15 de abril de 2026
Mapeamento de stakeholders para curso de Biotecnologia Industrial
Douglas Borges de Figueiredo; Daniel Luis Garrido Monaro
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A biotecnologia caracteriza-se como uma área multidisciplinar que utiliza organismos vivos, tais como bactérias, fungos, células animais ou vegetais, como veículos fundamentais para a produção de novas moléculas e organismos de interesse para setores estratégicos, incluindo saúde, agricultura e preservação do meio ambiente (UPAC, 2006). Uma das propriedades mais relevantes da indústria biotecnológica reside no elevado potencial para a substituição de processos químicos tradicionais, os quais são frequentemente prejudiciais ao ecossistema, por processos biológicos dotados de maior sustentabilidade. Tais processos biológicos são tecnicamente reconhecidos por demandarem menor gasto energético, reduzirem a geração de resíduos industriais e minimizarem a emissão de gases causadores do efeito estufa (Gottschalk et al., 2012). Diante do reconhecimento da importância estratégica e econômica desse setor, diversas esferas governamentais têm ampliado progressivamente os investimentos e atuado na redução de barreiras burocráticas para fomentar o crescimento industrial (Festel, 2010).
Estimativas recentes indicam que o mercado mundial de biotecnologia atingiu a marca de aproximadamente 1,38 trilhão dólares americanos no ano de 2023, apresentando uma expectativa de expansão para 4,61 trilhões dólares até o ano de 2034 (Precedence Research, 2024). Desse montante global, cerca de 4,0% correspondem à participação da América Latina, o que totaliza aproximadamente 55,2 bilhões dólares. No âmbito dos segmentos que compõem esse mercado, a indústria farmacêutica exerce um papel predominante, sendo responsável por 41,73% de todo o setor no referido período. O vigor desse mercado também se manifesta no surgimento e no sucesso de empresas de base tecnológica conhecidas como startups. Exemplos notáveis incluem organizações fundadas na última década que captaram investimentos superiores a 100 milhões dólares até o ano de 2022 (Nielsen et al., 2022).
Contudo, a despeito do crescimento acelerado, a indústria biotecnológica enfrenta desafios estruturais significativos. A limitação do conhecimento científico sobre o funcionamento integrado de componentes celulares, como o genoma, o proteoma e o metaboloma, impõe dificuldades à compreensão plena e à otimização de processos produtivos. Além disso, a escassez de ferramentas analíticas e moleculares avançadas, somada a fatores sociais, políticos e mercadológicos, constitui barreiras ao desenvolvimento pleno do setor (Jagtap et al., 2024). No campo logístico, a complexidade inerente às cadeias de suprimentos e as exigências regulatórias rigorosas impactam de forma distinta os diversos nichos de mercado. Outro obstáculo crítico é a carência de mão de obra especializada. Embora a força de trabalho global esteja em expansão, as corporações encontram dificuldades severas para recrutar profissionais com as qualificações técnicas necessárias (Haaf et al., 2021). Durante a crise sanitária da pandemia de COVID-19, grandes empresas farmacêuticas enfrentaram gargalos no recrutamento de especialistas para elevar a produção de vacinas, evidenciando a urgência de investimentos na formação acadêmica e técnica em biotecnologia industrial para suprir a demanda crescente e garantir a expansão sustentável do setor (Young, 2021).
A identificação dessa lacuna na oferta de profissionais qualificados revela um nicho de mercado promissor para cursos de especialização técnica. Para assegurar o sucesso de tais iniciativas educacionais, a aplicação de ferramentas de gestão, como o mapeamento de partes interessadas, torna-se essencial. O mapeamento de stakeholders permite a identificação e a compreensão profunda das necessidades, interesses e níveis de influência das diversas partes envolvidas em um projeto, abrangendo desde estudantes e docentes até empresas parceiras, órgãos reguladores e investidores (PMI, 2017). Essa análise detalhada possibilita o desenvolvimento de conteúdos programáticos alinhados às expectativas do público-alvo, o estabelecimento de estratégias de comunicação eficazes e a adaptação contínua do curso às flutuações do mercado biotecnológico. O objetivo central desta análise consistiu em realizar o mapeamento das partes interessadas para a estruturação de um curso na modalidade a distância focado em biotecnologia industrial, culminando na elaboração de uma ementa que atenda rigorosamente às demandas identificadas.
