22 de abril de 2026
Viabilidade de Clínica Multidisciplinar para Autismo em Ibiá (MG)
Emilene das Graças Silva Rodrigues; Alícia Cechin
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) representa um dos maiores desafios contemporâneos para a saúde pública e para a gestão de serviços especializados, dada a sua complexidade clínica e a necessidade de intervenções contínuas e multidisciplinares. No contexto brasileiro, a carência de infraestrutura adequada em municípios de pequeno e médio porte agrava a situação de famílias que buscam suporte terapêutico para o desenvolvimento de crianças e adolescentes. O município de Ibiá, situado na região do Alto Paranaíba em Minas Gerais, exemplifica essa realidade, possuindo uma população estimada em 22.596 habitantes e uma rede de saúde composta por 11 unidades vinculadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Embora a Secretaria Municipal de Saúde atue no planejamento e execução de políticas básicas, a inexistência de centros especializados em autismo na localidade obriga os residentes a buscarem atendimento em centros urbanos maiores, o que gera custos elevados de deslocamento e descontinuidade terapêutica. A fundamentação clínica para a necessidade de tais serviços baseia-se no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (2014), que define o TEA como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits persistentes na comunicação social e na interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento. A identificação precoce dessas características é determinante para o prognóstico, pois permite a implementação de estratégias que aproveitam a plasticidade neuronal em fases críticas do desenvolvimento infantil (Araujo et al., 2019).
A abordagem terapêutica eficaz para o autismo não se limita a uma única disciplina, exigindo a integração de saberes da psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicopedagogia. A literatura científica reforça que o cuidado abrangente e personalizado é o caminho para promover a autonomia e a inserção social do indivíduo (Hurt et al., 2019). Nesse sentido, a proposta de implantação de uma clínica multidisciplinar em Ibiá não se justifica apenas pelo viés econômico, mas principalmente pelo impacto social e pela demanda reprimida identificada na região. O planejamento de um empreendimento dessa natureza exige a aplicação de modelos de negócios que garantam a sustentabilidade a longo prazo, permitindo que a inovação no setor de saúde se traduza em valor real para a comunidade (Osterwalder, 2010). A estruturação de um plano de negócios robusto atua como um mapa estratégico, orientando a alocação de recursos e a identificação de riscos antes da operação plena. A análise do ambiente externo e interno permite antecipar obstáculos e definir metas claras, facilitando a comunicação da proposta de valor para investidores e parceiros institucionais. A viabilidade de um centro de saúde especializado depende da harmonia entre a excelência clínica e a eficiência administrativa, garantindo que o compromisso com o bem-estar do paciente seja suportado por uma estrutura financeira sólida. O atendimento multiprofissional é o pilar central para o progresso de pacientes com TEA, auxiliando em áreas críticas como a linguagem, a adaptação sensorial e o aprendizado cognitivo-comportamental (Bezerra e Ruiz, 2018).
A metodologia adotada para a avaliação da viabilidade de implantação da clínica multidisciplinar em Ibiá fundamentou-se em uma abordagem sequencial e interconectada, combinando análises qualitativas e quantitativas. O processo iniciou-se com uma pesquisa bibliográfica densa para estabelecer a base teórica sobre o autismo e as melhores práticas de gestão em saúde. Em seguida, realizou-se um estudo de caso focado no município de Ibiá, utilizando ferramentas de análise estratégica para mapear as forças, fraquezas, oportunidades e ameaças do ambiente de negócios. A coleta de dados primários foi realizada por meio de um questionário estruturado, disponibilizado via plataforma digital, direcionado a familiares de pessoas com TEA e profissionais da área da saúde e educação. Esse instrumento buscou identificar as principais dificuldades de acesso a terapias, a frequência de atendimentos necessária e a disposição para o uso de serviços privados ou conveniados. Complementarmente, foram conduzidas entrevistas semiestruturadas com atores-chave da rede pública e privada para compreender o fluxo de encaminhamentos e a capacidade instalada na região. A observação direta do cenário local permitiu avaliar fatores socioeconômicos e a infraestrutura urbana disponível para a instalação física da unidade.
