Resumo Executivo

12 de maio de 2026

DMAIC aplicado à otimização do desembaraço aduaneiro logístico

Priscila Regina de Oliveira Lima; Luís Felipe Vendramim

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O crescimento da economia global promoveu um aumento significativo no comércio internacional e, consequentemente, na complexidade das operações de transporte e logística. Dentro desse cenário, a nacionalização de mercadorias surge como uma etapa fundamental, compreendendo a liberação realizada pela alfândega para a entrada ou saída de bens de um país, sendo caracterizada como a fase final dos processos de comércio exterior (Mendes, 2022). No território brasileiro, o desembaraço aduaneiro é regido por normas estritas e pelo sistema da Receita Federal do Brasil, operado por meio do Sistema Integrado do Comércio Exterior. A eficiência dessa etapa está intrinsecamente ligada à qualidade do fornecimento de informações sobre o status atual do embarque, uma vez que atualizações tardias geram falhas na visibilidade e na transparência ao longo da cadeia de suprimentos (Wurst, 2021). Para que uma rede logística funcione em seu potencial máximo, a disponibilidade de dados relevantes em tempo real é considerada essencial para a tomada de decisão estratégica (Christopher, 2011).

A busca pela excelência operacional no setor logístico envolve a simplificação de processos, o aumento da confiabilidade e a redução da variabilidade e complexidade das operações (Christopher, 2011). Para tratar ineficiências crônicas, utiliza-se o conceito de melhoria contínua, sendo o Six Sigma uma das abordagens mais difundidas. Essa metodologia atua tanto como um sistema de gestão para a melhoria de processos quanto como um conceito estatístico que auxilia na compreensão da variação inerente a qualquer atividade operacional (Setter, 2018). O Six Sigma fundamenta-se no uso de indicadores-chave de desempenho para mensurar a qualidade, utilizando frequentemente o método DMAIC, que se divide nas etapas de definição, medição, análise, melhoria e controle (Rushton et al., 2014). A aplicação de medidas eficazes garante o monitoramento adequado e o reporte preciso às partes interessadas, auxiliando no rastreio e na avaliação do status de projetos, o que reduz a probabilidade de deterioração do desempenho organizacional (PMI, 2021). No contexto do desembaraço aduaneiro, o indicador de liberação da carga é crítico, iniciando-se com a chegada da mercadoria e o registro da Declaração de Importação na Receita Federal, seguido pela conferência documental e, se necessário, verificação física, culminando na emissão do comprovante de importação pelo Siscomex (Oliveira, 2021). O objetivo central reside na implementação do método DMAIC para alcançar melhorias robustas nos indicadores de desembaraço aduaneiro de uma organização logística, analisando como ferramentas de melhoria contínua impactam positivamente esses resultados.

A execução da pesquisa ocorreu em uma empresa do setor logístico situada na cidade de São Paulo, especializada em serviços de desembaraço aduaneiro. O procedimento metodológico adotou uma abordagem participativa, na qual houve atuação direta em cada etapa do ciclo junto ao grupo de trabalho interno (Thiollent, 2025). O estudo possui caráter exploratório, descritivo e explicativo, utilizando métodos quantitativos para a análise estatística de dados e métodos qualitativos para a interpretação dos fenômenos observados (Severino, 2017). Na primeira fase, denominada definição, utilizou-se o charter do projeto para sintetizar informações cruciais, como a declaração do problema, metas, membros da equipe e escopo (The Council for Six Sigma Certification, 2018). A voz do cliente foi convertida em requisitos críticos para a qualidade, permitindo que o feedback externo se tornasse um dado mensurável para orientar a performance interna (Setter, 2018). Complementarmente, a ferramenta SIPOC foi aplicada para identificar fornecedores, entradas, processos, saídas e clientes, garantindo que todas as partes interessadas fossem mapeadas (Keller e Pyzdek, 2004). A análise de stakeholders permitiu entender a posição de cada equipe impactada, identificando possíveis defensores ou detratores do projeto (Martin, 2021).

