Resumo Executivo

09 de abril de 2026

Priorização de Métricas Digitais para Tomada de Decisão no E-commerce

Gabriela Mello Kortchmar; Rafael Guem Murakami

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A ascensão do comércio digital transformou radicalmente a gestão de negócios contemporâneos, posicionando a análise de dados como um pilar estratégico indispensável para a manutenção da competitividade no mercado global (Kotler et al., 2017). No cenário atual, as empresas que operam no ambiente digital, especialmente os e-commerces, possuem acesso a um volume exponencial de métricas e indicadores de desempenho. Essa abundância informacional é viabilizada não apenas por ferramentas analíticas consagradas, como o Google Analytics, mas também pela arquitetura integrada das plataformas de Software as a Service, modelo de software em nuvem oferecido por assinatura que consolida automaticamente informações de vendas, comportamento do usuário e desempenho operacional em interfaces unificadas. No entanto, a mera disponibilidade desses dados nem sempre se traduz em conclusões práticas ou em subsídios eficientes para a tomada de decisão. Muitas organizações enfrentam dificuldades severas para identificar quais Key Performance Indicators são verdadeiramente relevantes para seus modelos de negócio específicos, resultando frequentemente na priorização de métricas superficiais, como visualizações de página, em detrimento de indicadores estratégicos de longo prazo, como a taxa de conversão e o Lifetime Value (Gräve, 2019; Saura et al., 2017).

A centralização de dados proporcionada por soluções tecnológicas robustas, como a plataforma VTEX, integra fluxos de vendas, tráfego e operações em um ambiente único, o que representa tanto uma vantagem competitiva quanto um desafio gerencial. Se, por um lado, essa integração otimiza o monitoramento de desempenho ao reduzir silos de informação, por outro, a ausência de critérios claros para a seleção e interpretação dessas métricas pode limitar drasticamente o potencial das decisões orientadas por dados (Blazquez et al., 2019). Estudos na literatura internacional destacam que, apesar do crescente reconhecimento da importância do monitoramento digital, muitas empresas ainda carecem de metodologias estruturadas para transformar dados brutos em ações estratégicas deliberadas (Keegan & Rowley, 2017; Baumann et al., 2018). A diferença entre a disponibilidade tecnológica de dados e sua utilização estratégica efetiva ressalta a necessidade premente de investigações que apoiem os gestores na aplicação prática de métricas digitais. O foco no segmento de e-commerce é justificado por desafios intrínsecos, como a sazonalidade acentuada, a volatilidade do comportamento do consumidor e os elevados custos de aquisição de clientes, exigindo que o varejo digital adote particularidades operacionais rigorosas para garantir a sustentabilidade financeira.

Para compreender esse fenômeno, adotou-se uma abordagem de múltiplos casos com metodologia mista, combinando elementos qualitativos e quantitativos para garantir a profundidade e a precisão dos achados (Yin, 2015). A pesquisa utilizou a análise de conteúdo temática para o tratamento dos dados qualitativos e técnicas de estatística inferencial, incluindo regressão logística e análise de clusters, para o processamento dos dados quantitativos. O caráter exploratório-descritivo do estudo permitiu mapear padrões de uso de indicadores e caracterizar os processos decisórios dentro das organizações (Bardin, 2016). A coleta de dados foi estruturada em diversas etapas, iniciando-se com entrevistas semiestruturadas e a aplicação de um questionário estruturado, complementados por uma pesquisa documental minuciosa e o levantamento de dados secundários. As entrevistas e o questionário foram aplicados entre os meses de abril e agosto de 2025, enquanto a análise documental abrangeu o período de junho de 2023 a dezembro de 2024, permitindo uma visão longitudinal do desempenho das empresas estudadas.

O universo amostral foi composto por oito empresas de comércio eletrônico sediadas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, selecionadas por amostragem não probabilística por conveniência. Os critérios de inclusão foram rigorosos: as empresas deveriam possuir porte médio, com faturamento anual situado entre 10 milhões e 50 milhões de reais; utilizar a plataforma de e-commerce VTEX há mais de dois anos; e manter uma equipe dedicada de analytics com, no mínimo, três colaboradores. O anonimato das organizações foi preservado mediante acordos de confidencialidade. Para a coleta de dados primários, foram enviados 13 convites formais, resultando em uma taxa de participação de 50%, o que totalizou oito empresas respondentes. Os entrevistados ocupavam cargos de liderança ou especialização técnica, incluindo gestores de marketing digital, coordenadores de e-commerce e analistas seniores de business intelligence. O tempo médio de resposta ao questionário foi de 18 minutos, e as entrevistas remotas, realizadas via Google Meet, tiveram duração média de 30 minutos cada.

