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19 de fevereiro de 2026

Performance financeira e competitividade na cadeia de petróleo e gás

Tamires Pereira da Silva; Rafael Confetti Gatsios

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa analisa o desempenho econômico-financeiro de empresas dos segmentos upstream, midstream e downstream da cadeia de petróleo e gás no Brasil. O estudo evidencia as diferenças estruturais e os impactos das flutuações do preço do barril de petróleo Brent e da taxa de câmbio, utilizando indicadores financeiros de 2020 a 2024. A investigação mapeia como a volatilidade macroeconômica afeta assimetricamente a liquidez, o endividamento e a rentabilidade de companhias em cada elo, fornecendo um panorama comparativo dos riscos e oportunidades inerentes a cada segmento.

O setor de petróleo e gás é estratégico para a economia global, fornecendo energia, gerando receitas governamentais e impulsionando atividades industriais como transporte, petroquímica e geração de eletricidade (International Energy Agency [IEA], 2023). A complexidade da cadeia produtiva gera efeitos que se propagam por todo o setor energético. Estudos como o de Vasconcelos (2022) demonstram a conexão entre os segmentos de exploração, produção, transporte e comercialização, reforçando o papel do setor como motor de desenvolvimento e sua exposição ao contexto macroeconômico global.

No Brasil, o setor é um catalisador para investimentos, geração de empregos e inovação. Representa aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial do país (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás [IBP], 2023). A cadeia produtiva, segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES] (2022), divide-se em: upstream (exploração e produção – E&P), midstream (transporte e armazenamento) e downstream (refino, distribuição e comercialização). Cada elo demanda bens e serviços de alto valor agregado, mobilizando indústrias correlatas.

O segmento upstream concentra as etapas de maior risco e investimento, como exploração e perfuração, exigindo tecnologia e capital intensivo, com alta exposição à volatilidade do preço do petróleo. O midstream é o conector logístico, abrangendo transporte e armazenagem, caracterizado por contratos de longo prazo e maior estabilidade de receitas. O downstream inclui o refino; o petróleo bruto é transformado em derivados, e a subsequente distribuição ao consumidor final (Empresa de Pesquisa Energética [EPE], 2023). Essa estrutura interdependente assegura o abastecimento e movimenta a economia, gerando empregos e receitas fiscais.

A dinâmica da cadeia é influenciada por tensões geopolíticas, regulações ambientais, avanços tecnológicos e pressões por sustentabilidade (Baumeister e Kilian, 2016). A oscilação do preço do petróleo é um dos fatores de maior impacto, moldada pelo balanço de oferta e demanda, instabilidades políticas e decisões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo [OPEP] (Calvano, 2023). Nos últimos anos, a volatilidade do Brent, as flutuações cambiais e os efeitos da pandemia de Covid-19 impactaram a rentabilidade, o endividamento e os investimentos das empresas (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis [ANP], 2023).

O estudo é uma pesquisa descritiva, que analisa sistematicamente o desempenho econômico-financeiro de empresas representativas dos segmentos da cadeia. Conforme Gil (2019), essa abordagem descreve um fenômeno e estabelece relações entre variáveis. A proposta examina indicadores financeiros dos segmentos upstream, midstream e downstream, contextualizando-os com fatores macroeconômicos como o preço do Brent e a taxa de câmbio. A abordagem é qualitativa na interpretação dos dados quantitativos, buscando compreender o fenômeno em seu contexto (Flick, 2009).

A técnica empregada foi a pesquisa documental, baseada em demonstrações contábeis anuais e relatórios de administração, o que confere consistência e verificabilidade à análise (Marconi e Lakatos, 2017). A pesquisa foi estruturada como um estudo de caso múltiplo (Yin, 2015) para comparar as unidades de análise. A amostra incluiu três empresas de capital aberto listadas na B3, representativas de cada etapa: E1 (upstream), especializada em exploração e produção; E2 (midstream), com foco em transporte e infraestrutura; e E3 (downstream), com atuação no refino e distribuição.

A seleção das empresas baseou-se em relevância setorial e transparência. O recorte temporal de 2020 a 2024 foi escolhido por ser um período de alta volatilidade nos preços do Brent, flutuações cambiais e impactos da pandemia e de conflitos geopolíticos. A inclusão do preço do Brent, referência internacional (Hamilton, 2009), e da taxa de câmbio (USD/BRL) visa avaliar qualitativamente sua correlação com os indicadores financeiros, já que a performance das empresas petrolíferas é intrinsecamente ligada a esses fatores (Baumeister e Kilian, 2016).

