
02 de março de 2026
O papel do orientador educacional no desempenho acadêmico de estudantes do Ensino Médio
Gabrielle Ferreira Santos; Marilda Aparecida Soares
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O objetivo desta pesquisa foi identificar as atividades e competências do Orientador Educacional e analisar o processo de orientação em atendimentos individualizados, para compreender como este profissional contribui para o desenvolvimento acadêmico de estudantes do Ensino Médio. A investigação buscou mapear as práticas cotidianas e estratégias de intervenção, focando em sua influência na trajetória escolar. A premissa é que a Orientação Educacional estruturada é um pilar para o sucesso acadêmico, a formação integral e o desenvolvimento de competências socioemocionais.
A Constituição Federal de 1988 estabelece que a educação visa ao pleno desenvolvimento do indivíduo, sua preparação para a cidadania e qualificação para o trabalho (Brasil, 1988). Na escola, o Orientador Educacional (OE) atua como mediador entre o estudante, o corpo docente e a família. Diferentemente do Coordenador Pedagógico, focado no “como ensinar”, o OE volta-se para o estudante, centrando-se no “como aprender” e no seu desenvolvimento integral, escolar e pessoal (Pascoal, 2008). Essa distinção de papéis, embora complementar, é fundamental para a organização dos processos pedagógicos.
A Orientação Educacional no Brasil evoluiu significativamente. Sua primeira menção legal, na Lei Orgânica do Ensino Industrial de 1942, era voltada à resolução de conflitos com alunos “difíceis” (Brasil, 1942). A regulamentação do cargo entre 1958 e 1961 e a Lei nº 5.564 de 1968 definiram sua atuação na assistência pedagógica ao educando, visando ao desenvolvimento harmonioso da personalidade (Brasil, 1968). A obrigatoriedade da orientação, instituída pela LDB de 1971 e regulamentada pelo Decreto nº 72.846/73, consolidou a profissão, embora com enfoques iniciais atrelados a perspectivas clínico-terapêuticas (Sena, 1985; Brasil, 1971; Brasil, 1973). Essa herança histórica criou a percepção do OE como um profissional para casos problemáticos, visão hoje superada por abordagens preventivas.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 reforçou a relevância do OE no Ensino Médio, atribuindo-lhe funções de mediação e acompanhamento do desenvolvimento integral do estudante (Brasil, 1996). Essa perspectiva alinha-se às demandas por competências socioemocionais, protagonismo juvenil e construção do projeto de vida. A Reforma do Ensino Médio e a BNCC (2018), embora não mencionem o OE diretamente, valorizam sua atuação com a introdução dos Itinerários Formativos e da disciplina de Projeto de Vida, que demandam um profissional para guiar os estudantes em suas escolhas sobre interesses e potencialidades (Brasil, 2018; Amorim e Silva, 2024).
Nesse cenário, o OE é um agente estratégico na articulação das dimensões pedagógica, social e familiar do estudante (Santos, 2023). A orientação para o planejamento pessoal não aponta um caminho único, mas oferece ferramentas para que o estudante faça escolhas conscientes (Santos, 2020). Guias pedagógicos, como os do Distrito Federal (2019) e do Rio Grande do Sul (2025), detalham atribuições que vão do acolhimento das famílias à construção de rotinas de estudo e informação profissional. O acompanhamento individualizado é uma constante nas diretrizes da prática deste profissional, sendo uma ferramenta potente para intervir em dificuldades de aprendizagem.
O presente estudo, exploratório e descritivo, foi desenvolvido em uma escola de Educação Básica da rede privada em Valinhos, São Paulo. Adotou-se uma abordagem qualiquantitativa para combinar a profundidade da análise qualitativa com a objetividade dos dados numéricos, permitindo mensurar resultados acadêmicos e compreender os processos e percepções que os influenciaram. A pesquisa seguiu critérios éticos, com autorização da gestão escolar via Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo acesso a documentos e preservando o anonimato dos participantes.