Na fase de medição, o foco recaiu sobre a quantificação do problema e a validação das premissas iniciais. Utilizou-se a matriz de medição de saídas para correlacionar os requisitos críticos com métricas de desempenho específicas, como o percentual de embarques com liberação registrada no prazo e o intervalo de tempo de atraso. O plano de coleta de dados estabeleceu definições operacionais precisas, estratégias de amostragem e a periodicidade da coleta, que ocorreu semanalmente durante 60 dias (John et al., 2008). A visualização dos dados foi realizada por meio de representações gráficas, como histogramas e gráficos de pizza, permitindo a análise da distribuição temporal dos eventos (The Council for Six Sigma Certification, 2018). Para determinar a capacidade do processo, calculou-se o nível Sigma, utilizando o desvio padrão para estimar a variação em relação aos requisitos do cliente. Um processo operando em nível Six Sigma admite apenas 3,4 defeitos por milhão de oportunidades, servindo como parâmetro de excelência (Keller e Pyzdek, 2004).

A etapa de análise buscou identificar as causas-raiz das falhas identificadas. Aplicou-se o diagrama de causa e efeito, organizando as variáveis de entrada nas categorias conhecidas como 6Ms: meio ambiente, máquinas, métodos, medições, materiais e mão de obra (Keller e Pyzdek, 2004). Essa análise foi aprofundada com o desenho do fluxo do processo atual para identificar gargalos e responsabilidades (Keller e Pyzdek, 2004). A matriz de medição relacionada à causa permitiu quantificar a relação entre as variáveis de entrada e as métricas de saída, utilizando uma escala de pontuação para validar quais causas exerciam maior influência no problema (John et al., 2008). Antes de avançar, a matriz de fechamento de análise quantificou a oportunidade de melhoria caso as causas-raiz fossem eliminadas. Na fase de melhoria, a equipe desenvolveu soluções por meio de sessões de brainstorming, classificando-as em uma matriz de esforço e benefício. Essa ferramenta priorizou ideias de alto impacto e baixo esforço, conhecidas como acertos rápidos, enquanto soluções mais complexas foram planejadas para prazos mais longos (George, 2010). O desenho do processo alvo e a criação de um plano de implementação detalhado, com responsáveis e prazos, garantiram a estrutura necessária para a execução das mudanças (John et al., 2008).

A fase final, de controle, estabeleceu indicadores para assegurar a sustentabilidade das melhorias. A documentação do novo processo foi institucionalizada para garantir a padronização e a comunicação clara das novas responsabilidades. O diagrama de gerenciamento do processo foi criado para monitorar os indicadores continuamente e definir planos de reação imediatos caso ocorressem desvios (John et al., 2008). O encerramento formal ocorreu com a apresentação do relatório de fechamento, consolidando os resultados obtidos e transferindo a responsabilidade da manutenção do processo para o seu respectivo dono.

Nos resultados da fase de definição, o charter do projeto revelou que 48,09% dos embarques aéreos de importação não apresentavam a marcação de desembaraço aduaneiro no sistema dentro do prazo esperado. O problema impactava diretamente a visibilidade do cliente em tempo real. A meta estabelecida foi elevar esse indicador para 72%, o que representava a redução de 50% da lacuna existente entre a performance atual e a meta global da empresa de 95%. O escopo delimitou-se a embarques aéreos de importação sob responsabilidade da empresa, com documentos processados ou carga recebida no aeroporto de destino após três dias. O requisito crítico para o cliente foi definido como o registro de cada marco de liberação aduaneira no sistema em até 12 horas após a concessão real pela Receita Federal. O mapeamento pelo SIPOC detalhou que o processo iniciava com a inserção da operação no sistema, seguida pelo envio ao sistema aduaneiro de importação, verificação documental, registro da Declaração de Importação e, por fim, a baixa da liberação aduaneira.

