
24 de março de 2026
PDCA na manutenção preventiva de eletrônicos em armazenamento
Ana Paula Bernardes de Araújo; Rafael Henrique Roque
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A logística representa um processo abrangente que se inicia na fabricação de um produto e se estende até a entrega final ao cliente, englobando diversas etapas intermediárias que, se negligenciadas, podem comprometer a integridade de equipamentos sensíveis. O gerenciamento eficaz dessas fases é imperativo, uma vez que falhas operacionais resultam em custos elevados, atrasos cronológicos e degradação da qualidade do produto final. Entre a produção e a entrega, inadequações no armazenamento e na manutenção podem ser mitigadas por meio de estratégias bem definidas, implementadas ainda nas fases iniciais do ciclo logístico (Salgado, 2023). O armazenamento inadequado de componentes eletrônicos gera avarias antes mesmo da entrada em operação, impactando a eficiência de projetos de grande porte. Empresas que gerenciam tais projetos operam com organogramas complexos, exigindo comunicação constante entre áreas distintas. A ausência de troca de informações entre stakeholders internos acarreta prejuízos financeiros e operacionais significativos. A compreensão da importância do armazenamento correto é o primeiro passo para diminuir os impactos da má gestão e garantir a longevidade dos ativos.
O processo de evolução da manutenção de equipamentos estruturou-se historicamente em fases associadas às revoluções industriais (Mobley, 2008). A primeira fase, denominada Indústria 1.0, surgiu em meados do século XVIII na Inglaterra, caracterizada pela mecanização e pela adoção da manutenção reativa, onde o reparo ocorria apenas após a falha ou o desgaste total. Essa filosofia perdurou até a Indústria 2.0, entre 1850 e o fim da Segunda Guerra Mundial, marcada pelas linhas de montagem e produção em massa. Na terceira fase, a Indústria 3.0, iniciada nos anos 1970, o desenvolvimento da eletrônica substituiu o trabalho manual por máquinas automatizadas, introduzindo a necessidade de manutenções preventivas e corretivas planejadas. Atualmente, o setor industrial vivencia a Indústria 4.0, pautada pela conectividade, automação avançada e inteligência artificial. Se no passado a manutenção era vista apenas como um custo necessário e reativo, o progresso tecnológico exigiu uma transição para práticas preditivas, voltadas à antecipação de falhas e otimização de processos.
A execução de projetos de modernização tecnológica exige planejamento detalhado, especificações técnicas rigorosas e metodologias que garantam a eficácia operacional e a sustentabilidade logística. A detecção de problemas relacionados à estocagem fundamenta a proposta de planos de manutenção que antecedem os modelos tradicionais (Xenos, 2014). O objetivo central reside no desenvolvimento de um plano de gerenciamento de pré-comissionamento para equipamentos eletrônicos, utilizando o ciclo PDCA para otimizar a manutenção preventiva no almoxarifado. Tal abordagem visa reduzir danos e gastos excessivos, assegurando que o equipamento chegue à fase de instalação com máxima confiabilidade. A aplicação de metodologias de qualidade no ambiente empresarial foca na entrega do produto final e no desenvolvimento dos colaboradores, visto que condições adversas de estocagem representam riscos diretos à eficiência produtiva.
A metodologia adotada para a estruturação deste estudo combina a abordagem documental com o estudo de caso, dividindo-se em três etapas fundamentais: a análise de manuais técnicos e normas, a aplicação das ferramentas PDCA e 5W1H, e a validação por meio de questionário com especialistas. A análise documental concentrou-se nos manuais técnicos de equipamentos, conhecidos como Equipment Technical Manual, fornecidos pelos fabricantes. Esses documentos serviram de base para a criação de testes específicos, complementados por treinamentos do tipo On the Job Training para ampliar a capacitação técnica da equipe envolvida. A adoção do ciclo PDCA, também conhecido como ciclo de Deming ou da qualidade, justifica-se pela sua eficiência no aprimoramento contínuo de processos e na organização das atividades de manutenção preventiva em ambientes de almoxarifado. Esta ferramenta permite a detecção precoce de falhas e a elaboração de soluções eficazes, garantindo maior confiabilidade ao processo (Ricci, Magrini e Pandolfi, 2021).