Os procedimentos metodológicos envolveram múltiplas fontes de dados. Realizou-se uma análise bibliográfica para fundamentar o estudo sobre a história e as atribuições da Orientação Educacional. A pesquisa de campo incluiu o acompanhamento da rotina do OE, com observação participante de 30 sessões de orientação de estudos individualizadas, além da participação em três conselhos de classe, reuniões de pais e mestres e reuniões pedagógicas. Essa imersão permitiu compreender as dinâmicas de trabalho e as interações do orientador com estudantes, docentes e famílias.
Adicionalmente, foi realizada uma análise documental dos registros das sessões de orientação individualizadas de anos anteriores e do ano corrente, o que permitiu identificar a estrutura dos encontros, as perguntas-chave, as orientações fornecidas e as demandas recorrentes. Por fim, foram analisados os boletins acadêmicos de uma turma ao longo dos três anos do Ensino Médio (2022-2024). A análise quantitativa focou em três critérios para avaliar o desenvolvimento acadêmico: (1) redução no número de disciplinas em recuperação; (2) aumento no percentual de aprovação nas recuperações; e (3) aumento da média geral anual do estudante.
A combinação desses métodos permitiu uma análise multifacetada. A observação da rotina e das sessões forneceu dados qualitativos sobre o “como” da orientação, enquanto a análise dos boletins ofereceu dados quantitativos sobre os “resultados”. A análise bibliográfica serviu como alicerce teórico para interpretar os achados. A seleção de uma única turma para acompanhamento longitudinal ao longo de três anos foi estratégica para observar a evolução do desempenho acadêmico e correlacioná-la com as intervenções do Setor de Orientação Educacional (SOE).
Os resultados corroboram que o Orientador Educacional é um mediador essencial, fortalecendo os propósitos da educação ao focar no interesse do estudante (Pascoal, 2008). A prática observada demonstrou alinhamento às diretrizes contemporâneas, que enfatizam o protagonismo estudantil e o desenvolvimento de habilidades autorregulatórias. A pesquisa de Figueira (2018) apontou que mais da metade dos estudantes veem o OE como alguém que irá ouvi-los e auxiliá-los, e 95% consideram positivo ter um programa de estudos, o que reforça a relevância das sessões focadas na organização da rotina.
A rotina do OE na instituição analisada inicia-se antes da matrícula, com a apresentação da proposta pedagógica às famílias. Com os alunos matriculados, o processo se estrutura a partir de uma autoavaliação inicial, via formulário, sobre reações emocionais, concentração e dificuldades curriculares. Essa ferramenta diagnóstica orienta a primeira sessão individualizada, na qual o OE aprofunda a investigação e propõe sugestões práticas. Para questões emocionais, são sugeridas técnicas de respiração e, se necessário, é feito encaminhamento a profissionais da saúde. Para estudantes com diagnósticos como TDAH ou TEA, a escola oferece suporte adaptado, como salas específicas para avaliações.
Um pilar do atendimento é o auxílio na organização dos estudos. A dificuldade em estabelecer uma rotina é uma queixa comum, e a intervenção do OE se mostra fundamental, com a sugestão de criar uma agenda semanal e a introdução de técnicas como o método Pomodoro (Cirillo, 2018). Alves (2018) destaca a importância de transformar o estudo em hábito, e a orientação atua como catalisador desse processo. O OE também trabalha na identificação de estratégias de aprendizagem eficazes (resumos, mapas mentais), conectando-se com estudos sobre estratégias cognitivas e metacognitivas (Muniz, 2020). Ao estimular o aluno a refletir sobre seu processo de aprender, o orientador promove a metacognição, essencial para o sucesso acadêmico (Oliveira, 2017).