Para a viabilização deste estudo, adotou-se uma abordagem qualitativa e quantitativa, utilizando a investigação de fenômenos por meio de dados numéricos passíveis de medição e análise para a descrição de suas causas fundamentais (Lehfeld, 1991). A coleta de dados quantitativos foi operacionalizada por meio de um questionário estruturado aplicado a indivíduos brasileiros, maiores de idade, que já atuam no setor de biotecnologia ou que possuem o interesse de ingressar nessa área profissional. Inicialmente, o instrumento de pesquisa foi direcionado aos colaboradores de uma indústria farmacêutica de grande porte situada no município de Embu das Artes, no estado de São Paulo. Diante de uma adesão inicial abaixo do esperado por parte desse grupo específico, optou-se por expandir o alcance da pesquisa para incluir alunos de um curso de pós-graduação em gestão de projetos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo. Dessa forma, o universo amostral foi ampliado para um total de 107 pessoas convidadas a participar voluntariamente.
O instrumento de coleta de dados foi desenvolvido na plataforma digital Google Forms, sendo organizado em quatro sessões distintas para garantir a integridade e a profundidade das informações coletadas. A primeira sessão conteve o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, visando informar os participantes sobre a finalidade da pesquisa, a confidencialidade das respostas e a natureza voluntária da participação. A segunda sessão foi dedicada a questões gerais de caráter demográfico, incluindo idade, gênero, nível de escolaridade e inserção atual no mercado de trabalho. A terceira sessão concentrou-se em colaboradores ocupantes de cargos operacionais, buscando identificar as áreas de conhecimento mais utilizadas no cotidiano produtivo, os temas considerados prioritários para o desenvolvimento profissional, a preferência por modelos de curso e a disposição para investimento financeiro. Por fim, a quarta sessão foi direcionada a profissionais em cargos de gestão, com o intuito de mapear as competências técnicas e comportamentais mais valorizadas em suas equipes e o impacto de cursos de aprimoramento na progressão de carreira dos subordinados.
O detalhamento metodológico da pesquisa incluiu a análise minuciosa das respostas operacionais, consideradas o grupo principal de potenciais alunos, para moldar o formato e o conteúdo do curso. Simultaneamente, a perspectiva dos gestores foi integrada para garantir que a ementa proposta atendesse não apenas aos desejos dos estudantes, mas também às exigências reais do mercado de trabalho. Após a coleta, os dados foram compilados e processados com o auxílio do software Microsoft Excel, o que permitiu a organização das informações em tabelas e a geração de gráficos de correlação entre o investimento pretendido pelos alunos e a duração estimada do curso. Essa análise foi fundamental para determinar a viabilidade econômica e a taxa de retorno por hora de aula ministrada.
A etapa subsequente da metodologia envolveu a aplicação de ferramentas de gestão de stakeholders conforme as diretrizes estabelecidas pelo Project Management Institute. Utilizou-se a Matriz de Poder versus Interesse para categorizar as partes interessadas com base em seu nível de influência sobre o projeto e seu grau de preocupação ou impacto sofrido. Essa ferramenta resultou na classificação dos stakeholders em quatro quadrantes estratégicos: aqueles com alto poder e alto interesse, que exigem gerenciamento próximo; aqueles com alto poder e baixo interesse, que devem ser mantidos satisfeitos; aqueles com baixo poder e alto interesse, que necessitam ser mantidos informados; e aqueles com baixo poder e baixo interesse, que demandam apenas monitoramento. Adicionalmente, aplicou-se a Matriz de Engajamento para planejar como cada grupo seria envolvido ao longo do ciclo de vida do projeto, garantindo que suas necessidades e preocupações fossem atendidas de maneira proativa.
Os resultados obtidos a partir das 38 respostas validadas revelaram um perfil predominante de participantes jovens, com 60,6% apresentando idade de até 35 anos e 92,2% situando-se na faixa de até 45 anos. Quanto à distribuição de gênero, observou-se uma participação de 52,6% de indivíduos do gênero feminino e 47,4% do gênero masculino. O nível de escolaridade da amostra mostrou-se elevado, condizente com o público de uma indústria farmacêutica e de um curso de MBA, com a totalidade dos respondentes possuindo ensino superior completo e a maioria detendo títulos de pós-graduação, incluindo especializações (36,8%), mestrado (21,1%), doutorado (13,2%) e pós-doutorado (13,2%). No que tange ao local de atuação, a grande maioria (81,6%) está inserida em empresas privadas, enquanto os demais se distribuem entre institutos de pesquisa, estabelecimentos de saúde e órgãos públicos.