Para a estimativa da demanda, utilizou-se uma técnica de projeção baseada em taxas de prevalência internacionais e nacionais, ajustadas à realidade demográfica local. Dados do Centers for Disease Control and Prevention (2023) indicam que a prevalência do autismo tem apresentado crescimento constante, sendo adotada para este estudo uma média conservadora de 1,5% da população total. A partir dessa base, aplicou-se um filtro de prontidão de mercado, considerando que nem todos os indivíduos diagnosticados buscam ou possuem condições de acessar serviços especializados imediatamente devido a barreiras culturais ou financeiras (Arvan et al., 2019). O detalhamento operacional da clínica envolveu a definição da carga horária necessária por especialidade, baseando-se em protocolos de intervenção como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA). A estruturação financeira foi realizada por meio da projeção de fluxos de caixa para um período de cinco anos, utilizando indicadores rigorosos de análise de investimentos. O Valor Presente Líquido (VPL) foi calculado para determinar a riqueza gerada pelo projeto em valores atuais, descontados por uma taxa mínima de atratividade que reflete o custo de capital no mercado brasileiro (Assaf Neto, 2014). A Taxa Interna de Retorno (TIR) foi empregada para identificar a rentabilidade intrínseca do projeto, permitindo a comparação com outras alternativas de investimento. O Índice de Lucratividade (IL) e o Índice de Rentabilidade (IR) complementaram a análise, fornecendo uma visão clara da relação entre o capital investido e o retorno esperado.
A análise estratégica revelou que a principal força da clínica reside na oferta de um atendimento multidisciplinar integrado, algo inexistente em Ibiá e escasso na região imediata. A localização estratégica facilita o acesso não apenas dos moradores locais, mas também de pacientes de municípios vizinhos, ampliando o mercado potencial. Entretanto, as fraquezas identificadas incluem o elevado investimento inicial em infraestrutura física e equipamentos especializados, além do desafio logístico de atrair e reter profissionais qualificados em uma cidade de pequeno porte. A falta de reconhecimento inicial da marca exige esforços significativos em marketing institucional para estabelecer confiança junto às famílias. No campo das oportunidades, destaca-se a possibilidade de parcerias com planos de saúde e a celebração de convênios com o setor público, amparados por legislações de incentivo ao atendimento de pessoas com deficiência. As ameaças concentram-se na dependência de repasses públicos e na sensibilidade da demanda às variações da renda local, além do estigma social que ainda envolve o diagnóstico de autismo e pode retardar a busca por tratamento. A gestão eficaz deve, portanto, focar na diferenciação pela qualidade e no acolhimento humanizado para mitigar os riscos de mercado (Churchill, 2012).
Os resultados quantitativos da previsão de demanda apontaram para a existência de aproximadamente 339 pessoas com TEA no município de Ibiá. Ao aplicar o percentual de 30% referente àqueles com potencial imediato de busca por atendimento especializado, identificou-se uma demanda inicial de 102 pacientes. Esse volume de usuários justifica a estruturação de uma equipe composta por psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e psicopedagogos. A análise qualitativa reforçou que a demora no atendimento e o custo elevado de deslocamento para outras cidades são as maiores barreiras enfrentadas pelas famílias. A distribuição de sessões mensais foi planejada para atingir 750 horas, com foco intensivo na metodologia ABA para os casos que exigem reforço contínuo. De acordo com Andrade et al. (2014), a terapia ABA é fundamentada na ciência da aprendizagem e do comportamento, sendo essencial para o desenvolvimento de novas habilidades em pacientes com atrasos significativos. A carga horária foi distribuída de forma equilibrada entre as especialidades, garantindo que cada profissional atue dentro de limites que preservem a qualidade técnica, variando entre 30 e 40 horas semanais por colaborador. O psicólogo especializado em ABA assume um papel central, representando cerca de 17,8% do total de horas dedicadas, devido à necessidade de maior frequência de sessões por paciente (Oliveira Neto et al., 2013).
