
30 de março de 2026
Marketing Digital e Ações Climáticas: Engajamento no Instagram
André Luis Bertazzoni Fonseca; Gustavo Barbieri Lima
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
As mudanças climáticas representam um dos desafios mais prementes da contemporaneidade, manifestando impactos profundos que transcendem a esfera ambiental para afetar a biodiversidade, a estabilidade econômica e a qualidade de vida das populações em escala global. A intensificação da emissão de gases de efeito estufa, com destaque para o dióxido de carbono, tem catalisado fenômenos extremos, como o aumento da temperatura média do planeta, ondas de calor sem precedentes, secas prolongadas e alterações severas nos regimes de chuvas (IPCC, 2022). Apesar da gravidade desse cenário, observa-se que uma parcela significativa da sociedade ainda desconhece a extensão real dos problemas ou carece de orientações práticas sobre como contribuir para a mitigação desses impactos. Nesse vácuo informacional, o marketing digital sustentável emerge como uma ferramenta estratégica de alta relevância, fundamentada na evolução do Marketing 3.0, que compreende o consumidor como um ser integral, dotado de necessidades, desejos e, sobretudo, em busca de propósitos que confiram significado às suas escolhas de consumo (Kotler et al., 2010). A transição para o Marketing 4.0 aprofunda essa relação ao integrar tecnologias digitais e redes sociais para fomentar o engajamento e impulsionar a transformação digital em prol de causas coletivas (Kotler et al., 2017).
O marketing digital sustentável configura-se como uma evolução natural do marketing verde, direcionando esforços para incentivar práticas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável por meio de conteúdos que informam, educam e mobilizam o público para mudanças comportamentais efetivas, respeitando os pilares da sustentabilidade (Ramos et al., 2022). A utilização de plataformas digitais, especialmente o Instagram, consolidou-se como um mecanismo eficaz para a disseminação de informações e a promoção de mobilizações sociais em massa. Estratégias bem delineadas nessas redes são imprescindíveis para elevar a conscientização ambiental e estimular ações mitigatórias (Dwivedi et al., 2021; Kautish et al., 2022). A comunicação segmentada permitida por essas ferramentas facilita o alcance de públicos específicos, utilizando recursos narrativos como o storytelling, vídeos curtos e imagens de alto impacto visual, o que torna a mensagem mais atrativa e relevante para o receptor (Chaffey e Ellis-Chadwick, 2019). Campanhas conduzidas por organizações globais demonstram que a adaptação de conteúdos complexos para uma linguagem simples, objetiva e impactante nas redes sociais possui o potencial de atingir milhões de indivíduos (Pesca, 2024).
Entretanto, a dispersão de informações em canais não especializados dificulta o acesso a dados confiáveis e precisos sobre sustentabilidade, exigindo que o interessado realize buscas exaustivas em fontes diversas. O marketing digital atua, portanto, como um facilitador na disseminação de conteúdos relevantes de forma ampla e organizada, permitindo a segmentação precisa e a utilização de estratégias multicanais para auxiliar organizações não governamentais e projetos socioambientais a atingirem seus objetivos (Dwivedi et al., 2021). A análise de perfis consolidados no Instagram revela que o emprego de formatos educativos, carrosséis informativos com design atrativo e a humanização da comunicação são pilares para o sucesso do engajamento. Tais páginas estabelecem conexões diretas com seus seguidores por meio de identidades visuais bem definidas e linguagens acessíveis, ampliando o impacto das mensagens ambientais. A eficácia de uma estratégia de marketing digital é determinante para que conteúdos confiáveis não fiquem restritos a baixos alcances, garantindo que informações capazes de inspirar ações significativas em larga escala cumpram seu papel na mitigação das mudanças climáticas (Tateishi et al., 2022).
