11 de maio de 2026
Moradia Resort para Idosos: Preferências e Expectativas Geracionais
Mayra Camargo Arraval de Almeida; José Eduardo Vilas Bôas
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A população brasileira vivencia um fenômeno de envelhecimento populacional acelerado, impulsionado pelo aumento da expectativa de vida e pela redução acentuada das taxas de fecundidade. De acordo com dados do censo realizado pelo IBGE (2022), o país conta com mais de 32 milhões de cidadãos com mais de 60 anos, o que representa 15,81% da população nacional. Esse índice demonstra um crescimento expressivo em relação à década anterior, quando o percentual de idosos era de 10,8%. A velocidade dessa transição demográfica é notável, pois, enquanto nações como a França levaram 140 anos para dobrar sua população idosa, o Brasil realizará esse salto em apenas 25 anos (Mrejen et al., 2023). Esse cenário impõe desafios complexos e multifatoriais que abrangem desde a sustentabilidade do sistema de saúde pública até a necessidade urgente de repensar as estruturas sociais e os modelos de cuidado e moradia voltados para a terceira idade.
O avanço da longevidade torna imperativo o desenvolvimento de alternativas habitacionais que atendam de forma eficaz às necessidades específicas dessa parcela da população. O modelo tradicional predominante, centrado em instituições de longa permanência, frequentemente promove a segregação social e não assegura plenamente os princípios de autonomia e dignidade. Estudos indicam que os sistemas de saúde voltados para idosos ainda se encontram fragmentados, o que reforça a necessidade de modelos assistenciais integrados e preventivos, capazes de reduzir a sobrecarga nos serviços públicos e ampliar a qualidade de vida na velhice (Romero et al., 2021). Além do vínculo afetivo, o cuidado com os idosos representa uma obrigação prevista legalmente pela Constituição Federal de 1988, que impõe aos filhos maiores a responsabilidade de prestar auxílio e amparo aos pais em situações de necessidade ou doença. Na prática, esse cuidado recai majoritariamente sobre o núcleo familiar, impactando diretamente a permanência de cuidadores informais no mercado de trabalho (Mrejen et al., 2023).
Como alternativa às instituições convencionais, surge a proposta de avaliação de um novo modelo de moradia: o condomínio resort voltado à terceira idade. Esse conceito integra unidades habitacionais privativas com serviços de hotelaria, conforto e suporte assistencial contínuo, permitindo que os idosos preservem sua independência sem renunciar à segurança. Tal modelo dialoga com evidências sobre a crescente demanda por soluções residenciais que conciliem autonomia e suporte permanente, promovendo a convivência social e o envelhecimento saudável (Alomari e Steinke, 2024). A estrutura proposta contempla serviços de limpeza, lavanderia, alimentação equilibrada e atividades recreativas, características identificadas em modelos internacionais de referência. O suporte contínuo de enfermagem e o acesso facilitado à saúde respondem às necessidades de prevenção e monitoramento, conforme demonstram estudos sobre o perfil de saúde e as relações entre vínculos familiares e vulnerabilidade social (Lima-Costa et al., 2022; Marcelino et al., 2024).
Entretanto, a implementação desse modelo enfrenta barreiras culturais, emocionais e financeiras significativas. A decisão por uma moradia desse tipo requer um processo complexo de aceitação do envelhecimento e a reorganização de expectativas individuais e familiares. Muitos descendentes ainda encaram a institucionalização dos pais como uma forma de abandono, o que reforça o modelo tradicional de cuidado domiciliar pautado em laços afetivos e na ideia de retribuição familiar (Mocellin et al., 2019). O comportamento de compra para esse tipo de solução está intrinsecamente ligado à percepção de valor, segurança, privacidade e suporte social, sendo impactado por fatores como renda, experiências prévias com instituições e transformações nos arranjos familiares contemporâneos (Mocellin et al., 2019). Compreender como diferentes grupos geracionais percebem e influenciam a aceitação de um modelo de moradia resort permanente é o objetivo central desta análise.
