21 de maio de 2026
Desafios da Conectividade no Agronegócio
José Afrânio Araújo Brandão; Ítalo de Oliveira Braga
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O agronegócio estabelece-se como um dos pilares mais robustos e dinâmicos da economia nacional, desempenhando papel fundamental no desenvolvimento do país por meio de uma contribuição que alcança aproximadamente 22% do Produto Interno Bruto. Em um recorte específico, a agropecuária contribui com cerca de 5,6% desse total, movimentando montantes que atingem 11 trilhões e 700 bilhões de reais, o que posiciona o setor como responsável por um quarto de toda a atividade econômica voltada ao campo. A projeção de um Valor Bruto da Produção Agropecuária superior a um trilhão e 400 bilhões de reais para o próximo período reforça a importância estratégica dessa cadeia produtiva. Esse fenômeno não ocorre de forma casual, sendo o resultado de um processo contínuo de modernização e adoção de tecnologias avançadas que otimizam cada etapa produtiva, desde o monitoramento em tempo real de lavouras até a gestão hídrica eficiente e o diagnóstico detalhado de solos. No entanto, o pleno potencial dessa revolução tecnológica encontra-se intrinsecamente ligado à superação de um desafio estrutural persistente: a precariedade da infraestrutura de comunicação em áreas rurais (USP/ESALQ, 2025).
A infraestrutura de telecomunicações enfrenta barreiras significativas, especialmente em regiões de baixa densidade populacional. Embora a expansão da fibra óptica avance, a cobertura ainda encontra dificuldades em áreas remotas, onde apenas cerca de 28% dos estabelecimentos rurais possuem acesso efetivo à rede mundial de computadores. A ausência de conectividade limita a aplicação de conceitos de agricultura de precisão e o uso de dispositivos de Internet das Coisas, que dependem de latência reduzida e estabilidade de sinal. A exclusão digital no campo é agravada pelo alto custo de instalação de torres e pelo baixo retorno imediato de investimentos privados em locais distantes dos centros urbanos. A modernização da agropecuária exige, portanto, uma análise profunda das dificuldades de comunicação, destacando a conectividade como fator determinante para a competitividade internacional do setor (Anatel, 2025).
A fundamentação teórica para a compreensão desse cenário baseia-se na necessidade de universalização dos serviços, conforme discutido em instâncias internacionais que buscam reduzir o divisor digital em países em desenvolvimento (ONU, 2024). A conectividade significativa não foca apenas na presença do sinal, mas na qualidade, acessibilidade e utilidade da conexão, considerando a velocidade e as habilidades digitais dos usuários. No Brasil, a legislação tem buscado incentivar a agricultura de precisão e a expansão de redes em áreas rurais por meio de políticas públicas e planos estruturais que visam coordenar investimentos em tecnologias de quinta geração. A integração de sistemas de informação geográfica e o uso de dados orbitais tornam-se ferramentas essenciais para o planejamento da produção e para a mitigação de riscos climáticos (ARCGIS, 2025).
A metodologia aplicada para a análise das soluções tecnológicas baseou-se em um levantamento detalhado de dados oficiais e na sistematização de informações provenientes de instituições de referência no setor de telecomunicações e agronegócio. O processo operacional envolveu a coleta de indicadores de cobertura, qualidade de rede e perspectivas de investimento em programas governamentais. Para organizar o volume de informações, utilizou-se uma estrutura de planilhas eletrônicas que permitiu o cotejamento de padrões e a identificação de lacunas na infraestrutura atual. A pesquisa priorizou fontes que oferecessem dados contemporâneos, garantindo uma visão atualizada das tecnologias em uso, como redes de quarta e quinta geração, satélites de baixa órbita e sistemas de rádio digital (BNDES, 2025).
O detalhamento metodológico incluiu a criação de uma matriz de avaliação multicritério, projetada para comparar diferentes alternativas de conectividade de forma objetiva. Essa matriz atribuiu pesos específicos a 21 critérios distintos, agrupados em sete categorias principais: análise do contexto local, impacto ambiental, escolha da tecnologia, benefícios para a comunidade, planejamento e manutenção, riscos e mitigações, e engajamento social. A escala de pontuação variou de um a cinco, permitindo classificar cada tecnologia desde totalmente inadequada até excelente. O peso de 20% foi atribuído à análise do contexto local, considerando geografia, topografia e densidade populacional, enquanto a escolha da tecnologia recebeu peso de 25%, avaliando adequação, escalabilidade e resiliência (Finep, 2025).