Durante a medição, a coleta de dados em 559 embarques identificou 264 defeitos, resultando em um rendimento de 52,8%. Os indicadores de performance revelaram um DPMO de 472.272 e um índice de defeitos por unidade de 0,47. O nível Sigma do processo foi calculado em 1,57, confirmando uma ineficiência significativa e uma alta variabilidade que não atendia aos requisitos de pontualidade. A análise visual por meio de histogramas demonstrou que a maior parte dos atrasos concentrava-se em intervalos superiores a 28,54 horas, evidenciando que o processo estava operando muito além do limite de 12 horas estabelecido como crítico.

Na fase de análise, a dinâmica de causa e efeito e a técnica dos cinco porquês revelaram que a principal causa-raiz era a falha no procedimento operacional de registro de clientes no sistema de importação. Identificou-se que a operação não solicitava os dados mestres necessários, resultando na ausência do centro de serviços de aduanas no registro do embarque. A matriz de medição relacionada à causa confirmou uma correlação forte, com pontuação 9, entre essa falha e o descumprimento do prazo de registro. Outra causa validada foi a não atualização do status de visibilidade da aduana no momento correto, apresentando uma correlação média com os atrasos. A matriz de fechamento indicou que a eliminação da falha no registro de clientes contribuiria com aproximadamente 43% das oportunidades de melhoria para atingir a meta de pontualidade.

As soluções propostas na fase de melhoria focaram na automação e na capacitação. A primeira ação consistiu no mapeamento de todos os clientes que utilizam o serviço de frete aéreo e desembaraço para que o sistema direcione as informações automaticamente, eliminando a dependência da intervenção manual da equipe de operações. Outra solução implementada foi o treinamento sistemático da equipe sobre a importância dos marcos temporais, especialmente o registro que indica o início de um novo processo. A matriz de esforço e benefício classificou o mapeamento de clientes e o treinamento como ações de alto benefício e baixo a médio esforço, sendo priorizadas para implementação imediata. O plano de ação detalhou a reunião de operações, a atualização da base de dados e o acompanhamento com usuários multiplicadores. Uma solução envolvendo o ajuste de intercâmbio eletrônico de dados foi planejada, porém mantida em pausa devido à necessidade de coordenação externa com órgãos alfandegários, com previsão de execução em longo prazo.

Na etapa de controle, a implementação do diagrama de gerenciamento do processo permitiu o monitoramento semanal do percentual de remessas registradas no prazo. Os gráficos de controle gerados após as intervenções demonstraram uma mudança drástica na performance. O processo, que antes operava com 51,91% de pontualidade, atingiu o patamar de 90% de conformidade ao final do projeto. Esse resultado superou significativamente a meta inicial de 72%. A estabilidade alcançada foi evidenciada pela redução da variabilidade nos tempos de registro, garantindo que a visibilidade das informações para o cliente final fosse mantida dentro dos padrões de qualidade exigidos. A documentação atualizada e a formalização dos novos métodos de trabalho asseguraram que as melhorias fossem institucionalizadas, evitando o retorno às práticas ineficientes anteriores.

A discussão dos resultados demonstra que a aplicação estruturada do DMAIC foi determinante para a reversão do cenário de baixa performance. A identificação de que o processo operava em um nível Sigma de apenas 1,57 destacou a urgência de intervenções baseadas em dados, e não em suposições gerenciais. A disparidade entre a performance inicial e a meta global de 95% evidenciou um gap de qualidade que comprometia a competitividade da empresa. Ao focar na causa-raiz de maior impacto, o registro de clientes, a organização conseguiu obter ganhos rápidos e sustentáveis. A implicação prática dessa melhoria reflete-se na maior transparência da cadeia de suprimentos, permitindo que os clientes finais tenham previsibilidade sobre a disponibilidade de suas mercadorias. Socialmente, a eficiência nos processos de comércio exterior contribui para a agilidade do fluxo de bens no país, reduzindo custos logísticos indiretos.