A abordagem metodológica adotada caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa, de natureza aplicada e caráter descritivo (Malhotra, 2019). O delineamento operacional envolveu três procedimentos principais: a pesquisa bibliográfica para fundamentação teórica, a análise documental para a realização de um benchmarking e a aplicação de um questionário estruturado do tipo websurvey. O benchmarking contemplou a análise minuciosa de 12 empreendimentos nacionais e internacionais de moradia sênior, visando identificar padrões estruturais e conceituais alinhados à proposta de condomínio resort. No cenário brasileiro, foram analisadas iniciativas como Terças da Serra, Cora Premium, Elissa Village e Residencial Club Leger. No âmbito internacional, o estudo incluiu os empreendimentos norte-americanos Robson Resort Communities, Latitude Margaritaville, Vi Living e Ciela, além dos europeus Evoca Living, Audley Villages, The Cork Tree Residences e Luana Senior Living.
O critério central para a seleção dessas unidades foi a oferta de infraestrutura voltada ao bem-estar, lazer e autonomia, excluindo-se instituições com foco exclusivo em cuidados médicos ou quartos coletivos. A coleta de dados para o benchmarking ocorreu entre abril e maio de 2025, utilizando sites oficiais, mídias sociais e contatos diretos. Essa etapa permitiu identificar diretrizes recorrentes, como o tipo de moradia, formato de acesso, grau de autonomia e modelo de negócios, servindo de base para a formulação do instrumento de pesquisa principal (Gil, 2017). O questionário da websurvey foi estruturado em cinco blocos distintos: caracterização sociodemográfica; visões de futuro e envelhecimento; interesse e resistências ao modelo de moradia; mapeamento de serviços essenciais e barreiras de adesão; e, por fim, preocupações financeiras e planejamento para a velhice (Solomon, 2016; Fiori et al., 2017).
A coleta de dados da websurvey ocorreu entre 13 de maio e 08 de agosto de 2025, totalizando 460 participações voluntárias. Após a aplicação de critérios de exclusão, que removeram respondentes da Geração Z, menores de idade ou indivíduos que não considerariam residir em tais empreendimentos, a amostra final válida foi composta por 424 participantes. A distribuição geracional contou com 81 indivíduos da geração Millennials (nascidos entre 1981 e 1996), 115 da Geração X (1965 a 1980), 200 Baby Boomers (1946 a 1964) e 28 da Geração Silenciosa (1928 a 1945). Para alcançar um número satisfatório de respondentes da Geração Silenciosa, foram realizadas entrevistas por telefone, complementando a técnica de amostragem em rede utilizada nas plataformas digitais. O instrumento passou por validação prévia com voluntários do perfil do público-alvo para garantir a clareza e a funcionalidade do formulário digital. A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva e tabulação cruzada em software de planilha eletrônica, investigando relações entre variáveis sociodemográficas e preferências habitacionais (Malhotra, 2019).
Os resultados do benchmarking revelaram que, no Brasil, predomina uma proposta híbrida que aproxima os empreendimentos do formato de instituições de longa permanência, mas com sofisticação em serviços de hospitalidade. Todas as opções brasileiras analisadas oferecem acompanhamento de saúde 24 horas e suítes privativas. Já os modelos norte-americanos enfatizam o estilo resort, com grandes áreas de lazer e campos de golfe, projetando o envelhecimento como uma extensão de um estilo de vida ativo. Em contrapartida, os modelos europeus tendem a oferecer experiências mais urbanas e intergeracionais, focadas na sustentabilidade e no bem-estar cotidiano. Os custos elevados dos empreendimentos brasileiros indicam que, atualmente, a proposta é restrita a nichos de alta renda, com mensalidades que podem ultrapassar R$ 20.000,00, enquanto modelos internacionais oferecem maior flexibilidade com opções de compra, aluguel ou planos vitalícios.
