11 de maio de 2026
Gestão da qualidade na estabilidade de soluções microbiológicas
Maybi Cristina da Silva; Jéssica Alvez Justo Mendes
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A rotina de trabalho em laboratórios acadêmicos de pesquisas químicas e microbiológicas envolve o preparo de uma ampla variedade de soluções, o qual se caracteriza como uma etapa crítica, capaz de influenciar os resultados esperados para as análises devido à manipulação de reagentes. A maioria dessas soluções é preparada e armazenada para uso posterior, conforme as necessidades de cada análise (Santos, 2023). A Organização Mundial de Saúde define estabilidade como a capacidade de um produto manter suas propriedades químicas, físicas e microbiológicas dentro de limites específicos estabelecidos em um determinado tempo (WHO, 2018). O objetivo da avaliação da estabilidade é obter evidências de como a qualidade varia com o tempo sob influência de fatores ambientais como temperatura, umidade e luz, além de estabelecer um prazo de validade para as soluções e determinar condições de armazenamento adequadas (Mori et al., 2013). Considerando a baixa disponibilidade de informações sobre o tempo em que as soluções analíticas permanecem estáveis, uma avaliação da estabilidade das soluções pode minimizar o tempo gasto nas preparações, o custo e o retrabalho, melhorando o fluxo das atividades nos laboratórios analíticos (Sato et al., 2022). Um Sistema de Gestão da Qualidade pode ser definido como um conjunto de práticas e condutas utilizadas para padronizar e melhorar os processos, a fim de alcançar os resultados desejados e atender à política da qualidade de uma organização. De acordo com o Project Management Institute e com o guia PMBOK, a utilização de sistemas de gestão de qualidade consiste em planejar os processos controlando e garantindo a qualidade através da implementação de atividades de melhoria contínua, minimizando erros e desperdício (Gonçalves e Cunha, 2020). As Boas Práticas de Laboratório podem ser definidas como um conjunto de normas e procedimentos estabelecidos que garantem a qualidade e integridade dos dados gerados em laboratório, abrangendo todas as etapas desde o planejamento dos preparos e realização das análises até o monitoramento, registro e arquivamento dos dados. A combinação de um Sistema de Gestão da Qualidade com Boas Práticas de Laboratório ainda é pouco aplicada em laboratórios de pesquisa, ensino e extensão, mas destacam-se entre os principais benefícios dessa aplicação o aumento da confiabilidade dos resultados gerados, a melhoria na qualidade das pesquisas realizadas, a otimização nas práticas laboratoriais e o desenvolvimento profissional, além da redução no desperdício de recursos (Furtado e Machado, 2022). O desenvolvimento de um projeto utilizando ferramentas de gestão da qualidade para elaborar um estudo de estabilidade para laboratórios de análises microbiológicas permite delinear a obtenção de informações referentes ao tempo de uso, condições de armazenamento e otimização do preparo, possibilitando a elaboração de procedimentos que possam vir a ser utilizados por outros laboratórios, cujo escopo seja a determinação do prazo de validade das soluções.
