
27 de março de 2026
Gestão de Riscos em Usinas Fotovoltaicas de Médio Porte
André Furlaneti de Melo; Adriano Machado
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A busca por fontes de energia sustentáveis e limpas tem se intensificado globalmente nas últimas décadas, com um destaque expressivo para a energia solar fotovoltaica. No cenário brasileiro, esse setor apresenta um crescimento significativo, impulsionado por políticas de incentivo, avanços tecnológicos constantes e uma redução progressiva nos custos de implementação. Entretanto, esse crescimento acelerado traz desafios complexos relacionados à gestão eficaz dos empreendimentos, especialmente no que tange à previsibilidade e ao controle rigoroso dos projetos. Projetos de usinas fotovoltaicas envolvem múltiplas interfaces técnicas, regulatórias e logísticas, o que eleva consideravelmente a complexidade de sua execução. A diversidade de partes interessadas e a necessidade premente de atender a requisitos contratuais e ambientais rigorosos exigem um gerenciamento eficiente desde as fases mais embrionárias. Nesse contexto, o gerenciamento de riscos ganha uma relevância estratégica como ferramenta para minimizar incertezas e evitar impactos adversos ao longo de todo o ciclo de vida do projeto. O gerenciamento de riscos é fundamental para assegurar o sucesso de qualquer empreendimento, pois permite identificar, analisar e planejar respostas para eventos que possam impactar os objetivos estabelecidos. Conforme as definições de Montes (2017), esse processo envolve necessariamente a definição de critérios claros para avaliar a probabilidade e o impacto de cada risco, permitindo uma priorização adequada para o desenvolvimento de estratégias de mitigação e contingência. Ao integrar o gerenciamento de riscos de maneira sistemática e proativa ao planejamento, torna-se possível antecipar problemas potenciais e minimizar seus efeitos, o que aumenta a confiabilidade e o controle sobre o andamento das atividades, contribuindo diretamente para a sustentabilidade e o sucesso da iniciativa.
Os resultados advindos de um gerenciamento de riscos estruturado incluem a minimização de atrasos, a redução drástica de retrabalho e desperdícios, além do aumento da confiança na tomada de decisões gerenciais. Dias (2014) reforça que a gestão eficiente dos riscos fortalece a resiliência do projeto diante de incertezas inerentes ao mercado de energia, melhora a comunicação entre as partes interessadas e promove um ambiente mais estruturado para a execução das atividades operacionais. Hopkin (2018) enfatiza que a gestão de riscos deve ser integrada aos processos organizacionais para garantir uma abordagem proativa na identificação, avaliação e mitigação de incertezas, não se limitando apenas a evitar ameaças, mas também a identificar oportunidades que agreguem valor à organização. Projetos fotovoltaicos enfrentam frequentemente incertezas ligadas ao desempenho técnico de projetistas, ao cumprimento de prazos e à qualidade das entregas. A ausência de um processo estruturado pode resultar em atrasos significativos e aumento de custos, comprometendo a eficiência em um setor regulado e altamente competitivo (Moura et al., 2019). A implementação de práticas profissionais de gerenciamento, baseadas em metodologias reconhecidas como as diretrizes do Project Management Body of Knowledge, oferece uma abordagem consolidada que eleva o nível de maturidade da gestão no setor de energia renovável. A integração entre teoria e prática fornece uma referência essencial para engenheiros e gestores que buscam reduzir ambiguidades e estabelecer diretrizes claras para a condução de ações preventivas, favorecendo a criação de um ambiente controlado e preparado para lidar com as oscilações do mercado e as complexidades técnicas da engenharia elétrica.
