09 de abril de 2026
Gestão financeira e insolvência na aviação comercial brasileira
Gabrielly Aparecida Melo de Lima Pereira; Raphael José Pereira Freitas
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O Brasil, reconhecido como o quinto maior país do mundo em extensão territorial, abrange aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Essa vasta dimensão geográfica impõe obstáculos significativos à coesão nacional, uma vez que as grandes distâncias entre regiões dificultam o deslocamento célere e eficaz por vias terrestres convencionais. Nesse panorama, o transporte aéreo apresenta-se como um meio estratégico de mobilidade, promovendo a integração entre diferentes localidades e possibilitando o fluxo ágil e seguro de passageiros e cargas em todo o território nacional. A aviação civil brasileira desempenha um papel estratégico na integração territorial e no fortalecimento das economias regionais, especialmente ao conectar centros urbanos distantes e inserir municípios de pequeno e médio porte nas cadeias produtivas globais. Segundo da Silva e da Silva (2022), esse processo foi impulsionado pela ampliação da malha aérea, que dinamizou setores como o turismo, o comércio e os serviços especializados. A crescente demanda por transporte aéreo nas últimas décadas reflete esse avanço, com destaque para o protagonismo do turismo e do mercado corporativo, motivados pelo aumento da renda per capita, fortalecimento das rotas regionais e maior concorrência no setor. A popularização do transporte aéreo exigiu das companhias mudanças estruturais, com foco em infraestrutura, eficiência logística e inovação. Nesse contexto, a intensificação da competição levou à adoção de estratégias como o modelo de baixo custo, a oferta de tarifas promocionais e a valorização da experiência do cliente. A sustentabilidade financeira das empresas passou a depender diretamente da gestão eficiente de custos, sobretudo frente a desafios como a volatilidade cambial e os altos preços do petróleo, que impõem rigoroso controle sobre despesas operacionais. A aviação civil exerce um papel fundamental no desenvolvimento econômico do Brasil, ao conectar regiões distantes e impulsionar a geração de empregos diretos e indiretos. No entanto, a pandemia de COVID-19 desencadeou uma crise sem precedentes no setor, com o fechamento de fronteiras, queda na demanda e sérias dificuldades financeiras enfrentadas pelas companhias, muitas das quais recorreram à recuperação judicial (de Senna, Souza, 2023). O agravamento do cenário foi influenciado também por fatores como a alta dos combustíveis e os gargalos logísticos, o que evidenciou a necessidade de uma gestão resiliente e estratégica. Diante disso, torna-se relevante analisar os impactos econômicos e financeiros sobre as empresas aéreas, especialmente no que se refere à gestão de custos e à adoção de medidas de contenção em contextos de crise. As demonstrações contábeis, por sua vez, constituem instrumentos fundamentais na sistematização das informações financeiras de uma empresa, permitindo o acompanhamento de sua estrutura econômica e patrimonial. Contudo, por sintetizarem dados complexos em relatórios padronizados, tais demonstrações apresentam limitações inerentes, podendo não captar, com precisão, a totalidade dos elementos que interferem na realidade corporativa. Por essa razão, a análise desses documentos deve ser complementada por outras abordagens qualitativas e quantitativas que possibilitem uma leitura mais abrangente da situação da organização (Andrade, Silva, 2020). Autores da área contábil defendem que a contabilidade se configura como um modelo representacional da dinâmica empresarial, oferecendo subsídios para o monitoramento e avaliação de seu desempenho ao longo do tempo (Martin, 2002). No entanto, como qualquer modelo analítico, essa representação constitui uma aproximação da realidade, o que implica na necessidade de cautela em sua interpretação. Dessa forma, as demonstrações financeiras, embora essenciais, fornecem um retrato parcial da organização e devem ser correlacionadas com informações complementares para que se alcance uma análise mais robusta e fiel ao contexto da empresa (Terra, Bocardi, 2023). Considerando os elevados custos estruturais característicos do setor aéreo, incluindo despesas com arrendamento mercantil de aeronaves, aquisição de combustíveis, manutenção técnica e encargos trabalhistas, torna-se evidente que falhas na gestão desses elementos podem comprometer severamente a continuidade operacional das empresas. A partir da análise criteriosa das demonstrações contábeis, é possível identificar a correlação entre estratégias de gestão financeira e a sustentabilidade econômica no longo prazo, o que contribui não apenas para a compreensão dos fatores que levam à insolvência, mas também para a construção de boas práticas aplicáveis a outras empresas do setor.