O estudo de caso foi desenvolvido em um laboratório de análises microbiológicas localizado no interior do estado de São Paulo, pertencente a uma Universidade Estadual e caracterizado por atender usuários internos, como alunos de graduação e pós-graduação, com foco principal na realização de aulas práticas e no desenvolvimento de pesquisas financiadas por órgãos de fomento estaduais e federais. No local são realizados preparos de soluções analíticas, meios de cultivo e ensaios com microrganismos para análises e estudo de moléculas de origem bacteriana, com atividade tensoativa, para aplicação em diferentes setores industriais. Os biosurfactantes são compostos biológicos capazes de reduzir a força tensoativa na superfície dos líquidos e apresentam propriedades anfifílicas, que conferem a esses compostos interesse acadêmico e comercial, com destaque para o uso como descontaminantes no processamento de alimentos, na agricultura, em biorremediação e em produtos farmacêuticos (Khan e Jain, 2025). Os ramnolipídios pertencem a uma classe de biosurfactantes que apresenta atividade antibacteriana e antifúngica, sendo utilizados no laboratório no preparo de uma solução padrão. Essa solução é preparada utilizando o reagente comercial Rhamnolipids, 90% Sigma-Aldrich, um produto ramnolipídico purificado de Pseudomonas aeruginosa. A escolha dessa solução para a elaboração de um estudo de estabilidade ocorreu pelo fato de o laboratório não dispor de um procedimento padronizado para avaliar e documentar a estabilidade das soluções preparadas. A pesquisa classifica-se como qualitativa, caracterizando-se por um projeto de elaboração de um estudo de estabilidade da solução padrão de ramnolipídios, contemplando a otimização do preparo, tempo de uso e condições adequadas de armazenamento. O preparo de soluções é uma atividade essencial, realizada rotineiramente, e tem importância significativa porque consiste na etapa inicial de qualquer análise. Se erros ocorrem nessa etapa, podem resultar na obtenção de dados incorretos e influenciar a qualidade do trabalho devido a interpretações equivocadas. As várias etapas envolvidas no preparo exigem pessoal qualificado, estrutura laboratorial, reagentes de qualidade e procedimentos padronizados. Entre as Boas Práticas de Laboratório, destaca-se a utilização de reagentes e vidrarias adequados, pesagem e solubilização correta, seguidos da identificação e estocagem da solução. A etapa de iniciação do projeto consistiu em reunir informações para viabilizar o estudo, seguida do levantamento sobre ferramentas de gestão da qualidade. Foram levantadas informações relacionadas ao reagente, procedimentos de preparo, manipulação e condições de estocagem, além dos fatores que poderiam influenciar a viabilidade. A aplicação das ferramentas foi discutida com a docente responsável, permitindo ampliar o conhecimento sobre o procedimento. Na etapa de execução, o procedimento de preparo foi detalhado e as ferramentas de gestão selecionadas. Após a identificação dos pontos críticos e da sugestão de melhorias, uma Estrutura Analítica de Projeto foi elaborada para guiar o estudo, seguida de um cronograma para a execução das atividades ao longo de 12 meses.
Em análises microbiológicas, o preparo das soluções consiste na preparação de uma suspensão inicial seguida de diluições decimais, o que torna essa etapa crítica não apenas pelo curto intervalo entre o fim do preparo e o inóculo, mas especialmente pelas diluições, que devem ser realizadas de forma cuidadosa para evitar variabilidade. Estabelecer o tempo em que as soluções permanecem estáveis possibilita o preparo e armazenamento de soluções concentradas e diluídas com disponibilidade para uso sem comprometimento dos resultados, gerando otimização de tempo e custo. Na etapa de iniciação, identificou-se a necessidade de padronizar as etapas de preparo, manipulação e armazenamento. Uma sessão de brainstorming foi conduzida com a docente responsável para discutir detalhadamente o processo e identificar falhas. Os membros envolvidos foram identificados, esclarecendo o objetivo, partes interessadas, metas e escopo, conforme recomendado pelo guia PMBOK (PMI, 2021). O mapeamento do processo foi realizado através de um fluxograma, permitindo visualizar todas as etapas: pesagem do reagente, diluição em água estéril, transferência para balão volumétrico, verificação de formação de espuma, decantação, filtração em membrana de 0,22 µm para frasco estéril, armazenamento em geladeira e diluição final em meio de cultivo antes do uso nos ensaios. A partir do fluxograma, um diagrama de causa e efeito, ou diagrama de Ishikawa, foi elaborado para auxiliar na obtenção de informações sobre as dificuldades que poderiam influenciar a viabilidade da solução. Esse diagrama utiliza uma estrutura de espinha de peixe com categorias de causas classificadas em mão de obra, método, medida, máquina, matéria-prima e condições ambientais (Motta, 2022). A aplicação dessa ferramenta permitiu identificar falhas e efeitos no preparo e armazenamento, além dos impactos no estudo da estabilidade. Os principais fatores críticos identificados incluíram o fator humano, referente à falta de cuidado no preparo e erros na diluição; o fator material, relacionado ao reagente comercial sem validade determinada após a abertura; o fator ambiental, devido às condições de armazenamento não padronizadas; e o fator método, pela ausência de procedimento padronizado para o planejamento da avaliação da solução no momento do uso.
