Resumo Executivo

15 de abril de 2026

Gestão Escolar na Mídia: Discursos e Democracia

Douglas Vinícius Souza Silva; Eliane Quinelato

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A compreensão de que as mídias populares refletem e afetam, simultaneamente, os conhecimentos cotidianos estabelece a base para uma análise profunda sobre como a educação e a gestão escolar são retratadas no cenário digital contemporâneo. A investigação das representações da educação, da escola, dos estudantes e da gestão escolar considera os cargos de diretor, coordenador e supervisor, além de outros profissionais que emergem em notícias e reportagens de portais “online”. Indiretamente, o escrutínio abarca gestores educacionais em nível político ao analisar o posicionamento de secretarias municipais e outros agentes públicos. Espera-se compreender como essa área de atuação é vista pelas mídias investigadas, partindo do pressuposto de que os resultados são um reflexo da visão da sociedade ou um sintoma da relação entre a escola e a comunidade. A análise se encaminha para a reflexão sobre como os resultados alcançados contribuem para a construção democrática de uma gestão em favor dos direitos humanos e da equidade, com engajamento dos estudantes e profissionais de forma horizontal em termos de distribuição do poder (Foucault, 2003).

A importância dessa investigação justifica-se pela possibilidade de identificar como a mídia retrata o ambiente escolar e, com isso, estimular profissionais, famílias e comunidades a buscarem a melhoria dessa relação. A representação midiática revela, a partir da análise do discurso, os saberes cotidianos sobre a educação (Fernandes Ferreira, 2020; De Certeau, Giard, Mayol, 1994). Essa abordagem torna-se valiosa diante da constatação acadêmica do afastamento entre a escola e a família ou a sociedade (Nogueira, Romanelli, Zago, 2000; Oliveira, 2002; Cunha, 1996; Faria Filho, 2020). Quanto mais distantes as instituições, maior a influência da mídia popular na construção das percepções mútuas. A proximidade entre escola, família e comunidade é fundamental para a existência de uma educação democrática (Alves et Lima, 2023; Paro, 2012). Nas últimas décadas, especialmente após a redemocratização do Brasil, a percepção de que a participação social contribui para a qualidade educativa motivou a busca pela ampliação dessa participação de forma organizada, elucidando o conceito de gestão escolar democrática (Freitas et Pilla, 2006).

A partir desse esforço democrático, ampliou-se a valorização dos conselhos deliberativos, das associações de pais e da construção coletiva do Projeto Político Pedagógico para descentralizar o poder de decisão. Definir o povo nesse contexto exige entender as populações de forma plural e equitativa, incluindo grupos vulneráveis em termos de etnia, credo, sexualidade e classe social (Freitas et Pilla, 2006). A gestão escolar democrática apenas é possível em uma sociedade verdadeiramente democrática, pois a primeira é um reflexo da segunda (Cury, 2005). Na conceituação dessa gestão, reforça-se a autonomia e o respeito às instituições escolares, considerando a educação como um direito social (Neto et Castro, 2011). Esse princípio é validado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Soares, 2011). A gestão democrática não ocorre apenas pela descentralização das deliberações, mas também das responsabilidades, impondo à sociedade o dever de construir a qualidade educativa e lidar com suas consequências. Compreender as percepções midiáticas ajuda os profissionais a agirem em favor dessa proximidade, objetivando o engajamento estudantil sem perda da autonomia institucional.

O procedimento metodológico adotado caracteriza-se como uma análise qualitativo-interpretativista (Moita-Lopes, 1994) de nove matérias jornalísticas publicadas em portais de notícias. O foco recaiu sobre datas comemorativas específicas: o Dia do Gestor Escolar, em 12 de novembro, e o Dia do Profissional da Educação, em 06 de agosto. Essas datas foram selecionadas após uma investigação prévia nos principais portais “online”, como G1, UOL e Folha de S. Paulo, que demonstrou que a gestão escolar é pouco tematizada em datas mais genéricas, como o Dia do Professor. A escolha das nove matérias seguiu um rigoroso processo de filtragem no buscador Google, na aba de notícias. Inicialmente, a busca pelo termo relacionado ao gestor escolar retornou oito páginas de resultados, totalizando aproximadamente 160 matérias. A leitura das manchetes permitiu a exclusão de textos sem relação direta com a gestão escolar, notícias exclusivas de instituições de ensino superior, informes políticos de prefeituras ou governos estaduais que não se enquadravam em saberes cotidianos, e editais de concursos públicos. Após esse refinamento, restaram cinco matérias.

