27 de abril de 2026
Gestão de cronograma na implantação de pivô central em cana-de-açúcar
Hayra Sanches Rodrigues; Amanda Leal Da Silva Teodoro
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A sustentabilidade e a produtividade na agricultura contemporânea dependem intrinsecamente do uso eficiente dos recursos hídricos, especialmente em culturas de elevado valor econômico e relevância industrial como a cana-de-açúcar. A irregularidade dos regimes de chuvas em diversas regiões produtoras do Brasil impõe a necessidade de adoção de sistemas de irrigação suplementar como ferramenta estratégica para mitigar riscos climáticos e otimizar o desenvolvimento vegetativo das lavouras (Silva, 2020). Entre as tecnologias disponíveis, a irrigação por pivô central destaca-se pela capacidade de garantir uma distribuição uniforme de água em grandes extensões, o que impacta positivamente a eficiência do uso de insumos e a previsibilidade da colheita (Ferreira et al., 2019). No entanto, a implementação desses sistemas envolve projetos de engenharia complexos, cuja execução exige um rigoroso controle de prazos e recursos para assegurar o retorno sobre o investimento e a viabilidade operacional do empreendimento agrícola.
O sucesso na implantação de infraestruturas de irrigação mecanizada está diretamente condicionado à qualidade do planejamento e à precisão do acompanhamento das atividades em campo. A utilização de cronogramas estruturados permite a comparação sistemática entre o progresso planejado e o executado, fornecendo métricas essenciais para a mensuração dos prazos de cada etapa construtiva (Mattos, 2019). A gestão do cronograma em projetos dessa natureza é um fator crítico, pois o descumprimento de marcos temporais e a falta de coordenação entre as frentes de serviço podem comprometer a eficiência do sistema e a qualidade final da produção. Fatores como a logística de suprimentos, a disponibilidade de mão de obra especializada e a integração com as operações agrícolas pré-existentes exigem o emprego de ferramentas avançadas de gestão de projetos para lidar com as incertezas inerentes ao ambiente rural (Lopes e Martins, 2021).
A execução inadequada de um planejamento pode resultar em atrasos acumulados, elevação de custos indiretos e prejuízos à janela de plantio da cultura. Por essa razão, o controle minucioso de cada fase, desde a mobilização inicial até os testes finais de comissionamento, é fundamental para garantir que a entrega ocorra dentro dos parâmetros estipulados (Santos et al., 2022). Ferramentas como o Gráfico de Gantt e a Curva S são amplamente recomendadas para o monitoramento contínuo, permitindo a visualização da sequência lógica das tarefas e a identificação precoce de gargalos operacionais (Rodrigues et al., 2018). Enquanto o Gráfico de Gantt facilita a reprogramação dinâmica de atividades, a Curva S possibilita uma análise quantitativa das tendências de desempenho, permitindo ajustes rápidos para manter o projeto sob controle financeiro e temporal (Pereira e Almeida, 2020).
A análise detalhada da gestão de cronogramas em sistemas de irrigação por pivô central foi aplicada em uma propriedade agrícola de grande porte situada no município de Ubarana, no interior do estado de São Paulo. A área total da propriedade compreende 1.617,92 hectares, dos quais 544,48 hectares foram destinados à irrigação suplementar de cana-de-açúcar. O projeto foi estruturado para a instalação de cinco sistemas independentes, denominados de acordo com sua capacidade e localização: o Pivô 02 com 131,49 hectares, o Pivô 03 com 65,43 hectares, o Pivô 04 com 170,21 hectares, o Pivô 05 com 67,10 hectares e o Pivô 06 com 110,25 hectares. A seleção dessa área e a configuração dos equipamentos basearam-se em diagnósticos físicos e agronômicos detalhados, considerando a disponibilidade hídrica local e a topografia do terreno, conforme as diretrizes técnicas para o sucesso de empreendimentos de irrigação em larga escala (Bernardo et al., 2019).
A metodologia adotada para o acompanhamento do projeto consistiu em uma abordagem de pesquisa aplicada com caráter descritivo e exploratório. O processo de coleta de dados envolveu a observação direta das etapas de montagem, a análise de registros documentais da empresa e o levantamento de campo para registrar a evolução física das atividades. Foram monitorados tempos de execução, períodos de inatividade causados por fatores climáticos, ocorrências de retrabalho e o impacto de não conformidades técnicas. A integração desses dados permitiu uma análise crítica dos fatores que influenciaram o cumprimento do cronograma base, utilizando indicadores de desempenho para fundamentar recomendações de melhoria na gestão da execução. O monitoramento em tempo real garantiu uma avaliação contínua da aderência ao plano inicial, respeitando as diretrizes éticas de anonimato dos envolvidos.
