Artigo

27 de outubro de 2026

Desafios na operacionalização do crédito rural: percepção de funcionários de uma instituição financeira no Sudeste brasileiro

Thaís Bonini Herefeld; Murilo Henrique Tank Fortunato

DOI: 10.22167/2675-6528-202601461

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O crédito rural constitui um instrumento crucial da política agrícola brasileira, essencial para a viabilização dos ciclos produtivos agropecuários e o desenvolvimento do setor. Apesar de sua relevância, a operacionalização do crédito rural enfrentou desafios significativos nas instituições financeiras, decorrentes da complexidade normativa, burocracia documental e riscos inerentes à atividade agrícola. Nesse contexto, o estudo objetivou analisar a percepção de funcionários de uma instituição financeira sobre o processo de liberação do crédito rural, identificando dificuldades, desafios operacionais e oportunidades de melhoria. Adotou-se uma abordagem quantitativa de caráter descritivo, com aplicação de questionário estruturado a 37 funcionários que atuam direta ou indiretamente na concessão de crédito rural. A amostra foi intencional, e os dados foram analisados de forma descritiva, com apoio de tabulação e representação gráfica. Os resultados indicaram que os principais desafios enfrentados pelas instituições financeiras relacionaram-se ao excesso de burocracia, exigência de garantias, análise de risco, limitação de autonomia dos agentes e necessidade de maior capacitação técnica. Fatores externos, como endividamento dos produtores, eventos climáticos adversos e elevados custos de produção, também impactaram negativamente o acesso ao crédito. Concluiu-se que o aprimoramento dos processos internos, aliado à capacitação contínua dos profissionais e à articulação entre agentes reguladores e instituições financeiras, pode contribuir para tornar o crédito rural mais eficiente e acessível.

Palavras-chave: Agronegócio; Burocracia; Política agrícola.

1. Introdução

O crédito rural representa um pilar fundamental da política agrícola brasileira, configurando-se como um instrumento indispensável para o fomento e a sustentabilidade dos ciclos produtivos agropecuários e para o desenvolvimento econômico do setor (Ramos, 2010). Sua importância é corroborada pelo volume expressivo de recursos alocados anualmente. Por exemplo, o Plano Safra, principal política pública de financiamento da agropecuária, previu um montante de R$ 4,17 bilhões em 2025, com R$ 3,53 bilhões destinados a operações de custeio, comercialização e investimento, e R$ 645,7 milhões para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (BRASIL, Medida Provisória nº 1.289/2025). Conforme detalhado pelo Banco Central do Brasil (2023) em seu Manual de Crédito Rural, as finalidades desse crédito são amplas, abrangendo desde o custeio das despesas normais de produção até investimentos em bens e serviços, passando pela comercialização e industrialização de produtos agropecuários, especialmente quando realizada por cooperativas ou pelo próprio produtor. Essa abrangência demonstra a capilaridade e o impacto direto do crédito rural na cadeia produtiva, desde a pequena propriedade familiar até grandes empreendimentos.

Apesar de sua relevância inquestionável, a operacionalização do crédito rural é permeada por desafios complexos no ambiente das instituições financeiras. A literatura especializada aponta que a complexidade normativa e a burocracia documental são entraves significativos, elevando os custos de transação e a percepção de risco, especialmente para produtores de menor porte (Bittencourt, Oliveira e Souza, 2018). A assimetria de informações entre os agentes financeiros e os produtores rurais, por exemplo, dificulta a avaliação precisa do risco e a adequação das ofertas de crédito às necessidades específicas de cada perfil produtivo. Além disso, o rigoroso cumprimento das normas estabelecidas pelo Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), embora essencial para a boa governança e aplicação dos recursos, pode gerar processos morosos e inflexíveis, comprometendo a agilidade e a eficiência da concessão (Silva e Alves, 2019). As instituições financeiras, por sua vez, operam em uma dualidade, buscando conciliar os objetivos de desenvolvimento econômico e social inerentes à política pública com a necessidade de sustentabilidade financeira e gestão de riscos, o que impacta diretamente a atuação de seus funcionários na análise e liberação do crédito (Araújo e Meyer, 2020).

Observa-se, no contexto brasileiro, que a persistência de gargalos na operacionalização do crédito rural não se restringe a aspectos pontuais, mas reflete uma dinâmica sistêmica e multifatorial. Dados empíricos e estudos prévios indicam que o excesso de burocracia e a exigência de garantias adequadas figuram entre os principais obstáculos ao acesso ao financiamento, especialmente para agricultores familiares que frequentemente possuem limitações patrimoniais (Gaspar, Silva e Nascimento, 2024; Abramovay, 1997). A análise de risco, intrínseca à atividade agrícola e às condições de mercado, também se apresenta como um desafio constante, influenciada por fatores externos como o endividamento dos produtores, eventos climáticos adversos e a volatilidade dos custos de produção (Buainain et al., 2007; Melo et al., 2017). A limitação da autonomia dos agentes financeiros e a necessidade de maior capacitação técnica para lidar com a complexidade do setor também são frequentemente apontadas como fatores que impactam a eficiência e a qualidade do processo de concessão (Gomes et al., 2021). Esses elementos, quando combinados, criam um ambiente de incerteza e dificultam a plena efetivação do crédito rural como ferramenta de desenvolvimento, reforçando a necessidade de aprimoramentos contínuos nos processos internos e na articulação entre os diversos atores envolvidos.

Diante da complexidade e dos desafios inerentes à operacionalização do crédito rural, e considerando a lacuna de estudos que abordam a perspectiva interna das instituições financeiras sobre esses entraves, torna-se fundamental investigar a percepção dos profissionais diretamente envolvidos no processo. Compreender as dificuldades, os desafios operacionais e as oportunidades de melhoria sob o ponto de vista de quem atua na linha de frente da concessão de crédito pode oferecer subsídios valiosos para o aprimoramento das políticas e práticas. Assim, o presente estudo objetiva analisar a percepção de funcionários de uma instituição financeira sobre o processo de liberação do crédito rural, identificando as dificuldades, os desafios operacionais e as oportunidades de melhoria para tornar esse instrumento mais eficiente e acessível.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de abordagem quantitativa e de natureza descritiva, conforme as diretrizes metodológicas propostas por Maia (2020). Essa escolha permitiu a coleta e análise de dados numéricos para descrever as características de uma população ou fenômeno, sem a intenção de estabelecer relações de causalidade. A abordagem descritiva é particularmente adequada para investigar percepções e identificar padrões, fornecendo uma compreensão detalhada do objeto de estudo (Creswell, 2014; Gil, 2019). Os procedimentos adotados visaram a uma descrição objetiva e sistemática dos dados coletados, fundamentando a análise das percepções dos participantes sobre o crédito rural.

