Resumo Executivo

11 de maio de 2026

Logística reversa e reciclagem de resíduos de gesso em Praia Grande

Matheus Tavares de Paiva; Adriana Hofmann Trevisan

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O gesso, material obtido por meio do processo industrial de calcinação da gipsita, assume uma função de elevada relevância na cadeia produtiva da construção civil contemporânea. A versatilidade desse insumo permite sua aplicação em uma vasta gama de atividades, abrangendo desde o revestimento de superfícies de tetos e paredes até a fundição de peças ornamentais, fabricação de placas para sistemas de vedação interna, sancas e molduras (Pinheiro, 2011). No entanto, a onipresença desse material nos canteiros de obras resulta em uma geração proporcional de resíduos que, se negligenciada, acarreta severos prejuízos ao equilíbrio ecológico. Estimativas técnicas apontam que aproximadamente 4% do volume total de resíduos sólidos gerados em atividades de construção e demolição são compostos por fragmentos de gesso (Kochem et al., 2017). A problemática ambiental agrava-se quando o descarte ocorre de maneira irregular, uma vez que o gesso, sob condições específicas de umidade e ausência de oxigênio, sofre processos químicos de oxidação. Tais reações resultam na formação de substâncias potencialmente tóxicas, como o gás sulfídrico, que contribui diretamente para a sulfurização do solo e a contaminação química de lençóis freáticos (Hendges, 2013).

A magnitude do desafio da gestão de resíduos no território brasileiro é evidenciada por dados estatísticos que indicam a produção de cerca de 48 milhões de toneladas de resíduos de construção e demolição no ano de 2021, o que representa uma média de 227 kg por habitante (Semil, 2023). No contexto específico do estado de São Paulo, os resíduos de gesso mantêm a proporção de 4% em relação ao montante total de descartes do setor (CETESB, 2014). O encaminhamento inadequado desses materiais para aterros sanitários convencionais não apenas acelera o esgotamento da capacidade volumétrica dessas unidades, mas também instaura riscos biológicos e químicos devido à liberação de gases em ambientes anaeróbicos. Diante dessa realidade, a reciclagem emerge como a alternativa técnica e ambientalmente mais viável, permitindo a preservação de recursos naturais e a redução drástica da necessidade de extração de matéria-prima virgem, o que fomenta a sustentabilidade setorial (Martins et al., 2021). A reintegração do gesso ao ciclo produtivo oferece, paralelamente, vantagens econômicas, visto que o material processado pode ser utilizado na manufatura de novos componentes construtivos (Silva & Lima, 2022).

A implementação de sistemas eficazes de gestão de resíduos na construção civil enfrenta obstáculos estruturais e operacionais significativos. A heterogeneidade dos materiais descartados e a carência de uma infraestrutura logística dedicada ao tratamento e à reciclagem tornam o gerenciamento um processo frequentemente oneroso e complexo (Souza et al., 2023). A ausência de tecnologias acessíveis para a separação granulométrica e a purificação do gesso, somada à fragilidade de políticas públicas indutoras, exige que as organizações desenvolvam modelos logísticos próprios e parcerias estratégicas para viabilizar a economia circular (Oliveira & Costa, 2021). A conformidade com regulamentações ambientais rigorosas e a busca por incentivos econômicos para a reciclagem são pilares fundamentais para a modernização do setor (Verde Ghaia, 2022). Nesse panorama, a estruturação de fluxos que garantam a rastreabilidade e a destinação final ambientalmente adequada torna-se um imperativo para as empresas que buscam mitigar os impactos negativos de suas operações.

A metodologia adotada para o desenvolvimento deste estudo fundamenta-se na pesquisa-ação, uma abordagem que permite a imersão técnica e a intervenção direta no objeto de análise para a solução de problemas práticos. Diferente de métodos puramente observacionais, a pesquisa-ação pressupõe que os profissionais envolvidos investiguem e aprimorem suas rotinas de forma sistemática, unindo a reflexão teórica à implementação de mudanças concretas (Tripp, 2005). O processo investigativo concentrou-se no município de Praia Grande, localizado no litoral de São Paulo, durante o ano de 2024. Para garantir a robustez dos dados e a fidedignidade das análises, utilizou-se a triangulação de fontes de evidência, incluindo a realização de entrevistas semiestruturadas com atores-chave do processo, a observação direta das rotinas operacionais nos canteiros de obras e a análise documental minuciosa de relatórios técnicos, normativas ambientais e registros de transporte de resíduos.