As limitações observadas durante o estudo incluíram a dificuldade de conciliar as agendas das equipes para as sessões de treinamento e a dependência de aprovações gerenciais que, em alguns momentos, impactaram a velocidade de execução do plano de ação. Além disso, a integração tecnológica com sistemas externos de órgãos governamentais apresentou desafios técnicos que exigiram soluções de contorno temporárias, como a inclusão de notas manuais pela equipe de operações enquanto a automação completa via EDI não era finalizada. Para pesquisas futuras, sugere-se a investigação da aplicação de ferramentas de inteligência artificial para a detecção preditiva de atrasos no desembaraço aduaneiro, bem como o estudo do impacto da cultura organizacional na manutenção de projetos de Six Sigma a longo prazo.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a implementação do método DMAIC permitiu a otimização dos indicadores de desembaraço aduaneiro na empresa logística estudada. A pesquisa comprovou que a utilização de ferramentas de melhoria contínua, como o diagrama de causa e efeito e a matriz de esforço e benefício, é capaz de elevar significativamente a performance operacional, saindo de um nível Sigma de 1,57 para uma pontualidade de 90%. O projeto não apenas superou a meta estabelecida de 72%, mas também consolidou uma estrutura de controle que garante a sustentabilidade dos resultados. A abordagem sistemática para identificação e eliminação de causas-raiz demonstrou ser um diferencial estratégico para a excelência na gestão de processos logísticos complexos.

Referências Bibliográficas:

Certification, T. C. 2018. Six Sigma Green Belt Certification: Training Manual. 2018 Edition. Harmony Living, LLC. Buffalo, WY, EUA.

Christopher, M. 2011. Logistics and supply chain management: creating value-adding networks. 4 Ed. Pearson Education Limited, Harlow, Essex, Reino Unido.

George, M. O. 2010. The Lean Six Sigma Guide to Doing More With Less: Cut Costs, Reduce Waste, and Lower Your Overhead. Wiley. 1 Ed. Willey, Hoboken, NJ, EUA.

John, A.; Meran, R.; Roenpage, O.; Staudter, C. 2008. Six sigma+ lean toolset: Executing improvement projects successfully. 1 Ed. Springer, Frankfurt, Alemanha.

Keller, P.; Pyzdek, T. 2004. Six Sigma Demystified: a self-teaching guide. 1 Ed. McGraw-Hill, New York, NY, EUA.

Martin, J. W. 2021. Lean six sigma for the office: integrating customer experience. 2 Ed. Productivity Pr, Boca Raton, FL, EUA.

Mendes, G. S. 2022. Fundamentos de comércio exterior: termos técnicos.1 Ed. Editora Intersaberes, Curitiba, PR, Brasil.

Oliveira, L. H. 2021. Comércio Exterior: fundamentos e organização. 1 Ed. Editora Universitária UNIFAE, São João da Boa Vista, SP, Brasil.

PMI. 2021. Guia do Conhecimento em Gerenciamento de Projetos. Guia PMBOK. 7 Ed. Project Management Institute, São Paulo, SP, Brasil.

Rushton, A.; Croucher, P.; Baker, P. 2014. The handbook of logistics and distribution management: understanding the supply chain. 5 Ed. Kogan Page Limited, Londres, Reino Unido.

Setter, C. J. 2018. Six Sigma: A Complete Step-by-step Guide: a Complete Training & Reference Guide for White Belts, Yellow Belts, Green Belts, and Black Belts. 2018 Ed. Harmony Living, LLC, Buffalo, WY, EUA.

Severino, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. Cortez editora, 2017.

Thiollent, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. Cortez editora, 2025.

Wurst, C. A. 2021. Disrupting Logistics: Startups, Technologies, and Investors Building Future Supply Chains.1 Ed. Springer, Zurich, Switzerland.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Quem editou este artigo

Mais recentes

Você também pode gostar

Quer ficar por dentro das nossas últimas publicações? Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade