo de um estudante com dislexia recomendava que ele evitasse leituras coletivas e que a sala fosse mantida sem ruídos. Tais sugestões contrariam os princípios de uma educação inclusiva, que busca a superação pela mediação e participação, não pelo isolamento. O próprio relatório escolar indicava que o estudante, com as mediações corretas, era capaz de participar. O Projeto Político Pedagógico da instituição, que preza pela autonomia, entra em choque com recomendações que podem infantilizar o estudante, evidenciando a necessidade de um diálogo mais estreito entre profissionais clínicos e a equipe pedagógica.

Em resposta, a gestão escolar desenvolveu o documento “Propostas de adaptações e encaminhamentos para alunos com dificuldades escolares”. Este documento institucionaliza e sistematiza as práticas da escola, definindo o que cabe à dimensão institucional e o que requer encaminhamento externo. Sua estrutura é pragmática: para cada uma das 23 intervenções, descreve-se o perfil do estudante, o objetivo e o procedimento. As ações são diversificadas, abrangendo desde estratégias em sala de aula, como o uso de metodologias ativas, até intervenções da equipe de Orientação e Psicopedagogia, como o acompanhamento da rotina de estudos e a adaptação de avaliações.

O documento também delimita as fronteiras da atuação escolar, prevendo encaminhamentos para profissionais externos quando a intervenção clínica é necessária. Contudo, a decisão por tal encaminhamento é sempre baseada em uma análise criteriosa da equipe pedagógica. Isso reforça a responsabilidade da gestão em ser um agente ativo na identificação das dificuldades e na definição dos objetivos de qualquer intervenção. Conforme Silva e Molina (2018), a formação do corpo docente para aprimorar esse olhar é uma atribuição central da gestão, garantindo que os encaminhamentos sejam precisos e que a escola mantenha sua autonomia pedagógica.

O Plano Escolar corrobora essa visão, caracterizando os serviços de atendimento aos estudantes com dificuldades. O documento atribui à Orientação Educacional as funções de identificação, mapeamento e orientação desses estudantes. O trabalho da Psicopedagoga Institucional é destacado como suporte para alunos, famílias e, principalmente, professores, orientando os olhares para as manifestações das dificuldades no contexto das atividades escolares. Essa abordagem proativa, que investe na formação interna e em protocolos claros, demonstra um modelo de gestão que busca ir além da reação aos diagnósticos, construindo uma cultura de corresponsabilidade.

A análise do Projeto Político Pedagógico reforça o compromisso da instituição com a diversidade de aprendizados e a autonomia. Os valores do PPP enfatizam a importância do conhecimento dos profissionais e da sensibilidade às demandas da comunidade. A proposta de que o processo avaliativo seja diversificado e periodicamente discutido pela equipe gestora alinha-se à necessidade de uma avaliação processual e qualitativa. Essa estrutura pedagógica e administrativa permite que a escola dialogue com os laudos clínicos a partir de uma posição de critério, utilizando-os como mais uma fonte de informação, mas não como a verdade definitiva sobre o estudante.

A partir da análise documental e teórica, compreende-se que a nomeação das dificuldades escolares por diagnósticos clínicos é um fenômeno crescente, especialmente em contextos de maior poder aquisitivo. A instituição estudada possui recursos para organizar um ambiente inclusivo, com uma gestão proativa na formação da equipe e na criação de protocolos. A pesquisa revelou, no entanto, que mesmo uma escola bem estruturada enfrenta desafios na mediação entre as recomendações clínicas padronizadas e sua própria filosofia pedagógica, que visa à autonomia e à superação.

A investigação refletiu sobre como a tendência de categorizar as dificuldades por vieses biológicos pode limitar a aprendizagem, ao desconsiderar influências sociais, culturais e pedagógicas. Como medida prática, sugere-se que as escolas implementem uma gestão sistemática dos documentos médicos, analisando-os em conjunto com as avaliações pedagógicas internas. Recomenda-se a promoção de reuniões periódicas entre gestores, docentes e profissionais clínicos para alinhar expectativas e construir planos de intervenção colaborativos; a escola possa apresentar seus critérios e métodos. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se como a crescente nomeação clínica das dificuldades escolares impõe desafios significativos à gestão, que responde com a institucionalização de práticas pedagógicas e a busca por um diálogo crítico com os profissionais externos.

Referências:
BIGATON, Aline et al. Metodologias de pesquisa para trabalhos de conclusão de curso / Aline Bigaton, Daniel René Tasé Velázquez, Everton Dias de Oliveira, Maria Júlia Xavier Belém, Mayra Oliveira Ramos. – Piracicaba: Editora PECEGE, 2024.
BRASIL. Lei Nº 7.853, de 24 de outubro de 1989. Dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência, sua integração social, sobre a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência.
BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDB 9.394, de 20 de dezembro de 1996.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Secretaria de Educação Especial – MEC/SEESP, 2001.
FONSECA, Vitor. Desenvolvimento Humano e processo de Ensino-aprendizagem: abordagem psicopedagógica a luz de Vygostsky. – Petropolis, RJ: Vozes, 2018.
MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar – O que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.
MOSQUERA, Juan José Mourifio e STOBAUS Claus Dieter. Educação Especial: em direção à educação inclusiva – 2. ed. Porto Alegre : EDIPUCRS, 2004.
MOYSÉS, M. A. A. ., & COLLARES, C. A. L. (2020). Novos modos de vigiar, novos modos de punir: A patologização da vida. Educação, Sociedade & Culturas, 57, 31-44.
PAIN, Sara. Diagnóstico e Tratamento dos problemas de aprendizagem / Sara Pain; tradução de Ana Maria Machado. – Porto Alegre, 1985.
SILVA, Karina Alves e; MOLINA, Karina Soledad Maldonado. Os transtornos de aprendizagem e a importância da intervenção do gestor. 2018. Trabalho apresentado para obtenção do título de Especialista em Gestão Escolar – Piracicaba, 2018.
SORBARA, Giuliana. TDAH: uma doença que se pega na escola. Giuliana Sorbara – 2016. 174. r. Tese de doutorado em Educação Escolar – Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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