11 de fevereiro de 2026
Percepção de servidores públicos sobre programas de treinamento institucionais
Raquel Guimarães Teixeira Matos; Rafael Budach
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo analisou a percepção de servidores públicos sobre os efeitos dos programas de treinamento institucionais na produtividade, no engajamento e no desenvolvimento profissional. A investigação buscou compreender como os participantes avaliam a aplicabilidade dos conteúdos, a contribuição das capacitações para o desempenho, a motivação, a segurança na execução das atividades e o desenvolvimento de competências. A partir da percepção dos beneficiários diretos, o estudo visa gerar subsídios para a avaliação e o aprimoramento das políticas de capacitação no setor público, fortalecendo a gestão de pessoas.
A administração pública enfrenta o desafio de modernizar suas práticas, posicionando a capacitação de servidores como pilar estratégico. Os programas de treinamento desenvolvem competências comportamentais, promovem inovação e adaptação a novas tecnologias e regulamentações (Tomaz e Tomaz, 2023). A formação continuada é um investimento estratégico com retornos em eficiência e qualidade, impactando a capacidade do Estado de responder às demandas sociais.
Os benefícios da capacitação contínua manifestam-se nas esferas individual e organizacional. Para o servidor, representa crescimento profissional, desenvolvimento de novas habilidades e uma carreira mais sólida (Ehrl et al., 2023). Para a organização, o fortalecimento das competências se traduz em processos mais eficientes, maior capacidade de resolução de problemas e melhoria nos serviços públicos (Lima et al., 2023). Essa sinergia confere aos programas de treinamento seu caráter estratégico.
Um desafio na gestão de pessoas do setor público é a mensuração da eficácia dos programas de formação. A avaliação não deve se restringir à satisfação imediata dos participantes. Conforme o modelo de transferência de treinamento, o sucesso está na aplicação efetiva dos conhecimentos no ambiente de trabalho (Abbad, 1999). Investigar se o aprendizado é transferido para a prática e gera ganhos de desempenho é uma lacuna a ser endereçada para que as políticas de capacitação sejam mais assertivas.
A análise da percepção dos servidores sobre os efeitos dos treinamentos é uma abordagem valiosa. A percepção sobre a utilidade e aplicabilidade dos conteúdos é um forte preditor da transferência do aprendizado para o trabalho (Pereira et al., 2018). Compreender como os servidores avaliam o impacto das capacitações em sua produtividade e motivação oferece um diagnóstico direto sobre a pertinência dos programas. Este estudo busca capturar essa perspectiva interna para fornecer um panorama da efetividade percebida das ações de desenvolvimento em uma instituição pública, contribuindo para a melhoria contínua de suas estratégias.
O estudo adotou uma abordagem quantitativa, aplicada e descritiva, conduzida em uma instituição pública federal, denominada “Instituição Alfa”, no Distrito Federal. A escolha do campo foi motivada pela regularidade das ações de capacitação, configurando um ambiente propício para a análise. A atuação da pesquisadora como servidora na área de treinamento da instituição facilitou o acesso aos participantes e proporcionou uma compreensão aprofundada do contexto organizacional.
Os dados primários foram coletados via questionário estruturado com perguntas fechadas em escala Likert, desenhado para avaliar o impacto dos treinamentos em dimensões como produtividade, segurança, aplicabilidade, satisfação, motivação, desenvolvimento de habilidades e compartilhamento de conhecimentos. A participação foi voluntária e anônima. A coleta de informações sociodemográficas (sexo, faixa etária, tempo de serviço) permitiu a caracterização da amostra, prática recomendada para reforçar a representatividade em pesquisas sociais (Gil, 2023).
A seleção dos participantes utilizou uma amostragem não probabilística por conveniência, justificada pelas condições práticas do campo, como baixa adesão espontânea e flutuações na disponibilidade dos servidores. Embora essa abordagem limite a generalização estatística, mostrou-se a mais viável para garantir um número suficiente de respostas (Fávero e Belfiore, 2017; Sargi, 2024). Foram obtidas 70 respostas válidas, que constituíram a base da análise, cuja interpretação considera as especificidades do grupo amostral e do contexto.
