11 de maio de 2026
Otimização da logística citrícola com Power Platform
Mateus Pessa Ribeiro; Gilberto Marassi de Loiola Leite
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O mercado da citricultura, abrangendo tanto o cultivo de citros quanto a exportação de suco de laranja industrializado, posiciona o Brasil como o principal expoente global na atualidade. O estado de São Paulo, que abriga o cinturão citrícola, destaca-se como a região com a maior concentração de pomares do país, sendo responsável por mais de 70% da produção nacional (Erpen et al., 2018). As organizações que atuam nesse segmento operam cadeias produtivas extensas e verticalizadas, englobando desde fazendas próprias e plantas processadoras até terminais de exportação e logística marítima para o mercado externo. No entanto, a manutenção da eficiência financeira nessas companhias enfrenta desafios crescentes relacionados à perda de produtos ao longo da cadeia. Segundo Erpen et al. (2018), o cultivo e a colheita de laranjas tornaram-se significativamente mais onerosos, com um salto de 250% no custo de produção registrado entre os anos de 2001 e 2015, período em que o volume produzido apresentou queda de 9,2%, apesar da redução de 29% na área cultivada.
A fragilidade da laranja como matéria-prima exige agilidade extrema na logística de suprimentos, uma vez que o fruto deve ser transportado das fazendas para as fábricas e processado em um intervalo máximo de 48 horas após a colheita. Caso esse prazo seja ultrapassado, o produto perde valor comercial, tornando-se murcho ou pastoso, o que inviabiliza a extração de suco com alta eficiência. Na operação logística de entrada, o transporte é frequentemente realizado por empresas terceirizadas, o que adiciona camadas de complexidade à gestão da informação. A baixa integração comunicativa entre fazendas, transportadoras e unidades industriais resulta em falhas críticas, como a ausência de veículos no momento exato da colheita ou a chegada de caminhões após o encerramento do expediente de carregamento. Tais falhas forçam o armazenamento inadequado das frutas, intensificando a perda de massa dos frutos devido à pressão exercida pelo empilhamento em recipientes de transporte ou silos, o que reduz o rendimento industrial final.
Além dos impactos na qualidade do fruto, as deficiências na coordenação logística provocam paradas totais na colheita. Como as fazendas possuem capacidade limitada de armazenamento temporário, a ausência de escoamento imediato preenche todos os recipientes disponíveis, obrigando a dispensa de colhedores e o pagamento de diárias sem a devida contraprestação produtiva. Esse cenário prejudica a remuneração e a satisfação da mão de obra, gerando rotatividade para empresas concorrentes. A complexidade é agravada por gargalos operacionais, como falhas mecânicas em tratores de transbordo, problemas na emissão de notas fiscais em sistemas de gestão empresarial e interrupções nas rampas de descarga das fábricas. Aumentar a assertividade na chegada dos veículos nas fazendas constitui, portanto, a etapa primordial para habilitar o sucesso de todo o ciclo subsequente.
A pressão sobre a produtividade é intensificada pelo avanço de fitossanidades, como o greening, doença que atinge todos os tipos de citros e causa queda precoce dos frutos, desqualificando-os para o consumo e processamento industrial. De acordo com Freitas (2021), essa enfermidade avançou de uma incidência de 0,19% nos pomares paulistas em 2006 para 18,15% em 2018, afetando mais de 35 milhões de árvores no cinturão citrícola. Diante desse cenário de margens estreitas e riscos biológicos, a otimização dos processos de suporte torna-se vital. A gestão de projetos voltada a essa otimização exige abordagens que considerem as peculiaridades de cada unidade produtiva, como relevo e perfil da equipe. Conforme Junior et al. (2012), a utilização de entregas iterativas e fracionadas permite avaliar o desempenho e a adesão aos objetivos de forma contínua, possibilitando adaptações na solução construída para maximizar a entrega de valor frente a problemas de alta especificidade técnica.
A análise do processo de chegada de veículos para carregamento de laranjas foi conduzida sob a forma de um estudo de caso durante o primeiro semestre de 2023. O escopo abrangeu 40 fazendas administradas por uma multinacional do setor agrícola, localizadas majoritariamente no estado de São Paulo e em Minas Gerais. A pesquisa adotou uma abordagem quantitativa e exploratória, focada na redução das paradas de colheita motivadas por deficiências no transporte. Para mensurar a eficácia das intervenções, utilizou-se como instrumento de coleta de dados o registro administrativo de diárias pagas aos colhedores por dispensa de trabalho, métrica denominada internamente como falta de transporte. O período de análise compreendeu todo o ano de 2023, comparado ao exercício de 2022, cobrindo o ciclo completo das safras que se iniciam em maio e se estendem até fevereiro do ano subsequente.