A pesquisa foi desenvolvida no contexto de uma instituição financeira atuante no Sudeste brasileiro, região que concentra parte significativa das operações de crédito rural no país. O período de coleta de dados estendeu-se de 26 de dezembro de 2025 a 26 de janeiro de 2026, abrangendo um mês de levantamento de informações. A unidade de análise do estudo consistiu nas percepções e experiências de funcionários dessa instituição, diretamente envolvidos ou com atuação indireta no processo de concessão de crédito rural. Essa delimitação geográfica e temporal permitiu focar na realidade operacional específica da instituição investigada.

A população do estudo foi composta por funcionários de uma instituição financeira que atuam direta ou indiretamente na operacionalização do crédito rural. A amostra foi definida de forma intencional e não probabilística, selecionando-se profissionais que possuíam conhecimento e experiência relevantes sobre o tema. Foram obtidos 37 questionários válidos, representando os respondentes que participaram voluntariamente da pesquisa. Os critérios de seleção incluíram a atuação em unidades estratégicas ou na rede de agências da instituição, garantindo a inclusão de diferentes perspectivas sobre o processo de liberação do crédito agrícola.

A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, elaborado para capturar a percepção dos funcionários sobre o crédito rural. O instrumento foi dividido em seções, iniciando com a caracterização sociodemográfica e profissional dos respondentes. Essa parte incluiu questões sobre faixa etária, gênero, tempo de atuação na empresa, experiência específica em crédito agrícola, cargo e área de atuação. O objetivo foi contextualizar as respostas e compreender como o perfil dos participantes poderia influenciar suas percepções, fornecendo uma base sólida para a interpretação dos dados coletados.

O questionário prosseguiu com questões focadas nos aspectos centrais do processo de concessão de crédito rural, buscando identificar os principais gargalos operacionais. Foram abordados temas como burocracia, análise de crédito, recursos humanos, integração de sistemas e autonomia decisória. Adicionalmente, o instrumento investigou as dificuldades percebidas pelos funcionários em relação aos produtores rurais, como endividamento, riscos climáticos, custos de produção e exigências de garantias. Composto por vinte questões fechadas de múltipla escolha, o questionário foi desenvolvido na plataforma Google Forms e distribuído eletronicamente aos participantes.

A execução da pesquisa iniciou-se com o envio eletrônico do questionário aos funcionários da instituição financeira, direcionado tanto aos profissionais da rede de agências quanto aos das unidades estratégicas. Esse procedimento garantiu que o instrumento chegasse aos colaboradores com atuação direta ou indireta no crédito rural. A coleta de dados foi realizada durante o período de 26 de dezembro de 2025 a 26 de janeiro de 2026, resultando na obtenção de 37 questionários válidos. A utilização de questionários estruturados é uma prática recomendada em pesquisas quantitativas, pois padroniza as respostas e facilita o tratamento estatístico (Hair et al., 2005; Roesch, 1999).

Os dados coletados foram submetidos a tratamento e análise por meio de estatística descritiva. Realizou-se o cálculo de frequências absolutas e relativas para cada uma das variáveis investigadas, permitindo uma visão clara da distribuição das respostas. A tabulação dos dados foi efetuada utilizando o software Microsoft Excel, que também foi empregado para a elaboração de gráficos e tabelas. Esses recursos visaram a facilitar a visualização e a interpretação dos resultados, descrevendo os fenômenos e mensurando as percepções dos participantes de forma objetiva e sistemática, sem inferir relações de causalidade.

Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados durante todas as etapas da pesquisa, em conformidade com os princípios aplicáveis a estudos envolvendo seres humanos. A participação dos funcionários foi estritamente voluntária, e o anonimato de todos os respondentes foi garantido. Por se tratar de uma investigação de opinião que não envolveu dados sensíveis, não houve a necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme previsto na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes foram devidamente informados sobre os objetivos do estudo e manifestaram seu consentimento livre e esclarecido.

A pesquisa apresentou algumas limitações metodológicas que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A amostra utilizada foi não probabilística e intencional, restrita a uma única instituição financeira e concentrada regionalmente, o que impede a generalização dos achados para o cenário nacional do crédito rural. O tamanho da amostra também pode não refletir a diversidade de experiências do setor. Adicionalmente, a abordagem exclusivamente descritiva não permitiu a realização de análises inferenciais ou a identificação de relações estatisticamente significativas entre as variáveis. Portanto, os resultados são mais adequados para a compreensão do contexto específico estudado (Malhotra, 2001).

3. Resultados e Discussão

A presente pesquisa possibilitou a identificação e a compreensão aprofundada dos principais desafios enfrentados pelas instituições financeiras na concessão e gestão do crédito rural, com base na percepção de profissionais que atuam direta ou indiretamente nesse processo. Os resultados evidenciam que a dinâmica da concessão de crédito não é influenciada por um único fator, mas por um conjunto de elementos interdependentes, que envolvem tanto aspectos internos, como estrutura operacional, capacitação das equipes e sistemas, quanto fatores externos, a exemplo de políticas públicas, exigências documentais, riscos climáticos e o nível de endividamento dos produtores rurais. Essa constatação indica que eventuais fragilidades na concessão do crédito não podem ser atribuídas isoladamente às instituições financeiras, devendo ser compreendidas à luz de um ambiente sistêmico mais amplo, marcado por incertezas e elevada exposição a riscos exógenos. Assim, o entendimento integrado desses fatores mostra-se fundamental para o aprimoramento das práticas de concessão, bem como para o desenvolvimento de estratégias mais eficientes e adaptativas no âmbito do sistema financeiro voltado ao agronegócio.