\nO propósito central reside em investigar de que maneira a gestão de custos e despesas impacta a sustentabilidade financeira de uma organização atuante no setor da aviação comercial. A investigação objetivou identificar os principais fatores que podem conduzir à insolvência dentro desse segmento, especialmente diante de um cenário recente marcado por crises e processos de reestruturação. Com base nessa problemática, assumiu-se um caráter aplicado, ao buscar não apenas descrever o fenômeno, mas também oferecer subsídios práticos que contribuam para a formulação de estratégias gerenciais mais eficazes. Metodologicamente, adotou-se uma abordagem de natureza predominantemente quantitativa, baseada na análise de dados financeiros objetivos que influenciam o desempenho econômico-financeiro da companhia analisada. Utilizou-se técnicas de avaliação financeira e análise estatística, com ênfase na interpretação de indicadores extraídos das demonstrações contábeis. Essa abordagem possibilitou uma análise estruturada, fundamentada em métricas e evidências empíricas, assegurando maior precisão e replicabilidade dos resultados. No que se refere aos objetivos, a pesquisa assumiu características tanto exploratórias quanto descritivas. O caráter exploratório manifestou-se na identificação e análise de variáveis ainda pouco discutidas na literatura sobre gestão financeira em companhias aéreas em situação de crise. Já a vertente descritiva foi evidenciada pela sistematização dos dados coletados e pela análise dos padrões observados em termos de liquidez, endividamento e estrutura de capital ao longo do período analisado. O procedimento metodológico adotado foi o estudo de caso, com foco em uma empresa aérea de expressiva representatividade no mercado nacional. A escolha da companhia baseou-se em seu histórico recente de deterioração financeira e ingresso em processo de recuperação judicial, o que a torna um caso relevante para a investigação de fragilidades e riscos financeiros no setor aéreo. Essa estratégia permitiu a aplicação detalhada das ferramentas de análise financeira em um contexto empresarial específico. Os dados utilizados foram obtidos a partir de plataformas públicas que disponibilizam informações financeiras padronizadas de empresas listadas na bolsa de valores oficial do Brasil. O recorte temporal compreendeu o período de 2019 a 2024, permitindo capturar tanto a situação pré-pandemia quanto os impactos da crise sanitária da COVID-19 sobre o desempenho financeiro da empresa. A escolha desse intervalo foi estratégica, pois abrange momentos de estabilidade, choque econômico e tentativas de recuperação, proporcionando uma visão abrangente da evolução dos indicadores financeiros da companhia ao longo do tempo. As demonstrações contábeis analisadas incluíram principalmente o balanço patrimonial e a demonstração do resultado do exercício, documentos fundamentais para a apuração da situação financeira e econômica da organização. A análise dos dados foi organizada em etapas rigorosas. A primeira consistiu na coleta sistemática dos balanços patrimoniais anuais e das respectivas demonstrações de resultado. A segunda etapa correspondeu ao cálculo dos índices de liquidez, incluindo a liquidez corrente, a liquidez seca, a liquidez imediata e a liquidez geral. Esses indicadores foram fundamentais para avaliar a capacidade da empresa de honrar suas obrigações de curto e longo prazo. Na terceira etapa, foram calculados os índices de endividamento, compostos pela participação de capital de terceiros, composição do endividamento e endividamento geral. A análise desses indicadores permitiu medir o grau de alavancagem financeira e a dependência da empresa em relação a capitais externos. Posteriormente, os resultados foram sistematizados para possibilitar a visualização clara da evolução dos indicadores. Além da análise tradicional dos índices, incorporou-se a metodologia do modelo dinâmico de Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003) e do Termômetro de Elizabetsky para uma avaliação mais ampla da