12 de maio de 2026
Gestão da mudança e resistência ao ERP na hotelaria PME
Queslei Pereira Maciel; Marcelo Pereira da Silva
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O ambiente de negócios contemporâneo é caracterizado por transformações aceleradas, uma competitividade intensificada e a exigência constante por inovação tecnológica. Nesse cenário, as organizações buscam adaptações contínuas para sustentar a relevância e a viabilidade de suas operações no mercado. A tecnologia da informação assume um papel central nesse movimento, provendo ferramentas para a automação de rotinas, o aumento da produtividade e o fortalecimento da capacidade de tomada de decisão (Laudon e Laudon, 2021). Entre as soluções tecnológicas de maior impacto estão os sistemas de Enterprise Resource Planning, conhecidos como ERP, que foram concebidos para integrar processos organizacionais em uma base de dados unificada. Essa integração elimina redundâncias e promove a consistência das informações, consolidando os ERPs como instrumentos estratégicos para a gestão e o planejamento empresarial (Davenport, 2001). No setor hoteleiro, especificamente em empreendimentos de pequeno e médio portes, a adoção desses sistemas representa um diferencial competitivo significativo. Estudos indicam que hotéis que utilizam sistemas integrados conseguem reduzir custos operacionais, aprimorar a experiência do hóspede e elevar a eficiência no uso de recursos humanos e materiais (Barbieri e Sott, 2024).
Dados setoriais recentes revelam que aproximadamente 68% dos hotéis localizados na América Latina já fazem uso de algum tipo de software de gestão, embora menos da metade desses estabelecimentos consiga atingir uma integração plena entre seus diversos departamentos (Hospitality Technology Report, 2023). Apesar do potencial de otimização, a implantação de sistemas ERP em hotéis de menor porte enfrenta obstáculos severos. A literatura especializada aponta que uma parcela considerável desses projetos não consegue cumprir prazos, respeitar orçamentos ou atender às expectativas dos usuários finais (Gomes et al., 2019). Mais do que falhas técnicas, a barreira preponderante é de ordem humana e organizacional, manifestando-se como resistência à mudança (Robbins et al., 2005). Essa resistência pode ser classificada em diferentes vertentes: cultural, quando há um apego excessivo a métodos tradicionais; emocional, ligada ao receio de substituição ou perda de autonomia; técnica, resultante da falta de familiaridade com novas ferramentas; e estrutural, quando inexiste suporte adequado da liderança ou planejamento (Burnes et al., 2004). Para hotéis de gestão familiar ou enxuta, tais aspectos são críticos devido à escassez de recursos para consultorias e treinamentos (Riley, 1997).
A trajetória histórica dos sistemas ERP remonta aos anos 1960, com o surgimento do Material Requirements Planning para sincronizar estoques e produção (Davenport, 1998). Na década de 1980, evoluíram para o Manufacturing Resource Planning, integrando funções financeiras e de compras (Laudon e Laudon, 2021). O salto conceitual dos anos 1990 consolidou o ERP como plataforma integrada que permite o fluxo de informações em tempo real, reduzindo fricções organizacionais. Atualmente, a arquitetura desses sistemas organiza-se em módulos interdependentes, como financeiro, contábil, vendas, recursos humanos e estoque, padronizando procedimentos (Somers e Nelson, 2004). A evolução tecnológica recente deslocou o modelo on-premise para ofertas em nuvem, conhecidas como Software as a Service, o que proporciona escalabilidade e redução de custos de infraestrutura, tornando a tecnologia atraente para pequenas e médias empresas (Barbieri e Sott, 2024). No campo da hospitalidade, coexistem duas trajetórias: a integração de um Property Management System especializado ao backoffice de um ERP financeiro, ou o uso de um ERP com vertical de serviços que incorpora processos hoteleiros nativamente (Martínez et al., 2006).
A condução deste estudo fundamentou-se na modalidade de pesquisa aplicada, com abordagem qualitativa e natureza exploratória. A pesquisa aplicada visa gerar conhecimentos para a solução de problemas concretos e demandas práticas (Gil, 2019). A opção pela abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de explorar significados, percepções e experiências em contextos sociais complexos, uma vez que o fenômeno da resistência organizacional não pode ser plenamente compreendido apenas por métricas quantitativas (Creswell, 2014). O delineamento exploratório foi adotado para proporcionar maior familiaridade com o tema e mapear estratégias pouco sistematizadas no setor hoteleiro (Gil, 2019). A coleta bibliográfica ocorreu entre janeiro e julho de 2025, abrangendo bases como Scielo, Google Scholar, Scopus e ScienceDirect, além de repositórios institucionais como o Portal CAPES e o MIT Open Access Articles. Foram utilizados descritores em português e inglês, incluindo termos como ERP em hotelaria, implantação de sistemas ERP e resistência à mudança organizacional. O recorte temporal priorizou publicações entre 2019 e 2024, período de aceleração da transformação digital, sem ignorar autores clássicos como Lewin (1951), Kotter (1996) e Davenport (1998).
