21 de maio de 2026
Purificação de água em saneantes: análise técnica e econômica
Daniela Chinazzo; Renato Czarnotta
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A indústria de saneantes desempenha um papel fundamental na manutenção da saúde pública e na promoção da higiene em diversos ambientes, abrangendo desde o uso doméstico até aplicações em hospitais e indústrias alimentícias. Esse setor engloba a fabricação de produtos destinados à limpeza, desinfecção e desinfestação de superfícies e objetos, visando à eliminação ou redução de microrganismos patogênicos. No cenário global, o Brasil ocupa uma posição de destaque, consolidando-se como o quarto maior mercado produtor e consumidor de saneantes do planeta. Esse mercado é composto por 2.594 empresas ativas, responsáveis pela geração de mais de 90 mil empregos diretos e por um volume de vendas que superou sete milhões de dólares no mercado varejista durante o ano de 2024. O crescimento contínuo do setor, evidenciado por uma expansão de 8,24% no último ano, reforça a necessidade de investimentos em tecnologia e qualidade para manter a competitividade e atender às exigências regulatórias cada vez mais rigorosas (Brasil, 2010).
A água é o principal insumo utilizado na formulação de saneantes líquidos, representando entre 80 e 95% da composição total desses produtos. Devido a essa elevada representatividade, a qualidade da água exerce um impacto direto e significativo na eficácia, estabilidade físico-química e segurança microbiológica das formulações. A presença de contaminantes como sais dissolvidos, metais pesados e microrganismos na água de abastecimento pode comprometer severamente a performance dos produtos finais, resultando em reações indesejadas como turvação, alteração de cor, precipitação de princípios ativos e redução da vida útil ou shelf life. Portanto, o controle rigoroso dos parâmetros da água é considerado um fator crítico de sucesso no processo produtivo industrial (Brasil, 2013).
No contexto de uma indústria de saneantes situada em Portão, no Rio Grande do Sul, a localização estratégica e a parceria com uma multinacional alemã exigiram adequações profundas nos processos fabris. A transição para a fabricação de formulações desenvolvidas na matriz europeia demandou oito meses de ajustes técnicos para alinhar a disponibilidade de insumos locais aos padrões internacionais de qualidade. Durante esse período de desenvolvimento, observou-se que produtos elaborados com água potável comum apresentavam estabilidade inferior quando comparados aos mesmos itens produzidos com água purificada. Para garantir a conformidade com as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que classifica os produtos de acordo com o risco e exige testes de estabilidade rigorosos, a implementação de um sistema de purificação tornou-se uma prioridade estratégica (Brasil, 2010).
A fundamentação teórica para a melhoria dos processos produtivos baseia-se na compreensão de que a água purificada é aquela que passou por tratamentos específicos para remover contaminantes e atender aos requisitos de pureza estabelecidos em monografias oficiais (Farmacopéia Brasileira, 2024). O cumprimento das Boas Práticas de Fabricação é uma exigência legal que assegura que os produtos sejam consistentemente produzidos e controlados de acordo com os padrões de qualidade adequados ao uso pretendido. A Resolução RDC nº 47/2013 estabelece os requisitos mínimos para a fabricação de saneantes, destacando que a água utilizada deve ter qualidade compatível com a formulação, sendo submetida a processos de purificação sempre que necessário para garantir a estabilidade do princípio ativo (Brasil, 2013).
A metodologia adotada para este estudo fundamenta-se, primeiramente, em uma pesquisa bibliográfica exaustiva, utilizada para compreender os conceitos-chave e a fundamentação acadêmica necessária para a análise de viabilidade. A pesquisa bibliográfica permite a investigação científica de obras validadas por especialistas, proporcionando uma base sólida para a tomada de decisão (Gil, 2002). Complementarmente, utilizou-se o procedimento de estudo de caso, que é uma abordagem metodológica adequada para investigar fenômenos contemporâneos dentro de seu contexto real, permitindo uma análise profunda de uma unidade específica, como a indústria de saneantes em questão (Alonso, 2023). O estudo de caso oferece a vantagem de integrar diferentes fontes de evidências, como documentos internos, orçamentos e dados operacionais, para construir uma narrativa técnica robusta (Chaves e Weiler, 2016).
