Resumo Executivo

25 de maio de 2026

Percepção de Stakeholders sobre Práticas ESG na Mineração de Calcário em Goiás

Ana Júlia Ribeiro Moreira; Daniela Fontana

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A mineração, atividade fundamental para o desenvolvimento do Brasil Central desde o século XVIII, é um pilar econômico para Goiás, que se destaca na extração de calcário agrícola e agregados para construção civil (AGIM, 2002). A relevância do calcário, em particular, está intrinsecamente ligada à vocação agrícola do estado, sendo um insumo essencial para a correção da acidez do solo do Cerrado, viabilizando a alta produtividade que posiciona a região como uma potência do agronegócio. Contudo, a indústria extrativa opera sob o paradoxo de sua contribuição para a sociedade contrastar com seus custos ambientais e sociais, uma preocupação de crescente atenção global (Silva, 1988).

Este paradoxo se manifesta em impactos tangíveis, como a alteração da paisagem, a geração de poeira e ruído, o consumo intensivo de água e a potencial contaminação de solos e lençóis freáticos, que afetam diretamente as comunidades no entorno das operações. O consenso internacional, solidificado em eventos como a conferência Rio+10, reconhece a essencialidade da mineração, mas sublinha a urgência de uma abordagem que harmonize a exploração de recursos com a preservação ambiental e o bem-estar social (Farias, 2002). Essa abordagem visa atender às necessidades do presente sem comprometer as futuras gerações, princípio do desenvolvimento sustentável (CETEM, 2011), que evoluiu de um conceito teórico para um imperativo estratégico para a sobrevivência e legitimidade de setores de alto impacto. Nesse contexto, a ascensão dos critérios ESG representa uma mudança de paradigma para a avaliação de investimentos e a gestão corporativa.

Impulsionado por marcos como o Pacto Global da ONU e formalizado no relatório “Who Cares Wins” de 2004, o conceito ESG tornou-se uma ferramenta estratégica para mensurar e divulgar os impactos ambientais, sociais e de governança das organizações (Morais, 2023; Silva, 2023). A adoção desses princípios é uma necessidade para empresas que buscam relevância e sustentabilidade a longo prazo, pois aquelas sem um compromisso genuíno com a agenda ESG arriscam perder competitividade e a confiança de investidores e da sociedade (Belinky, 2021).

Para o setor minerário, historicamente associado a externalidades negativas, a implementação de práticas ESG é crucial para mitigar riscos operacionais e regulatórios, aprimorar a reputação, fortalecer o relacionamento com stakeholders e destravar novas oportunidades de negócio, como o acesso a mercados mais exigentes e a fontes de financiamento verde (Fonteles, 2024). A região Centro-Oeste, com Goiás em destaque, é um polo minerador relevante, concentrando uma parcela significativa dos licenciamentos outorgados no país (ANM, 2024). O licenciamento ambiental, embora seja um marco regulatório que força as empresas a adotarem medidas mitigadoras e compensatórias, levanta a questão sobre sua suficiência para garantir a sustentabilidade em uma perspectiva ampla. Muitas vezes, a conformidade legal é percebida pelas empresas como o teto de suas responsabilidades, e não como o piso a partir do qual práticas mais robustas de sustentabilidade deveriam ser construídas.

O desafio é acentuado para as micro e pequenas empresas, que são a maioria no setor de mineração brasileiro, incluindo o de calcário (IBRAM, 2020). Essas empresas enfrentam barreiras significativas de recursos financeiros, técnicos e humanos para ir além da conformidade legal e adotar uma gestão ESG estratégica. A falta de conhecimento especializado, a pressão por custos operacionais baixos e uma cultura de gestão focada no curto prazo são obstáculos que dificultam a internalização de uma visão de sustentabilidade mais abrangente. Este estudo justifica-se pela necessidade de aprofundar o entendimento sobre como a Agenda ESG está sendo percebida e implementada em um segmento vital, mas pulverizado, da mineração brasileira. Ao focar nas mineradoras de calcário em Goiás, a pesquisa oferece um diagnóstico localizado que pode informar políticas públicas, estratégias setoriais e práticas de gestão mais eficazes.