A atuação do OE se estende à orientação profissional, especialmente para as turmas de 2ª e 3ª séries, integrando-se à disciplina de Orientação Profissional. O trabalho envolve levantamento de competências, pesquisa sobre cursos e mercado de trabalho, e palestras com profissionais. Além dos atendimentos agendados, o OE mantém uma política de “porta aberta” para acolher estudantes em momentos de crise. Todo o trabalho é registrado e compartilhado no Conselho de Classe e na Reunião de Pais, criando um dossiê que permite o acompanhamento integrado da trajetória de cada aluno, envolvendo a tríade SOE, corpo docente e família.
A análise dos dados quantitativos revelou um impacto positivo. A amostra foi composta por 15 estudantes que permaneceram na instituição por, no mínimo, seis bimestres. A frequência dos atendimentos variou, com uma média de 2,6 sessões por aluno em 2022, caindo para 1,1 em 2023 (devido ao aumento do número de alunos na escola) e subindo para 2,1 em 2024, após a inclusão de um docente de apoio. Essa variação na frequência mostrou-se relevante na análise dos resultados.
Os dados que comparam o desempenho dos estudantes ano a ano são elucidativos. Comparando a 2ª Série (2023) com a 1ª Série (2022), 50% dos estudantes reduziram o número de disciplinas em recuperação, 33% aumentaram a aprovação nessas recuperações e 33% aumentaram sua média geral. A comparação da 3ª Série (2024) com a 2ª Série (2023) apresentou resultados ainda mais expressivos: 47% reduziram as recuperações, 53% aumentaram as aprovações e 67% dos estudantes aumentaram a média anual. Este salto no desempenho coincide com o aumento da média de sessões de orientação de 1,1 para 2,1 por aluno, sugerindo uma forte correlação entre o acompanhamento individualizado e a melhoria do rendimento, mesmo com a crescente complexidade dos conteúdos.
A análise longitudinal, comparando o desempenho final na 3ª Série com o inicial na 1ª Série, consolida essa percepção. Ao longo do ciclo do Ensino Médio, 64% dos estudantes reduziram a necessidade de recuperação e 73% aumentaram sua média geral anual. No total, 94% dos estudantes da amostra atenderam a pelo menos um dos três critérios de desenvolvimento acadêmico. Apenas um estudante não atingiu os critérios, mas já mantinha uma média estável e acima da média escolar, com necessidade de recuperação em apenas uma disciplina por ano, na qual obteve aprovação.
Apesar dos resultados positivos, o desenvolvimento acadêmico é multifatorial, influenciado pela qualidade docente, ambiente familiar e bem-estar socioemocional (Longo, 2011; Antunes, 2006). A pesquisa também identifica desafios na prática da Orientação Educacional, como a dificuldade de replicar este modelo em escolas de grande porte e a necessidade de o OE lidar com estudantes desmotivados ou com diagnósticos complexos que exigem conhecimento especializado e articulação com profissionais da saúde (Puglia, 2024). Contudo, os dados fornecem evidências de que a atuação sistemática e personalizada do Orientador Educacional é um fator determinante para o sucesso escolar.
Em suma, a pesquisa demonstrou que a influência do Orientador Educacional no desenvolvimento acadêmico foi marcadamente positiva na instituição estudada. O acompanhamento sistemático e os registros detalhados permitiram constatar uma correlação entre a frequência das intervenções e a melhoria nos indicadores de desempenho. A atuação do OE, ao auxiliar os estudantes a organizarem suas rotinas e desenvolverem estratégias de aprendizagem, contribuiu para que otimizassem seu potencial. Os avanços significativos, refletidos na redução de recuperações e no aumento das médias, confirmam o valor estratégico deste profissional.
A jornada de aprendizagem é permeada por desafios, mas o papel do Orientador Educacional como guia e mediador mostrou-se fundamental para preparar os educandos para o sucesso acadêmico, a cidadania e o mundo do trabalho. A prática observada reforça a importância de uma Orientação Educacional proativa e integrada à vida escolar. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que as atividades e competências do Orientador Educacional, especialmente por meio de atendimentos individualizados, exercem um impacto positivo e mensurável no desempenho acadêmico dos estudantes do Ensino Médio.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
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