A operacionalização da coleta de dados também considerou a experiência de outros países com extensões territoriais semelhantes, como Austrália e Estados Unidos, para identificar melhores práticas e obstáculos comuns. A análise comparativa buscou entender como programas de subsídios e fundos de universalização podem mitigar a baixa viabilidade econômica em áreas remotas. O estudo das tecnologias incluiu a avaliação técnica de satélites de baixa órbita, redes mesh, feixes de laser e soluções híbridas. Cada etapa do processo de análise foi desenhada para traduzir a complexidade técnica em recomendações práticas que amparem a tomada de decisão por gestores e produtores rurais (Governo Australiano, 2001).
Os resultados demonstram que o setor de telecomunicações apresenta uma trajetória de oscilações que nem sempre acompanha o desempenho do Produto Interno Bruto nacional. Em períodos de crise econômica, o volume de serviços de comunicação tende a registrar retrações superiores à média da economia, evidenciando a sensibilidade do setor a investimentos de capital. No entanto, observa-se uma retomada impulsionada pela consolidação das redes de quinta geração e pelo aumento da demanda por dados em uma economia cada vez mais digitalizada. No meio rural, a cobertura móvel atinge aproximadamente 45% dos moradores, indicando que mais da metade da população do campo ainda carece de acesso estável, concentrando-se a maioria dos acessos existentes na tecnologia de quarta geração (Anatel, 2025).
A aplicação da matriz de avaliação revelou que a solução híbrida, que combina diferentes tecnologias de acordo com a necessidade local, obteve a maior pontuação total, somando 371 pontos. Essa abordagem destaca-se por sua flexibilidade e capacidade de adaptação a cenários complexos, permitindo, por exemplo, o uso de conexão via satélite para o transporte de dados a longa distância e a distribuição local via rádio ou redes comunitárias. As redes comunitárias e os sistemas de rádio e micro-ondas também apresentaram pontuações elevadas, com 340 e 336 pontos, respectivamente. Essas tecnologias são valorizadas pela robustez técnica, facilidade de manutenção em ambientes rurais e pelo potencial de promover a autonomia das comunidades locais (CPQD, 2025).
Em contrapartida, tecnologias como a fibra óptica e os feixes de laser apresentaram as pontuações mais baixas para o contexto rural remoto, com 74 e 53 pontos. Embora a fibra óptica seja a solução ideal para áreas densamente povoadas devido à sua alta capacidade de transmissão, sua implementação em terrenos de difícil acesso ou com populações dispersas torna-se economicamente inviável e tecnicamente complexa. Os sistemas de laser, apesar de oferecerem velocidades elevadas, mostram-se vulneráveis a riscos ambientais como chuvas intensas e neblina, o que reduz sua resiliência em operações agrícolas que exigem disponibilidade constante de sinal (RolinNet, 2025).
A discussão dos dados indica que a escolha da tecnologia não deve se basear apenas na modernidade do equipamento, mas na adequação ao contexto físico e social. O uso de satélites de baixa órbita destaca-se pela capacidade de cobrir grandes extensões territoriais com infraestrutura terrestre mínima, sendo uma opção estratégica para regiões isoladas, como a Amazônia ou o Pantanal. No entanto, os custos iniciais e a dependência de provedores internacionais ainda representam barreiras para a adoção em larga escala por pequenos produtores. A integração de smartphones com conexão direta via satélite surge como uma tendência promissora para comunicações de emergência e monitoramento básico em áreas sem cobertura de torres (ONU, 2024).
A análise das políticas públicas revela que fundos de universalização desempenham papel análogo a programas internacionais de redução de áreas sem sinal. A implementação de torres alimentadas por energia renovável, como a solar, tem se mostrado uma alternativa viável para reduzir custos operacionais em locais sem rede elétrica estável. A capacitação digital da população rural é outro ponto crítico identificado; sem o treinamento adequado, o acesso à tecnologia não se traduz automaticamente em aumento de produtividade. A educação digital deve focar no uso produtivo e seguro da rede, permitindo que o produtor utilize ferramentas de comércio eletrônico e telemedicina (Banco Mundial, 2012).
As evidências sugerem que a colaboração multissetorial é o caminho mais eficaz para superar a exclusão digital. Parcerias entre empresas privadas, órgãos públicos e comunidades locais permitem dividir custos e responsabilidades, facilitando a manutenção da infraestrutura. O uso de drones para mapeamento de áreas afetadas por desastres naturais ou para monitoramento de pragas exemplifica como a conectividade pode transformar a gestão de riscos no campo (Força Aérea Brasileira, 2024). A tecnologia deve ser vista como um meio para atingir a sustentabilidade e a eficiência operacional, e não como um fim em si mesma.