O roteiro das entrevistas foi padronizado em quatro eixos fundamentais para garantir a comparabilidade dos dados. O primeiro eixo focou no contexto organizacional e no perfil do entrevistado, buscando entender o segmento de atuação e a estrutura da equipe de análise. O segundo eixo abordou os critérios de seleção e priorização de métricas, questionando quais indicadores eram acompanhados regularmente e se existiam frameworks formais, como OKRs ou a matriz MoSCoW, para essa definição. O terceiro eixo concentrou-se na análise e interpretação dos dados, investigando a rotina de monitoramento, as ferramentas utilizadas e como os insights eram comunicados à alta gestão. Por fim, o quarto eixo explorou as barreiras e desafios, identificando dificuldades de integração, limitações das plataformas e a confiabilidade dos dados disponíveis. Complementarmente, o questionário estruturado utilizou uma escala Likert de cinco pontos para avaliar a frequência de uso de diferentes indicadores (onde 1 representava “nunca” e 5 representava “sempre”), o grau de confiança na precisão das métricas e as dificuldades operacionais enfrentadas.

A análise quantitativa foi robustecida pela aplicação de análise fatorial exploratória, seguindo os procedimentos estabelecidos na literatura estatística para identificar agrupamentos de métricas (Finch, 2019). Essa técnica permitiu identificar três categorias principais de indicadores: financeiros, de relacionamento e de engajamento. A regressão logística foi empregada para testar as relações entre o uso intensivo de certos indicadores e a percepção de desempenho operacional, fornecendo indícios de que o monitoramento de métricas de retenção está positivamente associado ao crescimento sustentável. A análise de clusters, utilizando o método k-médias, revelou a existência de dois perfis distintos de maturidade analítica entre as empresas: as maduras, que aplicam frameworks de priorização e integram múltiplas fontes de dados, e as emergentes, que ainda se apoiam quase exclusivamente em métricas financeiras de curto prazo e possuem processos menos estruturados.

No âmbito qualitativo, a análise de conteúdo temática seguiu os ciclos de codificação aberta, axial e seletiva (Bardin, 2016). Para classificar as métricas por criticidade estratégica, aplicou-se uma adaptação da matriz MoSCoW (Vijayakumar, Krishna & Raviraja, 2024). Nessa estrutura, as métricas foram categorizadas como “Must have” (essenciais para a sobrevivência, como taxa de conversão e LTV), “Should have” (importantes para otimização, como custo de aquisição de clientes e taxa de retenção), “Could have” (complementares, como tempo médio de sessão) e “Won’t have” (dados desalinhados aos objetivos estratégicos, como visualizações de página isoladas). O controle de qualidade da pesquisa foi assegurado por um pré-teste com dois casos piloto, revisão dos instrumentos por especialistas da área e um protocolo de member checking, no qual 30% dos entrevistados revisaram as interpretações das entrevistas para validar a fidedignidade dos resultados.

Os resultados obtidos revelam padrões significativos sobre o comportamento analítico das empresas de médio porte. Observou-se uma preferência clara e quase universal por métricas de impacto financeiro direto. A taxa de conversão e o ticket médio atingiram a pontuação máxima de 5,0 na escala de frequência de uso, demonstrando que esses indicadores são o cerne do monitoramento diário. O Lifetime Value apresentou uma média de 4,8, enquanto o Customer Acquisition Cost registrou 4,6. Em contrapartida, métricas de vaidade, como as visualizações de página, obtiveram uma adesão significativamente menor, com média de 2,4. Essa hierarquia de priorização indica que os gestores tratam os indicadores financeiros como centrais para a tomada de decisão, conferindo pouca relevância ao acompanhamento sistemático de dados que não demonstram uma correlação direta com a rentabilidade imediata ou a saúde financeira do negócio.

Um aspecto crítico identificado foi a correlação positiva entre o grau de confiança atribuído à métrica e sua frequência de uso. A taxa de conversão, além de ser a mais utilizada, obteve o maior índice de confiabilidade, com 4,6 pontos. Já métricas mais complexas e que exigem rastreamento longitudinal, como o custo de aquisição de clientes e o Lifetime Value, foram avaliadas com menor robustez metodológica, recebendo 3,8 e 4,0 pontos, respectivamente. Essa disparidade sugere que dificuldades técnicas de implementação e rastreio impactam diretamente a adoção prática desses indicadores. Quando os gestores não confiam plenamente na precisão do dado devido a falhas de atribuição ou integração de sistemas, tendem a relegar esses indicadores a um plano secundário, mesmo reconhecendo sua importância teórica para a estratégia da empresa.