situação de solvência e da estrutura de capital da empresa. A utilização desses modelos permitiu enriquecer a análise, oferecendo uma visão mais holística e dinâmica do comportamento financeiro da companhia ao longo do tempo. A aplicação do modelo dinâmico envolveu a reclassificação das contas do balanço patrimonial em três grupos principais: erráticas, cíclicas e permanentes. As contas erráticas englobam recursos cuja natureza não está diretamente vinculada à atividade operacional, como disponibilidades de caixa e aplicações financeiras. As contas cíclicas referem-se aos elementos associados ao ciclo operacional, como estoques e contas a receber. As contas permanentes abrangem ativos e passivos de longo prazo. A partir dessa reestruturação, três indicadores centrais foram apurados: o capital de giro, a necessidade de capital de giro e o saldo de tesouraria. Por fim, aplicou-se o Termômetro de Elizabetsky para avaliar o risco de insolvência, utilizando variáveis como lucro líquido sobre receita, disponível sobre ativo permanente e passivo circulante sobre ativo total. O modelo permitiu classificar a empresa quanto ao seu grau de solvência com base em variáveis extraídas das demonstrações financeiras.\nOs resultados foram estruturados de forma a proporcionar uma compreensão aprofundada sobre a situação econômico-financeira da companhia aérea analisada. A avaliação dos índices de liquidez evidenciou uma tendência de queda progressiva e alarmante. Em 2019, a liquidez corrente situava-se em 0,60, declinando acentuadamente para 0,27 em 2024. Esse movimento demonstra que a capacidade da empresa de cobrir suas obrigações imediatas com os recursos disponíveis se deteriorou de forma severa, atingindo patamares onde os ativos de curto prazo não representam sequer um terço das dívidas vincendas no mesmo período. A liquidez seca apresentou trajetória similar, caindo de 0,54 para 0,22 no intervalo analisado, o que sinaliza que, mesmo desconsiderando os estoques, os recursos eram amplamente insuficientes. O indicador de liquidez imediata, que retrata a reserva de caixa disponível para pagamento instantâneo de dívidas, mostrou os resultados mais críticos, passando de 0,25 em 2019 para apenas 0,06 em 2024. Tal dado indica uma posição de caixa extremamente vulnerável, onde a empresa opera com margens de segurança mínimas. A liquidez geral também sofreu redução, passando de 0,85 para 0,46, sugerindo que as obrigações de longo prazo também estão comprometidas pela insuficiência de ativos totais. Esses resultados mostram-se coerentes com observações de Lopes et al. (2023) sobre o setor de turismo, onde a crise sanitária impactou severamente o ciclo operacional, levando a uma rápida deterioração da liquidez mesmo em estruturas anteriormente sólidas. A análise dos índices de endividamento revelou um quadro de alta alavancagem e fragilidade estrutural. A participação de capital de terceiros apresentou valores negativos e elevados, partindo de -6,46% em 2019 para -1,86% em 2024, o que indica uma dependência absoluta de recursos externos frente a um patrimônio líquido negativo. O índice de endividamento geral subiu de 118,33% em 2019 para 215,83% em 2024, revelando um crescimento contínuo da exposição financeira. Isso significa que, para cada real de ativo, a empresa possui mais de dois reais em dívidas com terceiros. A composição do endividamento variou de 30,21% para 37,63%, sugerindo uma concentração crescente de passivos no curto prazo, o que pressiona ainda mais a liquidez imediata. Esse cenário é crítico, pois, conforme argumentam Valle e Albanez (2024), a busca por financiamento externo em contextos adversos pode gerar apenas efeitos paliativos se não for acompanhada de uma reestruturação efetiva. Quando comparados aos parâmetros da IATA (2023), que sugere endividamento geral inferior a 150% para empresas saudáveis, os indicadores da companhia superam largamente os limites de segurança. A aplicação do modelo de Fleuriet, Kehdy e Blanc (2003) permitiu uma leitura dinâmica que confirmou a gravidade da situação. O capital de giro foi consistentemente negativo ao longo de todo o período, culminando em um déficit de aproximadamente 15,68 bilhões de reais em 2024. Isso prova que a empresa não dispunha de ativos circulantes suficientes para cobrir passivos de curto prazo, caracterizando um desequilíbrio financeiro estrutural. A necessidade de capital de giro também foi negativa em todos os anos, o que isoladamente poderia