O mesmo procedimento foi aplicado para a busca relativa ao profissional da educação, resultando em 10 páginas e cerca de 200 matérias. Após a exclusão de conteúdos fora do escopo, restaram quatro textos. O “corpus” final de nove unidades foi submetido a uma planificação discursiva detalhada. Utilizou-se uma tabela para organizar nove categorias analíticas: autoria, manchete e localidade; concepção de educação; concepção de gestão escolar; espaço e estrutura da escola; menção sobre profissionais da educação; ações para melhorias; desafios enfrentados; menção à comunidade escolar; e concepção de estudante. Embora a gestão escolar fosse a categoria central, as demais foram essenciais para construir uma visão macro das interferências ideológicas nas possibilidades de gestar. O olhar interpretativo voltou-se para como cada temática interfere na capacidade de criar, tornar vivo e administrar a escola e a educação como um todo.

Uma decisão metodológica relevante foi a inclusão de um episódio de “podcast” da Folha de S. Paulo intitulado “CEO ou bombeiro? Como definir um gestor escolar”. Embora o texto de apoio fosse curto, a audição do conteúdo expandiu os elementos para a análise, considerando que os “podcasts” crescem como plataformas de circulação de saberes cotidianos. O estudo caracteriza-se como análise documental de produtos sociais e registros de discursos que circulam socialmente. O caráter aplicado justifica-se pela percepção pragmática do discurso, que age de forma prática na sociedade (Benveniste, 2020). Analisar esses textos não constitui uma revisão bibliográfica tradicional, mas um tratamento de dados sociais que refletem práticas escolares e atuam como agentes na formação da opinião pública. A ordenação das matérias na análise respeitou a relevância atribuída pelos algoritmos de busca, o que é valioso para entender a sequência de informações que chega ao leitor comum.

A análise dos textos permitiu refletir sobre o afastamento entre a instituição escolar, a família e a comunidade. Há um respeito intrínseco pela escola como validadora de discursos, mas simultaneamente um apontamento de falha em alcançar resultados, exigindo reinvenção. Os discursos oscilam entre a necessidade de investir em uma educação meritocrática e hierárquica, alinhada a valores conservadores ou militares, e a defesa de uma educação humana, pautada em valores igualitários e direitos humanos. No “podcast” da Folha de S. Paulo, a tensão entre o gestor que apaga “incêndios” cotidianos e o líder administrativo similar a um CEO de empresa revela a complexidade do cargo. Embora o título foque no administrativo, a dimensão pedagógica emerge na defesa de uma gestão baseada em evidências e na Matriz Nacional Comum de Competências do Diretor Escolar de 2021. A pluralidade de vozes na matéria expõe divergências: enquanto um diretor defende o poder de demitir funcionários estáveis e terceiriza o pedagógico, uma secretária de educação afirma que a dimensão pedagógica é a mais importante e não deve ser delegada.

Essa diversidade de perspectivas reforça a defesa do diálogo e da coletividade. A educação é apresentada como um serviço público complexo para o desenvolvimento de talentos heterogêneos e promoção de mudança social. A concepção de gestão democrática aparece vinculada à liderança compartilhada e à formação de novos líderes. Em contraste, a matéria do portal G1 sobre a prefeitura de Boa Vista foca em dados quantitativos e resultados em índices como o IDEB. A lógica meritocrática é a definidora da qualidade, com políticas de bonificação e premiação por desempenho. O discurso higienista também se faz presente ao enfatizar a limpeza e organização como pilares para um ambiente agradável. Nessa perspectiva, o papel do gestor é alcançar metas numéricas para garantir recursos, o que estimula a competição em vez da equidade. Escolas vulneráveis, que mais necessitam de apoio, acabam penalizadas por essa lógica meritocrática que ignora as desigualdades de oportunidades.

A terceira matéria analisada, do portal Mídia News, destaca a participação familiar como o maior desafio dos gestores. A integração entre escola e comunidade é defendida como essencial, e a gestão democrática é mencionada explicitamente como um processo que prioriza valores coletivos e intervenções deliberadas em conjunto com os estudantes. A educação é concebida como instrumento de transformação social, especialmente para populações vulneráveis. Essa visão converge com o relato do portal Encontro das Águas, que amplia a noção de profissional da educação para incluir merendeiros, porteiros e administrativos. A gestão democrática aqui ganha contornos de autonomia e protagonismo de todos os trabalhadores, onde cada um é gestor de sua parte no ambiente escolar. O afeto e a sensação de “sentir-se em casa” são apontados como fundamentais para a qualidade educativa, aproximando a escola da estrutura familiar.

O embate ideológico torna-se mais nítido na matéria da CNN sobre a implementação de escolas cívico-militares em São Paulo. O texto retrata a censura a professores que tentaram opinar sobre o modelo, evidenciando uma gestão autoritária que exclui profissionais da tomada de decisão. O diretor da unidade em questão definiu a comunidade escolar apenas como “pais e responsáveis”, retirando dos docentes o direito de influenciar o processo. Essa estratégia de silenciamento é comum em hierarquias rígidas e contextos de restrição à liberdade de expressão (Darnton, 2016). A ambiguidade reside no fato de o governo utilizar o “voto” em consultas públicas para legitimar um modelo baseado em castigos e obediência vertical, o que contradiz a essência da gestão democrática pautada no diálogo e na distribuição horizontal do poder.