As variações setoriais também se mostraram relevantes na definição das prioridades analíticas. No segmento de moda e cosméticos, as empresas demonstraram uma atenção superior às métricas de retenção e fidelização, com a taxa de retenção atingindo 4,8 e a frequência de compra 4,5. Esse comportamento é justificado pela natureza do produto, que favorece a recompra e a construção de um relacionamento de longo prazo com o consumidor. Já nos setores de eletrônicos e supermercados, predominam o ticket médio, com 4,9 pontos, e a taxa de conversão, com 4,8 pontos, refletindo uma estratégia focada no valor unitário das transações e na eficiência operacional de vendas de alto giro. Essa heterogeneidade reforça que a escolha dos indicadores não deve ser genérica, mas sim intrinsecamente ligada à natureza do negócio e ao comportamento de consumo específico de cada nicho.

Apesar da relevância estratégica da priorização, apenas 40% das empresas da amostra declararam adotar frameworks estruturados, como a matriz MoSCoW ou metodologias similares. Essa baixa adesão corrobora as advertências da literatura sobre os riscos de uma gestão orientada por métricas de vaidade ou pela intuição (Gräve, 2019). A ausência de governança de dados cria uma lacuna entre a coleta de informações e a execução estratégica, dificultando o alinhamento entre os indicadores monitorados e os objetivos de longo prazo da organização. As empresas classificadas no cluster de alta maturidade analítica são justamente aquelas que estruturam rotinas de priorização, integram dados de múltiplas fontes e conferem maior confiança a métricas complexas. Em contraste, as empresas emergentes escolhem seus indicadores de forma não estruturada, focando em resultados financeiros imediatos, mas apresentando baixa sofisticação na análise de tendências e no comportamento do cliente.

A análise e interpretação dos dados nas empresas estudadas ocorrem majoritariamente de forma interna, utilizando ferramentas como os dashboards nativos da VTEX, Google Analytics 4 e Looker Studio. Embora essas plataformas ofereçam dezenas de indicadores, os gestores relataram que, na rotina diária, acabam acompanhando apenas um conjunto reduzido de dados. O maior desafio relatado não reside na escassez de informações, mas sim na limitação de tempo e na carência de equipes capacitadas para realizar análises aprofundadas. Os entraves operacionais são evidentes: a integração de sistemas recebeu uma pontuação de 4,2 em termos de dificuldade, seguida pela sobrecarga de métricas disponíveis, com 3,8, e pelas limitações técnicas das próprias plataformas, com 3,6. Tais evidências reforçam que a abundância de dados, por si só, não garante vantagem competitiva se não houver capacidade analítica instalada (Keegan & Rowley, 2017).

Além das questões técnicas, emergiram barreiras organizacionais profundas que comprometem a adoção de uma cultura orientada por dados. A falta de tempo da equipe para análise detalhada foi apontada como o principal obstáculo, com média de 4,4 pontos. A dificuldade de integração entre diferentes sistemas e a resistência cultural em substituir a intuição por evidências baseadas em dados também registraram médias elevadas, de 4,2 e 3,9, respectivamente. Esses resultados indicam que a transformação para um modelo de gestão data-driven exige mudanças que transcendem a tecnologia, envolvendo governança, treinamento e uma reestruturação da cultura organizacional. O custo elevado de ferramentas avançadas de analytics, com média de 3,0, embora relevante, mostrou-se um desafio menor do que a gestão do capital humano e dos processos internos.

A discussão dos resultados em face da literatura existente confirma a prevalência das métricas financeiras como guias estratégicos fundamentais no e-commerce brasileiro (Saura et al., 2017; Blazquez et al., 2019). No entanto, a dificuldade em transformar dados disponíveis em ações efetivas permanece como um gargalo crítico (Keegan & Rowley, 2017). O estudo evidencia que a maturidade analítica das empresas depende da superação de barreiras operacionais e da implementação de modelos formais de priorização. A aplicação da matriz MoSCoW adaptada ao contexto de indicadores digitais surge como uma solução prática para reduzir a sobrecarga informacional, permitindo que os gestores concentrem seus esforços nos indicadores de maior impacto para o negócio. Ao organizar os dashboards segundo categorias de criticidade, as empresas conseguem alinhar melhor suas operações aos objetivos estratégicos, criando uma ponte sólida entre a teoria da inteligência analítica e a prática cotidiana do varejo digital.