O perfil sociodemográfico da amostra indicou um público com elevado nível educacional e econômico. A maioria dos respondentes das gerações Baby Boomer, X e Millennials possui ensino superior completo ou pós-graduação, com rendas familiares frequentemente superiores a R$ 10.000,00. Quanto ao arranjo domiciliar, a maioria vive com familiares, embora a proporção de pessoas morando sozinhas aumente significativamente com a idade, alcançando 35,7% na Geração Silenciosa. No que tange aos sentimentos relativos ao envelhecimento, observou-se que a tranquilidade é mais recorrente nas gerações mais velhas, atingindo 42% entre Baby Boomers e 43% na Geração Silenciosa. Em contraste, os Millennials apresentaram maior índice de incerteza (30%), refletindo a insegurança diante da futura perda de autonomia (Gomes et al., 2021).
A percepção de autonomia futura mostrou-se moderadamente otimista. Entre os Millennials, 47% concordaram parcialmente que poderão manter o autocuidado na velhice, padrão que se repetiu na Geração X (52%) e nos Baby Boomers (56%). A Geração Silenciosa apresentou maior dispersão, com 39% discordando parcialmente da afirmação, o que sugere que a vivência atual da velhice traz uma percepção mais realista das limitações físicas. O cruzamento desses dados com o arranjo residencial evidenciou que idosos que moram sozinhos possuem maior predisposição a aceitar modelos institucionais, uma vez que a ausência de redes de apoio doméstico aumenta a atratividade de soluções que ofereçam segurança e suporte social (Julià et al., 2025).
Quanto à expectativa de cuidado, os resultados mostraram duas tendências principais: o apoio de familiares e a confiança em profissionais de saúde. A expectativa de contar com a família foi citada por 46% da Geração Silenciosa e 45% dos Baby Boomers. Já entre os Millennials, 60,4% declararam não ter filhos, o que elevou a proporção de respostas que atribuem a responsabilidade do cuidado a profissionais de saúde (35%) ou que indicam não esperar cuidado de ninguém (19%). Esses achados corroboram investigações internacionais que apontam para a fragilização do modelo exclusivamente familiar devido às transformações demográficas e à redução do número de descendentes (Pereira et al., 2021). A preocupação com os cuidados na velhice apresentou níveis intermediários em quase todas as gerações, mas foi notavelmente menor na Geração Silenciosa, possivelmente devido à proximidade etária com a realidade do cuidado já estabelecida (Liu et al., 2023).
A intenção de adesão ao modelo de condomínio resort foi predominantemente cautelosa. A opção “talvez, dependendo do custo e localização” concentrou os maiores percentuais, especialmente entre Millennials (51%) e Baby Boomers (38%). A adesão imediata foi mais expressiva na Geração Silenciosa (29%), reforçando a ideia de que a necessidade imediata de suporte impulsiona a aceitação. Os fatores mais valorizados na escolha de um empreendimento foram companhia e vida social, citados por 63% dos Millennials e 70,4% da Geração X, além da comodidade nos serviços. A Geração Silenciosa destacou-se ao valorizar mais os cuidados de saúde disponíveis (46,4%) e as atividades de lazer (50%) em comparação aos demais fatores.
Ao analisar as barreiras percebidas, o custo financeiro emergiu como o principal entrave em todas as gerações, com destaque para a Geração X (90%) e Millennials (86%). O afastamento da família e amigos e o medo de perder a privacidade também apareceram com relevância, especialmente entre os idosos da Geração Silenciosa, onde metade dos respondentes declarou essas preocupações. A falta de confiança nos serviços foi apontada por 43% dos Baby Boomers como um obstáculo recorrente. Esses dados indicam que a rejeição a modelos residenciais coletivos não deriva apenas de limitações financeiras, mas também de dimensões emocionais e do receio do estigma social associado às casas de repouso (Ossokina e Arentze, 2024).