Os dados foram coletados das demonstrações contábeis (Balanço Patrimonial e Demonstração do Resultado do Exercício – DRE) publicadas nos portais de Relações com Investidores. A análise foi realizada pelo cálculo de indicadores financeiros, interpretados segundo o contexto econômico (Marion, 2021). Os indicadores selecionados foram: Liquidez Corrente, Composição do Endividamento, Margem Líquida, Retorno sobre Ativos (ROA) e Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), considerados essenciais por Assaf Neto (2022) para uma visão integrada. Dados do Brent foram obtidos na plataforma “Oilprice” e a taxa de câmbio no Banco Central do Brasil (BACEN).

A análise comparativa revelou perfis de desempenho distintos para cada segmento. A volatilidade macroeconômica entre 2020 e 2024, com a queda do Brent em 2020, recuperação e picos em 2022, e flutuações cambiais, expôs as sensibilidades específicas de cada empresa. Esses fatores externos foram fundamentais para interpretar os resultados, pois influenciaram custos, margens e estratégias de financiamento.

O Retorno sobre Ativos (ROA) da empresa E1 (upstream) demonstrou alta volatilidade, alinhada ao preço do Brent: foi de 6% em 2020, subiu para 11% em 2021, 17% em 2022, e estabilizou em 18% em 2023 e 2024. Em contraste, a empresa E2 (midstream) exibiu estabilidade, com ROA oscilando entre 4% (2021) e 9% (2024), refletindo seus contratos de longo prazo. A empresa E3 (downstream) também apresentou grande oscilação, com ROA de 1% em 2020, pico de 19% em 2022, e queda para 3% em 2024, evidenciando a pressão sobre suas margens. Os achados alinham-se a Calvano (2023) sobre a maior exposição do upstream à variação da commodity.

A Composição do Endividamento, que mede a proporção de dívidas de curto prazo, também mostrou perfis distintos. A E1 (upstream) variou significativamente, com o indicador atingindo pico de 24% em 2023 antes de recuar para 12% em 2024, refletindo a necessidade de capital intensivo. A E2 (midstream) manteve uma estrutura de endividamento estável, com o indicador em torno de 19% durante o período, consistente com seu modelo de menor risco. A E3 (downstream) mostrou endividamento elevado e crescente, partindo de 20% em 2020 para 27% em 2022, permanecendo acima de 25% nos anos seguintes, o que sugere maior dependência de financiamento de curto prazo.

A Liquidez Corrente reforçou essas diferenças. A E1 (upstream) foi volátil, com o índice saltando de 1,27 em 2020 para um pico de 7,55 em 2022, recuando para 2,16 em 2024. Isso indica que a geração de caixa em períodos de alta é alocada em novos investimentos. A E2 (midstream) apresentou índices estáveis entre 0,99 e 1,46, sugerindo gestão de caixa conservadora. A E3 (downstream) demonstrou deterioração contínua, com o índice caindo de 1,04 em 2020 para 0,69 em 2024. Um índice abaixo de 1,00 sinaliza potenciais dificuldades no pagamento de dívidas de curto prazo (Assaf Neto, 2022).

Os indicadores de rentabilidade, como a Margem Líquida, confirmaram a dinâmica. A E1 (upstream) alcançou margens expressivas, partindo de 21% em 2020 e atingindo 48% em 2024, evidenciando a alta lucratividade do segmento com preços de petróleo favoráveis e câmbio desvalorizado. A E2 (midstream) manteve margens estáveis entre 23% e 30%, demonstrando resiliência. Em forte contraste, a E3 (downstream) teve uma margem líquida volátil: 2% em 2020, pico de 29% em 2022, e queda para 8% em 2024. Essa oscilação ilustra como a rentabilidade do downstream é afetada por políticas de preços e variação cambial, que comprimem suas margens.