Com o objetivo de aprofundar a compreensão acerca dos entraves na liberação de crédito rural, a pesquisa foi aplicada a profissionais de setores estratégicos diretamente envolvidos nesse processo. A amostra contemplou tanto a rede de agências responsáveis pelo atendimento aos produtores quanto o setor especializado que realiza visitas técnicas e atua diretamente na operacionalização do crédito, o que amplia a abrangência analítica ao incorporar diferentes perspectivas dentro da instituição. Inicialmente, procedeu-se à caracterização do perfil dos respondentes por meio da coleta de informações relacionadas a gênero, faixa etária, região e local de atuação, tempo de empresa, experiência em crédito, setor de atuação e cargo. Essa etapa mostra-se essencial, pois permite contextualizar as percepções analisadas e avaliar em que medida elas refletem a experiência acumulada dos participantes, contribuindo para maior consistência na interpretação dos resultados.

Os dados obtidos indicam predominância do sexo masculino entre os respondentes, correspondendo a 65% da amostra, seguido pelo sexo feminino, com 32%, e por 3% dos participantes que se identificam com outra categoria de gênero. No que se refere à faixa etária, observa-se uma distribuição concentrada em grupos mais experientes, sendo que 35% dos respondentes possuem entre 35 e 44 anos, outros 35% têm 55 anos ou mais, e 30% situam-se na faixa de 45 a 54 anos, conforme apresentado na Figura 1.

Fonte: Resultados originais de pesquisa

Figura 1. Caracterização da amostra

A predominância de profissionais em faixas etárias mais elevadas indica que a amostra é composta majoritariamente por indivíduos com maior trajetória profissional. Esse dado não apenas caracteriza o perfil do grupo, mas também influencia diretamente a qualidade das percepções coletadas. Profissionais mais experientes tendem a apresentar uma visão mais crítica e abrangente dos processos organizacionais, uma vez que acumulam vivências práticas que permitem identificar padrões, limitações e inconsistências ao longo do tempo. Por outro lado, essa mesma característica pode implicar uma limitação analítica relevante. A menor participação de profissionais mais jovens pode reduzir a diversidade de perspectivas, especialmente no que se refere à incorporação de novas abordagens, tecnologias e formas de gestão do crédito. Esse resultado está alinhado à literatura, que aponta que a idade e o tempo de experiência influenciam significativamente a forma como os indivíduos percebem o ambiente organizacional e os processos de trabalho, conferindo maior consistência às análises, mas também podendo reforçar padrões já estabelecidos (Fassarella et al., 2024). Assim, a composição da amostra contribui para a robustez das conclusões, ao mesmo tempo em que indica a necessidade de considerar possíveis vieses associados ao perfil dos respondentes, como a resistência a mudanças ou a menor familiaridade com inovações tecnológicas que poderiam otimizar a concessão de crédito rural. As implicações práticas desse achado sugerem que as instituições financeiras devem investir em programas de mentoria e transferência de conhecimento entre gerações, garantindo que a experiência acumulada seja capitalizada e que novas perspectivas sejam integradas para um processo de crédito rural mais dinâmico e adaptável.

A análise da região e local de atuação dos respondentes revelou que a região Sudeste concentra a ampla maioria, com 97% da amostra, e apenas 3% na região Centro-Oeste. Quanto ao local de atuação, 43% dos profissionais atuam na zona urbana, 41% em regime misto e apenas 16% exclusivamente na zona rural. Embora não seja uma figura selecionada para exibição, esses dados são cruciais para a interpretação dos resultados. Essa forte concentração geográfica e a predominância de atuação urbana ou mista podem gerar assimetrias de informação e limitar a precisão na interpretação das especificidades das atividades agropecuárias, impactando a qualidade das análises de crédito. Essa condição pode levar a uma mediação entre o ambiente institucional e a realidade produtiva que não reflete plenamente as nuances do campo. Nesse sentido, embora a presença de profissionais com atuação no meio rural represente um aspecto positivo, ela não garante, por si só, a plena compreensão das dinâmicas locais. Essa interpretação está em consonância com Caporal (2004), ao destacar que a proximidade entre profissionais e produtores rurais favorece a compreensão das dinâmicas produtivas e a tomada de decisões mais assertivas. Contudo, o autor ressalta que essa proximidade deve estar associada à qualificação técnica e a abordagens sistematizadas, a fim de evitar limitações decorrentes de percepções parciais ou experiências isoladas. As implicações práticas sugerem a necessidade de programas de imersão e capacitação específica para os profissionais que atuam predominantemente em centros urbanos, a fim de que compreendam melhor as realidades e os desafios do produtor rural, mitigando a assimetria de informações e aprimorando a qualidade das análises de crédito.

No que se refere ao tempo de atuação na instituição e experiência em crédito agrícola, os resultados indicam que 97% dos respondentes possuem mais de 10 anos de vínculo com a organização, enquanto apenas 3% apresentam tempo de atuação entre 5 e 10 anos. Em relação à experiência específica em crédito agrícola, 59,46% dos participantes possuem mais de 6 anos de atuação na área, evidenciando a predominância de profissionais altamente experientes. Em seguida, 16,22% dos respondentes apresentam entre 1 e 3 anos de experiência, enquanto igual percentual (16,22%) declarou não possuir atuação nesse segmento. Percentuais menores são observados entre aqueles com menos de 1 ano de experiência (5,41%) e entre 4 e 6 anos (2,70%). Esses resultados reforçam a existência de um corpo funcional majoritariamente experiente, tanto no contexto organizacional quanto na especialidade analisada, embora evidenciem a presença de uma parcela relevante de profissionais sem atuação direta em crédito rural, o que pode impactar a uniformidade das análises realizadas. Sob uma perspectiva analítica, a elevada concentração de colaboradores com longa trajetória na instituição tende a favorecer a consolidação de conhecimento tácito, o aprimoramento das rotinas operacionais e maior consistência na tomada de decisão. A experiência acumulada contribui para a capacidade de interpretar cenários complexos, reduzir incertezas e lidar com as especificidades inerentes ao crédito rural. Entretanto, a coexistência de um grupo significativo de profissionais sem experiência direta em crédito agrícola sugere possíveis desafios relacionados à padronização de procedimentos e à uniformidade na análise técnica das operações. Essa interpretação está alinhada às contribuições de Joel Souza Dutra (2017), ao destacar que a experiência acumulada no ambiente organizacional favorece o desenvolvimento de competências, amplia a capacidade de julgamento técnico e contribui para maior eficiência nos processos decisórios. No entanto, conforme sugerido pela análise dos dados, tais competências precisam estar articuladas a estruturas organizacionais adequadas e a processos bem definidos, de modo a potencializar seus efeitos e minimizar limitações operacionais. As implicações práticas apontam para a necessidade de programas de treinamento e desenvolvimento contínuos, especialmente para os profissionais com menor experiência em crédito agrícola, a fim de garantir a uniformidade na aplicação das normas e a qualidade das análises. Além disso, a documentação e a sistematização do conhecimento tácito dos profissionais mais experientes podem servir como base para a formação de novos talentos e para a criação de um repositório de melhores práticas.