O detalhamento operacional da metodologia utilizou a técnica 5W1H para agregar valor e objetividade às ações mitigadoras. Na etapa de planejamento, identificou-se quem seriam os responsáveis, incluindo engenheiros, técnicos de manutenção e equipe de almoxarifado. O período de execução foi definido como o intervalo entre o recebimento da documentação técnica e o comissionamento final. O escopo das ações envolveu a análise profunda dos manuais e a criação de protocolos de testes para elevar a confiabilidade e evitar custos extras. O local de aplicação restringiu-se ao almoxarifado ou centros de armazenamento. A implementação prática ocorreu por meio de testes avaliados e da definição de boas práticas de estocagem. Para validar essa estrutura, aplicou-se um questionário qualitativo e inédito a um público-alvo composto por 32 profissionais das áreas de logística, manutenção, engenharia e comissionamento.
O questionário foi estruturado com 14 perguntas e implementado via plataforma digital durante o período de 22 de abril a 06 de maio de 2025. A amostra de participantes foi caracterizada por critérios de faixa etária, escolaridade, experiência profissional e cargos ocupados. A análise dos dados coletados permitiu uma interpretação estatística das percepções dos especialistas sobre a gestão de ativos em estoque. A indisponibilidade de um equipamento, seja ela parcial ou total, compromete sistemas integrados complexos e atrasa a entrega final do projeto. A interrupção da funcionalidade, definida como falha, pode ter origens diversas, conforme estabelecido pela norma NBR 5462 (ABNT, 1994). Um plano de manutenção bem gerido com foco no armazenamento realiza a mitigação dos efeitos de indisponibilidade, evitando impactos no cronograma e a insatisfação das partes interessadas.
A estrutura do PDCA aplicada ao armazenamento seguiu uma sequência lógica rigorosa. No planejamento, realizou-se o mapeamento de possíveis falhas com o auxílio do 5W1H. Na fase de execução, propôs-se a criação de um laboratório nas premissas do almoxarifado, equipado com instrumentos de medição e acessórios para testes preventivos sob a responsabilidade de um engenheiro de testes. Na verificação, os resultados obtidos foram comparados com dados coletados futuramente no comissionamento. Por fim, na etapa de ação, ajustes na logística de armazenamento foram implementados com base nas análises anteriores, direcionando ações corretivas conforme a necessidade. A qualidade, nesse contexto, visa verificar se os níveis de desempenho alcançados atendem aos requisitos de escopo definidos (PMI, 2024).
O planejamento detalhado exigiu a participação de todos os profissionais envolvidos, sugerindo-se o uso de checklists para a conferência de equipamentos recebidos. Aliado a isso, a aplicação de treinamentos práticos no local de trabalho possibilitou uma imersão profunda nos procedimentos de testes e documentações. Esse tipo de treinamento contribui diretamente para a qualidade do produto final e deve ser ministrado pelo fabricante ou representantes autorizados. As avaliações de desempenho dos colaboradores durante o treinamento visam reduzir falhas durante a vida útil do equipamento e aumentar a motivação da equipe (Noe, 2015). O programa de treinamento incluiu a definição de metas, análise de manuais, atividades práticas de operação versus manutenção e a disponibilização de recursos necessários, como bancadas de teste e energia elétrica estável.
Para exemplificar a aplicação prática, utilizou-se um modelo hipotético de um sistema de energia ininterrupta, conhecido como Uninterrupted Power Supplies. Esse equipamento é composto por fonte de alimentação AC/CC, carregador de bateria, placa de monitoramento, placa de controle e distribuição, além de baterias de níquel-cádmio de 1,3 V CC configuradas em série. De acordo com as especificações técnicas, o equipamento deve ser energizado caso permaneça estocado por tempo elevado. Essa energização visa carregar a bateria interna e evitar o efeito memória, que reduz a capacidade de carga. Além disso, o funcionamento em regime de manutenção reduz a umidade interna e beneficia capacitores e outros módulos eletrônicos. As atividades recomendadas incluíram a retirada do equipamento do local de estocagem, inspeção física, anotação de dados, conexão elétrica com instrumentos calibrados e verificação de tensões de saída.