O arranjo operacional foi estruturado a partir de uma parceria estratégica entre três organizações distintas, denominadas para fins de estudo como Empresa A, Empresa B e Empresa C. A Empresa A, uma construtora com forte atuação no mercado residencial e comercial de Praia Grande, figurou como a unidade geradora dos resíduos, impulsionada pelo uso intensivo de sistemas de drywall e revestimentos internos em seus empreendimentos. A Empresa B, com experiência consolidada desde 2008 no gerenciamento de resíduos sólidos e detentora de uma frota superior a 200 caçambas estacionárias, assumiu a responsabilidade pela logística de coleta, transporte e armazenamento temporário. Por fim, a Empresa C, unidade recicladora devidamente licenciada pelos órgãos ambientais competentes, encarregou-se do processamento final e da reinserção do material no mercado. A colaboração entre essas entidades visou estabelecer um fluxo contínuo e eficiente, garantindo que o gesso descartado não fosse misturado a outros detritos, preservando sua pureza para o beneficiamento.

O detalhamento dos procedimentos operacionais envolveu visitas técnicas a três canteiros de obras distintos da Empresa A, permitindo a compreensão das etapas de geração, desde a aplicação do revestimento até o descarte inicial. Durante essas inspeções, observou-se que o gesso era gerado predominantemente durante a execução de acabamentos internos, resultando em sobras que permaneciam dispersas no pavimento das unidades habitacionais. A coleta manual, realizada com o auxílio de pás e carrinhos de mão, foi monitorada para assegurar que a segregação ocorresse na origem. O material recolhido era depositado em caçambas estacionárias exclusivas, com capacidade individual de 4 m³, posicionadas estrategicamente nas proximidades das frentes de serviço. O transporte dessas caçambas era efetuado por caminhões equipados com sistema poliguindaste, que encaminhavam o resíduo até um galpão de triagem operado pela Empresa B.

No centro de triagem, os resíduos passavam por uma inspeção qualitativa para a remoção de eventuais contaminantes, como plásticos, metais ou restos de alvenaria, que poderiam comprometer o processo de reciclagem na Empresa C. O armazenamento temporário no galpão foi planejado para permitir o acúmulo de um volume crítico de gesso, estabelecido em 32 m³, equivalente à carga de oito caçambas. Esse montante foi definido como o lote mínimo necessário para viabilizar economicamente o transporte até a unidade recicladora. A Empresa C, operando sob as diretrizes das Resoluções CONAMA nº 307/2005 e nº 431/2011, realizava a conferência in loco do volume e da pureza do material antes de autorizar o carregamento. A análise documental incluiu o acompanhamento da emissão do Certificado de Destinação Final (CDF), documento essencial para a comprovação da regularidade ambiental perante a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Brasil, 2010).

A análise da situação anterior à implementação do novo modelo logístico revelou um cenário de baixa eficiência e ausência de padronização. Historicamente, as construtoras da região, incluindo a Empresa A, realizavam uma segregação rudimentar, priorizando materiais com maior valor de revenda, como metais e madeiras. O gesso, por sua vez, era frequentemente descartado de forma misturada ao entulho comum, o que inviabilizava qualquer tentativa de reaproveitamento e elevava os custos de disposição final. A falta de controle quantitativo impedia que os gestores tivessem clareza sobre o volume real de desperdício, dificultando a adoção de medidas corretivas. Com a introdução do processo de coleta segregada e imediata, eliminou-se a prática de armazenamento em baias comuns, reduzindo drasticamente a contaminação cruzada, que é apontada tecnicamente como um dos maiores entraves à reciclagem de gesso no território nacional (CETESB, 2014).

Os resultados obtidos durante o período de monitoramento, que compreendeu 76 dias entre os meses de abril e junho de 2024, demonstraram a eficácia da intervenção. Nesse intervalo, foram realizadas 32 retiradas de caçambas nos canteiros da Empresa A, totalizando um volume de 128 m³ de resíduos de gesso. A logística foi organizada em quatro grandes coletas realizadas pela Empresa C, cada uma transportando o equivalente a 32 m³ de material processado. A frequência média de coleta foi estabelecida em uma retirada a cada 19 dias, garantindo que o galpão de armazenamento intermediário da Empresa B não ficasse sobrecarregado. Um dado de extrema relevância econômica e operacional foi a eliminação dos custos de frete para a Empresa B durante o transporte final para a recicladora. Como estratégia de incentivo à destinação correta, a Empresa C assumiu o ônus do transporte, tornando o sistema financeiramente atrativo para todos os envolvidos.