A violência e o racismo também ocupam espaço central nas representações midiáticas. Matérias do G1 relatam o afastamento de um diretor por comentários racistas no Piauí e a prisão de uma professora pelo mesmo crime no Rio de Janeiro. Esses casos demonstram que a escola muitas vezes reproduz as violências da sociedade. A gestão de crises, nesses episódios, limitou-se à contenção de danos e emissão de notas genéricas sobre diversidade, sem compromisso real com mudanças estruturais. O vazio pragmático dessas ações ignora que leis como a 10.639 de 2003 e a 11.645 de 2008 já obrigam o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena há duas décadas. O engajamento da comunidade escolar e de coletivos sociais, como o Coletivo Cabelos de Axé, foi o verdadeiro motor para a denúncia e a busca por justiça, evidenciando que a pressão social pode forçar decisões democráticas mesmo em gestões pouco participativas.

Dados da Agência Brasil indicam um aumento de 50% na violência escolar em 2023, com mais de 9000 denúncias registradas. A matéria defende que o caminho para a redução desses índices passa pela construção da escola como lugar seguro e pela liberdade de ensino. A educação é responsabilizada pela formação de cidadãos conscientes, mas o aumento da violência sinaliza uma falha institucional. O risco para a democracia é elevado quando o racismo, o preconceito e a violação da liberdade de expressão se tornam frequentes no ambiente que deveria combatê-los. A análise contrastiva das nove matérias revela um panorama dos pensamentos sociais contemporâneos, oscilando entre a democracia como vontade da maioria, a defesa de minorias, a responsabilidade compartilhada e, no extremo oposto, a militarização e a meritocracia neoliberal.

O discurso meritocrático vincula-se a políticas que adentram a escola como reflexo da competitividade e do individualismo. A aproximação entre o pensamento neoliberal e o militarismo na conjuntura política brasileira apresenta esses valores como solução para mazelas educacionais (Ferreira, 2023). No entanto, as matérias que retratam o aumento da violência sugerem que a educação não deve basear-se nesses pilares. Apontar a competição como solução para a violência escolar é um contrassenso, visto que o agravamento das desigualdades sociais e a falta de oportunidades afetam justamente os mais vulneráveis. Na lógica das bonificações por resultado, escolas em contextos precários recebem menos verbas e atenção, o que agrava o ciclo de exclusão e conflito.

A importância da abordagem deste estudo reside na necessidade de que as decisões institucionais sejam informadas pelos conhecimentos populares. Para uma gestão de fato democrática, os saberes cotidianos e as opiniões públicas são essenciais para a tradução dos valores democráticos no ambiente escolar. O modelo de escola e o tipo de gestão adotado são responsáveis pela formação das novas gerações e arquitetam o futuro da sociedade. A pesquisa permitiu compreender as diferentes visões em circulação: desde a gestão democrática que prioriza a inclusão e a horizontalidade, até modelos meritocráticos e cívico-militares que reforçam hierarquias e ordens tradicionais. A escola como ambiente inseguro surge como um alerta crítico sobre os rumos da educação atual.

Essa compreensão possibilita aos gestores e profissionais da educação optarem por caminhos que favoreçam a construção de uma escola democrática, cientes dos desafios e embates que encontrarão no cotidiano. O modelo de gestão idealizado e implementado tem como consequência direta o tipo de educação oferecida e, indiretamente, a sociedade que se pretende construir. A vigilância sobre as representações midiáticas é uma ferramenta para identificar tensões ideológicas e reafirmar o compromisso com uma educação que valorize a equidade e a participação social efetiva.

Conclui-se que o objetivo foi atingido ao identificar e analisar as diversas representações da gestão escolar e da educação na mídia “online”, revelando um campo de disputa entre modelos democráticos e perspectivas meritocráticas ou autoritárias. A investigação demonstrou que a mídia atua tanto como reflexo quanto como construtora de percepções sociais, influenciando a relação entre a escola e a comunidade. Os dados apontam para a necessidade urgente de fortalecer práticas de gestão que promovam a equidade e combatam as violências estruturais, como o racismo, garantindo a autonomia pedagógica e a participação coletiva. A análise das matérias evidenciou que o caminho para uma sociedade mais justa depende de uma gestão escolar integralmente democrática, capaz de integrar as demandas da comunidade e valorizar todos os profissionais do ambiente educativo.

Referências Bibliográficas:

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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