O processo de seleção resultou na identificação inicial de 181 publicações. Após a triagem de títulos e resumos, 62 textos foram selecionados para leitura integral, dos quais 28 compuseram a análise final. Os critérios de inclusão consideraram a pertinência temática direta, a relevância acadêmica e a aplicabilidade prática ao contexto de pequenas e médias organizações. Estudos estritamente técnicos sobre funcionalidades de software foram excluídos. O tratamento dos dados seguiu a técnica de análise de conteúdo categorial (Bardin, 2011), organizando as informações em cinco eixos fundamentais: tipos de resistência encontrada, origem da resistência, práticas de gestão da mudança aplicadas, resultados das estratégias e lições aprendidas. A categorização foi realizada manualmente com o auxílio de planilhas eletrônicas, preservando o caráter interpretativo da análise. Esse rigor metodológico assemelha-se ao adotado por pesquisadores que investigaram casos de sucesso na hotelaria espanhola, identificando fatores críticos específicos do setor (Martínez et al., 2006). Estudos de caso demonstram que a compreensão profunda da resistência exige análises contextuais, visto que o fenômeno é multifacetado (Okumus e Hemmington, 2005).
Os resultados indicam que o avanço da digitalização na hotelaria é uma realidade crescente, mas a integração plena ainda é um desafio para mais de 50% dos estabelecimentos (Hospitality Technology Report, 2023). A resistência à mudança manifesta-se em níveis micro, como inseguranças individuais, e macro, como rigidez estrutural (Khaw, 2022). As reações dividem-se em dimensões cognitivas, afetivas e comportamentais (Deng et al., 2023). A análise dos dados coletados permitiu quantificar a distribuição dos tipos de resistência em projetos de ERP no setor: a resistência cultural é a mais prevalente, atingindo 35% dos casos, seguida pela emocional com 25%, enquanto as resistências técnica e estrutural representam 20% cada. A resistência cultural manifesta-se pelo apego a métodos tradicionais e desconfiança na tecnologia, enquanto a emocional liga-se ao medo da perda de controle. A barreira técnica decorre da baixa vivência tecnológica das equipes, e a estrutural associa-se a falhas de planejamento e liderança (Wang et al., 2024). O êxito da implantação depende, portanto, da forma como o processo de transição é conduzido, superando barreiras persistentes ligadas ao poder hierárquico e normas de grupo (Cheraghi, 2023).
Casos reais ilustram a eficácia de estratégias estruturadas. No Hotel Solar das Palmeiras, em Minas Gerais, a implantação do sistema enfrentou forte resistência técnica de funcionários antigos. A adoção de um modelo baseado no ADKAR, que foca em consciência, desejo, conhecimento, habilidade e reforço (Hiatt e Creasey, 2012), permitiu que a taxa de uso efetivo do sistema saltasse de 22% para 87% em apenas seis meses. Esse resultado corrobora a eficácia de treinamentos híbridos e gamificados, que podem aumentar em 35% a retenção de conhecimento em equipes de serviços (Lee e Kim, 2022). Outro exemplo relevante é o do Hotel Praia Sul, no Rio Grande do Norte, que aplicou o modelo de oito etapas de Kotter (1996). A gerência iniciou o processo criando um senso de urgência por meio de uma campanha interna sobre os riscos de manter processos manuais. A formação de uma coalizão com representantes de diversas áreas garantiu o engajamento necessário. Uma vitória de curto prazo celebrada foi a automatização da lavanderia, que gerou uma economia de 20% nos meses iniciais, reforçando a confiança da equipe no novo sistema. A liderança simbólica e a celebração de conquistas são fundamentais para reduzir resistências afetivas (Pinto e Castilho, 2021).
No Eco Hotel Serra Verde, em Santa Catarina, os obstáculos incluíam infraestrutura deficiente e baixa qualificação digital. A solução foi uma implantação escalonada com apoio técnico presencial e treinamentos contínuos. Em oito meses, o hotel automatizou processos administrativos e reduziu em 30% o retrabalho operacional. Esses achados estão alinhados à premissa de que implantações em nuvem para pequenas empresas, quando realizadas em ciclos, aumentam a sustentabilidade do projeto (Barbieri e Sott, 2024). A análise crítica revela que a resistência não gerenciada é uma das principais causas de insucesso, com 50% a 60% das implantações falhando parcial ou totalmente em empresas de menor porte (Panorama Consulting, 2022). A persistência na formação da equipe e o acompanhamento próximo geram resultados concretos. Por exemplo, na Estância Pedra Branca, o tempo médio de check-in foi reduzido de seis para três minutos após a implantação. No Refúgio do Cerrado, os erros operacionais caíram de 45% para 25%. Tais indicadores reforçam que o uso de metodologias estruturadas eleva as taxas de sucesso: apenas 27% dos projetos sem gestão da mudança atingem objetivos, contra 73% quando técnicas de engajamento são aplicadas (Panorama Consulting, 2022).
