
26 de março de 2026
Viabilidade econômica de clínica cardiológica em São Paulo
André Carlos Balestrin; Maria Cristina Galvão Machado
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
As doenças cardiovasculares configuram-se, desde meados do século XX, como as causas mais prevalentes de morbidade e a principal fonte de mortalidade em escala global. Sob esse cenário crítico, o acompanhamento cardiológico realizado por profissionais especializados, aliado à execução de exames preventivos e periódicos, desempenha um papel fundamental no descobrimento precoce de patologias e na modificação de fatores de risco que elevam a mortalidade. A criação de sistemas integrados de saúde, inspirados no modelo britânico do National Health Service, permitiu que, no Brasil, a partir da década de 90, surgissem iniciativas de liderança clínica com abrangência sistêmica. Tais iniciativas baseiam-se na qualidade e no compromisso das organizações em aprimorar serviços e manter padrões elevados de cuidado, provendo um ambiente de excelência com atenção coordenada e centralizada nas necessidades do paciente (Padilha et al., 2018). A gestão clínica é definida como um conjunto de microgestão e tecnologias que visam promover a saúde de forma efetiva, estruturada e pautada em evidências científicas, sem gerar prejuízos aos assistidos e com custos adequados ao serviço prestado de maneira humanizada. Portanto, gestores e profissionais do segmento de saúde precisam estabelecer objetivos comuns para produzir uma atenção integral, comprometida com a segurança e a qualidade dos processos (Padilha et al., 2018).
Dados da Organização Pan-Americana da Saúde indicam que as doenças cardiovasculares são responsáveis por aproximadamente 15,9 milhões de óbitos anuais. No contexto brasileiro, a mortalidade caracteriza-se pelo aumento de mortes relacionadas a doenças crônicas não transmissíveis, com destaque para a hipertensão arterial, que apresenta prevalência estimada de 35% na população com idade superior a 40 anos (Ribeiro et al., 2012). À medida que a população envelhece, a prevalência dessas patologias aumenta proporcionalmente. Conforme dados do Global Burden of Disease, a taxa de prevalência de doenças cardiovasculares no Brasil atingiu 6,9% da população no ano de 2021. Esse aumento é potencializado pela mudança nos padrões alimentares, marcado pelo consumo excessivo de alimentos industrializados, sedentarismo e obesidade (Oliveira et al., 2024). Levantamentos da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico apuraram que 48% da população adulta brasileira não atinge o nível recomendado de atividade física para um hábito de vida saudável. Recomendações da European Society of Cardiology (2025) sugerem a prática semanal de pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada ou 75 minutos de alta intensidade, além de exercícios de isometria e musculação.
O advento da pandemia de COVID-19, no início de 2020, alterou drasticamente a rotina de cuidados de saúde, levando a uma negligência em relação aos exames de rotina e ao acompanhamento de doenças crônicas, deixando uma parcela significativa da população desprovida de suporte médico individualizado (Oliveira et al., 2024). Diante da possibilidade de descoberta precoce de cardiopatias, inclusive congênitas, torna-se imperativo a existência de ambientes dedicados ao acompanhamento especializado (Ministério da Saúde, 2022). Nesse panorama, a gestão de consultórios e clínicas surge para suprir as demandas de promoção à saúde. Contudo, dados do SEBRAE revelam que 60% das clínicas médicas encerram atividades em até cinco anos, sendo que 54% desses fechamentos decorrem de uma gestão ineficiente (SEBRAE, 2022). Profissionais da saúde, embora qualificados tecnicamente, muitas vezes carecem de habilidades em liderança e gestão empresarial (APM, 2025). Aliar o conhecimento técnico especializado às competências de negócios confere maior probabilidade de sucesso aos empreendimentos. Assim, justifica-se a análise da viabilidade econômica para a abertura de uma clínica médica especializada em cardiologia na cidade de São Paulo, visando oferecer serviços de consultas e exames de ecocardiograma.
A fundamentação metodológica desta análise possui caráter exploratório e baseia-se em dados quantitativos, utilizando levantamentos de gastos, pesquisa de preços e estimativas de demanda. O instrumento central para a apuração dos indicadores de viabilidade econômica foi a elaboração estruturada de um fluxo de caixa projetado. A metodologia foi aplicada a uma proposta de abertura de clínica em imóvel comercial locado, com estimativa de demanda projetada para um horizonte de 10 anos, período que corresponde à vida útil do principal ativo do projeto, o aparelho de ecocardiograma. O estudo concentrou-se no levantamento do investimento inicial, conhecido como CAPEX, na projeção de gastos operacionais recorrentes, denominados OPEX, e na estimativa de receitas provenientes da prestação de serviços médicos. Para a modelagem do fluxo de caixa, utilizou-se uma planilha eletrônica, onde todos os dados foram processados para subsidiar o cálculo de indicadores financeiros fundamentais.