O planejamento inicial do projeto previu o início das obras em julho de 2025, com conclusão estimada para abril de 2026. A estrutura analítica do projeto foi dividida em fases distintas: mobilização, obras civis, escavação e montagem de adutoras, montagem estrutural dos pivôs, instalações eletromecânicas e comissionamento. O fracionamento das atividades em etapas bem definidas é uma prática que favorece a rastreabilidade dos avanços e a alocação eficiente de recursos (Oliveira et al., 2021). No entanto, a análise preliminar evidenciou que o cronograma executivo carecia de margens de segurança robustas para absorver atrasos decorrentes de variáveis externas, como a pluviosidade excessiva, o que se tornou um ponto crítico durante a execução das fases de infraestrutura.
A irrigação por pivô central, como sistema de aspersão mecanizada, exige uma infraestrutura de suporte altamente precisa. O equipamento consiste em uma estrutura em forma de treliça que se apoia sobre torres móveis, realizando um movimento circular ao redor de um ponto central fixo, a torre de pivô. O deslocamento é iniciado pela última torre, que aciona as demais progressivamente, permitindo um giro total ou parcial conforme a configuração da área cultivada (Biscaro, 2009). Para viabilizar essa operação, o projeto demandou a construção de reservatórios, sistemas de captação, adução e distribuição de água, além de caminhos internos para manutenção. A construção de estruturas de contenção e reservatórios é uma das etapas de maior durabilidade e impacto ambiental, exigindo licenciamento específico e outorga para o uso da água (Robaina, 2009). A gestão eficiente desses recursos é essencial para a sustentabilidade do agronegócio e a conservação do meio ambiente (Brutdland, 1991).
A execução das obras civis iniciou-se com a construção das bases dos pivôs e das casas de bombas. As bases dos pivôs, fundamentais para a estabilidade estrutural do sistema, tiveram seu cronograma iniciado em 06 de outubro de 2025, com previsão de 25 dias úteis para conclusão. Esta etapa envolveu processos de escavação, armação de aço e concretagem, visando suportar o peso do conjunto metálico e as tensões dinâmicas durante a rotação do equipamento. Paralelamente, as casas de bombas para os conjuntos PC02, PC03, PC04, PC05 e PC06 foram projetadas para abrigar motobombas e painéis de controle, componentes vitais para o funcionamento da rede de adução. A precisão na execução dessas bases é determinante, pois qualquer desvio dimensional pode comprometer o alinhamento do sistema de irrigação.
A fase de escavação e montagem das adutoras foi dimensionada com base em uma produtividade esperada de 340 metros lineares por dia, utilizando retroescavadeiras para a abertura de valas e pás-carregadeiras para o reaterro. As valas foram executadas com profundidade média de 1,20 metro, garantindo uma cobertura mínima de 1,0 metro de solo sobre a geratriz superior dos tubos de PVC. Esse critério técnico visa assegurar a proteção mecânica contra o tráfego de máquinas agrícolas e a estabilidade da rede sob pressão. No entanto, essa etapa apresentou elevada vulnerabilidade às condições climáticas. Em períodos de chuva, o acúmulo de água nas valas abertas provocava o encharcamento do solo e o desmoronamento das paredes, resultando em soterramento de tubos e necessidade de retrabalho. Para mitigar esse risco, adotou-se a estratégia de reaterro imediato de todas as seções instaladas diariamente.
A montagem aérea dos pivôs foi programada para ocorrer entre 10 de novembro de 2025 e 29 de janeiro de 2026, totalizando 64 dias úteis. O ritmo de montagem previsto foi de um lance por dia, utilizando caminhões Munck e equipes especializadas para o acoplamento dos vãos metálicos. A precisão no alinhamento das torres móveis e dos braços de irrigação é crucial para a vida útil do sistema e para a uniformidade da aplicação de água. Assim como nas obras civis, a precipitação pluviométrica representou um fator de interrupção imediata das atividades aéreas, reforçando a necessidade de um planejamento que considere janelas climáticas e planos de contingência para evitar a extensão excessiva do tempo de mobilização de equipes (Souza e Carvalho, 2017).
Durante o monitoramento do projeto, identificaram-se desvios significativos em relação ao cronograma planejado. Até a data de corte de 17 de novembro de 2025, o avanço físico real acumulado foi de 51%, enquanto o planejado para o período era de 64%, configurando um atraso de 13 pontos percentuais. Esse desvio foi provocado principalmente por não conformidades na execução das obras civis por parte de uma empresa terceirizada. Foi constatado que as dimensões das bases das casas de bombas estavam inferiores ao especificado no projeto executivo, e as fundações dos pivôs PC02 e PC03 apresentavam profundidade insuficiente. Tais erros representavam riscos estruturais graves, como o tombamento dos equipamentos e a perda de garantia por inadequação técnica.