Os resultados obtidos a partir do questionário revelaram dados cruciais sobre a percepção profissional. A faixa etária dos colaboradores concentrou-se majoritariamente acima de 40 anos, indicando uma amostra com maturidade pessoal e percepção crítica elevada. Quanto à escolaridade, a maioria possuía pós-graduação ou MBA, demonstrando conhecimento profundo sobre o tema. Em relação à experiência profissional, a maior parte dos participantes possuía mais de 20 anos de atuação, o que confere propriedade para analisar lacunas nos processos logísticos. Os cargos exercidos variaram entre técnicos, coordenadores e gerentes, sendo que 56,3% eram engenheiros especialistas. Essa diversidade de perfis permitiu uma visão holística sobre os desafios da manutenção em estoque.
Um dado relevante surgiu na pergunta sobre a adequação do armazenamento antes da instalação final, onde houve um empate entre os que concordavam e os que discordavam da qualidade da estocagem atual. No entanto, 84,4% dos profissionais afirmaram já ter se deparado com falhas intermitentes ou constantes logo no início do comissionamento. Esse resultado contradiz a percepção de alguns sobre a adequação do armazenamento e reforça a necessidade de inclusão de testes de pré-comissionamento ainda na fase de almoxarifado. A interpretação dos tipos de falhas demonstrou que 37,5% estão relacionadas à ausência de inicialização no start-up, sendo este o problema mais comum. Em segundo lugar, com 31,25%, apareceram as falhas de desatualização de software e bugs, evidenciando a necessidade de verificação de firmware e atualizações digitais antes da instalação definitiva.
A ausência de manutenção preventiva no almoxarifado foi confirmada por 93% dos respondentes, o que reitera a carência de protocolos rigorosos durante a estocagem. Além disso, 94% indicaram a inexistência de registros históricos de manutenção no almoxarifado, dificultando a identificação de recorrências ou informações sobre equipamentos reutilizados. Essa falta de dados compromete a confiabilidade e influencia negativamente o cronograma de entrega, especialmente quando há necessidade de substituição de peças de reposição. Embora 62% tenham afirmado que o tempo de reparo após o start-up foi satisfatório devido à disponibilidade imediata de sobressalentes, o impacto seria inevitável caso esses itens não estivessem em mãos. A grande maioria, 87%, concordou que a criação de testes de manutenção preventiva durante a estocagem minimizaria significativamente as falhas no comissionamento.
A discussão dos resultados aponta que a execução de testes no período de estocagem promove a mitigação de falhas e prolonga a vida útil dos ativos. Quase a totalidade dos profissionais (84%) confirmou a necessidade de medidas preventivas quando os equipamentos estão estocados. O planejamento proposto envolve cinco tarefas essenciais: inspeção das condições físicas do almoxarifado para evitar retrabalhos; separação de uma sala limpa para testes elétricos visando diminuir deslocamentos; desenvolvimento de checklists para o recebimento; levantamento de instrumentos de medição; e a realização dos testes de pré-comissionamento propriamente ditos. Cada uma dessas tarefas deve ser acompanhada por responsáveis específicos e cronogramas que garantam a integridade do processo antes do envio ao usuário final.
A análise técnica do sistema de energia ininterrupta reforça a importância da manutenção ativa. A bateria interna, se deixada descarregada por longos períodos, sofre degradação química irreversível. A energização periódica não apenas mantém a carga, mas também garante que os circuitos de monitoramento e controle permaneçam operacionais. A verificação da presença de tensão em todas as saídas para os consumidores é um teste simples que pode prevenir falhas críticas no momento da ativação real do sistema. A adoção da metodologia de treinamento On the Job Training agrega competências técnicas e habilidades sociais aos funcionários, promovendo um sentimento de pertencimento organizacional que se reflete na melhoria da qualidade do produto entregue ao cliente.