A resistência não deve ser vista como inimiga, mas como um sinal de que os colaboradores necessitam de tempo e clareza para a adaptação (Warrick, 2023). Falhas de comunicação são riscos primordiais na implantação de ERPs em hotéis (Gomes, Soares e Lima, 2019). A criação de canais transparentes e o fornecimento de feedback contínuo minimizam rumores e ansiedades (Khaw, 2022). A cultura organizacional atua como aceleradora ou inibidora; em hotéis familiares, as relações informais podem gerar resistências invisíveis e profundas (Okumus e Hemmington, 2005). Quando os valores culturais são respeitados e alinhados aos objetivos estratégicos, a cultura torna-se uma aliada (Schein, 2010). O papel dos fornecedores também é determinante, especialmente quando adotam abordagens consultivas e oferecem diagnósticos de maturidade digital (Martínez et al., 2006). Fornecedores que atuam como parceiros aumentam as chances de êxito em pequenas empresas (Barbieri e Sott, 2024). A capacitação deve ir além de manuais, utilizando vídeos curtos e sessões práticas, conforme sugerem as dimensões de conhecimento e habilidade do modelo ADKAR (Hiatt e Creasey, 2012).
Iniciativas como semanas temáticas, desafios gamificados e ações simbólicas de reconhecimento transformam a resistência em motivação. Contudo, observa-se uma carência de indicadores claros em muitos projetos; a ausência de métricas compromete a efetividade da gestão (Aladwani, 2021). Indicadores objetivos, como a taxa de uso dos módulos e o retorno sobre o investimento, dão clareza sobre os resultados esperados e reduzem resistências cognitivas (Deng et al., 2023). A experiência acumulada confirma que a resistência à mudança é um fenômeno previsível e gerenciável, sinalizando rupturas que exigem empatia e liderança. O sucesso de um ERP não reside exclusivamente na qualidade técnica da ferramenta, mas na solidez das relações humanas que sustentam sua adoção. A gestão da mudança consolida-se como o eixo estruturante para qualquer transformação tecnológica na hotelaria de pequeno e médio portes, convertendo o potencial técnico em resultado sustentável (Aladwani, 2021). A integração entre pessoas, processos e plataforma deve ocorrer em cadência para que projetos tecnicamente corretos se tornem histórias de sucesso.
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao identificar que a resistência à mudança em hotéis de pequeno e médio portes é um fenômeno multidimensional que abrange aspectos culturais, emocionais, técnicos e estruturais. A análise evidenciou que a eficácia da implantação de sistemas ERP depende diretamente da aplicação de estratégias de gestão da mudança, como os modelos ADKAR e as oito etapas de Kotter, que mitigam barreiras humanas e potencializam a adesão tecnológica. Constatou-se que o envolvimento das equipes desde os estágios iniciais, a comunicação transparente dos benefícios e o suporte contínuo são determinantes para o sucesso operacional e financeiro, exemplificado pela redução de retrabalho e otimização de tempos de atendimento. O estudo reforça a necessidade de diagnósticos prévios de maturidade digital e do investimento em treinamentos participativos e gamificados para superar o apego a métodos tradicionais. Por fim, a adaptação de boas práticas de grandes corporações ao contexto da hotelaria independente, aliada ao reconhecimento público de lideranças internas, mostra-se indispensável para garantir que a transição tecnológica resulte em uma transformação organizacional sustentável e competitiva.
Referências Bibliográficas:
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Creswell, J. W. 2014. Research design: Qualitative, quantitative, and mixed methods approaches. 4. ed. Thousand Oaks, CA, United States.
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Gil, A. C. 2019. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Gomes, A.; Soares, F.; Lima, R. 2019. Gestão de riscos na adoção de sistemas ERP: um estudo de caso em hotelaria. Revista Brasileira de Sistemas de Informação 15(1): 56-71.
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Kotter, J. P. 1996. Leading Change. Harvard Business Review Press. Boston, MA, United States.
Laudon, K. C.; Laudon, J. P. 2021. Sistemas de Informação Gerenciais. 15. ed. Pearson, São Paulo, SP, Brasil.
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Martínez, J. A.; Péres, A. L.; Gómez, R. 2006. ERP Implementation in the Hotel Industry: Case studies and analysis. International Journal of Hospitality Management 25(3): 585-598.
Riley, M.; Lockwood, A. 1997. Strategies and structures in the hotel industry. International Journal of Hospitality Management 16(4): 337-345.
Robbins, S. P. 2005. Comportamento Organizacional. 11. ed. Pearson, São Paulo, SP, Brasil.
Somers, T. M.; Nelson, K. 2004. The Impact of Critical Success Factors across the Stages of Enterprise Resource Planning Implementations. Proceedings of the Hawaii International Conference on System Sciences [HICSS], Hawaii 37: 8026-8035.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq
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