As atividades de rotina requerem cuidados que, se não tomados, representam fontes de variabilidade. No fator humano, a atenção na pesagem e na manipulação pode minimizar erros que alteram a concentração final, sendo que soluções mais concentradas têm maior probabilidade de sofrer alterações ao longo do tempo. A falta de cuidado pode ocasionar contaminação, impactando no crescimento de microrganismos e levando a resultados falso-positivos ou falso-negativos. A habilidade e experiência de quem realiza o preparo influenciam os resultados, e o manuseio incorreto pode ser fruto de treinamento inadequado. No fator material, o reagente Rhamnolipids 90% não possui validade definida pelo fabricante após aberto, o que é crítico para um estudo de estabilidade. No fator ambiental, as soluções são normalmente armazenadas sob refrigeração de 2 a 8 °C. Mudanças de temperatura ou armazenamento inadequado aceleram reações de degradação e afetam a solubilidade, comprometendo a qualidade e resultando em variabilidade. As soluções devem ser claramente rotuladas e datadas. No fator método, a ausência de instruções claras sobre como realizar o preparo e uso de forma consistente impede a otimização das atividades. Com base nos pontos críticos, um plano de ação foi elaborado utilizando a ferramenta 5W2H, que auxilia na criação de planos de ação e esclarece dúvidas sobre a tomada de decisões (Cioffi e Okada, 2022). O checklist do 5W2H definiu o que será feito (padronização), por que (evitar impacto na avaliação), quem (equipe do laboratório), onde (laboratório de microbiologia), quando (durante o preparo e armazenamento), como (procedimentos padronizados e equipamentos calibrados) e quanto custará (investimento em treinamento e calibração). As melhorias identificadas visam garantir que o armazenamento adequado evite alterações e que o controle das condições ambientais mantenha as propriedades da solução.
Complementarmente, a metodologia 5S foi proposta para organizar a rotina do laboratório. Desenvolvida no Japão por Kaoru Ishikawa, busca criar um ambiente limpo, organizado e padronizado através dos sensos de utilização, organização, limpeza, padronização e autodisciplina (Souza, 2021). No senso de utilização, identificou-se a necessidade de evitar o desperdício na pesagem e o uso inadequado de micropipetas. No senso de organização, focou-se no controle de estoque e identificação completa das soluções. No senso de limpeza, estabeleceu-se a periodicidade de limpeza em geladeiras e bancadas. No senso de padronização, buscou-se criar métodos para medir a estabilidade. No senso de autodisciplina, reforçou-se a necessidade de treinamentos periódicos. O plano de ação para o 5S incluiu desenvolver procedimentos para pesagem, manter estoque atualizado mensalmente, elaborar etiquetas padronizadas, realizar treinamentos semestrais e monitorar o descarte de soluções antigas. A aplicação das ferramentas 5W2H e 5S possibilitou mapear as atividades e orientar a correção de falhas, viabilizando o estudo de estabilidade. A elaboração de treinamentos é vital devido à rotatividade de alunos. Para organizar o escopo, uma Estrutura Analítica de Projeto foi gerada, dividindo o projeto em pacotes de trabalho com entregas e responsáveis definidos (PMBOK, 2021). A estrutura compreende o planejamento do estudo, execução e coleta de dados, análise e diagnóstico, implementação dos procedimentos e encerramento com documentação. O cronograma de 12 meses prevê o planejamento no primeiro mês, preparo e armazenamento no segundo, análises laboratoriais e obtenção de resultados do terceiro ao 12º mês, finalizando com a apresentação dos resultados. Para monitorar a execução, sugeriu-se o ciclo PDCA, uma ferramenta cíclica de melhoria contínua baseada em planejar, fazer, verificar e agir (Costa, 2024). O PDCA poderá ser aplicado após o estudo para avaliar se os resultados foram satisfatórios e robustos, permitindo que o estudo seja incorporado à rotina ou revisitado caso as expectativas não sejam alcançadas. A aplicação de ferramentas da gestão da qualidade é essencial para planejar a otimização das condições de preparo e armazenamento, resultando em um estudo de estabilidade confiável. A seção de brainstorming combinada com o 5W2H permitiu visualizar falhas que poderiam comprometer a avaliação. A metodologia 5S mostrou-se fundamental para a adequação da rotina e a Estrutura Analítica de Projeto guiou a execução de forma organizada. O laboratório poderá utilizar as informações resultantes como guia para a avaliação da estabilidade de outras soluções utilizadas em análises microbiológicas, aumentando a eficiência operacional e a integridade científica dos dados produzidos.