Para garantir a integridade da comparação entre os períodos, os valores gastos com paradas de colheita foram ponderados pelo volume de caixas colhidas, considerando que cada caixa possui o peso padrão de 40,8 kg. Essa normalização volumétrica é essencial para evitar que reduções no custo total sejam confundidas com quedas na produção, especialmente em safras afetadas por baixos índices pluviométricos ou pelo avanço do greening (Freitas, 2021). A metodologia de gestão adotada foi a híbrida, integrando elementos preditivos e ágeis. O planejamento inicial envolveu o mapeamento detalhado das causas raiz por meio de diagramas de Ishikawa e a técnica dos cinco porquês, permitindo a criação de um cronograma de atividades com responsabilidades e prazos definidos. A governança do projeto foi estabelecida para garantir o acompanhamento rigoroso das ações e o engajamento dos principais interessados, incluindo gerentes de fazenda e coordenadores logísticos.
A estruturação do projeto seguiu a decomposição hierárquica das entregas, utilizando a ferramenta de estrutura analítica do projeto para organizar visualmente as frentes de trabalho. Segundo Gazen (2012), essa técnica é fundamental para subdividir o projeto em partes menores e gerenciáveis, denominadas pacotes de trabalho, que facilitam o controle do esforço e dos recursos consumidos. No caso em questão, o desenvolvimento foi dividido em duas versões evolutivas. A primeira versão focou na criação de um aplicativo para coleta de dados de colheita e cálculo da necessidade de veículos, enquanto a segunda versão aprimorou a solução com a inclusão de janelas de horários específicas e automação de comunicações. O uso de modelos preditivos permitiu a organização do escopo de maneira visual, enquanto as reuniões semanais de acompanhamento garantiram a agilidade necessária para pivotar estratégias diante de resistências operacionais.
A solução tecnológica baseou-se no ecossistema Microsoft Power Platform, utilizando ferramentas de baixo código para acelerar o desenvolvimento. Conforme Souza et al. (2024), as plataformas low code permitem a criação rápida de aplicativos interativos sem a necessidade de conhecimentos profundos em programação, reduzindo custos e aumentando a agilidade organizacional. O fluxo operacional foi desenhado para que os encarregados de colheita, que atuam em áreas sem conectividade de rede, transmitissem as informações via rádio frequência para a equipe administrativa da sede da fazenda. Estes colaboradores, munidos de computadores e acesso à internet, realizavam o input dos dados no aplicativo desenvolvido em Power Apps. As informações eram então armazenadas em listas no SharePoint, servindo de base para o processamento subsequente em planilhas de Excel integradas.
O detalhamento técnico da primeira versão da solução incluiu a criação de interfaces para seleção de fazendas, botões de envio de dados e mecanismos de bloqueio para evitar registros incompletos. No Excel, foram desenvolvidas fórmulas para calcular o volume colhido por dia e a quantidade de veículos necessários, baseando-se na capacidade de carga de cada modal. A segunda versão expandiu essas funcionalidades, incorporando premissas como a quantidade de tratores disponíveis, o tempo médio de carregamento por veículo e o horário de funcionamento das frentes de trabalho. Com esses parâmetros, o sistema passou a gerar simuladores de carregamento que definiam o melhor horário para a chegada de cada caminhão. A comunicação final com as transportadoras foi automatizada via Outlook, utilizando rotinas em Visual Basic for Applications para disparar e-mails com as janelas de horários solicitadas.
O mapeamento inicial revelou que a imprecisão no horário de chegada dos veículos decorria da falta de clareza sobre o volume total a ser colhido e da ausência de canais estruturados para o replanejamento diante de intercorrências climáticas ou quebras de máquinas. As informações críticas circulavam de forma informal por mensagens de texto e ligações, impedindo a criação de uma base de dados confiável. Em cenários típicos, veículos chegavam às fazendas no final do expediente, resultando em frutas colhidas que permaneciam no campo durante a noite, perdendo qualidade. Em outros casos, falhas mecânicas não eram comunicadas tempestivamente, levando ao cancelamento desnecessário de viagens ou à extensão onerosa de jornadas de trabalho dos operadores de trator. A implementação do novo fluxo buscou padronizar a frequência e a qualidade dessas informações, estabelecendo requisitos semanais e atualizações diárias obrigatórias.
Durante a execução, identificou-se uma redução na aderência ao envio de dados após os primeiros 15 dias de operação. Algumas fazendas passaram a enviar informações após o horário limite das 8:00, o que comprometia o planejamento logístico do dia subsequente. Para mitigar esse desvio, foi desenvolvido um painel de monitoramento em Power BI, integrado à base de dados do SharePoint via Power Query. Esse relatório permitiu dar visibilidade em tempo real aos atrasos e faltas de envio, segmentando o desempenho por regional e fazenda. A exposição desses indicadores nas reuniões semanais e o envio de alertas diários automatizados elevaram a disciplina operacional, eliminando justificativas baseadas em esquecimento. A gestão ágil foi crucial nesse estágio, permitindo a pivotagem rápida para incluir o monitoramento de conformidade como parte essencial da solução (Junior et al., 2012).