Em relação à experiência no setor de biotecnologia, 42,1% dos participantes atuam na área há mais de seis anos, sendo que 23,7% possuem mais de nove anos de trajetória profissional. Por outro lado, 26,3% dos respondentes ainda não atuam no setor, o que indica um interesse latente de novos entrantes. A análise das áreas de atuação atual demonstrou que 57,9% dos profissionais desempenham funções na operação, enquanto 21,1% ocupam cargos de gestão. Esses dados permitiram estabelecer premissas fundamentais para a estruturação do curso, como a necessidade de aulas ministradas fora do horário comercial e a disponibilização de conteúdo gravado para visualização assíncrona, atendendo à rotina de profissionais já inseridos no mercado. Dada a alta escolaridade e a experiência prévia da audiência, o curso deve evitar redundâncias em temas básicos, focando em conteúdos avançados e no uso de linguagem técnica apropriada.
A literatura indica que as diferenças de idade e experiência influenciam diretamente as estratégias de ensino em ambientes virtuais. Estudantes com idade superior a 40 anos tendem a preferir cursos gravados que permitam o consumo de informação sem interrupções, enquanto o público mais jovem demonstra maior inclinação para aulas ao vivo, interativas e que utilizem ferramentas colaborativas (Simonds et al., 2014). Como 91,4% dos participantes da pesquisa possuem entre 26 e 45 anos, o projeto do curso deve equilibrar essas preferências, oferecendo um ambiente que permita a interação opcional, mas que priorize a fluidez do conteúdo e a disponibilidade de gravações para estudo independente.
No que diz respeito aos conhecimentos considerados essenciais para o cotidiano operacional, 47,2% dos respondentes destacaram o domínio de aspectos práticos da operação, enquanto 25,0% enfatizaram a importância do conhecimento documental. Para a progressão na carreira, a gestão de pessoas foi apontada por 75,0% dos participantes como a competência mais relevante, seguida pelo domínio prático de processos biotecnológicos (41,7%). Esses resultados sugerem que, à medida que o profissional ascende na hierarquia corporativa, ocorre um distanciamento das funções puramente técnicas em favor de habilidades de liderança e delegação. Portanto, um curso voltado para o crescimento profissional deve integrar tanto a excelência operacional quanto fundamentos de gestão.
Ao avaliar os critérios para a escolha de um curso de aprimoramento, a aplicabilidade do conteúdo no dia a dia de trabalho foi o fator mais citado (77,1%), superando a experiência profissional dos docentes (60,0%) e a flexibilidade de horário (60,0%). Curiosamente, a formação acadêmica dos professores foi considerada menos impactante (34,3%) do que sua vivência prática no ambiente industrial. Isso reforça a necessidade de um corpo docente que traga estudos de caso reais e discuta desafios enfrentados no processo produtivo. Quanto ao modelo de curso, 48,6% dos interessados preferem programas de média duração, entre 41 e 70 horas, focados em áreas específicas da biotecnologia.
A análise financeira revelou que, para cursos de média duração, a maior parte dos potenciais alunos (42,4%) estaria disposta a investir entre R$ 251,00 e R$ 500,00. Cruzando-se os dados de investimento e duração, identificou-se que um curso de 40 horas com custo de R$ 250,00 apresenta uma interseção favorável entre a expectativa do aluno e a viabilidade do projeto, conferindo uma taxa de retorno por hora de aula entre R$ 6,10 e R$ 6,30. Embora não represente a maior taxa de retorno possível, esse formato tende a gerar maior adesão e propagação espontânea entre os profissionais do setor.
A perspectiva dos gestores corroborou a importância do conhecimento técnico, com 80,8% indicando que o domínio dos processos é vital para um operador. Para promoções, a gestão de pessoas (76,9%) e o conhecimento técnico (65,4%) foram os pilares identificados. Além disso, 77,0% dos gestores manifestaram uma reação positiva à presença de cursos de aprimoramento no currículo de seus subordinados, considerando-os um diferencial relevante para a ascensão profissional. Esses dados fundamentaram a criação de um mapa de stakeholders abrangente, incluindo não apenas alunos e gestores, mas também coordenadores, empresas de biotecnologia, agências reguladoras, fornecedores de equipamentos e investidores.
As agências reguladoras, embora não participem diretamente da aquisição do curso, exercem alto poder por ditarem as normas que regem as operações abordadas no conteúdo programático. Qualquer alteração na legislação farmacêutica deve ser prontamente integrada ao material didático para assegurar a atualidade do curso. Da mesma forma, os fabricantes de equipamentos industriais, como Cytiva e Thermo, foram identificados como parceiros potenciais para o fornecimento de materiais promocionais e demonstrações técnicas. A análise de benchmarking em relação aos competidores também foi destacada como necessária para manter a competitividade do projeto no mercado de educação a distância.