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a estruturação do projeto de estudo de estabilidade da solução padrão de ramnolipídios, fundamentada em ferramentas de gestão da qualidade como o diagrama de Ishikawa, 5W2H, 5S, EAP e ciclo PDCA, permitiu a identificação sistemática de falhas operacionais e a proposição de melhorias robustas para o ambiente laboratorial. A aplicação dessas metodologias demonstrou ser uma estratégia eficaz para padronizar processos críticos de preparo e armazenamento, garantindo a confiabilidade dos resultados analíticos e a otimização de recursos. O projeto estabelecido serve como um modelo gerencial aplicável a outras soluções e laboratórios de pesquisa, promovendo a cultura da melhoria contínua e a conformidade com as boas práticas de laboratório, essenciais para a integridade da investigação científica e eficiência das rotinas acadêmicas e industriais.
Referências Bibliográficas:
Cioffi, L. G.; Okada, R. H. 2022. Implementação da ferramenta 5W2H no processo de produção para a obtenção de resultados e melhorias no processo. Interface Tecnológica 19 (2): 974-984.
Costa, B. 2024. Ciclo PDCA em uma microempresa utilizando ferramentas da qualidade. Monografia – Técnologo em Gestão da Qualidade. Instituto Federal de Minas Gerais, Campus Ouro Preto, MG, Brasil.
De Sato, T. S.; Medeiros, T. M. Prochnau, I. S. 2022. Determinação do período de estabilidade de soluções volumétricas rotineiramente utilizadas em laboratórios de análises químicas. Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR. Umuarama 26 (3): 1044-1052.
Furtado, T. T.; Machado, L. A. R. 2022. Fundamentos das Boas Práticas de Laboratório. Revista de Extensão do Instituto Federal Catarinense, Blumenau 9 (17):153-164.
Gonçalves, P.; Cunha, P. Implantação de um Sistema da Qualidade em Laboratórios de Pesquisa Científica com base na ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017. Revista Boletim do Gerenciamento nº 12 (2020).
Khan, S.; Jain, L. 2025. Production of Rhamnolipid using Moderate Halophilic Pseudomonoas aeruginosa SH-6 isolated from Saline Lake. Journal of Pure and Applied Microbiology 19(2):1049-1070.
Mori, M.; Oriqui, L.R.; Wongtschowski, P. 2013. Guia para a Determinação da Estabilidade de Produtos Químicos. Química Nova 36 (2):340-347.
Motta, K. R. 2022. Ferramentas de gestão da qualidade: ciclo PDCA e diagrama de Ishikawa como auxílio em gestão. Monografia – Curso de Logística. Universidade Federal do Tocantins, Araguaína, TO, Brasil.
Project Management Institute [PMI]. 2021. Um guia de conhecimento em gerenciamento de projetos: guia PMBOK 7 ed Project Management Institute, Newtown, PA, EUA.
Project Management Institute [PMI]. 2021. Um guia de conhecimento em gerenciamento de projetos: guia PMBOK 7 ed Project Management Institute, Newtown, PA, EUA.
Santos, M.J. 2023. Avaliação da estabilidade do pH de soluções tampão. Monografia. Bacharelado em Química. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás, Câmpus Goiânia, GO, Brasil.
Souza, F. P. 2021. Benefícios da utilização do programa 5S junto a padronização para melhoria do gerenciamento da rotina operacional. Monografia – Curso de Ciência e Tecnologia. Universidade Federal Rural do Semi-Árido, Mossoró, RN, Brasil.
World Health Organization [WHO], 2018. Stability testing of active pharmaceutical ingredients and finished pharmaceutical products. Technical Report Series, No. 1010: 309 -351.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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