O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) sintetizou o desempenho para o acionista. A E1 (upstream) demonstrou um ROE crescente, de 15% em 2020 para 40% em 2024, refletindo o alto potencial de retorno atrelado à volatilidade. A E2 (midstream) apresentou um ROE consistente na faixa de 15% a 18%, indicando um retorno previsível para os investidores, o que dialoga com os achados de Vasconcelos (2022) sobre a estabilidade do midstream. A E3 (downstream) teve desempenho errático, com ROE de 2% em 2020, salto para 52% em 2022 e queda para 10% em 2024, revelando sua vulnerabilidade a fatores externos e as oscilações na rentabilidade do capital investido.

A análise conjunta evidencia que a indústria de Petróleo e Gás é composta por segmentos com perfis de risco e retorno distintos. A E1 (upstream) representa o maior potencial de retorno, acompanhado de forte volatilidade. A E2 (midstream) opera com maior estabilidade e previsibilidade. A E3 (downstream) enfrenta as maiores restrições estruturais, demonstrando vulnerabilidade à taxa de câmbio e às políticas de preços, refletindo as características intrínsecas de sua posição na cadeia.

A pesquisa demonstrou que o desempenho financeiro na cadeia de petróleo e gás é heterogêneo. A E1 (upstream) destacou-se pela alta rentabilidade em cenários favoráveis, como sua margem líquida de 48% em 2024, mas também pela volatilidade. A E2 (midstream) confirmou seu perfil de estabilidade, com indicadores consistentes. Em contrapartida, a E3 (downstream) revelou maior vulnerabilidade estrutural, evidenciada pela queda de sua liquidez corrente para 0,69 em 2024, apontando desafios no equilíbrio financeiro. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que, embora inseridas na mesma cadeia produtiva, as empresas de upstream, midstream e downstream apresentam desempenhos financeiros distintos, confirmando a sensibilidade assimétrica de cada segmento às condições macroeconômicas, como o preço do petróleo e a taxa de câmbio.

Referências:
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). 2023. Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Disponível em: <https://www. gov. br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/anuario-estatistico/anuario-estatistico-2023>. Acesso em: 20 set. 2025.
Assaf Neto, A. 2022. Finanças Corporativas e Valor. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social [BNDES]. 2022. Setor de petróleo e gás natural: perfil dos investimentos. Disponível em: <https://web. bndes. gov. br/biblioteca>. Acesso em: 14 set. 2025.
Baumeister, C.; Kilian, L. 2016. Forty Years of Oil Price Fluctuations: Why the Price of Oil May Still Surprise Us. Journal of Economic Perspectives 30(1): p. 139-160.
Calvano, G. V. M. 2023. Análise do desempenho econômico-financeiro de empresas de perfuração offshore: um estudo de caso múltiplo. Trabalho de Conclusão de Curso na Graduação em Ciências Contábeis. Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil.
Empresa de Pesquisa Energética [EPE]. 2023. Balanço Energético Nacional. Disponível em: <https://www. epe. gov. br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/balanco-energetico-nacional-2023>. Acesso em: 14 set. 2025.
Energy Institute. 2025. Statistical Review of World Energy: 72nd edition. Disponível em: <https://www. energyinst. org/statistical-review>. Acesso em: 14 set. 2025.
Flick, U. 2009. Introdução à pesquisa qualitativa. 3ed. Artmed, Porto Alegre, RS, Brasil.
Gil, A. C. 2019. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Hamilton, J. D. 2009. Understanding crude oil prices. The Energy Journal 30(2): p. 179-206.
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International Energy Agency [IEA]. 2023. World Energy Outlook 2023. Disponível em: <https://www. energy. gov/sites/default/files/2024-02/004.%20IEA%2C%20World%20Energy%20Outlook%202023. pdf>. Acesso em: 01 set. 2025.
Marconi, M. A.; Lakatos, E. M. 2017. Fundamentos de metodologia científica. 8ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Marion, J. C. 2021. Análise das Demonstrações Contábeis. 11ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
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Organização dos Países Exportadores de Petróleo [OPEP]. 2023. Relatório mensal do mercado de petróleo. Disponível em: <https://br. investing. com/economic-calendar/opec-monthly-report-1673>. Acesso em: 01 set. 2025.
Vasconcelos, C. J. V. 2022. Análise do mercado de gás natural e seus impactos sobre o setor petroleiro. Trabalho de Conclusão de Curso na Graduação em Engenharia de Petróleo e Gás. Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PA, Brasil.
Yin, R. K. 2015. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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