A parte prática do estudo consistiu na análise da viabilidade econômica e financeira para a aquisição de um sistema de purificação de água por deionização. A empresa objeto de estudo está localizada em uma região afastada do centro urbano, sem acesso à rede de água tratada pública, utilizando um poço artesiano industrial para o abastecimento da produção e consumo. Embora a empresa mantenha um sistema de cloração e realize controles diários de cloro residual, pH e análises semestrais em laboratórios credenciados para garantir a potabilidade conforme a Portaria GM/MS nº 888/2021, a água bruta ainda contém minerais que interferem na estabilidade dos saneantes de Risco 2. Estes produtos, que possuem atividade antimicrobiana, exigem que a variação dos princípios ativos durante o tempo de prateleira não ultrapasse 15% (Brasil, 2010).
O detalhamento operacional do projeto da Estação de Tratamento de Água envolveu a cotação de equipamentos e a definição de um fluxo de processos minucioso. O sistema projetado é composto por uma etapa de pré-filtração com três filtros distintos, destinados à remoção de partículas sólidas suspensas, sedimentos e outros contaminantes macroscópicos que poderiam comprometer a integridade das colunas de purificação subsequentes. Após a pré-filtração, a água é direcionada para um primeiro esterilizador ultravioleta, que atua na inativação de microrganismos. A radiação UV, especialmente na faixa de 254 nm, é altamente eficaz na desinfecção por afetar diretamente os ácidos nucléicos das células bacterianas e virais, eliminando a necessidade de aditivos químicos nesta etapa (Wolfe, 1990).
Na sequência do processo, a água entra no sistema de deionização propriamente dito, que utiliza o princípio da troca iônica. Esse processo ocorre em tanques contendo resinas catiônicas e aniônicas. As resinas catiônicas, compostas por polímeros orgânicos sulfonados, capturam íons positivos como cálcio e magnésio, liberando íons de hidrogênio. Simultaneamente, as resinas aniônicas capturam íons negativos como cloretos e sulfatos, liberando íons de hidroxila. A combinação desses íons resulta na formação de moléculas de água pura com baixíssima condutividade elétrica. Para garantir a máxima pureza, o sistema inclui um tanque de leito misto e um tanque de polimento, finalizando com um segundo esterilizador ultravioleta antes do armazenamento ou uso (Farmacopéia Brasileira, 2024).
Para a análise financeira do investimento, foram utilizados indicadores econômicos clássicos: Payback Simples, Payback Descontado, Valor Presente Líquido e Taxa Interna de Retorno. O Payback refere-se ao tempo necessário para que o fluxo de caixa acumulado iguale o investimento inicial, sendo que a versão descontada utiliza uma taxa de juros para trazer os valores futuros ao presente (Camloffski, 2014). O Valor Presente Líquido é a ferramenta que demonstra se os benefícios financeiros do projeto superam o capital investido, considerando o custo de oportunidade (Souza, 2015). Já a Taxa Interna de Retorno representa a rentabilidade intrínseca do projeto, devendo ser superior à Taxa Mínima de Atratividade para que o empreendimento seja considerado viável (Motta e Calôba, 2002).
As premissas para o cálculo financeiro incluíram um custo total de investimento de 64.300 reais, abrangendo todos os equipamentos, instalação e croquis técnicos. A capacidade da estação foi dimensionada para uma vazão de 1000 L/h, com uma produção mensal projetada de 176.000 litros de água deionizada. O custo de produção da água purificada foi calculado em 0,12 real por litro, valor que contempla insumos, energia elétrica, manutenção e impostos. Como a demanda interna da fábrica é de 1.920.000 litros anuais e a capacidade total de produção é de 2.112.000 litros, o excedente de 192.000 litros anuais foi considerado para comercialização a um preço de 0,86 real por litro, gerando um faturamento anual adicional de 20.640 reais.
A análise de viabilidade considerou um horizonte de 10 anos, correspondente à vida útil esperada das colunas de troca iônica. A Taxa Mínima de Atratividade foi fixada em 15%, baseada na taxa SELIC deflacionada pelo IPCA para o longo prazo. No cenário realista, o Valor Presente Líquido apurado foi de 39.287,38 reais, indicando que o projeto não apenas recupera o capital investido, mas gera um excedente financeiro significativo. O Payback Simples foi atingido em quatro anos, enquanto o Payback Descontado ocorreu em cinco anos. A Taxa Interna de Retorno de 30% demonstrou-se altamente atrativa, sendo o dobro da taxa de juros de referência utilizada como custo de oportunidade (Motta e Calôba, 2002).
A discussão dos resultados técnicos revelou que a adoção da deionização foi a escolha mais acertada em comparação com a destilação ou a osmose reversa. Embora a destilação proporcione uma pureza iônica muito alta, seu consumo energético é elevado e a velocidade de produção é lenta para grandes volumes. A osmose reversa, por sua vez, apresenta um custo inicial muito alto e um desperdício de água considerável na forma de rejeito. O sistema de deionização escolhido oferece um equilíbrio entre baixo consumo energético, baixo desperdício de água e uma condutividade elétrica final inferior a 1,0 µS, atendendo plenamente aos requisitos da Farmacopéia Brasileira (2024). Além disso, a facilidade de regeneração das resinas químicas contribui para a sustentabilidade operacional do sistema.
A implantação do sistema trouxe benefícios imediatos para a estabilidade dos produtos de Risco 2. Testes de degradação realizados com o princípio ativo cloro evidenciaram que, em formulações com água potável, a degradação após 12 meses chegava a 15,06%, situando-se no limite da reprovação regulatória. Com o uso de água purificada, a degradação no mesmo período foi reduzida para 11,46%, conferindo uma margem de segurança maior e permitindo a extensão do prazo de validade dos produtos de seis para 12 meses. Esse aumento no shelf life representa um ganho logístico e comercial expressivo, reduzindo perdas por vencimento e aumentando a confiança do consumidor final na marca.
A análise de sensibilidade foi realizada para validar a robustez do investimento frente a possíveis variações de mercado. Foram simulados cenários com oscilações de até 15% no volume de produção excedente e no preço de venda do litro da água. Mesmo no cenário mais pessimista, com baixa produção e preço reduzido, o Valor Presente Líquido permaneceu positivo em 10.440 reais, com uma Taxa Interna de Retorno de 24%. No cenário otimista, o Valor Presente Líquido saltou para 72.694 reais com uma Taxa Interna de Retorno de 35%. Essa consistência nos indicadores financeiros reforça que o investimento possui baixo risco e alta resiliência econômica, independentemente das flutuações externas moderadas.
Além dos ganhos financeiros e técnicos, a conformidade legal assegurada pelo sistema de purificação é um diferencial competitivo. O Decreto nº 5.053/2004 exige que estabelecimentos que produzem itens de uso veterinário e saneantes disponham de sistemas de abastecimento e tratamento de água adequados para evitar a contaminação cruzada e garantir a pureza dos efluentes (Brasil, 2004). A instalação de hidrômetros na saída da estação permitiu o monitoramento preciso do consumo e da produção, facilitando auditorias internas e externas. A padronização da água utilizada em todas as linhas de produção eliminou variáveis que antes causavam instabilidade nos lotes, reduzindo o retrabalho e o descarte de produtos fora de especificação.