A eficiência do modelo proposto é corroborada pela taxa de reciclagem de 100% do volume coletado no período. O gesso encaminhado à Empresa C passou por processos industriais de moagem e purificação, sendo transformado em pó de gesso reciclado. Esse insumo secundário possui propriedades técnicas que permitem sua reinserção na fabricação de novos blocos de gesso, placas de drywall e até mesmo como condicionador de solo na agricultura. A adoção dessas práticas de logística reversa não apenas reduz os custos operacionais, mas também promove ganhos ambientais significativos ao evitar a extração de recursos naturais virgens (Carvalho et al., 2019). A rastreabilidade garantida pelo uso de planilhas de monitoramento e pela emissão de documentos oficiais consolidou um modelo operacional transparente e em total conformidade com a legislação ambiental vigente (Brasil, 2010; CONAMA, 2011).

A discussão dos resultados permite inferir que a colaboração interorganizacional é o fator determinante para o sucesso da gestão de resíduos. Enquanto estudos teóricos frequentemente destacam a logística reversa como um custo adicional, o presente caso demonstra que, por meio de parcerias estratégicas, é possível transferir o ônus logístico para a unidade que se beneficia do material reciclado, criando um ciclo de valor positivo. A redução da pressão sobre os aterros sanitários de Praia Grande é um benefício social direto, mitigando riscos de contaminação do solo e da água por sulfatos (Geissdoerfer et al., 2017). Além disso, a experiência adquirida com o gesso serviu como catalisador para a expansão do modelo para outros materiais. A Empresa B, utilizando a mesma lógica de segregação e parceria, iniciou um projeto de reaproveitamento de resíduos de madeira em conjunto com uma quarta organização, a Empresa D, focada na produção de madeira ecológica.

A aplicação prática deste modelo evidenciou que ferramentas simples de gestão, como o controle rigoroso de volumes e frequências de coleta, são capazes de gerar impactos profundos na sustentabilidade das operações de construção civil. A integração entre a geradora, a transportadora e a recicladora permitiu a superação de barreiras históricas relacionadas ao custo e à contaminação dos resíduos. No entanto, é necessário reconhecer que o sucesso do sistema depende diretamente do estágio da obra; no caso analisado, a geração de gesso foi intensa durante os meses de abril a junho devido à fase de acabamentos internos. Com a conclusão dessa etapa na Empresa A, a produção de resíduos de gesso cessou temporariamente, o que demonstra a necessidade de uma gestão dinâmica e adaptável ao cronograma físico das edificações.

A análise das implicações sociais e ambientais reforça que a reciclagem de 128 m³ de gesso evitou a liberação potencial de volumes significativos de gases tóxicos e a degradação de áreas de descarte. A reinserção desse material na cadeia produtiva alinha-se aos princípios da economia circular, que busca preservar o valor e a utilidade dos materiais pelo maior tempo possível (Ellen MacArthur Foundation, 2015). A experiência em Praia Grande serve como um referencial replicável para outros municípios que enfrentam desafios semelhantes na gestão de resíduos sólidos urbanos e industriais. A sistematização do fluxo logístico, desde a coleta manual no pavimento da obra até o processamento industrial na recicladora, oferece um roteiro claro para a implementação de práticas de ESG (Environmental, Social, and Governance) no setor da construção.

Apesar dos resultados positivos, o estudo identificou limitações, como o recorte temporal restrito e a dependência de um volume mínimo para viabilizar o transporte. Pesquisas futuras poderiam investigar a viabilidade de centros de consolidação de resíduos que atendam a múltiplas construtoras de pequeno porte, permitindo que o volume crítico de 32 m³ seja atingido mais rapidamente. Além disso, a investigação sobre a qualidade técnica do gesso reciclado em comparação ao gesso virgem para diferentes aplicações estruturais poderia fornecer subsídios adicionais para a aceitação do material pelo mercado consumidor. A continuidade do monitoramento das parcerias estabelecidas é fundamental para garantir que a eficiência operacional não se perca ao longo do tempo e que novas tecnologias de triagem automatizada possam ser incorporadas ao processo.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que o estudo demonstrou a viabilidade técnica, econômica e ambiental da gestão segregada de resíduos de gesso no município de Praia Grande-SP, resultando na reciclagem de 128 m³ de material em um período de 76 dias. A implementação do novo modelo logístico eliminou etapas desnecessárias de triagem, reduziu custos de frete por meio de parcerias estratégicas e garantiu 100% de aproveitamento do resíduo coletado, comprovando que a integração entre construtoras, empresas de logística e recicladoras é capaz de transformar desafios ambientais em oportunidades de economia circular e eficiência operacional no setor da construção civil.

Referências Bibliográficas:

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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