A metodologia adotada para a estruturação deste estudo baseou-se em uma abordagem qualitativa e exploratória, caracterizando-se como um estudo de caso aplicado a uma empresa de engenharia elétrica especializada no gerenciamento de usinas fotovoltaicas de terceiros. A organização possui uma infraestrutura corporativa departamentalizada, contando com um quadro de 13 colaboradores, incluindo um gerente, oito engenheiros, dois secretários e dois estagiários. O foco da investigação concentrou-se no gerenciamento de projetos de três usinas fotovoltaicas de médio porte, que juntas totalizam uma capacidade instalada de 13,2 MW. Essa potência equivale à ocupação de uma área total de 430.000 m² e à instalação de 25.600 módulos fotovoltaicos. O escopo da gestão abrangeu especificamente a etapa de projetos, com ênfase nos riscos relacionados aos prazos e à qualidade técnica das entregas realizadas por projetistas terceirizados. Para a coleta de dados, foram utilizados painéis de monitoramento, relatórios internos e atas de reuniões técnicas, permitindo uma análise profunda do fluxo de trabalho. O processo foi dividido em duas etapas principais: uma revisão bibliográfica rigorosa para fundamentar o quadro conceitual e a coleta de dados operacionais baseada nas sete etapas de gerenciamento de riscos propostas pela sexta edição do guia de boas práticas de gestão de projetos.
A primeira etapa operacional consistiu no planejamento do gerenciamento de riscos, onde se definiu como conduzir as atividades e quais ferramentas seriam utilizadas, considerando o nível de complexidade das usinas de médio porte. Utilizou-se uma plataforma colaborativa para familiarizar a equipe com as especificações do cliente e o cronograma mestre. Na sequência, procedeu-se à identificação dos riscos, mapeando todos os eventos que poderiam afetar o projeto desde o início até o término. Essa identificação foi alimentada por um painel de monitoramento que permitiu registrar tanto riscos positivos quanto negativos. A análise qualitativa dos riscos foi a terceira etapa, avaliando a exposição do projeto a cada evento identificado para priorizar aqueles com maior probabilidade e impacto. Para os riscos de alta prioridade, realizou-se a análise quantitativa, utilizando o cálculo do Valor Esperado do Impacto para atribuir valores numéricos aos efeitos dos riscos nos objetivos gerais. O planejamento das respostas envolveu o desenvolvimento de ações para aumentar oportunidades e reduzir ameaças, sempre em alinhamento com as expectativas do cliente. A implementação das respostas foi conduzida através de reuniões de acompanhamento e uso de ferramentas de visualização da situação dos projetos. Por fim, o monitoramento dos riscos garantiu o controle contínuo, verificando a eficácia das respostas e a identificação de novos riscos conforme a evolução das emissões de projeto executivo na plataforma colaborativa.
O detalhamento do processo operacional revelou que a elaboração do Termo de Aberta do Projeto foi o marco inicial que oficializou as atividades e estabeleceu a base estratégica. Esse documento reuniu diretrizes essenciais, incluindo o escopo inicial que abrangia desde o levantamento de dados até o controle contínuo dos riscos. As partes interessadas foram claramente identificadas, englobando o gerente de projetos, coordenadores, engenheiros, projetistas e fornecedores externos. Como premissa básica, estabeleceu-se que a plataforma colaborativa deveria estar permanentemente operacional e atualizada para suportar o controle das entregas. As restrições do projeto incluíam prazos fixos e um orçamento limitado para a alocação de recursos técnicos. A clareza proporcionada por esse planejamento inicial foi fundamental para reduzir ambiguidades e estabelecer responsabilidades, conforme preconizado por Coelho (2022), que aponta a necessidade de objetivos explicitados para o êxito de qualquer produto. A estrutura de governança do projeto permitiu que a comunicação fluísse de forma mais eficiente, facilitando a detecção precoce de ameaças e o aproveitamento de oportunidades durante a execução das fases de engenharia.
Durante a fase de identificação, foram listados riscos críticos como o atraso nas emissões dos projetos, onde o projetista demanda um tempo superior ao planejado, e a baixa qualidade das entregas, caracterizada pelo não atendimento às normas técnicas ou especificações do cliente. Como riscos positivos, identificou-se a possibilidade de adiantamento nas emissões e a entrega de projetos com alta qualidade, o que reduz o número de revisões e antecipa o cronograma. Outros riscos negativos mapeados incluíram o embargo ambiental, decorrente de inconformidades com contratos ambientais, e a extensão do prazo por motivos diversos fora do escopo da engenharia do proprietário. Carmona et al. (2014) ressaltam que o risco dos negócios possui aspectos ambivalentes, onde os positivos estão atrelados à expectativa de sucesso e os negativos à realização de perdas. A identificação foi robustecida por reuniões colaborativas e pela análise de históricos de projetos semelhantes, garantindo que o mapeamento fosse o mais fidedigno possível à realidade do setor fotovoltaico.