Para a fundamentação metodológica desta investigação, procedeu-se à criação de uma página no Instagram denominada Jupará Eco, integralmente dedicada à temática da sustentabilidade, com foco em mudanças climáticas, impactos globais e medidas mitigatórias. O público-alvo delimitado compreendeu usuários da plataforma com idade entre 18 e 40 anos, faixa etária identificada como a mais ativa digitalmente e que demonstra interesse crescente por causas ambientais (Silva et al., 2023). A pesquisa adotou a netnografia como método principal, consistindo em uma abordagem qualitativa que permite a análise do comportamento, das interações e da cultura de grupos em ambientes virtuais (Kozinets, 2010). Este método adapta a etnografia tradicional ao contexto digital, possibilitando a observação e interpretação de fenômenos em redes sociais de natureza dinâmica e interativa, onde o consumo de conteúdo é contínuo. A escolha do Instagram justifica-se por sua popularidade mundial, contando com mais de dois bilhões de usuários ativos, dos quais aproximadamente 135 milhões residem no Brasil (IBOPE, 2024). Essa diversidade torna a plataforma um campo fértil para analisar como diferentes formatos de conteúdo influenciam a percepção e o engajamento do público.
A coleta de dados ocorreu no intervalo entre 12 de maio de 2025 e 14 de agosto de 2025, utilizando ferramentas de monitoramento nativas da plataforma, como o Instagram Insights, além de instrumentos complementares externos. As variáveis dependentes analisadas incluíram o alcance e o engajamento, mensurado por meio de curtidas, comentários e compartilhamentos. Como variáveis independentes, foram considerados os diferentes formatos de conteúdo elaborados, tais como imagens estáticas, vídeos curtos, textos extensos, o uso de hashtags específicas e a identidade visual da marca. A análise do comportamento do público baseou-se nas reações aos conteúdos postados na página Jupará Eco, que foram planejados estrategicamente para incluir fotos comparativas de locais impactados, dados científicos sobre sustentabilidade, curiosidades e mensagens de sensibilização. A análise de conteúdo seguiu os preceitos de Bardin (2016), organizando as informações em categorias temáticas para identificar quais estratégias geravam maior aprendizado e interação.
Adicionalmente, realizou-se uma análise comparativa com dois perfis brasileiros de referência no nicho de sustentabilidade: @menos1lixo e @ibsustentabilidade. A seleção desses perfis obedeceu a critérios de relevância, volume de seguidores, constância de publicações e alinhamento temático, somando juntos quase um milhão de seguidores. O perfil @menos1lixo, idealizado por Fe Cortez, foca no consumo consciente, lixo zero e economia circular, utilizando um tom de comunicação engajador e estética visual moderna com cores fortes. Já o perfil @ibsustentabilidade, mantido pelo Instituto Brasileiro de Sustentabilidade, adota uma postura mais formal e informativa, explorando a curiosidade dos seguidores com dados técnicos e imagens chamativas. A observação dessas páginas serviu de base para o desenvolvimento da Jupará Eco, permitindo testar abordagens distintas e identificar elementos gráficos e narrativos eficazes para o público brasileiro interessado em questões ambientais. A importância do marketing digital sustentável reside justamente nesse potencial educativo e mobilizador, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Ramos et al., 2022).
Os resultados obtidos a partir da análise do perfil @menos1lixo demonstraram um volume expressivo de postagens, aproximando-se da marca de 6000 publicações, com uso intensivo de destaques para organizar conteúdos relevantes. Observou-se que vídeos no formato reels apresentaram alto desempenho, como exemplificado por uma postagem de 27 de agosto de 2025 que detalhava a rotina de uma casa autossuficiente, alcançando 10700 curtidas e 167 comentários. Outro formato de sucesso foi o carrossel, que em 28 de agosto de 2025 utilizou imagens de um resgate animal aliadas a frases fortes e cores vibrantes para obter 9733 curtidas e 151 comentários. A estratégia de utilizar vídeos curtos para comentar assuntos polêmicos ou tendências das redes sociais também se mostrou eficaz, gerando engajamento significativo. A personificação da página, por meio de carrosséis que apresentam a trajetória pessoal da criadora, contribuiu para aproximar o público e humanizar a marca, resultando em interações consistentes.
A análise do perfil @ibsustentabilidade revelou uma abordagem distinta, focada em conteúdos informativos e curiosidades sobre a fauna e flora. Um vídeo curto exibindo uma árvore Samaúma em 16 de agosto de 2025 gerou 16400 curtidas e 267 comentários, evidenciando o fascínio do público por imagens impactantes da natureza. Postagens simples com fundos coloridos e dados relevantes também apresentaram bons resultados, como uma imagem de 13 de agosto de 2025 que obteve 14300 curtidas. A utilização de mapas coloridos e textos curtos com palavras-chave em destaque foi outra estratégia recorrente, facilitando a absorção da informação. Notou-se que a página mantém uma identidade visual rigorosa, com a aplicação de sua logomarca em posições estratégicas das imagens, o que favorece o reconhecimento da marca. Embora possua um número menor de seguidores em comparação ao @menos1lixo, o engajamento proporcional do @ibsustentabilidade mostrou-se elevado, reforçando a eficácia de conteúdos técnicos quando apresentados de forma visualmente atraente.
