Resumo Executivo

21 de maio de 2026

Responsabilidade Estendida e Resíduos Têxteis no Chile

Ana Paula Maluf D’Elboux Guimarães; Edmílson Ricardo Alves

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A economia global fundamenta-se predominantemente em um modelo de produção linear, no qual a extração de recursos naturais precede a fabricação de bens que, após o encerramento de sua vida útil, são descartados de forma definitiva. Esse ciclo resulta em um acúmulo massivo de resíduos em aterros sanitários e lixões, promovendo a contaminação do solo e a emissão de gases que agravam o aquecimento global. No cenário da indústria têxtil, essa dinâmica é particularmente alarmante, uma vez que o setor é reconhecido como um dos mais poluentes em escala mundial. A produção têxtil demanda volumes exaustivos de água e utiliza processos químicos intensos, como o tingimento, que comprometem a qualidade dos recursos hídricos. Além disso, a proliferação de materiais sintéticos, como o poliéster, acarreta a liberação de microplásticos durante a lavagem doméstica, substâncias que persistem no meio ambiente e ingressam na cadeia alimentar, afetando a saúde pública. Diante da insustentabilidade desse formato, a transição para a economia circular apresenta-se como uma alternativa estratégica, propondo um sistema regenerativo que mantém o valor de produtos e materiais pelo maior tempo possível.

No contexto chileno, o consumo de vestuário apresenta índices elevados, alcançando a média de 50 peças anuais por habitante, patamar que se aproxima de nações desenvolvidas como os Estados Unidos, onde o consumo é de 53 peças. Essa demanda é suprida majoritariamente por importações, o que coloca o país em uma posição de vulnerabilidade ambiental quanto à gestão do descarte. Entre os anos de 2018 e 2022, o Chile consolidou-se como o maior importador de roupas de segunda mão na América do Sul, internalizando 161.680 toneladas desses artigos. Contudo, a baixa qualidade de grande parte desse volume, muitas vezes classificado sob códigos fiscais genéricos como o 6309, impede a comercialização efetiva no mercado de usados. Estima-se que cerca de 70% dos têxteis que ingressam pelo porto de Iquique sejam descartados quase imediatamente, acumulando-se em lixões clandestinos no Deserto do Atacama, especificamente na região de Alto Hospício. A queima deliberada desses resíduos para a liberação de espaço agrava a poluição atmosférica e degrada as condições de vida das comunidades locais (Duong, 2021).

A Responsabilidade Estendida do Produtor surge como o pilar normativo para enfrentar essa crise. O conceito estabelece que o fabricante ou importador deve ser o responsável financeiro e operacional pela gestão dos resíduos derivados de seus produtos após o consumo (Ministerio del Medio Ambiente, 2016). No Chile, a Lei 20.920, instituída em 2016, formalizou esse princípio, definindo produtos prioritários que devem cumprir metas rigorosas de coleta e valorização. Embora os têxteis ainda não estejam plenamente integrados como categoria obrigatória, o governo manifestou a intenção de incluí-los a partir de 2025, utilizando como base o sucesso observado na gestão de embalagens e recipientes (Maldonado, 2023). O objetivo central dessa política é incentivar o ecodesign, reduzir a geração de lixo e fomentar a indústria da reciclagem, transferindo o ônus da gestão ambiental do setor público para os agentes privados que lucram com a colocação dos produtos no mercado.

Para a realização deste estudo de caráter exploratório, adotou-se uma metodologia baseada em pesquisa bibliográfica e documental exaustiva. A coleta de dados envolveu a análise de artigos científicos em plataformas como Google Scholar e Mendeley, além da consulta a bases de dados estatísticos internacionais e nacionais, incluindo o UN Comtrade, a Aduana de Chile e a Biblioteca do Congresso Nacional do Chile. A investigação concentrou-se na comparação entre dois modelos distintos de aplicação da Responsabilidade Estendida do Produtor: o sistema francês, pioneiro na gestão de têxteis desde 2007, e o sistema chileno de embalagens, implementado em 2023. Essa abordagem comparativa permitiu identificar lacunas operacionais e oportunidades de adaptação para a realidade sul-americana.