No âmbito financeiro, o projeto apresentou um investimento inicial de 200 mil reais, destinados ao CAPEX, que engloba a reforma do imóvel, aquisição de mobiliário clínico, equipamentos de fisioterapia e materiais pedagógicos. O custo operacional mensal foi estimado considerando despesas com pessoal, manutenção, marketing e impostos, totalizando uma saída de caixa significativa que exige uma gestão rigorosa do capital de giro. O preço médio da sessão foi estabelecido em 132,42 reais, valor definido com base em estimativas realistas de mercado e na capacidade de pagamento da população local. A projeção de receitas para o primeiro ano de operação atingiu 953,81 mil reais, resultando em um lucro bruto de 122,16 mil reais após a dedução dos custos diretos. No entanto, ao considerar as despesas operacionais, depreciação e impostos, o lucro operacional líquido (NOPAT) fixou-se em 68,99 mil reais anuais. Essa margem estreita evidencia a sensibilidade do negócio a pequenas variações nos custos ou na taxa de ocupação da clínica.
Os indicadores de viabilidade econômica demonstraram que o projeto é viável, porém com retornos modestos. O VPL calculado foi de 0,48 mil reais, um valor positivo que indica a recuperação do capital investido e a geração de um excedente mínimo, mas que coloca o empreendimento em uma zona de risco caso ocorram imprevistos financeiros. A TIR de 10,06% ao ano situou-se ligeiramente acima do custo de capital de 10%, confirmando a viabilidade marginal. O Índice de Lucratividade de 1,0014 revela que para cada real investido, o retorno é de apenas 1,0014 reais, sugerindo uma rentabilidade mínima. O Índice de Rentabilidade de 0,14% é considerado muito baixo quando comparado a outras modalidades de investimento disponíveis no mercado financeiro nacional. Por exemplo, aplicações em títulos públicos ou Certificados de Depósito Bancário (CDB) apresentam rentabilidades que oscilam entre 14% e 15% ao ano com risco significativamente menor (Bora Investir, 2025). Essa comparação é fundamental para o tomador de decisão, pois demonstra que a motivação para a abertura da clínica deve transcender o lucro financeiro imediato, focando no valor estratégico e social da iniciativa.
A análise de sensibilidade foi realizada para avaliar o impacto de diferentes cenários no desempenho econômico da clínica. No cenário pessimista, com uma redução no volume de atendimentos para 7.500 unidades anuais e queda no preço da sessão para 130,00 reais, o VPL tornou-se negativo em 123,05 mil reais e a TIR caiu para -0,91%. Esse resultado indica que o projeto é altamente vulnerável a condições de mercado desfavoráveis e ao aumento dos custos de produção. Por outro lado, o cenário otimista, considerando 8.500 atendimentos anuais e um preço de sessão de 145,00 reais, elevou o VPL para 510,14 mil reais e a TIR para 61,21%. Nesse contexto, a rentabilidade torna-se extremamente atrativa, superando largamente o custo de oportunidade do capital. A discussão desses dados revela que o preço da sessão e o volume de pacientes são as variáveis de maior impacto na saúde financeira do negócio. Estratégias de marketing voltadas para o posicionamento premium e a fidelização de pacientes são essenciais para garantir a sustentabilidade em longo prazo. A demanda por serviços de saúde especializados em autismo tende a ser inelástica, o que permite ajustes controlados de preços sem perda proporcional de volume, desde que a percepção de qualidade seja mantida (Gil, 2008).