A inquietação gerada pela observação de aparelhos que não recebiam tratamento adequado durante a estocagem motivou a estruturação deste planejamento. As mudanças significativas nas organizações não ocorrem apenas pela adaptação de práticas existentes, mas pela proposição de novas ações que tornem os processos obsoletos superados por métodos mais eficientes (Laloux, 2017). O estudo propõe procedimentos inovadores capazes de transformar a gestão da estocagem, focando na preparação digital e física. As falhas de natureza lógica, como problemas de firmware, exigem uma atenção que vai além do cuidado com o espaço físico, demandando uma infraestrutura de TI mínima dentro do próprio almoxarifado para configurações prévias.
Os problemas físicos, como falhas elétricas ou curtos-circuitos, embora menos recorrentes que os problemas de software, ainda representam um risco que deve ser monitorado. A estabilidade estrutural dos equipamentos eletrônicos modernos é alta, mas a sensibilidade dos componentes internos a fatores como umidade e temperatura exige que o ambiente de armazenamento seja rigorosamente controlado. A implementação de registros sistemáticos e a coleta de dados pós-comissionamento criam um ciclo de retroalimentação que alimenta o PDCA, permitindo que cada novo projeto aprenda com as falhas do anterior. A ausência de registros bibliográficos específicos sobre falhas em pré-comissionamento destaca o caráter inovador desta abordagem, que busca preencher uma lacuna prática na engenharia de manutenção e gestão de projetos.
A recomendação final foca na adoção sistemática de atualizações de software e verificações de lógica de controle, apoiadas em checklists e testes simulados realizados por equipes treinadas. O uso da filosofia de treinamento contínuo garante que os profissionais estejam aptos a lidar com as tecnologias emergentes da Indústria 4.0. O desafio de transformar a estocagem em uma etapa ativa da manutenção preventiva requer uma mudança de paradigma cultural dentro das organizações, onde o almoxarifado deixa de ser um depósito passivo para se tornar um centro de garantia de qualidade. A integração entre logística e manutenção é o diferencial competitivo que assegura o cumprimento de prazos e a satisfação do cliente final em projetos de alta complexidade tecnológica.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a aplicação do ciclo PDCA e da ferramenta 5W1H na gestão de armazenamento de equipamentos eletrônicos eleva significativamente a confiabilidade dos ativos e mitiga riscos operacionais. A pesquisa evidenciou que a maioria das falhas identificadas no comissionamento, especialmente as de natureza lógica e de inicialização, poderia ser evitada com a implementação de testes preventivos e atualizações de firmware ainda na fase de estocagem. A estruturação de um plano de manutenção preventiva no almoxarifado, apoiada por treinamentos técnicos e registros sistemáticos, mostrou-se uma estratégia eficaz para reduzir custos com reparos emergenciais e garantir a aderência aos cronogramas de projetos de grande porte.
Referências Bibliográficas:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. 1994. NBR 5462: confiabilidade e mantenabilidade. Rio de Janeiro: ABNT.
Laloux, F. 2017. Reinventando as organizações: um guia para criar organizações inspiradas no próximo estágio da consciência humana. 1ed.Voo, Belo Horizonte, MG, Brasil.
Mobley, K. R; Wikoff D; Higgins L. 2008. Maintenance Engineering Handbook. 7ed. McGraw Hill. New York, NY, United State of America.
Noe, R. A. 2015. Treinamento e desenvolvimento de pessoas. 6. ed. AMGH, Porto Alegre, RS, Brasil.
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). 2024. Um guia do conhecimento em gerenciamento de projetos. 7. ed. Newtown Square, PA: Project Management Institute.
Ricci, G. M; Magrini, R. C; Pandolfi M. A. C. 2021 Ciclo PDCA como ferramenta da qualidade para melhoria em serviço. Revista Interface Tecnológica, Taquaritinga, SP, v. 18, n. 1, p. 537–545.
Salgado, T. T, 2023. Logística: práticas, técnicas e processos de melhorias. 4ed. Senac São Paulo, SP, Brasil.
Xenos, H. G. 2014. Gerenciando a manutenção produtiva: melhores práticas para eliminar falhas nos equipamentos e maximizar a produtividade. 2ed. Falconi. Nova Lima, MG, Brasil.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de MBA em Gestão de Projetos
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