A análise qualitativa atribuiu probabilidades de ocorrência e níveis de impacto para cada item. O atraso nas emissões apresentou uma probabilidade de 0,6, enquanto a baixa qualidade do projeto registrou 0,5. O adiantamento nas emissões e a alta qualidade tiveram probabilidades de 0,2 e 0,4, respectivamente. O embargo ambiental foi considerado um risco de baixa probabilidade, com 0,1. Essa avaliação permitiu priorizar os esforços de gestão nos eventos de maior criticidade. Na análise quantitativa, o cálculo do Valor Esperado do Impacto confirmou a tendência negativa do cenário inicial. O atraso nas emissões resultou em um índice de -0,4 e a baixa qualidade em -0,6. Em contrapartida, as oportunidades de adiantamento e alta qualidade apresentaram índices de +0,3 e +0,4. O impacto líquido esperado, somando todos os valores, foi de -0,3. Segundo as diretrizes do Project Management Institute (2013), uma tendência líquida negativa deve ser interpretada como um sinal de alerta, exigindo uma postura ativa para mitigar as ameaças, mesmo em cenários onde as oportunidades são visíveis. Esses padrões de risco repetiram-se nos três empreendimentos analisados, evidenciando que o cumprimento de prazos e a qualidade técnica são os desafios centrais na engenharia fotovoltaica brasileira, corroborando as observações de Moura et al. (2019) e Marcon et al. (2021).
Para responder aos riscos negativos, foram desenvolvidas estratégias específicas. No caso dos atrasos, instituiu-se uma força-tarefa com reuniões diárias rápidas e objetivas para verificar os motivos dos impedimentos e repactuar datas de entrega. Para o risco de baixa qualidade, que se mostrou o mais impactante devido ao elevado número de revisões e ao desgaste no relacionamento com projetistas, a resposta consistiu em realizar uma primeira revisão extremamente detalhada e explicativa. O objetivo era transferir conhecimento técnico ao projetista logo no primeiro contato, evitando a reincidência de erros e reduzindo o ciclo de revisões subsequentes. Para os riscos positivos, a estratégia foi de acompanhamento prioritário para maximizar o lucro líquido por contrato e reduzir o consumo de horas-homem. O planejamento criterioso, conforme o Project Management Institute (2013), aumenta significativamente a probabilidade de sucesso ao assegurar a alocação adequada de recursos e tempo para as atividades críticas.
A implementação das respostas foi monitorada de perto, revelando dados cruciais sobre o desempenho do projeto. No mês de novembro de 2024, observou-se uma queda acentuada no volume de emissões, que caiu para menos da metade do registrado em outubro de 2024. Em outubro, foram emitidos 106 projetos, enquanto em novembro esse número recuou para apenas 51 emissões, com uma taxa de reprovação de 45%. Diante desse cenário crítico, a força-tarefa de reuniões diárias foi intensificada a partir de dezembro de 2024. O resultado foi uma recuperação imediata: o volume de emissões retornou ao patamar de 106 projetos em dezembro, com uma melhora sensível na qualidade e redução das reprovações para níveis aceitáveis. Nos meses seguintes, o fluxo manteve-se estável, com 80 emissões em janeiro de 2025 e 60 em fevereiro de 2025. No total, durante o período de outubro de 2024 a fevereiro de 2025, foram processados 403 projetos. A proporção de aprovações em janeiro de 2025 alcançou 73%, demonstrando a eficácia das revisões técnicas aprofundadas e do acompanhamento sistemático.
A análise dos dados demonstra que a gestão de riscos não deve ser vista como uma atividade estática, mas como um mecanismo constante de vigilância e ação. Oliveira (2013) alerta que ignorar os riscos é um passo certo para o insucesso dos objetivos organizacionais. A metodologia de monitoramento adotada permitiu que a equipe utilizasse sua sensibilidade e experiência para identificar incoerências de forma antecipada, ainda na fase de planejamento, evitando retrabalhos onerosos durante a execução física das usinas. Palma et al. (2011) destacam que o envolvimento direto dos membros da equipe em reuniões e entrevistas é essencial para validar as percepções de risco e ajustar as estratégias em tempo real. A utilização da planilha de controle visual e do painel de monitoramento de contratos facilitou o replanejamento das datas de entrega com base em critérios objetivos, garantindo que o desempenho das entregas permanecesse dentro dos parâmetros aceitáveis pelo cliente final.