Compreender as lacunas entre o discurso e a prática, bem como as diferentes expectativas dos stakeholders, é fundamental para promover uma transição mais justa e sustentável para o setor, garantindo que sua contribuição econômica não ocorra em detrimento do capital natural e do bem-estar social das comunidades onde opera. A pesquisa busca, portanto, responder como os diferentes atores envolvidos percebem a maturidade das práticas ESG no setor e quais são os principais impulsionadores e barreiras para sua adoção efetiva.

Para atingir o objetivo proposto, a metodologia adotada nesta pesquisa teve uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva. A escolha pela abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender em profundidade as percepções, significados e experiências dos stakeholders, fenômenos complexos que não seriam adequadamente capturados por meio de métodos puramente quantitativos. O caráter exploratório permitiu investigar um tema ainda incipiente no contexto específico das pequenas e médias mineradoras de calcário, enquanto o viés descritivo buscou caracterizar detalhadamente as diferentes visões sobre a agenda ESG. A pesquisa foi estruturada em múltiplas fases, incluindo revisão bibliográfica, coleta de dados primários e análise temática. A coleta de dados primários foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, que se mostraram o instrumento mais adequado para capturar a riqueza e a nuance das percepções dos participantes.

Foi elaborado um roteiro de entrevista flexível, com perguntas abertas que abordavam os três pilares do ESG: ambiental, social e de governança. As questões foram desenhadas para investigar o nível de conhecimento sobre o tema, a percepção sobre a importância de cada pilar, as práticas atualmente implementadas pelas empresas, os desafios enfrentados e as expectativas para o futuro do setor. A amostra de participantes foi selecionada de forma intencional e por conveniência, buscando garantir a representatividade dos principais grupos de stakeholders. Foram entrevistados gestores e proprietários de cinco mineradoras de calcário de pequeno e médio porte em Goiás, três representantes de comunidades locais que vivem no entorno das operações, dois funcionários de órgãos ambientais responsáveis pela fiscalização e licenciamento, e dois consultores com experiência no setor mineral. Essa diversidade permitiu a triangulação de perspectivas, enriquecendo a análise dos dados.

O processo de coleta de dados ocorreu ao longo de três meses, com entrevistas realizadas presencialmente e por videoconferência, todas gravadas com o consentimento prévio dos participantes. A duração média de cada entrevista foi de 60 minutos. Adicionalmente à coleta de dados primários, foi realizada uma análise documental de relatórios de sustentabilidade (quando existentes), processos de licenciamento ambiental e notícias veiculadas na mídia local sobre as empresas estudadas. Essa análise secundária serviu para contextualizar as informações obtidas nas entrevistas e verificar a consistência entre o discurso e a documentação oficial. Todos os procedimentos éticos foram rigorosamente seguidos, garantindo o anonimato dos participantes e a confidencialidade das informações compartilhadas, conforme termo de consentimento livre e esclarecido assinado por todos.

A análise dos dados coletados foi conduzida por meio da técnica de análise de conteúdo temática. Inicialmente, todas as entrevistas foram transcritas na íntegra. Em seguida, realizou-se uma leitura flutuante do material para familiarização com o conteúdo. A etapa seguinte consistiu na codificação dos dados; trechos significativos das transcrições foram identificados e rotulados com códigos que representavam ideias e conceitos centrais. Esses códigos foram, então, agrupados em categorias temáticas mais amplas, que refletiam os padrões recorrentes nas percepções dos diferentes stakeholders. As principais categorias temáticas que emergiram da análise foram: “Conformidade Ambiental como Foco Principal”, “Relações Comunitárias Reativas”, “Governança Incipiente e Familiar” e “Barreiras Financeiras e Culturais à Adoção do ESG”. A interpretação desses temas permitiu construir uma narrativa coesa sobre o estado da arte da agenda ESG no setor estudado.

Os resultados da análise indicam uma percepção heterogênea e, em muitos casos, superficial da agenda ESG entre os stakeholders das mineradoras de calcário em Goiás. Uma das principais conclusões é a existência de um descompasso significativo entre a percepção interna das empresas e a visão dos atores externos, como comunidades e reguladores.