No âmbito do planejamento financeiro, a previdência privada foi a forma de preparo mais citada pela Geração Silenciosa (54%) e Baby Boomers (39%). Já os Millennials e a Geração X apresentaram maior índice de ausência de planejamento ou uso de poupança informal (30% e 20%, respectivamente). Ao serem questionados sobre a disposição em destinar recursos da aposentadoria para residir em um condomínio especializado, a resposta condicional “talvez, dependeria de mais informações” foi a mais frequente entre a Geração X (37%) e Baby Boomers (34%). Na Geração Silenciosa, 50% afirmaram que aceitariam o modelo caso houvesse garantia explícita de qualidade. Esses resultados sugerem que a decisão de migrar para uma comunidade sênior é permeada por uma postura de prudência e pela necessidade de garantias de manutenção do estilo de vida (Lindberg, 2022).
A discussão dos dados permite inferir que a aceitação de um modelo de moradia resort no Brasil depende do equilíbrio entre viabilidade econômica, suporte social e percepção de qualidade. Enquanto as gerações mais jovens projetam o futuro com incerteza e valorizam a autonomia e a sofisticação, os idosos atuais priorizam a segurança médica e a convivência comunitária como forma de mitigar a solidão. A transição para esses novos modelos habitacionais exige que os gestores de marketing e formuladores de políticas desenvolvam propostas flexíveis, capazes de atender a diferentes perfis de renda e de superar o estigma da institucionalização através de uma comunicação sensível e focada no bem-estar integral (Kotler et al., 2021).
As limitações deste estudo residem na natureza não probabilística da amostra, que apresenta um viés de alta renda e escolaridade, não representando a totalidade da diversidade socioeconômica brasileira. Pesquisas futuras devem buscar amostras mais diversificadas em termos regionais e de estratos sociais, além de utilizar métodos qualitativos para aprofundar a compreensão sobre as barreiras emocionais e culturais identificadas. A integração entre serviços de saúde robustos, infraestrutura de lazer e modelos financeiros acessíveis parece ser o caminho para a consolidação de moradias inovadoras que garantam dignidade na velhice (Bezerra et al., 2021).
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a pesquisa demonstrou que a aceitação do modelo de moradia resort é heterogênea e fortemente influenciada pelo recorte geracional. Enquanto Millennials e Geração X condicionam sua adesão a fatores práticos de custo e localização, a Geração Silenciosa mostra-se mais receptiva devido à busca por segurança e combate à solidão. O sucesso desse modelo no mercado brasileiro está intrinsecamente ligado à capacidade de oferecer soluções que integrem assistência à saúde e convivência social, superando barreiras culturais e financeiras por meio de propostas de valor claras e adaptadas às expectativas de cada geração.
Referências Bibliográficas:
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2022. Panorama do Censo Demográfico 2022. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/. Acesso em: 22 mar. 2025.
Mrejen, M.; Nunes, L.; Giacomin, K. 2023. Envelhecimento populacional e saúde dos idosos: o Brasil está preparado? Estudo Institucional 10. Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, São Paulo, SP, Brasil. Disponível em:https://ieps.org.br/publicacoes/envelhecimento-populacional-e-saude-dos-idosos-o-brasil-esta-preparado/. Acesso em: 22 mar. 2025.
ROMERO, D.E.; Muzy, J.; Damacena, G.N.; Souza, N.A.; Almeida, W.S.; Szwarcwald, C.L.; Malta, D.C.; Barros, M.B.A.; Souza Júnior, P.R.B.; Azevedo, L.O.; Gracie, R.; Pina, M.F.; Lima, M.G.; Machado, I.E.; Gomes, C.S.; Werneck, A.O.; Silva, D.R.P. 2021. Idosos no contexto da pandemia da COVID-19 no Brasil: efeitos nas condições de saúde
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Marketing do MBA USP/Esalq
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