Complementarmente, o processo metodológico incluiu o levantamento de dados secundários sobre o desempenho de empresas e gestores de resíduos. Foram analisados os relatórios de organizações como a Refashion, na França, e a ReSimple, no Chile, para quantificar volumes de coleta, taxas de valorização e a estrutura das eco-contribuições. Para validar as informações obtidas na literatura, realizaram-se entrevistas não-estruturadas com gestores de sustentabilidade de grandes empresas chilenas dos setores de bebidas, varejo e gestão de resíduos. Essas interações forneceram uma visão prática sobre os desafios logísticos da reciclagem, a eficácia dos pontos de coleta e a percepção do setor privado quanto às futuras obrigações legais relacionadas aos resíduos têxteis. A análise dos dados seguiu uma lógica descritiva e quantitativa, focando na evolução das importações e na capacidade instalada de processamento de materiais no território chileno.

Os resultados indicam que a importação de têxteis novos no Chile sofreu oscilações significativas entre 2019 e 2024. Em 2019, o volume financeiro dessas importações era expressivo, sofrendo uma queda acentuada em 2020 devido às restrições da pandemia global. Entretanto, houve uma recuperação vigorosa em 2021 e 2022, impulsionada por políticas de auxílio financeiro estatal que estimularam o consumo doméstico. Em 2024, a China consolidou-se como o principal fornecedor, sendo responsável por 2.142.525.896,00 USD em produtos têxteis enviados ao Chile. Esse domínio é acentuado pela ascensão de gigantes da moda ultrarrápida, que operam com modelos de baixíssimo custo e alta rotatividade, dificultando a responsabilização direta, uma vez que muitas dessas empresas não possuem representantes legais ou infraestrutura física no país para gerir o descarte de seus produtos (Espinoza, 2024).

No que tange aos têxteis de segunda mão, os dados do código aduaneiro 6309 revelam um aumento no valor das importações, que saltou de 109.273.000,00 USD em 2019 para 171.177.000,00 USD em 2024. Apesar do potencial de reutilização, a realidade operacional mostra que a falta de controle de qualidade na origem transforma o Chile em um destino de resíduos têxteis globais. A ausência de uma triagem rigorosa faz com que roupas sem condições de uso sejam descartadas em áreas sensíveis, como o Deserto do Atacama. A implementação da Responsabilidade Estendida do Produtor para essa categoria exigiria que os importadores financiassem sistemas de classificação e tratamento, desencorajando a entrada de materiais de baixíssima qualidade que não possuem mercado de revenda ou potencial de reciclagem (Calvo; Williams, 2022).

A experiência chilena com a gestão de embalagens e recipientes, iniciada em 2023, oferece lições valiosas. O sistema opera por meio de Organizações de Responsabilidade do Produtor, como o ReSimple, que agrupa 25 grandes empresas e gerencia cerca de 30% do volume de embalagens do país. Outro ator relevante é o ProREP, focado em resíduos industriais com mais de 500 empresas associadas. As metas estabelecidas pelo Ministério do Meio Ambiente são graduais; para 2023, a meta de coleta de vidro era de 11%, devendo chegar a 26% em 2027. No caso do plástico, a meta inicial de 3% deve evoluir para 14% no mesmo período. A análise do primeiro ano de vigência mostra que, embora as metas globais tenham sido atingidas, categorias específicas como o papel e cartão enfrentam dificuldades devido à contaminação dos materiais, o que impede a reciclagem efetiva (GIRO, 2024).

A infraestrutura de reciclagem no Chile, embora em expansão, ainda é subutilizada. Em 2023, a capacidade instalada para o processamento de latas de alumínio era de 51.903 toneladas, mas apenas 10.189 toneladas foram efetivamente valorizadas, representando 19,6% de aproveitamento. No caso do vidro, a valorização atingiu 35,8% da capacidade disponível. Esses números demonstram que o gargalo não reside apenas na indústria de transformação, mas principalmente na logística de coleta e na separação na fonte. O país contava com apenas 98 pontos limpos em 2018, com planos de expansão para 354 unidades, evidenciando a necessidade de investimentos massivos em capilaridade logística para que o cidadão possa descartar seus resíduos de forma adequada.

O modelo francês de Responsabilidade Estendida do Produtor para têxteis, gerido pela organização Refashion, serve como referência de maturidade. Na França, todos os produtores e importadores devem contribuir financeiramente através de eco-contribuições que variam entre 0,01 EUR e 0,18 EUR por peça. Em 2022, o país colocou 827.000 toneladas de têxteis no mercado, das quais 260.403 toneladas foram coletadas e tratadas. Em 2023, a arrecadação da Refashion atingiu 268.000.000,00 EUR, recursos que são integralmente reinvestidos na cadeia. A maior fatia dessa verba, aproximadamente 28%, é destinada às operações de triagem e processamento, enquanto 22% financiam bônus de eco-modulação para premiar produtos com maior durabilidade e conteúdo reciclado (Refashion, 2024).

A discussão sobre a aplicação desse modelo no Chile revela a importância da profissionalização dos recicladores de base. Na França, a colaboração com as municipalidades e o incentivo a brechós e plantas de reciclagem criaram um ecossistema que valoriza o resíduo. No Chile, a informalidade dos recicladores de base e a falta de ferramentas adequadas limitam a expansão dos serviços. Para que a lei seja eficaz, os sistemas de gestão devem canalizar recursos para a contratação formal e capacitação desses profissionais, garantindo que a coleta porta-a-porta seja eficiente e que o material chegue aos centros de triagem com qualidade para o processamento (Mínguez, 2020).

Outro ponto crítico na discussão é a necessidade de combater a obsolescência programada e o consumo desenfreado de moda ultrarrápida. A proposta de uma alíquota de importação específica para itens de baixa durabilidade, inspirada em projetos de lei franceses que sugerem taxas de até 5 EUR por item, poderia gerar um fundo para financiar a logística reversa no Chile. Essa medida não apenas desencorajaria o consumo de produtos descartáveis, mas também nivelaria o campo de jogo para produtores locais que investem em qualidade e sustentabilidade. A conscientização da população é igualmente vital; campanhas massivas devem educar o consumidor sobre a importância de separar os têxteis e preferir produtos de maior vida útil (Marassi; Trindade, 2025).

A viabilidade financeira de um sistema de Responsabilidade Estendida do Produtor para têxteis no Chile depende da escala e da adesão das empresas. O exemplo da Refashion demonstra que o modelo é rentável e capaz de sustentar uma infraestrutura tecnológica robusta. No Chile, a implementação exigirá um esforço coordenado entre o setor público e privado para superar a desconfiança inicial e os custos logísticos elevados em um território geograficamente extenso. A integração de tecnologias de rastreamento e a exigência de certificações de reciclabilidade para produtos importados são passos fundamentais para garantir a integridade do sistema (Gaur, 2025).

A análise dos dados de descarte de materiais não-valorizados no Chile mostra uma redução global entre 2022 e 2023, o que sugere um impacto positivo da Lei 20.920. No entanto, categorias como o poliestireno ainda apresentam taxas de descarte de 100% devido à inexistência de infraestrutura de valorização no país (ANIR, 2024). Para os têxteis, o desafio é ainda maior, dada a complexidade das fibras mistas que dificultam a reciclagem mecânica. Portanto, a estratégia chilena deve priorizar a reutilização e o reparo antes da reciclagem química ou mecânica, incentivando oficinas de costura e mercados de segunda mão como formas de estender o ciclo de vida dos produtos (Pereda, 2025).

Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a Responsabilidade Estendida do Produtor é uma alternativa viável e necessária para mitigar o acúmulo de resíduos têxteis no Chile, desde que acompanhada por uma infraestrutura logística robusta, pela profissionalização dos recicladores de base e por mecanismos de eco-modulação que penalizem a moda de baixa qualidade. A experiência internacional e os primeiros resultados da gestão de embalagens no país indicam que a transição para a economia circular exige um compromisso financeiro dos importadores e uma mudança cultural profunda na sociedade, transformando o descarte em uma oportunidade de desenvolvimento social e preservação ambiental.

Referências Bibliográficas:

Asociación Nacional de la Industria de Reciclaje [ANIR]. 2024. Presentación Estadísticas 2023. Disponível em: <https://www.creatividadpositiva.cl/web/index.php/2024/12/10/anir-presento-las-estadisticas-del-reciclaje-en-chile/>. Acesso em: 01 ago. 2025.

Calvo, S.F.; Williams G.O. 2022. Ropa usada: mercado nacional y regulación en Chile y extranjero. Biblioteca del Congreso Nacional de Chile. Disponível em: <https://obtienearchivo.bcn.cl/obtienearchivo?id=repositorio/10221/34356/1/BCN__ropa_usa_da_mercado_regulacio__n_nacional_y__comparada_14062023_v3.pdf>. Acesso em: 03 out. 2024.

Duong, T. 2021. Chile’s Atacama Desert: Where fast fashion goes to die. EcoWatch. Disponível em: <https://www.ecowatch.com/chile-desert-fast-fashion-2655551898.html>. Acesso em: 05 out. 2024.

Espinoza, R. 2024. La adaptación como estrategia para el cambio con Paris. Club del Cambio – Empresas en Movimiento, T13. Disponível em: <https://tele13radio.cl/show/club-del-cambio-empresas-en-movimiento/episode/la-adaptacion-como-estrategia-para-el-cambio-con-paris-24261630 > Acesso em: 04 ago. 2025.

Gaur, T. et al. 2025. E-Waste Management Challenges in India From the Perspective of Producer Responsibility Organizations. Disponível em: <https://ieeexplore.ieee.org/document/10935331>. Acesso em: 06 ago. 2025.

GIRO. 2024. ¿Qué es la Ley REP? Disponível em: <https://girorecicla.cl/ley-rep/ >. Acesso em: 01 out. 2024.

Maldonado, C.C. 2023. Comenzó implementación de la Ley REP para envases y embalajes: 10 respuestas para entender en qué consiste y cuál es el rol de la ciudadanía. País Circular. Disponível em: <https://www.paiscircular.cl/economia-circular/comenzo-la-implementacion-de-ley-rep-para-envases-y-embalajes-10-respuestas-para-entender-en-que-consiste-y-cual-es-el-rol-de-la-ciudadania/>. Acesso em: 02 out. 2024.

Marassi, A.; Trindade, E. 2024. Consumo de ultra fast fashion e a obsolescência programada das microtendências estimulada pelas lógicas algorítmicas. E-Compós. Disponível em: <https://www.e-compos.org.br/e-compos/article/view/2824>. Acesso em: 07 ago. 2025.

Minguez, M. Proposición de un modelo de gestión de resíduos reciclables con enfoque social a través de la incorporación con recicladores de base. Proyecto de Grado en Gestión y Planificación Ambiental. Universidad de Chile, Santiago de Chile, Región Metropolitana de Santiago, Chile. Disponível em: <http://mgpa.forestaluchile.cl/Tesis/Minguez%20Marcelo.pdf>. Acesso em: 09 ago. 2025.

Ministerio del Medio-Ambiente, 2016. Ley 20920 – Establece marco para la gestión de resíduos, la responsabilidad extendida del productor y fomento al reciclaje. Disponível em: <https://faolex.fao.org/docs/pdf/chi156836.pdf> Biblioteca del Congreso Nacional de Chile. Santiago, Chile, 01 de junho de 2016. Seção 1, p.1.

Pereda, I. 2025. ¿Qué es la Ley REP? In: Ley Rep Textiles – Como construir el sistema REP. Webinar apresentado. 2025, Santiago, Región Metropolitana, Chile.

Refashion. 2023. Eco-organisation mission and objectives. Disponível em: <https://pro.refashion.fr/en/missions-and-objectives>. Acesso em: 20 out. 2024.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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