A análise do nível de escolaridade, formação acadêmica e capacitação dos respondentes revelou que 62% possuem algum tipo de pós-graduação, e 38% têm formação superior completa. A área de formação predominante é Agronomia (54%). Contudo, a participação em capacitações é desigual: 43% ocasionalmente, 35% regularmente e 22% não realizam qualquer tipo de capacitação. Embora a alta qualificação formal favoreça a compreensão técnica das atividades agropecuárias e dos riscos inerentes ao crédito rural, conforme Buainain et al. (2014) destacam a importância da formação técnica especializada, a lacuna na atualização profissional é preocupante. A ausência ou irregularidade em programas de capacitação pode comprometer a capacidade dos profissionais de acompanhar as transformações do setor, impactando negativamente a precisão das análises e a eficiência na concessão do crédito rural. A EMBRAPA (2018) reforça que a evolução da agropecuária brasileira está diretamente associada à incorporação contínua de tecnologias e à qualificação dos agentes envolvidos. As competências são construídas pela mobilização de conhecimentos, habilidades e atitudes, influenciadas pela experiência e pela aprendizagem contínua (Fleury, 2001). Portanto, a formação acadêmica, embora essencial, não é suficiente sem a atualização constante. As implicações práticas demandam a criação de programas de capacitação obrigatórios e periódicos, focados nas mudanças normativas, avanços tecnológicos e novas práticas de gestão de risco no crédito rural. A instituição deve investir em plataformas de e-learning e workshops para garantir que todos os profissionais, independentemente de sua área de atuação ou tempo de casa, estejam atualizados e aptos a lidar com a complexidade crescente do setor.

No que se refere à estrutura de atendimento das agências voltadas ao agronegócio, 60% dos respondentes a classificam como boa, 32% como regular, 5% como excelente e 3% como ruim. Esses resultados indicam uma avaliação predominantemente positiva da estrutura disponível, sugerindo que, de modo geral, as agências dispõem de condições adequadas para atender às demandas do crédito rural. Entretanto, a baixa proporção de avaliações classificadas como “excelente”, aliada à presença significativa de percepções regulares, evidencia que, embora a estrutura seja funcional, ainda há espaço para aprimoramentos. Esse padrão sugere que a qualidade do atendimento pode não estar plenamente alinhada às exigências operacionais e à complexidade do crédito rural, que demanda agilidade, precisão técnica e capacidade de adaptação às especificidades regionais e produtivas. Sob uma perspectiva analítica, essa distribuição das avaliações pode indicar a existência de limitações estruturais ou operacionais que, embora não comprometam totalmente o funcionamento das agências, impactam a eficiência e a qualidade do processo de atendimento. Tais limitações podem estar relacionadas a fatores como infraestrutura física, disponibilidade de recursos tecnológicos, capacitação das equipes ou organização dos fluxos de trabalho. Nesse contexto, a predominância de avaliações intermediárias reforça a necessidade de investimentos contínuos na qualificação da estrutura de atendimento, de modo a elevar o padrão de qualidade percebido e reduzir possíveis gargalos que interfiram na liberação do crédito. Essa interpretação está alinhada à literatura sobre gestão de serviços, que aponta que a qualidade percebida pelo usuário não depende apenas da existência de estrutura, mas da sua capacidade de atender de forma eficiente, consistente e alinhada às expectativas dos clientes. Nesse sentido, estudos brasileiros indicam que a qualidade em serviços está diretamente associada à confiabilidade, à capacidade de resposta e à adequação do serviço às necessidades do usuário, sendo esses fatores determinantes para a avaliação global do desempenho organizacional (Urdan e Rodrigues, 1999). As implicações práticas sugerem que a instituição deve realizar auditorias internas e pesquisas de satisfação com os produtores rurais para identificar pontos específicos de melhoria na estrutura de atendimento. Investimentos em tecnologia, como sistemas de gestão de crédito mais integrados e plataformas digitais para o produtor, podem otimizar processos e reduzir a dependência de infraestrutura física, melhorando a agilidade e a precisão do atendimento.

A análise dos principais gargalos no atendimento aos produtores rurais, conforme a percepção dos funcionários, evidencia que os obstáculos mais relevantes se concentram no excesso de burocracia (23,47%), na análise de crédito (22,52%) e na insuficiência de pessoal especializado (20,72%). Adicionalmente, fatores como a ausência de integração entre sistemas (13,51%), dificuldades de acesso a ferramentas tecnológicas (12,61%) e limitações na comunicação com os produtores (7,21%) também se mostram relevantes. No que se refere à frequência com que esses gargalos impactam a rotina operacional, observa-se que 43,20% dos respondentes indicam que tais dificuldades ocorrem “às vezes” e outros 43,20% apontam ocorrência “frequente”, enquanto apenas 5,40% relatam que os impactos são “raros” e 2,70% afirmam que “nunca” ocorrem. Esses dados demonstram que os entraves operacionais não são episódicos, mas sim recorrentes, configurando-se como elementos estruturais do processo de atendimento.