A comparação com o cenário internacional reforça que países de dimensões continentais enfrentam desafios estruturais semelhantes, como a baixa viabilidade econômica de redes fixas em áreas remotas. Na Austrália, programas de conectividade regional focam na inclusão de populações vulneráveis e na resiliência contra desastres naturais, servindo de inspiração para o desenvolvimento de políticas inclusivas no Brasil (Governo Australiano, 1997). A aplicação de inteligência artificial na gestão de redes pode auxiliar no monitoramento da qualidade do serviço e na identificação rápida de falhas, reduzindo o tempo de interrupção em áreas de difícil acesso (Embrapa, 2015).
A sustentabilidade ambiental também deve ser considerada na implantação de novos projetos. A escolha de tecnologias que minimizem o desmatamento, como o uso de cabos subfluviais em regiões ribeirinhas em vez de abertura de faixas para postes, demonstra um compromisso com a preservação dos ecossistemas (Presidência da República, 1997). Além disso, a consulta às comunidades locais e o respeito às áreas protegidas e tradições culturais são fundamentais para o sucesso e a aceitação social das intervenções tecnológicas. O engajamento social, embora possua o menor peso na matriz de avaliação, é determinante para a longevidade dos projetos de conectividade comunitária (Banco Mundial, 2015).
As limitações deste estudo residem na rápida obsolescência das tecnologias de comunicação, o que exige atualizações constantes das matrizes de avaliação. Sugere-se que pesquisas futuras foquem na validação do modelo de pontuação com dados primários coletados diretamente em propriedades rurais de diferentes portes. A análise do impacto econômico direto da conectividade na renda do pequeno produtor também constitui uma frente de investigação relevante para justificar novos investimentos públicos. A integração de tecnologias de código aberto e redes abertas pode reduzir a dependência de fornecedores específicos e baixar os custos de implementação (Open Ran Brasil, 2025).
A gestão da infraestrutura rural exige um planejamento de longo prazo que considere não apenas a instalação, mas a manutenção e a atualização dos equipamentos. O vandalismo e o roubo de cabos e baterias em torres isoladas representam riscos significativos que demandam soluções de segurança física e monitoramento remoto. A durabilidade dos equipamentos em condições adversas de umidade e calor extremo é um fator técnico que impacta diretamente o custo-benefício das soluções escolhidas. Portanto, a resiliência deve ser um critério central em qualquer processo decisório relacionado às telecomunicações no campo (Telebrás, 1989).
A evolução das comunicações rurais no Brasil está atrelada à capacidade do Estado em formular políticas que incentivem a agricultura de precisão e a inovação tecnológica. A criação de incentivos fiscais para empresas que investem em áreas de baixa rentabilidade e o uso eficiente de recursos de fundos setoriais são mecanismos essenciais para reduzir o hiato digital. A história das telecomunicações no país mostra que grandes saltos de cobertura foram possíveis apenas quando houve coordenação entre os interesses econômicos e as necessidades sociais (Presidência da República, 1995). O agronegócio moderno não pode prescindir de uma infraestrutura de dados que suporte a crescente demanda por eficiência e transparência nas cadeias produtivas (Banco Mundial, 2011).
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao demonstrar que as dificuldades das telecomunicações no meio rural brasileiro são multifacetadas, envolvendo barreiras geográficas, econômicas e técnicas que exigem soluções customizadas e integradas. A análise evidenciou que não existe uma tecnologia única capaz de resolver todos os problemas de conectividade, sendo as soluções híbridas as mais eficazes por combinarem a abrangência dos satélites com a capilaridade das redes de rádio e comunitárias. A ferramenta de avaliação desenvolvida oferece um suporte lógico para a tomada de decisão, permitindo que gestores priorizem investimentos com base em critérios objetivos de custo, resiliência e impacto social. A universalização do acesso digital no campo é imperativa para garantir a sustentabilidade do agronegócio e a inclusão socioeconômica das populações rurais, transformando o desafio da comunicação em uma oportunidade de desenvolvimento nacional.
Referências Bibliográficas:
Anatel. 2025. Infraestrutura. Disponível em Infraestrutura — Agência Nacional de Telecomunicações,
Anatel. 2025. Infraestrutura. Disponível em Infraestrutura — Agência Nacional de Telecomunicações,
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ARCGIS. 2025. Sistema de Informação Geográfica (ReConnect Program – Proposed and Approved Projects). Disponível em https://ruraldevelopment.maps.arcgis.com/apps/webappviewer/index.html?id=e2d4c909e06c 46d3aa9577bea695a2b9, acessado em 09 de abril de 2025.
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Presidência da República. 1995. Lei n° 8.977. Disponível em
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8977.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%208.977%2C%20DE%206%20DE%20JANEIRO%20DE%201995.&text=Disp%C3%B5e%20sobre%20o%20Servi%C3%A7o%20de%20TV%20a%20Cabo%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias, acessado em 02 de abril de 2025.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
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