A implantação da clínica em Ibiá também deve considerar as limitações impostas pela infraestrutura local e pela disponibilidade de mão de obra. A dificuldade em atrair especialistas pode exigir a oferta de salários acima da média de mercado ou benefícios adicionais, o que pressionaria ainda mais os custos fixos. A ausência inicial de especialidades como nutrição e oftalmologia pediátrica foi identificada como uma lacuna que pode ser preenchida em fases futuras de expansão, conforme a demanda se consolide. A sustentabilidade financeira depende da diversificação das fontes de receita, buscando equilibrar atendimentos particulares com convênios e possíveis parcerias com a prefeitura municipal para o atendimento de parcelas da população de baixa renda. O impacto social positivo, traduzido na melhoria da qualidade de vida das crianças autistas e na redução do estresse familiar, fortalece a reputação institucional da clínica, criando um ativo intangível de grande valor. A credibilidade conquistada junto à comunidade facilita a captação de recursos e a celebração de novos acordos de cooperação.
A discussão dos resultados financeiros frente ao cenário macroeconômico brasileiro de 2025, com a taxa Selic em torno de 10,5% ao ano, reforça que o investimento na clínica multidisciplinar possui um perfil de risco moderado com retorno financeiro limitado no curto prazo. No entanto, ao analisar o projeto sob a ótica da gestão de negócios em saúde, observa-se que a criação de um serviço especializado em uma região carente gera uma vantagem competitiva de pioneirismo. A análise de investimentos não deve se restringir aos números frios, mas considerar o potencial de crescimento e a perenidade do negócio (Gitman, 2010). A clínica se configura como um ativo físico duradouro com capacidade de gerar fluxos de caixa estáveis, uma vez que o tratamento do autismo é de longa duração. A necessidade de acompanhamento contínuo garante uma receita recorrente, o que é um fator positivo para a estabilidade operacional. Recomenda-se que a gestão mantenha um controle rigoroso sobre os custos variáveis e invista na capacitação constante da equipe para assegurar a eficácia terapêutica, que é o principal diferencial competitivo no setor de saúde.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise de viabilidade econômica demonstrou que a implantação da clínica multidisciplinar para autistas no município de Ibiá é viável, embora apresente uma rentabilidade marginal e elevada sensibilidade a variações de mercado. O projeto justifica-se plenamente pelo seu impacto social e pela existência de uma demanda reprimida significativa na região, oferecendo uma solução estratégica para a carência de serviços especializados. A sustentabilidade do empreendimento depende de uma gestão administrativa rigorosa, focada na otimização de custos e na manutenção de preços competitivos, além da busca constante por parcerias institucionais que ampliem o alcance do atendimento. O retorno financeiro, embora inferior a algumas aplicações de mercado de baixo risco, é compensado pela criação de valor social e pelo fortalecimento da rede de saúde local, consolidando a clínica como uma iniciativa necessária e sustentável no longo prazo.
Referências Bibliográficas:
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Araujo, Jeane AMR; VERAS, André B.; VARELLA, André AB. Breves considerações sobre a atenção à pessoa com transtorno do espectro autista na rede pública de saúde. https://www.redalyc.org/journal/6098/609863968007/609863968007.pdf. Acesso em: 19 de março de 2025.
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Gitman, L. J. Princípios de Administração Financeira. Pearson. tradução Allan Vidigal Hastings; revisão técnica Jean Jacques Salim. — 12. ed. — São Paulo : Pearson Prentice Hall, 2010.Acesso: 10 de Maio de 2025.
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Oliveira Neto S. P, et al. G-TEA: Uma ferramenta no auxílio da aprendizagem de crianças com Transtorno do Espectro Autista, baseada na metodologia ABA, SBC – Proceedings of SB Games 2013.Acesso em: 14 de maio de 2025.
Osterwalder, A.; Pigneur, Y. Business Model Generation: A Handbook for Visionaries, Game Changers, and Challengers. New Jersey: John Wiley & Sons, 2010.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
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