A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva, com frequências absolutas e percentuais para sintetizar os resultados. A técnica permitiu organizar as percepções de forma clara, identificando tendências e avaliações predominantes em cada dimensão investigada (Guedes et al., 2005). A apresentação dos resultados foi estruturada com tabelas e gráficos para facilitar a visualização, com foco na descrição detalhada das percepções para extrair insights sobre os pontos fortes e as áreas de melhoria dos programas de treinamento da Instituição Alfa.
A análise do perfil dos 70 respondentes mostrou predominância do sexo feminino (58,3%), e a faixa etária mais representativa foi a de 55 anos ou mais (46,7%), seguida pela de 35 a 44 anos (28,3%), sugerindo uma força de trabalho experiente. A maioria (56,7%) possui mais de 10 anos de serviço na instituição, reforçando o perfil de um quadro funcional estável. A composição é majoritariamente de servidores efetivos (91,7%), o que sublinha a importância de políticas de capacitação de longo prazo. Este perfil corrobora a literatura que aponta a formação continuada como instrumento para a valorização de servidores de carreira (Lima et al., 2023).
Quanto à participação nos programas, os dados indicam um engajamento moderado. A maioria (51,7%) participa “ocasionalmente”, enquanto 28,3% o fazem “frequentemente”. Uma parcela de 15% participa “raramente” e 5% “nunca”. No que tange ao volume, 66,7% participaram de um a três treinamentos nos últimos 12 meses. Apesar da frequência variável, o impacto percebido na rotina de trabalho é positivo: 51,7% afirmaram que os treinamentos impactam “frequentemente” suas atividades, e 11,7% relataram um impacto constante. O achado sugere que a qualidade e pertinência das capacitações geram benefícios práticos, alinhando-se à ideia de que a utilidade percebida é fator chave para a efetividade do treinamento (Abbad, 1999).
A avaliação das dimensões de produtividade e segurança foi amplamente favorável. Um total de 89% dos participantes concordou (55% totalmente e 34% parcialmente) que os treinamentos contribuíram para a melhoria de seu desempenho profissional. Adicionalmente, 74% dos servidores afirmaram sentir-se mais seguros na execução de suas atividades após os treinamentos (50% “frequentemente” e 24% “sempre”). O aumento da segurança e da confiança fomenta a autonomia, a proatividade e a redução de erros, contribuindo para um ambiente de trabalho mais eficiente.
A aplicabilidade dos conteúdos e a satisfação geral também registraram índices positivos. Cerca de 72% dos respondentes consideraram que os conhecimentos adquiridos foram “sempre” ou “frequentemente” aplicáveis à sua rotina, o que demonstra alinhamento entre a oferta de cursos e as demandas práticas. Apenas 8% indicaram baixa ou nenhuma aplicabilidade. A satisfação geral atingiu 90%, com servidores declarando-se “satisfeitos” ou “muito satisfeitos”, sem nenhum registro de insatisfação. Este alto contentamento, associado à percepção de aplicabilidade, reforça a qualidade da política de treinamento da instituição (Pereira et al., 2018).
No eixo do engajamento, os treinamentos mostraram-se um vetor de motivação e integração. Um total de 83% dos servidores concordou que as capacitações aumentaram seu entusiasmo no trabalho (36% totalmente e 47% parcialmente), sugerindo que os programas funcionam como um fator de reconhecimento. Adicionalmente, 67% dos participantes afirmaram sentir-se mais integrados e envolvidos com seu setor após os treinamentos (“sempre” ou “frequentemente”). A capacitação, ao promover interação e alinhamento, atua como catalisador para o fortalecimento do trabalho em equipe e da cultura organizacional (Tomaz e Tomaz, 2023).
A contribuição para o desenvolvimento profissional apresentou resultados robustos. A maioria (84%) percebeu que os treinamentos contribuíram para o desenvolvimento de novas habilidades e competências (40% em concordância total e 44% parcial). Da mesma forma, 83% afirmaram sentir-se mais preparados para a tomada de decisão. Os treinamentos também mostraram um efeito multiplicador: 71% dos servidores relataram compartilhar “sempre” ou “frequentemente” os conhecimentos adquiridos com colegas. Esse comportamento de disseminação do aprendizado é fundamental para criar uma organização que aprende e potencializar o retorno sobre o investimento.