Com base em todas as evidências coletadas, estruturou-se um programa de curso focado em técnicas cromatográficas, dada a sua centralidade nos processos de purificação biotecnológica para a remoção de impurezas como ácidos nucleicos, proteínas hospedeiras e vírus. O curso foi planejado com uma carga horária de 48 horas, distribuídas em 12 aulas de quatro horas cada. O conteúdo programático abrange desde os fundamentos teóricos da cromatografia e boas práticas de fabricação até temas avançados como o empacotamento de colunas, o desenvolvimento e a otimização de métodos, e o escalonamento de processos do laboratório para a produção industrial. A inclusão de tópicos sobre cromatografia de afinidade, troca iônica e exclusão por tamanho garante uma formação técnica robusta e alinhada às necessidades das indústrias farmacêuticas.
Durante a execução das aulas, a ênfase deve recair sobre o aspecto prático, utilizando estudos de caso de processos reais e apresentando interfaces de softwares amplamente utilizados no mercado, como o sistema Unicorn. A estratégia de engajamento prevê a utilização de redes sociais profissionais para a divulgação do curso e a criação de fóruns de discussão para promover a interação entre os alunos e o corpo docente. A gestão contínua das partes interessadas é recomendada como uma prática essencial para garantir que o curso permaneça relevante diante das inovações tecnológicas e das mudanças nas demandas dos profissionais e das empresas do setor.
Conclui-se que o objetivo foi atingido por meio do mapeamento detalhado dos stakeholders e da elaboração de uma ementa fundamentada em dados reais do mercado de biotecnologia industrial. A pesquisa identificou um público-alvo composto por profissionais jovens, altamente qualificados e que buscam capacitação técnica com aplicabilidade imediata e flexibilidade de horários. A estruturação de um curso de média duração focado em cromatografia, com investimento alinhado às expectativas financeiras dos alunos e conteúdo que integra teoria e prática operacional, mostrou-se a estratégia mais adequada para suprir a carência de mão de obra especializada. A gestão de stakeholders revelou-se uma ferramenta indispensável para o planejamento e a sustentabilidade do projeto educativo, permitindo o alinhamento entre os interesses acadêmicos, profissionais e industriais ao longo de todo o ciclo de vida do curso.
Referências Bibliográficas:
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Gottschalk, U.; Brorson, K.; Shukla, A.A. 2012. The need for innovation in biomanufacturing. Nature Biotechnology. 30 (6): 489-492.
Haaf, A.; Hofmann, S. 2021. Measuring the Economic Footprint of the Biotechnology Industry in Europe. Industrial Biotechnology 17: 117–124.
International Union Of Pure And Applied Chemistry [UPAC]. 2019. Compendium of Chemical Terminology 3. Disponível em: <https://doi.org/10.1351/goldbook.B00666>. Acesso em: 13 out. 2024.
Jagtap, A.D.; Suryavanshi, NJ.; PATHADE, A.G. 2024. Industrial Biotechnology: Innovations in Bioprocessing and Biomanufacturing. African Journal of Biological Sciences. 6: 1499-1519.
Lehfeld, N. A. S.; Barros, A. J. P. B. 1991. Projeto de pesquisa: Propostas metodológicas. Petrópolis: Vozes. 102.
Nielsen, J.; Tillegreen, C.B.; Petranovic, D. 2022. Innovation trends in industrial biotechnology. Trends in Biotechnology.40 (10): 1160-1172.
Precedence Research. Biotechnology Market Size/Share and Trends 2024 to 2034. 2024. Disponível em: <https://www.precedenceresearch.com/biotechnology-market>. Acesso em: 5 out. 2024.
Project Management Institute [PMI]. 2017. A guide to the project management body of knowledge (PMBOK guide). 6ed. Project Management Institute, Newtown Square, PA, EUA.
Simonds, T.A.; Brock, B.L. 2014. Relashionship between age, experience, and student preference for types of learning activities in “online” courses. Journal of Educators “online”. 11(1).
Young, C.A. 2021. Vaccine Makers are Struggling with a Labor Shortage in Mass. Disponível em: <https://www.massbioed.org/vaccine-makers-are-struggling-with-a-labor-shortage-in-mass/>. Acesso em: 13 out. 2024.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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