Com base nessas referências, a página Jupará Eco foi estruturada utilizando uma paleta de cores que remete à natureza, com tons de verde vibrante simbolizando as florestas e bege representando o solo. A estratégia de conteúdo incluiu o uso de perguntas nas imagens para estimular a reflexão, seguidas de respostas educativas. Durante o período experimental, foram analisadas 18 postagens no feed e nove sequências de stories. O crescimento da página foi orgânico e acelerado, passando de zero para 90 seguidores em um curto intervalo. A publicação de um vídeo curto em 28 de maio de 2025 foi um divisor de águas, fazendo com que o número de seguidores dobrasse em apenas 48 horas. Esse formato de vídeo curto superou todos os outros em termos de alcance e interação, atingindo 259 visualizações, enquanto os carrosséis obtiveram uma média de 92 visualizações e as imagens únicas cerca de 84. Os stories, embora com menor alcance absoluto (entre 11 e 38 visualizações), mostraram-se fundamentais para manter o engajamento da base de seguidores já consolidada, com mais de 85% das visualizações vindo de contas que já acompanhavam o perfil.
A análise dos horários de postagem revelou que as publicações realizadas por volta das 11 horas da manhã e entre 18 e 19 horas obtiveram os melhores índices de visualizações e curtidas. Os dias da semana com maior interação foram as terças e quintas-feiras, sugerindo que esses períodos são mais propícios para o consumo de conteúdos sobre sustentabilidade. O uso de enquetes nos stories e a promoção de interações diretas nos comentários confirmaram que o público se sente mais motivado a participar quando é convidado a realizar uma ação ou expressar uma opinião. A estratégia de aquecimento, que consiste em postar conteúdos relacionados nos stories horas antes de uma publicação no feed, demonstrou ser um diferencial competitivo, aumentando significativamente o desempenho do post principal. Esse método cria uma narrativa contínua que mantém o interesse do usuário e prepara o terreno para a mensagem central.
A comparação entre os diferentes tipos de stories indicou que as enquetes são o formato com maior número de interações médias, seguidas pelos compartilhamentos de vídeos curtos. Stories simples, contendo apenas uma imagem com informação ou reflexão, performaram melhor do que repostagens genéricas. Observou-se também uma correlação direta entre o alcance e a atração de novos seguidores: postagens que se tornaram virais ou que foram amplamente compartilhadas atraíram um público que ainda não seguia a página, evidenciando que conteúdos de alta qualidade possuem um poder de propagação que extrapola a base de seguidores inicial. A utilização de elementos visuais como o X vermelho para indicar práticas incorretas e a lâmpada verde para sugestões sustentáveis facilitou a compreensão rápida da mensagem, tornando o aprendizado mais dinâmico e intuitivo.
No que tange ao formato de vídeo curto que obteve o maior engajamento na Jupará Eco, este consistiu em uma sequência de imagens de desastres ambientais cotidianos aliadas a frases impactantes em cores vibrantes, utilizando uma trilha sonora que prendia a atenção. A transição para imagens positivas de pessoas realizando ações sustentáveis, acompanhada de uma chamada para ação direta, despertou um senso de coletividade e responsabilidade no espectador. Esse tipo de narrativa, que vai do problema à solução, mostrou-se altamente eficaz para engajar o público em questões complexas como as mudanças climáticas. A humanização e o uso de linguagem cotidiana, evitando termos excessivamente técnicos sem perder o rigor científico, foram fundamentais para tornar o conteúdo acessível a diferentes perfis de usuários dentro da faixa etária estipulada.