Fonte: Resultados originais de pesquisa

Figura 2. Principais gargalos no atendimento, frequência que impactam negativamente e autonomia para soluções adequadas

Sob uma perspectiva analítica, a concentração dos principais gargalos em aspectos burocráticos, técnicos e de recursos humanos indica que as limitações enfrentadas possuem natureza multifatorial, envolvendo tanto exigências externas, como normas regulatórias, quanto fragilidades internas, relacionadas à capacidade operacional e à organização dos processos. A elevada incidência de problemas na análise de crédito e na disponibilidade de pessoal especializado sugere que, além das exigências normativas, há desafios associados à qualificação e à distribuição eficiente dos recursos humanos. Ao serem questionados sobre autonomia e disponibilidade de ferramentas para oferecer soluções adequadas aos produtores, 73,00% dos respondentes indicaram que esses requisitos são atendidos apenas parcialmente, enquanto 19,00% percebem autonomia plena e 8,00% consideram não possuir autonomia. Esse resultado revela um descompasso entre o conhecimento técnico dos profissionais e sua capacidade efetiva de tomada de decisão, indicando que, embora os agentes estejam aptos a identificar as necessidades dos produtores, sua atuação é frequentemente condicionada por instâncias superiores e por limitações institucionais. Essa restrição de autonomia pode comprometer não apenas a eficiência do processo de concessão de crédito, mas também a experiência do produtor rural, que passa a enfrentar maior tempo de resposta, incertezas e dificuldades no acesso aos recursos financeiros. Tal cenário reforça a ideia de que os entraves observados não decorrem exclusivamente da atuação dos profissionais, mas de um arranjo institucional mais amplo, marcado por elevada complexidade regulatória e operacional. Nesse contexto, o crédito rural mostra-se fortemente condicionado à conformidade com normas públicas, o que, embora necessário para garantir segurança e controle, pode restringir a flexibilidade das instituições financeiras e comprometer a agilidade na concessão do crédito. Essa interpretação está alinhada aos achados de Gaspar, Silva e Nascimento (2024), que destacam que a burocracia excessiva e a insuficiência de informações adequadas constituem barreiras significativas ao acesso ao crédito, especialmente para agricultores familiares. Dessa forma, os resultados apontam para a necessidade de intervenções que ultrapassem ajustes pontuais, exigindo a revisão de processos, a integração de sistemas, o fortalecimento das equipes técnicas e, sobretudo, a busca por maior equilíbrio entre controle regulatório e eficiência operacional, de modo a ampliar o acesso ao crédito e melhorar a qualidade do atendimento no meio rural. As implicações práticas são vastas e urgentes. A instituição deve implementar um projeto de reengenharia de processos para simplificar a documentação e os fluxos de trabalho, utilizando tecnologias de automação e digitalização. A capacitação em análise de crédito deve ser aprimorada, com foco em ferramentas de avaliação de risco mais ágeis e precisas, que considerem as especificidades do agronegócio. Além disso, é fundamental investir na contratação e no desenvolvimento de pessoal especializado, bem como na integração de sistemas para reduzir a fragmentação e otimizar o acesso a informações. Aumentar a autonomia decisória dos profissionais de linha de frente, mediante a definição de alçadas claras e o fornecimento de ferramentas adequadas, pode agilizar o atendimento e melhorar a satisfação do produtor.

No que se refere à percepção dos respondentes acerca das principais dificuldades atualmente enfrentadas pelos produtores rurais, destacam-se três fatores de maior relevância: o endividamento e a necessidade de renegociação de dívidas (24,32%), os riscos associados ao clima e a eventos extremos (19,82%) e o elevado custo dos insumos (12,61%). Outros aspectos também foram mencionados, como a escassez de mão de obra qualificada (10,81%), dificuldades de acesso ao crédito (10,81%), exigências ambientais e legais (9,01%), ausência de assistência técnica (5,41%) e entraves na comercialização da produção (5,41%). Por outro lado, apenas 1,80% dos respondentes atribuíram as dificuldades à baixa adoção de tecnologias, indicando que esse fator é percebido como menos relevante no contexto analisado.

Fonte: Resultados originais de pesquisa

Figura 3. Maiores dificuldades enfrentadas pelos produtores rurais atualmente

A predominância de fatores relacionados a risco financeiro, climático e de custos produtivos indica que os desafios enfrentados pelos produtores possuem natureza estrutural e estão fortemente associados a variáveis externas ao controle direto dos agentes econômicos. Esse cenário sugere que a atividade agropecuária permanece altamente exposta a incertezas, o que compromete a previsibilidade dos resultados e amplia a vulnerabilidade financeira dos produtores. Sob uma perspectiva analítica, o destaque atribuído ao endividamento como principal dificuldade evidencia a centralidade das questões financeiras para a sustentabilidade da produção agrícola. Esse resultado sugere que, mais do que o acesso ao crédito, os desafios estão fortemente relacionados à gestão do endividamento e à capacidade dos produtores de cumprir suas obrigações financeiras, especialmente em cenários marcados por instabilidade econômica e produtiva. Ademais, a associação desse fator com riscos climáticos e elevados custos de insumos indica a formação de um ciclo de vulnerabilidade, no qual eventos adversos comprometem a produção, pressionam os custos e ampliam a dependência de financiamento, elevando, por conseguinte, o risco de inadimplência. Esse entendimento encontra respaldo na literatura. Estudos de Buainain et al. (2007) destacam que a atividade agropecuária está fortemente sujeita a riscos climáticos e sanitários, além de instabilidades decorrentes das flutuações dos mercados agropecuários, o que dificulta o ajuste da oferta às mudanças na conjuntura econômica. Ademais, a elevada volatilidade dos preços das commodities, associada a riscos institucionais, amplia o nível de incerteza no setor, tornando mais complexa a gestão produtiva e financeira das propriedades rurais. De forma complementar, estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária apontam que a dependência de recursos naturais e de processos biológicos confere maior rigidez ao sistema produtivo agrícola, reduzindo sua capacidade de adaptação a mudanças de mercado. Essa característica amplia a exposição ao risco e reforça a necessidade de estratégias integradas de gestão, que envolvam planejamento, inovação e monitoramento contínuo das variáveis produtivas e econômicas. Adicionalmente, a literatura especializada confirma que o endividamento e as dificuldades de acesso ao crédito permanecem como desafios centrais para o produtor rural brasileiro. A análise de Melo et al. (2017) evidencia que o risco de inadimplência está diretamente relacionado ao custo do crédito, à volatilidade dos preços das commodities e a variáveis macroeconômicas, fatores que impactam diretamente a sustentabilidade financeira das atividades agrícolas. Dessa forma, os resultados indicam que os desafios enfrentados pelos produtores não podem ser compreendidos de maneira isolada, mas como parte de um sistema complexo e interdependente, no qual fatores econômicos, climáticos e institucionais se retroalimentam. Nesse contexto, a mitigação desses riscos exige não apenas o acesso ao crédito, mas também o desenvolvimento de capacidades gerenciais, o uso de instrumentos de gestão de risco e a adoção de estratégias produtivas mais resilientes. Assim, um entendimento integrado das atividades agropecuárias torna-se elemento central para a competitividade e a sustentabilidade do setor. As implicações práticas para as instituições financeiras incluem o desenvolvimento de produtos de crédito mais flexíveis, com prazos e condições de pagamento adaptados aos ciclos produtivos e às variações climáticas. A oferta de seguros rurais subsidiados e a promoção de educação financeira para os produtores são essenciais para mitigar os riscos de endividamento e inadimplência. Além disso, a instituição pode atuar como um agente de fomento à adoção de tecnologias que aumentem a resiliência produtiva e reduzam a dependência de insumos caros, por meio de linhas de crédito específicas para inovação e sustentabilidade.