O Valor Presente Líquido representa o somatório dos resultados líquidos de cada período do fluxo de caixa, atualizados a uma taxa de juros que reflete a expectativa de retorno do investidor como compensação pelos riscos assumidos (Abreu Filho, 2018). Essa taxa é denominada Taxa Mínima de Atratividade. Para este estudo, a TMA foi definida em 20,20% ao ano, valor que se situa cinco pontos percentuais acima de aplicações de renda fixa de baixo risco, que oferecem retorno de 15,20% ao ano. A interpretação do VPL indica que, se o resultado for superior a zero, o projeto é financeiramente viável. O VPL é considerado uma das ferramentas mais completas para análise de investimentos, pois traz os valores projetados ao presente, permitindo uma visão real do potencial ganho financeiro (Camloffski, 2014). Complementarmente, a Taxa Interna de Retorno é a taxa de juros que iguala o VPL a zero, representando a rentabilidade projetada do investimento. Para que o projeto seja aceito, a TIR deve ser obrigatoriamente superior à TMA definida (Camloffski, 2014).
Outro indicador utilizado foi o payback descontado, que determina o tempo necessário para que o investidor recupere o capital inicialmente aplicado, considerando o valor do dinheiro no tempo por meio da dedução da taxa de desconto (Silva, 2010). O uso do payback descontado confere maior rigor à análise em comparação ao payback simples. Além disso, aplicou-se o Índice de Lucratividade, que indica a quantidade de riqueza gerada para cada unidade monetária investida. O IL resulta da divisão do valor presente dos fluxos de caixa pelo investimento inicial. Um IL superior a 1 indica viabilidade, enquanto um valor inferior sugere a rejeição do projeto (Abreu Filho, 2018). Para mitigar riscos e incertezas, realizou-se uma análise de sensibilidade, técnica que avalia o impacto da variação de variáveis críticas, como receitas e investimentos, sobre o VPL e a TIR. Foram elaborados cenários pessimistas, prováveis e otimistas para compreender como mudanças nos dados de entrada afetam a orientação sobre a aceitação do negócio (Abreu Filho, 2018).
A estrutura operacional da clínica foi planejada para a região de Vila Mariana, em São Paulo, polo reconhecido pela alta concentração de serviços de saúde. O modelo de negócio foca em dois serviços principais: consultas cardiológicas e exames de ecocardiograma. A estrutura física prevista compreende uma sala de consulta, uma sala de exames, recepção com copa e banheiro, operando em imóvel locado. A equipe inicial contará com um médico cardiologista especializado em ecocardiografia, com jornada de oito horas diárias, e um atendente administrativo responsável por agendamentos, faturamento e suporte geral. A capacidade instalada permite a realização de até quatro exames por hora. O investimento inicial total foi apurado em R$ 381.900,00. Desse montante, o aparelho de ecocardiograma representa o item mais oneroso, correspondendo a 55% do total, ou R$ 210.000,00. Os custos com obras, adequação civil, marcenaria e mobiliário somam 30% do investimento, totalizando R$ 114.300,00. Outros itens incluem equipamentos de suporte (9%), softwares (1%), marketing inicial (3%) e licenças (2%).
O aparelho selecionado para o projeto é o Philips Affiniti 70, referência em diagnósticos rápidos e confiabilidade, com vida útil estimada entre 10 e 12 anos. Para a constituição legal, previu-se a abertura de CNPJ, inscrições municipais e obtenção de alvarás de funcionamento, vigilância sanitária e vistoria do corpo de bombeiros. A conformidade com as normas da ANVISA é essencial para garantir um ambiente seguro e possibilitar a equiparação hospitalar, o que pode conferir benefícios fiscais futuros. O investimento será realizado integralmente com capital próprio, sem necessidade de financiamentos externos. As despesas operacionais fixas foram estimadas em R$ 375.666,00 anuais, o que representa um custo médio mensal de R$ 31.305,50. Entre os principais gastos fixos estão o aluguel (R$ 8.000,00 mensais), pró-labore do gestor (R$ 11.000,00 mensais) e salários da recepção (R$ 3.552,00 mensais). Também foram provisionados gastos com energia, água, internet, contabilidade e manutenção.
Para garantir a cobertura de imprevistos, apropriou-se uma verba de 3% sobre os gastos fixos, totalizando R$ 10.942,00 anuais para custos eventuais. O marketing anual foi fixado em R$ 18.000,00 para divulgação em mídias sociais e materiais promocionais. Os reajustes anuais das despesas foram projetados com base no IPCA, utilizando dados do Relatório Focus. As projeções adotadas foram de 4,45% para o primeiro ano, 4,00% para o segundo e 3,80% para o terceiro, mantendo-se uma postura conservadora de 4,18% para os anos subsequentes. As despesas variáveis restringem-se aos honorários médicos, calculados sobre a produtividade: 25% do valor de cada exame e 30% do valor de cada consulta. Esses percentuais alinham-se às práticas de mercado em clínicas diagnósticas de São Paulo.