A discussão dos resultados aponta que o Instagram, quando utilizado de forma estratégica e fundamentada em dados, transcende sua função de entretenimento para se tornar um canal educativo de alto impacto. A predominância dos vídeos curtos e carrosséis como formatos de maior engajamento corrobora a tendência de consumo de conteúdos rápidos, porém visualmente densos e informativos. A manutenção de uma página ativa por meio de stories frequentes é essencial para a retenção do público e para a construção de uma comunidade em torno do tema da sustentabilidade. As limitações do estudo incluem o curto período de análise e a natureza orgânica do crescimento, o que sugere que investimentos em tráfego pago poderiam potencializar ainda mais os resultados encontrados. Pesquisas futuras poderiam explorar o impacto de parcerias com influenciadores digitais do nicho ambiental e a eficácia de diferentes tipos de chamadas para ação na conversão de seguidores em agentes de mudança prática no mundo físico.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a criação do perfil Jupará Eco permitiu identificar estratégias de marketing digital eficazes para o engajamento e a educação ambiental no Instagram. A pesquisa demonstrou que o uso de vídeos curtos, carrosséis informativos e a manutenção de uma identidade visual coerente são fundamentais para o sucesso da comunicação sobre mudanças climáticas. A identificação de horários e dias específicos para postagens, aliada à técnica de aquecimento por meio de stories, potencializou o alcance orgânico e a interação com o público. O projeto alcançou 1,9 mil contas em um único mês, provando que conteúdos bem estruturados, com linguagem clara e apelo visual, são capazes de disseminar conhecimento crítico e incentivar práticas sustentáveis, contribuindo diretamente para a conscientização e mobilização social necessárias ao enfrentamento da crise climática global.
Referências Bibliográficas:
Bardin, 2016 [Referência completa não encontrada no documento original]
Chafey, D. 2019. Ellis-Chadwick, F. Digital marketing. 7. ed. Harlow, Essex: Pearson Education.
Dwivedi, Y. K.; Ismagilova, E.; Hughes, D.L.; Carlson, J.; Filieri, R.; Jacobson, J.; Jain, V.; Karjaluoto, H.; Kefi, H.; Krishen, A.S.; Kumar, V.; Rahman, M.M.; Raman, R.; Rauschnabel, P.A.; Rowley, J.; Salo, J.; Tran, G.A.; Wang, Y. 2021. Setting the future of digital and social media marketing research: Perspectives and research propositions. International Journal of Information Management, v. 59, p. 102168.
IBOPE. 2024. Pesquisa sobre uso de redes sociais no Brasil. São Paulo, SP, Brasil.
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Kautish, S.; Paul, J.; Sharma, R. 2022. The role of social media in sustainable consumer behavior: A systematic review and future research agenda. Sustainable Development, v. 30, n. 5, p. 1183–1200.
Kotler, P.; Kartajaya, H.; Setiawan, I. 2010. Marketing 3.0: From products to customers to the human spirit. Hoboken, NJ: John Wiley & Sons.
Kotler, P.; Kartajaya, H.; Setiawan, I. 2017. Marketing 4.0: Moving from traditional to digital. Hoboken, NJ: Wiley.
Kozinets, R. V. 2010. Netnography: doing ethnographic research online. Thousand Oaks, CA: Sage Publications.
Pesca, A. B. F. 2024. O impacto do marketing digital nas campanhas de sensibilização na sustentabilidade ambiental. 2024. Dissertação (Mestrado em Gestão e Estratégia Empresarial) – Faculdade de Ciências Sociais e Tecnologia, Universidade Europeia, Lisboa, Portugal.
Ramos, A. C. V. Almeida, C.F.; Coronado, D.H.; Lacerda, D.P.L.S.; Silva, F.S.; Espinoza, G.E.S.; Sandim, G.J.O.; Azevedo, H.C.R.; Dornelas, I.G.; Santos, M.O.; Ramos, M.O. 2022. Iniciativas sustentáveis: o marketing verde aplicado ao setor de reciclagem de sucatas. Trabalho de conclusão de curso (Ensino Médio Técnico em Marketing) – Etec de Poá, Poá, SP, Brasil.
Silva, R. M.; Almeida, F. S.; Sousa, T. C. 2023. Perfil do usuário brasileiro no Instagram e interesse em sustentabilidade: uma análise demográfica. Revista Brasileira de Comunicação, v. 38, n. 2, p. 145-162.
Tateishi, I. A. B.; Melo, J. V. J.; Carvalho, L. H.; Gonçalves, M. V. 2022. Marketing digital: como importante ferramenta de disseminação em projetos sociais, estudo de caso.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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