A análise temática revelou que, para a maioria dos gestores das mineradoras, a sustentabilidade é quase exclusivamente sinônimo de conformidade com a legislação ambiental. O pilar “E” (Ambiental) do ESG domina o discurso, mas sua prática está largamente restrita ao cumprimento das exigências do licenciamento, como a apresentação de relatórios de monitoramento e a implementação de medidas mitigadoras básicas. Ações proativas, como a busca por eficiência energética, gestão de resíduos para além do obrigatório ou investimentos em tecnologias de menor impacto, são raras e não são vistas como parte central da estratégia de negócio. Os representantes das empresas tendem a destacar a geração de empregos e o pagamento de impostos como suas principais contribuições sociais. Ações de engajamento com a comunidade são, em geral, pontuais e reativas, frequentemente limitadas a doações esporádicas ou ao patrocínio de eventos locais, sem um planejamento estratégico de investimento social de longo prazo.

Por outro lado, os membros da comunidade entrevistados expressaram uma visão mais crítica. Embora reconheçam a importância dos empregos, eles relataram preocupações constantes com os impactos negativos da operação, como poeira excessiva, que afeta a saúde respiratória e a qualidade das plantações, e o ruído e as vibrações causadas por detonações. Há um sentimento generalizado de que o diálogo com as empresas é insuficiente e que as comunidades não são adequadamente consultadas sobre as decisões que afetam suas vidas. A “licença social para operar” é, portanto, frágil e baseada mais na ausência de conflitos abertos do que em uma relação de confiança e benefício mútuo. O pilar “G” (Governança) revelou-se o menos compreendido e desenvolvido entre as empresas analisadas. A estrutura de governança na maioria das mineradoras de calcário, por serem de pequeno e médio porte e de controle familiar, é informal e centralizada na figura do proprietário.

Práticas como a existência de um conselho de administração independente, políticas formais de ética e compliance, ou a publicação de relatórios transparentes sobre desempenho socioambiental e financeiro são praticamente inexistentes.

Para os gestores, a governança é entendida simplesmente como a gestão administrativa e financeira do negócio. Essa falta de estruturas formais de governança representa um risco significativo, pois dificulta a gestão de riscos socioambientais, a tomada de decisões estratégicas de longo prazo e a prestação de contas aos stakeholders. Especialistas e reguladores apontaram essa fragilidade como um dos maiores obstáculos para a evolução do setor em direção a práticas mais sustentáveis. Finalmente, a análise identificou as principais barreiras para uma adoção mais robusta da agenda ESG. A barreira financeira foi a mais citada pelos gestores, que percebem os investimentos em sustentabilidade como custos adicionais que reduzem a competitividade, especialmente em um mercado de commodities com margens apertadas. A falta de conhecimento técnico e de pessoal qualificado para implementar e gerir um programa ESG também foi um obstáculo proeminente.

Além disso, existe uma barreira cultural significativa: uma mentalidade de curto prazo focada exclusivamente na produção e na conformidade mínima com a lei. A percepção de que a agenda ESG é uma “moda” ou uma exigência apenas para grandes corporações ainda prevalece, e há pouca compreensão de como práticas sustentáveis podem gerar valor, reduzir riscos e garantir a perenidade do negócio. A pressão regulatória é vista como o principal motor para a mudança, mas sua eficácia é limitada se não for acompanhada por incentivos e programas de capacitação direcionados às pequenas e médias empresas. Em suma, os resultados demonstram que, embora o termo ESG comece a circular no setor, sua internalização prática ainda é muito incipiente nas mineradoras de calcário de Goiás. A agenda é percebida de forma fragmentada, com um foco desproporcional na conformidade ambiental e uma negligência relativa aos aspectos sociais e de governança.

A distância entre a autopercepção das empresas e as expectativas dos stakeholders externos cria um ambiente de risco reputacional e social.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, pois a pesquisa conseguiu mapear e analisar detalhadamente as diferentes percepções sobre a agenda ESG, revelando os desafios e as oportunidades para o avanço da sustentabilidade em um segmento crucial da economia goiana. A superação das barreiras identificadas exigirá um esforço conjunto de empresas, governo e sociedade civil para construir uma cultura de sustentabilidade que vá além da mera obrigação legal.

Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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