indicar menor demanda por recursos operacionais, mas, quando combinada com o capital de giro negativo, revela uma dependência extrema de capital de terceiros. O saldo de tesouraria, que foi positivo em 2019 e 2020, tornou-se negativo a partir de 2021, atingindo um déficit de 7,36 bilhões de reais em 2024. De acordo com a tipologia de Fleuriet, a empresa migrou de uma estrutura de tipo 4 para o tipo 3, que é caracterizado por situação crítica de liquidez e iminência de insolvência. Comparando com o cenário pós-pandemia, enquanto muitas empresas brasileiras conseguiram recuperar liquidez (Samylli et al., 2023), a companhia aérea analisada seguiu na contramão, mantendo-se na pior classificação sem sinais de reversão. A avaliação pelo Termômetro de Elizabetsky reforçou o diagnóstico de insolvência. O índice Z já se encontrava abaixo do ponto crítico em 2019, marcando 0,18, o que classifica a empresa como insolvente antes mesmo da pandemia. Esse dado revela que as dificuldades não foram exclusivamente provocadas pela crise sanitária, mas sim por fragilidades estruturais pré-existentes. Em 2020, o índice caiu para -0,08 e continuou em declínio acentuado, atingindo -2,18 em 2024, o valor mais baixo do período. Esse agravamento contínuo reforça a visão de que as medidas de contenção foram insuficientes para reverter a tendência negativa. A combinação de patrimônio líquido negativo, prejuízos operacionais recorrentes e passivos insustentáveis caracteriza um colapso financeiro iminente, tornando o pedido de recuperação judicial protocolado em 2023 uma consequência lógica do diagnóstico fornecido pelos modelos. O Termômetro de Elizabetsky demonstrou elevada aplicabilidade no setor de serviços, funcionando como um alarme prévio eficaz. A queda na rentabilidade e no desempenho operacional contribuiu diretamente para os resultados negativos, evidenciando falhas estruturais na condução das atividades principais. O histórico de insolvência captado reforça a importância de utilizar modelos que considerem a capacidade sustentável de geração de resultados em setores sensíveis como o aéreo, onde a margem de erro é reduzida. Os dados financeiros extraídos evidenciaram a progressiva deterioração da capacidade de pagamento e o elevado grau de alavancagem, servindo de base sólida para a aplicação dos modelos de análise financeira que corroboram a fragilidade da estrutura econômica da empresa no período examinado.\nConclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise detalhada demonstrou como a gestão de custos e a estrutura de capital influenciaram a trajetória de insolvência da companhia aérea. Os resultados obtidos por meio dos indicadores tradicionais, do modelo de Fleuriet e do Termômetro de Elizabetsky convergiram para um diagnóstico de grave deterioração financeira entre 2019 e 2024. A redução drástica dos índices de liquidez, o aumento exponencial do endividamento geral para patamares superiores a 215% e a manutenção de um patrimônio líquido negativo evidenciam uma estrutura de capital insustentável. A transição para uma classificação de risco máximo no modelo dinâmico e a queda contínua do índice Z de Elizabetsky confirmam que a crise sanitária apenas acelerou problemas estruturais pré-existentes. A dependência severa de capital de terceiros e a incapacidade de gerar fluxos de caixa operacionais suficientes para honrar compromissos de curto prazo tornaram o pedido de recuperação judicial uma medida inevitável. Diante desse cenário, reforça-se a necessidade de modelos preditivos robustos e de uma gestão financeira que priorize a liquidez e o controle rigoroso de custos operacionais para garantir a continuidade em setores altamente voláteis.
Referências Bibliográficas:
Andrade, P. R. S., Da Silva, T. A. 2020. Aviação e os desafios da COVID-19: panorama e perspectivas para o setor.
Da Silva, R. C., Da Silva, A. G. 2022. Turismo, o setor de aviação e os reflexos da COVID-19: um estudo comparativo sobre as companhias aéreas no Brasil: Azul, GOL e TAM. Revista Científica Hermes, n. 31, p. 57-75.
De Senna, V., Souza, A. M. 2023. Consequências da pandemia de COVID-19 para a aviação civil no Brasil. Exata, v. 21, n. 2, p. 545-566.
Fleuriet, M., Kehdy, R., Blanc, G. 2003. O modelo Fleuriet: a dinâmica financeira das empresas brasileiras. Um método de análise, orçamento e planejamento financeiro. 7ª edição. Elsevier.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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