Na análise das dificuldades de acesso ao crédito rural, a inadequação de garantias constitui o principal obstáculo, sendo apontada por 45,95% dos respondentes. Em seguida, destacam-se o excesso de documentação exigida (21,62%) e os critérios relacionados à análise de risco (16,22%). Outros fatores mencionados incluem o desconhecimento dos produtores acerca dos produtos financeiros disponíveis (10,81%) e o tempo de tramitação das propostas (5,41%). Esses resultados evidenciam que os entraves ao acesso ao crédito não se concentram apenas na eficiência operacional das instituições financeiras, mas, sobretudo, em exigências estruturais do próprio modelo de concessão. A predominância da questão das garantias indica que a dificuldade central reside menos na disponibilidade de crédito e mais na capacidade dos produtores de atender aos requisitos formais exigidos para sua obtenção. Sob uma perspectiva analítica, a centralidade das garantias como principal obstáculo revela uma assimetria relevante entre as exigências do sistema financeiro e a realidade patrimonial dos produtores rurais, especialmente aqueles de menor porte. Essa condição tende a limitar o acesso ao crédito justamente para os agentes que mais necessitam de financiamento, reforçando um processo de exclusão financeira no meio rural. Adicionalmente, a presença significativa de fatores como excesso de documentação e análise de risco reforça a complexidade do processo de concessão, indicando que as barreiras são tanto de natureza normativa quanto operacional. Tais elementos, quando combinados, contribuem para ampliar o custo de acesso ao crédito não apenas em termos financeiros, mas também em tempo, esforço e capacidade técnica exigida dos produtores. Essa interpretação encontra respaldo na literatura, que aponta que a limitação patrimonial e as dificuldades de formalização de garantias reais constituem entraves históricos ao financiamento da atividade rural. Nesse sentido, estudos de Ricardo Abramovay (1997) destacam que a insuficiência de ativos passíveis de serem utilizados como garantia, aliada às dificuldades institucionais e burocráticas, limita o acesso ao crédito, especialmente entre pequenos e médios produtores. Tal cenário configura uma barreira estrutural ao financiamento da atividade rural, restringindo a inclusão produtiva e o desenvolvimento econômico no meio agrícola. Nesse contexto, observa-se que o crédito rural, embora essencial para o desenvolvimento do setor agropecuário, ainda opera sob condicionantes que restringem seu alcance. A oferta de linhas subsidiadas e políticas públicas específicas busca mitigar essas limitações; contudo, os resultados indicam que tais instrumentos, isoladamente, não são suficientes para eliminar os obstáculos estruturais existentes. Dessa forma, a ampliação do acesso ao crédito rural demanda não apenas a disponibilização de recursos financeiros, mas também a revisão dos mecanismos de garantia, a simplificação de processos e o desenvolvimento de soluções que considerem as especificidades dos diferentes perfis de produtores. Assim, o crédito rural consolida-se como um instrumento estratégico para o desenvolvimento e a sustentabilidade da produção agropecuária, cuja efetividade depende da capacidade de conciliar segurança institucional com inclusão financeira. As implicações práticas envolvem a necessidade de desenvolver novos modelos de garantias, como fundos garantidores ou garantias solidárias, que sejam mais acessíveis aos pequenos e médios produtores. A simplificação da documentação e a digitalização dos processos de análise de crédito podem reduzir o tempo de tramitação e os custos operacionais, tornando o crédito mais ágil e menos burocrático. Além disso, programas de educação financeira e de orientação sobre os produtos de crédito disponíveis são cruciais para capacitar os produtores a acessar e utilizar o financiamento de forma mais eficiente.

Os resultados indicam que, sob a ótica dos profissionais que atuam com crédito rural, o nível de conhecimento dos produtores acerca dos instrumentos financeiros disponíveis ainda apresenta limitações relevantes. Quando questionados sobre essa temática, 54% dos respondentes classificaram o conhecimento dos produtores como regular, 27% como bom, 11% como ruim, 5% como muito bom e 3% como muito ruim. Essa distribuição evidencia que, embora o crédito rural desempenhe papel central na sustentação da atividade produtiva, o domínio dos produtores sobre as linhas de financiamento disponíveis é predominantemente intermediário, com baixa incidência de avaliações positivas mais elevadas. Tal cenário sugere que o acesso ao crédito não depende exclusivamente da oferta de recursos, mas também da capacidade dos produtores de compreender, avaliar e selecionar adequadamente os instrumentos financeiros disponíveis. Sob uma perspectiva analítica, esses resultados reforçam a existência de uma dimensão informacional como fator limitante no acesso ao crédito rural. Para além das barreiras estruturais, como exigências de garantias e burocracia, observa-se que a assimetria de informação entre instituições financeiras e produtores constitui um entrave relevante, impactando a qualidade das decisões e a eficiência na utilização dos recursos. Nesse contexto, o conhecimento técnico e gerencial do produtor rural emerge como um elemento estratégico para a tomada de decisão, influenciando diretamente a capacidade de planejamento, a gestão financeira da propriedade e a adoção de estratégias mais eficientes de financiamento. A limitação nesse aspecto pode levar à subutilização de linhas de crédito mais adequadas, ao uso ineficiente dos recursos ou até mesmo à exclusão do sistema financeiro formal. Essa interpretação encontra respaldo na literatura. Estudos de Buainain et al. (2014) destacam que a baixa capacitação gerencial e o limitado acesso à informação constituem fatores que dificultam a adoção de inovações e o uso eficiente dos instrumentos disponíveis no meio rural, comprometendo a competitividade e a sustentabilidade das propriedades agrícolas. Dessa forma, os resultados indicam que a ampliação do acesso ao crédito rural deve ser acompanhada por iniciativas voltadas à educação financeira e à difusão de informações qualificadas no meio rural. Nesse sentido, torna-se fundamental a implementação de ações coordenadas entre órgãos governamentais e instituições financeiras, com foco na capacitação dos produtores, na simplificação da comunicação e no desenvolvimento de mecanismos que facilitem a compreensão e o uso das linhas de crédito disponíveis. Assim, a redução das assimetrias informacionais configura-se como elemento-chave para o fortalecimento da inclusão financeira e para o desenvolvimento sustentável do setor agropecuário. As implicações práticas incluem a criação de programas de educação financeira e de gestão para produtores rurais, oferecidos em parceria com cooperativas, associações e órgãos de extensão rural. A instituição pode desenvolver materiais informativos simplificados e ferramentas digitais interativas que expliquem as linhas de crédito, seus requisitos e benefícios. Além disso, a presença de técnicos agrícolas ou agrônomos nas agências, ou em visitas de campo, pode auxiliar os produtores na elaboração de projetos e na escolha das melhores opções de financiamento, garantindo que o crédito seja utilizado de forma estratégica para o desenvolvimento de suas propriedades.