As sugestões de melhoria coletadas indicaram cinco temas centrais: maior alinhamento dos conteúdos com a prática; oferta de horários alternativos para ampliar o acesso; divulgação antecipada da agenda e criação de trilhas de aprendizagem; uso de metodologias mais dinâmicas e linguagem acessível; e parcerias com especialistas externos. Tais sugestões alinham-se às melhores práticas de educação corporativa no setor público, que enfatizam a flexibilidade, o planejamento e o foco nas necessidades dos servidores (Lima et al., 2023; Kirkpatrick, 1994).
Os comentários gerais reforçaram a percepção positiva, com servidores destacando os efeitos benéficos dos treinamentos na motivação, confiança e integração. Um ponto de destaque foi o depoimento de servidores com mais tempo de carreira, que apontaram as capacitações como um estímulo para a atualização profissional e para se manterem engajados. Este achado evidencia o papel estratégico do treinamento na gestão de um quadro funcional maduro, combatendo a estagnação e promovendo o aprendizado ao longo da vida (Pereira et al., 2018). Os resultados qualitativos validaram os dados quantitativos e enriqueceram a análise.
A análise dos dados permite afirmar que os programas de treinamento da Instituição Alfa são percebidos positivamente. As capacitações demonstraram impacto significativo na produtividade, segurança na execução das tarefas, motivação, engajamento e desenvolvimento de competências. A correlação entre participação e melhorias no cotidiano profissional reforça a pertinência das ações. As sugestões de melhoria oferecem um roteiro para o aperfeiçoamento da política de capacitação, recomendando-se maior participação no planejamento, diversificação de metodologias e alinhamento fino com as necessidades operacionais.
O estudo possui limitações, como o foco em uma única instituição e a amostragem não probabilística, que restringem a generalização dos achados. Pesquisas futuras poderiam incluir outras organizações para análises comparativas, adotar abordagens qualitativas ou realizar estudos longitudinais para avaliar impactos de longo prazo. Apesar disso, os resultados oferecem um diagnóstico robusto para a gestão de pessoas da instituição. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que, na percepção dos servidores da instituição analisada, os programas de treinamento representam uma ferramenta estratégica com efeitos positivos na produtividade, no engajamento e no desenvolvimento profissional.
Referências:
Abbad, G. 1999. Um modelo integrado de avaliação do impacto do treinamento no trabalho – IMPACT. Tese (Doutorado em Psicologia). Instituto de Psicologia, Universidade Federal de Brasília, Brasília, DF, Brasil.
Ehrl, P.; Souza, P. M. S.; Souza, V. S. 2023. Impacto da qualificação nas trajetórias profissionais dos servidores públicos federais. Revista do Serviço Público 74(2): 309-330.
Fávero, L. P. L.; Belfiore, P. P. 2017. Manual de Análise de Dados: Estatística e Modelagem Multivariada com Excel, SPSS e Stata. Elsevier, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 178 p.
Gil, A. C. 2023. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 8 ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil, 92 p.
Guedes, T. A.; Martins, A. B. T. 2005. Estatística Descritiva. Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), São Paulo, SP, Brasil.
Kirkpatrick, D. L. 1994. Evaluating training programs: The four levels. Berrett-Koehler Publishers, San Francisco, CA, USA.
Lima, T. M.; Roberto, J. C. A.; Da Cunha, E. L.; Do Nascimento Couceiro, K.; De Lima, O. P.; De Araújo, P. C. D.; De Oliveira Júnior, N. J.; Maduro, M. R. R. 2023. A importância da capacitação e formação contínua dos servidores públicos na obtenção de excelência da qualidade na prestação dos serviços públicos. Revista Caderno Pedagógico 20(1): 101-122.
Pereira, D. G.; Bastos, F. C. C.; Da Boit Mariot, G. 2018. Treinamento e desenvolvimento: um estudo de caso em uma empresa do estado do Paraná – PR. Revista Viver e Saber 9(2): 52-78.
Sargi, M. P.; Silva, J. R. M.; Carmo, C. R. S. 2024. Amostragem e análise de dados: um estudo de caso sobre pesquisas eleitorais brasileiras de 2022. Revista GeTeC – Revista de Gestão, Empreendedorismo e Tecnologia 14: 1–18.
Tomaz, M. A.; Tomaz, A. A. D. 2023. A importância do treinamento e do desenvolvimento na gestão estratégica de pessoas na administração pública. Revista Científica Multidisciplinar 4(10): e4104152.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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