A discussão sobre as implicações sociais e práticas do projeto destaca que a melhoria na qualidade dos saneantes contribui diretamente para a eficácia dos processos de higienização em indústrias alimentícias e laticínios, onde a carga microbiana deve ser rigorosamente controlada. O uso de água deionizada garante que os ativos bactericidas dos saneantes não sejam neutralizados por íons presentes na água bruta, assegurando que a desinfecção de equipamentos seja completa. Dessa forma, o investimento transcende a esfera financeira da empresa, impactando positivamente a segurança alimentar e a saúde pública na ponta final da cadeia de consumo.
Limitações do estudo incluem a dependência da manutenção rigorosa das lâmpadas UV e a necessidade de regeneração periódica das resinas, cujos custos podem variar conforme o preço dos insumos químicos. Pesquisas futuras poderiam explorar a automação completa do sistema de regeneração para reduzir ainda mais a intervenção humana e os riscos operacionais. A avaliação do impacto ambiental do descarte das soluções de regeneração também é um campo fértil para estudos complementares, visando a neutralização total dos resíduos químicos antes do descarte final na rede de efluentes.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que o estudo de viabilidade demonstrou que a implantação do sistema de purificação de água por deionização é economicamente rentável e tecnicamente superior para a indústria de saneantes. Os indicadores financeiros, com um Valor Presente Líquido de 39.287,38 reais e uma Taxa Interna de Retorno de 30%, confirmam a atratividade do investimento. Além do retorno financeiro, a melhoria na estabilidade das formulações e a garantia de conformidade com as normativas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária consolidam a posição estratégica da empresa no mercado, assegurando a qualidade superior de seus produtos e a sustentabilidade do negócio no longo prazo.
Referências Bibliográficas:
Alonso, M. M. (2023). El Estudio de Casos como método de investigación cualitativa: Aproximación a suestructura, principios y especificidades. Diversidad Académica, 2(2): 243-267.
Brasil (2004). Decreto nº 5.053, de 22 de abril de 2004. Regulamenta a Lei nº 6.360/1976, que dispõe sobre a vigilância sanitária a que ficam sujeitos os medicamentos, drogas, insumos farmacêuticos e correlatos, cosméticos, saneantes e outros produtos. Diário Oficial da União, Brasília, 23 abr. 2004.
Brasil (2010). Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n° 59, de 17 de dezembro de 2010. Dispõe sobre os procedimentos e requisitos técnicos para a notificação e o registro de produtos saneantes e dá outras providências. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 22 de dezembro de 2010.
Brasil (2013). Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 47, de 25 de outubro de 2013. Dispõe sobre as Boas Práticas de Fabricação para Produtos Saneantes. Diário Oficial da União, Brasília, 28 out. 2013.
Camloffski, R. (2014). Análise de investimentos e viabilidade financeira das empresas.1 ed. Grupo GEN, São Paulo, SP, Brasil.
Chaves, V. E. J., & Weiler, C. C. (2016). Los estudios de casos como enfoque metodológico. ACADEMO Revista de Investigación en Ciencias Sociales y Humanidades, 3(2): 1-11.
Farmacopéia Brasileira (2024). volume I – Versão RDC nº 940, Agência Nacional de Vigilância Sanitária. – 7ª ed. Brasília: ANVISA.
Gil, A. C. (2002). Como Elaborar Projetos de Pesquisa (4° Edição ed.). São Paulo, Brasil: Atlas.
Motta, R. R. Calôba, G.M. (2002). Análise de investimentos: tomada de decisão em projetos industriais. São Paulo: Atlas.
Souza, A. (2015). Decisões financeiras e análises de investimentos: Fundamentos, técnicas e aplicações. 6ed. São Paulo: Atlas.
Wolfe, R.L. (1990). Ultraviolet disinfeccion of potable water. Environmental Science & Technology, 24(6), 768-773. https://doi.org/10.1021/es00076a001.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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