A discussão dos resultados aponta que a aplicação sistemática do plano de gerenciamento de riscos contribuiu decisivamente para a redução de incertezas e para a otimização dos recursos da empresa de engenharia. A convergência observada entre os três projetos indica que as estratégias adotadas são replicáveis e podem servir de modelo para outros empreendimentos no setor fotovoltaico. A gestão estruturada permitiu não apenas mitigar ameaças, mas também aprimorar a qualidade técnica das entregas através de um processo educativo junto aos projetistas terceirizados. A experiência prática revelou que a integração entre análise qualitativa, quantitativa e monitoramento contínuo eleva a eficiência operacional e a confiabilidade dos prazos acordados. Além disso, o reconhecimento das limitações do processo e a sugestão de pesquisas futuras devem focar na automação de parte desse monitoramento e na integração de indicadores de desempenho financeiro mais granulares ao cálculo do Valor Esperado do Impacto.
A maturidade alcançada na gestão de projetos através dessas práticas favorece tomadas de decisão mais embasadas e resultados mais consistentes a longo prazo. A continuidade da adoção dessas metodologias em iniciativas futuras é recomendada, aliada ao aperfeiçoamento constante das ferramentas de colaboração e comunicação. O setor de energia solar, por sua natureza dinâmica e tecnicamente exigente, demanda que as empresas de engenharia atuem não apenas como executoras, mas como gestoras estratégicas de riscos. A capacidade de antecipar crises, como a ocorrida em novembro de 2024, e de implementar respostas rápidas que recuperem a produtividade em menos de 30 dias, é um diferencial competitivo fundamental. A estruturação do processo, desde o planejamento do gerenciamento até o monitoramento final, permitiu uma visão holística e integrada, garantindo que cada etapa do fluxo de trabalho estivesse alinhada aos objetivos estratégicos de entrega eficiente e qualidade técnica superior.
Conclui-se que o objetivo foi atingido por meio da estruturação e aplicação de um plano de gerenciamento de riscos fundamentado nas melhores práticas globais, o qual demonstrou eficácia na identificação de ameaças críticas e na implementação de respostas que estabilizaram o fluxo de produção de projetos de engenharia. A análise qualitativa e quantitativa permitiu priorizar ações que reverteram quedas de produtividade e elevaram os índices de aprovação técnica, comprovando que a gestão sistemática de riscos é essencial para aumentar a previsibilidade e assegurar a entrega eficiente de usinas fotovoltaicas de médio porte. O fortalecimento da maturidade organizacional e a melhoria na comunicação entre as partes interessadas consolidaram um ambiente de trabalho mais resiliente e preparado para os desafios técnicos e contratuais do setor de energia renovável.
Referências Bibliográficas:
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MARCON, F.; TAKAKURA JÚNIOR, F. K.; NOLASCO JUNIOR, J. Gerenciamento de risco na gestão de projetos: estudo de caso de projetos na geração de energia. Brazilian Journal of Business, Curitiba, v. 3, n. 1, p. 860-880, jan./mar. 2021.
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OLIVEIRA, J. C. S. Gestão dos Riscos em Projetos de Construção. Dissertação de Mestrado (Escola de Engenharia). Braga, Portugal, 2013.
PALMA, M. A. M.; ANDRADE, J. L. P.; PEDRO, J. S. Gestão de riscos em projeto: contornando incertezas para viabilizar a implantação de nova tecnologia em uma indústria petrolífera de E&P. Revista de Gestão e Projetos – GeP, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 102-122, jul./dez. 2011.
Project Management Institute [PMI]. Um Guia do Conhecimento no Gerenciamento de Projetos (PMBok). 5 ed. Newton Square, PA, USA. Project Management Institute, Inc. 2013.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de MBA em Gestão de Projetos
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