Em relação às medidas que poderiam ser adotadas para melhorar o acesso ao crédito rural, 43% dos respondentes indicaram a redução da burocracia e a simplificação dos processos de concessão como as ações mais relevantes. Em seguida, destacam-se a oferta de taxas de juros mais atrativas (27%), melhorias na análise de crédito (16%) e o aumento da capacitação e treinamento dos profissionais das instituições financeiras (14%). Esses resultados evidenciam que os entraves burocráticos permanecem como o principal limitador ao acesso ao financiamento rural, mesmo diante da reconhecida importância do crédito agrícola como instrumento de política pública. A centralidade atribuída à simplificação dos processos sugere que, para os agentes envolvidos, as dificuldades não se restringem à disponibilidade de recursos, mas estão fortemente associadas à complexidade operacional e às exigências normativas que estruturam o sistema de crédito. Sob uma perspectiva analítica, observa-se que a predominância da burocracia como principal obstáculo reforça a existência de um descompasso entre a necessidade de controle institucional e a eficiência operacional. Embora os mecanismos de regulação e fiscalização sejam essenciais para garantir a adequada aplicação dos recursos públicos e a mitigação de riscos, seu excesso pode gerar custos adicionais, retardar processos e restringir o acesso, especialmente para produtores com menor capacidade administrativa. Historicamente, o crédito rural no Brasil, sobretudo aquele vinculado a programas governamentais, caracteriza-se por elevada complexidade operacional, demandando a atuação articulada de diferentes agentes do sistema financeiro. Nesse contexto, a simplificação dos processos, aliada à manutenção de mecanismos de controle, configura-se como um dos principais desafios institucionais, exigindo soluções que equilibrem segurança, eficiência e inclusão financeira. Essa interpretação encontra respaldo na literatura, que aponta que a burocracia e os custos operacionais associados ao crédito rural podem limitar seu alcance e efetividade. Estudos Buainain et al. (2007) destacam que a complexidade institucional e as exigências formais do sistema de crédito constituem barreiras relevantes, sobretudo para produtores com menor estrutura organizacional e capacidade de gestão. Adicionalmente, o destaque atribuído a fatores como taxas de juros, análise de crédito e capacitação dos profissionais indica que a melhoria do acesso ao crédito rural demanda uma abordagem multidimensional. Isso implica reconhecer que a eficiência do sistema depende não apenas de ajustes regulatórios, mas também do aprimoramento técnico das instituições, da qualificação dos agentes envolvidos e da adequação das condições financeiras às realidades produtivas. Dessa forma, os resultados sugerem que a ampliação do acesso ao crédito rural requer a implementação de estratégias integradas entre governo, instituições financeiras e demais agentes do setor. Tais estratégias devem estar orientadas à simplificação de processos, ao fortalecimento da capacidade técnica e à criação de mecanismos mais acessíveis e eficientes, capazes de conciliar controle institucional com agilidade operacional. Assim, o crédito rural consolida-se não apenas como instrumento de financiamento, mas como elemento estratégico para o desenvolvimento sustentável e a competitividade do setor agropecuário. As implicações práticas incluem a defesa de políticas públicas que promovam a simplificação das normas do crédito rural, em diálogo com órgãos reguladores. Internamente, a instituição deve investir em sistemas de automação de processos e em equipes multidisciplinares que possam agilizar a análise de crédito. A oferta de taxas de juros mais competitivas, por meio de parcerias com programas governamentais ou fundos específicos, pode tornar o crédito mais atrativo. Além disso, a capacitação contínua dos funcionários em novas tecnologias e metodologias de análise de risco é fundamental para melhorar a eficiência e a qualidade do atendimento.