Os resultados quantitativos demonstraram a eficácia da intervenção tecnológica e gerencial. A análise comparativa entre as safras revelou uma diminuição de 54% no número de paradas de colheita por falta de transporte. Esse resultado é particularmente expressivo quando se considera que a comunicação direta e não padronizada entre fazendas e transportadoras foi substituída por um fluxo oficial e auditável gerido pela equipe de logística. A centralização das informações no Outlook e a robustez dos registros no SharePoint permitiram uma análise de desempenho mais profunda, facilitando a identificação de gargalos recorrentes em transportadoras específicas ou em períodos de pico de safra. A cadência de chegada dos veículos tornou-se mais alinhada ao ritmo de colheita, otimizando o uso dos equipamentos de carregamento e reduzindo o tempo de espera em fila.
A discussão dos resultados também aponta para benefícios qualitativos significativos. Entrevistas com os colhedores indicaram um aumento na satisfação com a organização do trabalho, uma vez que o escoamento uniforme das frutas evitava interrupções bruscas na atividade produtiva. Como os colhedores são considerados partes interessadas internas, sua percepção positiva reflete a melhoria no nível de serviço prestado pela logística. A eliminação da necessidade de os veículos pernoitarem nas fazendas por falta de carregamento reduziu custos operacionais e riscos de segurança. Além disso, a disponibilidade de dados históricos estruturados permitiu à empresa realizar manutenções preventivas de forma mais estratégica, aproveitando os intervalos planejados entre as chegadas dos veículos para revisar os equipamentos de transbordo.
A integração entre as ferramentas do ecossistema Microsoft provou ser uma escolha técnica acertada para o ambiente agrícola. A flexibilidade do Excel para cálculos complexos, aliada à segurança de armazenamento do SharePoint e à interface amigável do Power Apps, criou um sistema resiliente e de baixo custo de manutenção. O uso do Power BI para a governança do processo garantiu que a solução não fosse apenas implementada, mas mantida com altos níveis de aderência. A experiência demonstra que a transformação digital no campo não exige necessariamente sistemas complexos e caros, mas sim a aplicação inteligente de ferramentas de produtividade já disponíveis, desde que suportadas por um modelo de gestão de projetos rigoroso e adaptável às realidades locais.
Limitações do estudo incluem a dependência de infraestrutura de rádio frequência para a comunicação inicial no campo, o que pode ser um ponto de falha em fazendas com topografia muito acidentada. Pesquisas futuras poderiam explorar a integração de sensores de telemetria nos tratores de transbordo para automatizar a coleta de dados de volume colhido, eliminando a necessidade de input manual e reduzindo ainda mais a margem de erro. Outra frente de investigação promissora seria a aplicação de algoritmos de inteligência artificial para prever a produtividade da colheita com base em dados climáticos históricos, refinando a precisão do planejamento logístico antes mesmo do início das atividades diárias. A expansão do modelo para outras culturas agrícolas que enfrentam desafios similares de perecibilidade e logística de entrada também representa uma oportunidade relevante de aplicação prática.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a aplicação das ferramentas da Power Platform e a adoção de um modelo de gestão híbrido resultaram na otimização do abastecimento logístico e na redução drástica das paradas de colheita. A utilização de tecnologias de baixo código permitiu o desenvolvimento de uma solução personalizada e ágil, capaz de integrar informações de campo com o planejamento central de transporte de forma eficiente. A redução de 54% nas interrupções por falta de veículos comprova que a melhoria na gestão da informação é um fator determinante para a produtividade no setor citrícola. O projeto demonstrou que a visibilidade dos dados e a padronização dos processos comunicativos são essenciais para mitigar perdas de qualidade dos frutos e aumentar a satisfação dos trabalhadores, consolidando a transformação digital como um pilar estratégico para a competitividade da logística agrícola.
Referências Bibliográficas:
Erpen, L.; Muniz, F.R.; Moraes, T.S.; Tavano, E.C.R. 2018. Análise do cultivo de laranja no Estado de São Paulo de 2001 a 2015. Disponível em: <https://doi.org/10.22167/r.ipecege.2018.1.33>. Acesso em: 8 mar. 2025.
Freitas, C.L. 2021. Manejo e controle do greening na laranja. Monografia em Agronomia. UNIC, Rondonópolis, MT, Brasil.
Gazen, M.S. 2012. A Importância da Gestão do Escopo para a Gestão de Projetos. Revista On-Line IPOG 1(6): 6–7.
Junior, L.D.F.; Benassi, J.L.G.; Amaral, D.C.A.; 2012. Kansei Engineering na gestão ágil de projetos de novos produtos: potencialidades e desafios. Revista Gestão da Produção Operações E Sistemas 59(3): 62.
Souza, A.F.; Piantino, L.F.M.; Mendonça, P.L. 2024. Análise dos desafios e oportunidades no uso do Power Apps com programação low code no desenvolvimento de aplicações empresariais. Revista Sociedade Científica 7(1): 2109-2133.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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