A projeção de receitas baseou-se na capacidade instalada e em um escalonamento de demanda. No primeiro e segundo anos, previu-se uma ocupação de 40% da capacidade. Nos anos 3 e 4, a ocupação sobe para 50%, atingindo 60% nos anos 5 e 6, e estabilizando em 70% a partir do sétimo ano. Os preços foram fixados em R$ 250,00 para o ecocardiograma e R$ 500,00 para a consulta, valores situados cerca de 25% abaixo do mercado para facilitar a penetração da nova clínica. O faturamento anual projetado para o primeiro ano é de R$ 581.250,00, alcançando R$ 1.646.214,10 no décimo ano. A operação considera 11 meses anuais de geração de receita, prevendo um mês de interrupção para férias da equipe e do proprietário. No campo tributário, optou-se pelo regime de Lucro Presumido, com alíquotas de 8% para IRPJ e 12% para CSLL sobre a receita bruta, além de PIS/COFINS (3,65%) e ISS (2%). A depreciação do equipamento foi calculada pelo método linear em 10 anos, com valor residual estimado em 30% do investimento inicial, ou R$ 63.000,00.
Ao analisar o custo de oportunidade, considerou-se que o capital de R$ 381.900,00, se aplicado em um produto financeiro que remunera 102% do CDI, resultaria em um rendimento líquido de R$ 1.011.652,40 após 10 anos, já descontado o imposto de renda de 15%. Esse valor serve como base de comparação para a viabilidade do negócio produtivo. O fluxo de caixa acumulado do projeto atingiu R$ 2.431.826,06 ao final de 10 anos. Os indicadores apurados revelaram um VPL de R$ 378.925,48, demonstrando que o projeto gera riqueza acima da taxa de atratividade de 20,20%. A TIR de 33,85% reforça a viabilidade, sendo significativamente superior à TMA. O Índice de Lucratividade de 1,99 indica que para cada real investido, o projeto retorna quase dois reais em valor presente. O payback descontado foi de seis anos e quatro meses, um período superior à meta ideal de cinco anos, mas justificável pela perenidade do negócio.
A análise de sensibilidade explorou variações no investimento inicial e nas receitas. No cenário onde o investimento inicial aumenta 10%, o VPL cai para R$ 340.735,48 e o payback sobe para seis anos e oito meses, mas o projeto permanece viável. Se houver uma redução de 10% no investimento, a TIR sobe para 36,19% e o payback cai para seis anos. Quanto às receitas, uma variação positiva de 5% eleva o VPL para R$ 557.319,19 e reduz o payback para cinco anos e quatro meses. Por outro lado, uma queda de 5% nas receitas reduz o VPL para R$ 200.531,77 e estende o payback para sete anos e oito meses. Em um cenário mais severo, com redução de 10% nas receitas, o VPL cai drasticamente para R$ 22.138,06 e a TIR recua para 21,04%, muito próxima da TMA, com um payback de nove anos e nove meses. Isso evidencia que o sucesso do negócio é altamente sensível ao volume de atendimentos e à precificação dos serviços.
A discussão dos resultados aponta que, apesar do investimento inicial elevado e do tempo de retorno superior a seis anos, a clínica apresenta robustez financeira. A localização estratégica e a especialização em cardiologia atendem a uma demanda crescente decorrente do envelhecimento populacional e da necessidade de medicina preventiva pós-pandemia. A gestão eficiente, focada no controle de custos fixos e na manutenção da qualidade técnica, é o diferencial para evitar a descontinuidade observada em muitas clínicas novas. A limitação do estudo reside na ausência de um histórico real de demanda, o que exigiu premissas conservadoras de escalonamento. Recomenda-se, para pesquisas futuras, a análise de parcerias com operadoras de planos de saúde, o que poderia acelerar a curva de aprendizado e a captação de pacientes, reduzindo o tempo de payback. Estratégias de marketing digital e a oferta de pacotes combinados de consulta e exame também podem alavancar a receita nos primeiros anos de operação.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise de viabilidade econômica demonstrou que a implantação da clínica médica especializada em cardiologia em São Paulo é um projeto viável e rentável. Os indicadores financeiros, com VPL positivo de R$ 378.925,48 e TIR de 33,85%, superam as expectativas de retorno baseadas no custo de oportunidade do mercado financeiro. Embora o payback descontado de seis anos e quatro meses exija fôlego financeiro do investidor, a perenidade do setor de saúde e a demanda reprimida por exames diagnósticos sustentam a decisão favorável à aceitação do projeto.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de MBA em Gestão de Negócios
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