As limitações deste estudo devem ser consideradas para a correta interpretação dos achados. O tamanho reduzido da amostra e a seleção por conveniência restringem a generalização dos resultados para todo o mercado de e-commerce. Além disso, a impossibilidade de mensurar os impactos financeiros de longo prazo decorrentes da adoção do modelo proposto sugere a necessidade de pesquisas futuras. Recomenda-se a ampliação da amostra para outros segmentos do varejo digital, como marketplaces e empresas de serviços, para validar a aplicabilidade do modelo de priorização em diferentes contextos. Estudos longitudinais que investiguem a correlação entre o aumento da maturidade analítica e indicadores objetivos de desempenho financeiro seriam valiosos para consolidar a importância da governança de dados. Adicionalmente, a exploração de ferramentas de inteligência artificial e machine learning para automatizar a coleta e a priorização dinâmica de indicadores representa uma fronteira promissora para superar a barreira operacional da sobrecarga de dados identificada nesta investigação.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que o modelo prático de priorização de métricas digitais demonstrou ser uma ferramenta viável para auxiliar gestores de e-commerces que utilizam a plataforma VTEX na identificação de indicadores com maior impacto estratégico. Os resultados evidenciaram que, embora os gestores reconheçam a importância de indicadores complexos como o Lifetime Value e o custo de aquisição de clientes, a prática cotidiana ainda é fortemente dominada por métricas de impacto financeiro imediato, como taxa de conversão e ticket médio, muitas vezes devido à falta de confiança na precisão de dados mais sofisticados e a limitações operacionais severas. As principais barreiras identificadas, tanto de ordem técnica quanto organizacional, como a dificuldade de integração entre sistemas e a escassez de tempo das equipes para análises profundas, limitam a transformação de dados em ações concretas e reduzem o potencial competitivo das empresas. A aplicação de frameworks estruturados, como a matriz MoSCoW adaptada, apresenta-se como um caminho eficaz para racionalizar a escolha de indicadores, reduzir a sobrecarga informacional e garantir o alinhamento entre a operação e os objetivos estratégicos de longo prazo. Portanto, a evolução do monitoramento de métricas digitais no cenário brasileiro depende não apenas da disponibilidade tecnológica, mas fundamentalmente da criação de processos estruturados e de uma cultura organizacional que valorize a inteligência de dados como um diferencial competitivo indispensável no mercado digital contemporâneo.

Referências Bibliográficas:

Bardin, L. 2016. Análise de Conteúdo. 1ed. Edições 70, São Paulo, SP, Brasil.

Baumann, A.; Haupt, J.; Gebert, F.; Lessmann, S. 2018. Changing perspectives: Using graph metrics to predict purchase probabilities. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0957417417307285>. Acesso em: 25 mar. 2025.

Blazquez, D.; Domenech, J.; Gil, J.A.; Pont, A. 2019. Monitoring E-commerce Adoption from Online Data. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007/s10115-018-1233-7>. Acesso em: 25 mar. 2025.

Finch, W. H. 2019. Exploratory Factor Analysis. 1ed. SAGE Publications. Thousand Oaks, CA, EUA.

Gräve, Jan-Frederik. 2019. What KPIs Are Key? Evaluating Performance Metrics for Social Media Influencers. Disponível em: <http://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/2056305119865475>. Acesso em: 22 jun. 2025.

Keegan, B.J.; Rowley, J. 2017. Evaluation and decision making in social media marketing. Management Decision. Disponível em: <https://www.emerald.com/insight/content/doi/10.1108/MD-10-2015-0450/full/html>. Acesso em: 26 mar. 2025.

Kotler, P.; Kartajaya, H.; Setiawan, I. 2017. Marketing 4.0: do Tradicional ao Digital. 1ed. Sextante, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Saura, J.R.; Palos-Sánchez, P.; Suárez, L.M.C. 2017. Understanding the digital marketing environment with KPIs and web analytics. Disponível em: <https://www.mdpi.com/1999-5903/9/4/76>. Acesso em: 25 mar. 2025.

Vijayakumar, S.; Krishna, P.K.; Raviraja, H.M. 2024. Assessing the effectiveness of MoSCoW prioritization in software development: a holistic analysis across methodologies. Disponível em: <https://publications.eai.eu/index.php/IoT/article/view/6515>. Acesso em: 30 jul. 2025.

Yin, R.K. 2015. Estudo de Caso: Planejamento e Métodos. 5ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Digital Business do MBA USP/Esalq

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