Em relação às principais causas do risco de inadimplência no crédito rural, 51% dos respondentes apontaram a falta de planejamento financeiro por parte dos produtores como o fator predominante, seguida por condições climáticas adversas (24%) e por taxas de juros e prazos de pagamento considerados pouco acessíveis (22%). Apenas 3% atribuíram o risco de inadimplência às dificuldades no escoamento e na comercialização da produção. Esses resultados indicam que o risco de inadimplência no crédito rural está associado a uma combinação de fatores internos e externos, evidenciando seu caráter multifatorial. A predominância do planejamento financeiro como principal causa sugere que a gestão interna da propriedade desempenha papel central na sustentabilidade das operações de crédito, influenciando diretamente a capacidade de cumprimento das obrigações financeiras. Sob uma perspectiva analítica, esse resultado revela que, embora variáveis externas, como condições climáticas e custos financeiros, exerçam influência significativa, a vulnerabilidade do produtor é amplificada quando associada a fragilidades na gestão financeira. A ausência de planejamento adequado pode comprometer a alocação eficiente dos recursos, dificultar a formação de reservas para períodos adversos e aumentar a dependência de crédito em condições desfavoráveis, intensificando o risco de inadimplência. Adicionalmente, a relevância atribuída aos fatores climáticos reforça a natureza intrinsecamente incerta da atividade agropecuária, cuja dependência de condições naturais limita a previsibilidade dos resultados produtivos. Quando combinados a condições de crédito menos acessíveis, esses fatores contribuem para a formação de um ambiente de elevado risco, no quais choques externos podem rapidamente se traduzir em dificuldades financeiras para os produtores. Essa interpretação encontra respaldo na literatura, que destaca a complexidade do risco de crédito rural. Estudos de Melo e Resende Filho (2017) evidenciam que a inadimplência está associada a fatores como oscilações da renda agrícola, condições de mercado e características dos contratos de crédito, demonstrando que a gestão do risco nesse setor envolve múltiplas dimensões inter-relacionadas. Nesse contexto, observa-se que a redução do risco de inadimplência não pode ser alcançada por meio de intervenções isoladas, exigindo uma abordagem integrada que contemple tanto a melhoria da gestão financeira dos produtores quanto o desenvolvimento de instrumentos capazes de mitigar riscos produtivos e econômicos. Isso inclui, por exemplo, o fortalecimento da educação financeira, o uso de mecanismos de proteção contra riscos climáticos e a adequação das condições de crédito às especificidades das atividades agropecuárias. Dessa forma, os resultados indicam que a sustentabilidade do crédito rural depende não apenas da oferta de financiamento, mas da capacidade de alinhar gestão, risco e condições institucionais. Assim, a integração entre planejamento financeiro, gestão de riscos e desenho adequado das políticas de crédito configura-se como elemento essencial para reduzir a inadimplência e promover maior estabilidade econômica no meio rural. As implicações práticas para a instituição financeira incluem o desenvolvimento de programas de educação financeira e de gestão de risco para os produtores, com foco em planejamento orçamentário, análise de custos e receitas, e estratégias de diversificação de culturas. A oferta de produtos de seguro rural, em parceria com seguradoras, pode proteger os produtores contra perdas decorrentes de eventos climáticos extremos. Além disso, a instituição pode revisar suas políticas de crédito para oferecer prazos de pagamento mais flexíveis e taxas de juros competitivas, especialmente para produtores que demonstrem bom planejamento e adoção de práticas sustentáveis. A criação de um sistema de monitoramento contínuo da saúde financeira dos clientes e a oferta de consultoria especializada podem auxiliar na identificação precoce de riscos e na proposição de soluções preventivas, reduzindo a inadimplência e fortalecendo a relação de confiança com os produtores.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, ao analisar a percepção de funcionários de uma instituição financeira sobre o processo de liberação do crédito rural, identificando suas dificuldades, desafios operacionais e oportunidades de melhoria para torná-lo mais eficiente e acessível. Os resultados evidenciaram que os entraves na operacionalização do crédito rural são de natureza sistêmica e multifatorial, não se restringindo à atuação individual dos agentes. Internamente, destacaram-se a burocracia excessiva, a fragmentação de sistemas, a restrição da autonomia decisória e a insuficiência de pessoal especializado. Externamente, o endividamento dos produtores, os riscos climáticos, o elevado custo dos insumos e as exigências de garantias foram apontados como desafios cruciais. A operacionalização do crédito rural, portanto, demanda um equilíbrio entre controle regulatório e eficiência operacional.

Contudo, este estudo apresenta limitações importantes. A amostra, não probabilística e restrita a uma única instituição financeira em uma região específica, impede a generalização dos resultados para o cenário nacional. A abordagem exclusivamente descritiva também limitou a apreensão de aspectos mais subjetivos. Para estudos futuros, sugere-se ampliar o escopo empírico, incluindo diversas instituições e regiões, e incorporar metodologias qualitativas ou mistas para aprofundar a compreensão das dinâmicas. A inclusão da perspectiva dos produtores rurais também é fundamental para uma análise mais abrangente e a formulação de estratégias mais eficazes.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Pedro Fernando Cavalcanti; MEYER, Richard L. Crédito rural e políticas públicas no Brasil: desafios institucionais e

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Crédito rural. Brasília: Banco Central do Brasil, [2023]. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/creditorural. Acesso em: 16 out. 2025.

BITTENCOURT, Gerson Machado; OLIVEIRA, Luís Fernando de; SOUZA, João Paulo de. Asimetria de informação e acesso ao crédito rural no Brasil. Revista de Política Agrícola, Brasília, v. 27, n. 2, p. 45–58, 2018.

BRASIL. Medida Provisória nº 1.289, de 2025. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 2025.

RAMOS, Pedro. Política agrícola e crédito rural no Brasil. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 97–116, 2010.

SILVA, Ricardo da Silva; ALVES, Eliseu. Burocracia, normas e desempenho do crédito rural brasileiro. Revista de Economia Contemporânea, Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, p. 1–22, 2019.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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27 de outubro de 2026

Desenvolvimento de um sistema com IA generativa para suporte à gestão de gastos pessoais

A gestão financeira pessoal representa um desafio significativo, com a maioria dos consumidores brasileiros apresentando controle parcial ou inexistente de suas finanças. Embora a integração de inteligência artificial e assistentes conversacionais possa simplificar esse processo, soluções existentes frequentemente falham em se integrar à rotina diária dos usuários. Com o objetivo de mitigar essas dificuldades, desenvolveu-se e validou-se um sistema de gestão financeira que automatiza o registro e a categorização de despesas por meio de um assistente conversacional integrado a um modelo de linguagem natural generativa. A pesquisa, de natureza aplicada e empírica, adotou uma arquitetura cliente-servidor, utilizando o framework NestJS para a API, PostgreSQL para o banco de dados e Next.js para a aplicação web. As mensagens dos usuários, enviadas via WhatsApp, foram processadas por um modelo GPT-3.5-Turbo para interpretar e categorizar as despesas. A validação envolveu quinze usuários reais, com análise objetiva da acurácia da categorização e avaliação subjetiva por questionários pré e pós-uso. Durante o período de observação, o sistema processou 462 transações, demonstrando viabilidade operacional. A acurácia na categorização principal atingiu 99,13%, e nas subcategorias, 89,39%, superando o limiar de 80% estabelecido. Os resultados subjetivos indicaram melhora consistente na percepção de controle, clareza e disponibilidade das informações financeiras, com a integração ao WhatsApp sendo o aspecto mais valorizado. A eficácia e satisfação percebidas com o sistema foram significativamente superiores aos métodos anteriores. Concluiu-se que a solução reduziu barreiras operacionais e promoveu uma gestão financeira mais consciente, atingindo os objetivos propostos. A combinação de avaliação objetiva e subjetiva, em contexto real de uso, reforçou a aplicabilidade e o potencial de contribuição do sistema para a organização financeira pessoal.

Palavras-chave: Assistente conversacional; Automação de despesas; Classificação semântica; Experiência do usuário; Finanças pessoais.

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