Diante desse cenário, a gestão do projeto implementou ações corretivas imediatas. O contrato com a prestadora de serviços original foi rescindido e uma nova empresa foi contratada para realizar a correção e adequação dos itens não conformes. O valor total orçado para as obras civis era de R$ 358.950,00, e a readequação do escopo para finalizar os serviços remanescentes e corrigir as falhas exigiu a alocação de R$ 114.650,00. Para contornar o gargalo nas bases dos pivôs PC02 e PC03, a ordem de montagem aérea foi alterada, iniciando-se pelo Pivô PC04, seguido pelos PC05 e PC06, enquanto as correções estruturais eram finalizadas nas bases problemáticas. Essa flexibilidade no sequenciamento, visualizada através do Gráfico de Gantt, foi essencial para minimizar o tempo de inatividade das equipes de montagem aérea.
O impacto das intempéries climáticas também foi quantificado e discutido. Os registros pluviométricos indicaram índices de 15 mm em julho, 0,60 mm em agosto e setembro, saltando para 84 mm em outubro e 96,5 mm em novembro de 2025. O aumento expressivo das chuvas nos meses finais do período analisado coincidiu com as etapas críticas de escavação e montagem aérea, validando a necessidade de metodologias de gestão mais robustas, como as preconizadas pelo Project Management Body of Knowledge (PMBOK, 2017). A ausência de planos de contingência climática no planejamento inicial demonstrou ser uma fragilidade que resultou em custos indiretos adicionais e na extensão do cronograma.
A integração entre o controle de recursos e a execução física é um elemento determinante para o êxito de projetos de irrigação mecanizada. A equipe operacional foi composta por seis profissionais polivalentes, apoiados por equipamentos como retroescavadeiras e caminhões Munck, sob a supervisão de um engenheiro civil e um Project Management Officer (PMO). O suporte metodológico do PMO foi decisivo para o monitoramento contínuo e para a padronização da comunicação entre os stakeholders. Reuniões semanais de alinhamento e a emissão de relatórios de progresso baseados na Curva S permitiram uma tomada de decisão ágil e fundamentada em dados reais, conforme as melhores práticas de gerenciamento de projetos (Kerzner, 2017).
A análise da Curva S revelou-se a ferramenta mais eficaz para a detecção precoce de tendências de atraso. Ao comparar o progresso físico acumulado com a linha de base, a gestão pôde visualizar a magnitude do desvio e agir antes que o atraso se tornasse irreversível dentro da janela de plantio. A utilização conjunta da Estrutura Analítica do Projeto (EAP) e do Gráfico de Gantt proporcionou uma visão holística das interdependências entre as tarefas, permitindo que a reprogramação da montagem dos pivôs não paralisasse completamente o cronograma geral. O controle integrado entre recursos e execução física é essencial para reduzir retrabalhos e prevenir atrasos em empreendimentos complexos (Testezlaf et al., 2011).
As etapas finais do projeto, previstas para ocorrer entre fevereiro e abril de 2026, englobam a energização, os testes operacionais e a entrega técnica. O processo de comissionamento é fundamental para garantir que todos os motores, sensores e painéis de controle operem de acordo com as especificações de projeto. A emissão do Termo de Comissionamento formaliza a entrega ao cliente e assegura a rastreabilidade de todas as etapas executadas. O cumprimento rigoroso desses protocolos de qualidade é o que diferencia uma execução técnica bem-sucedida de uma implantação sujeita a falhas operacionais futuras (Vargas, 2016).
A discussão dos resultados evidenciou que a gestão de cronogramas na agricultura irrigada não deve ser tratada apenas como uma tarefa administrativa, mas como um diferencial estratégico. A capacidade de responder a crises de execução, como a falha de terceiros e as variações climáticas, depende da maturidade dos processos de monitoramento adotados. O estudo de caso em Ubarana demonstrou que, mesmo diante de um atraso de 13%, a utilização de ferramentas de controle permitiu a readequação do projeto sem comprometer a integridade estrutural dos sistemas de irrigação. A experiência adquirida reforça a importância de incluir margens de segurança para intempéries e critérios rigorosos de fiscalização de obras civis desde as fases iniciais do planejamento.
A eficiência operacional alcançada através da gestão sistemática reflete-se na melhor alocação de recursos financeiros e humanos. A decisão de alterar a sequência de montagem dos pivôs, priorizando as áreas onde as bases estavam conformes, evitou a ociosidade da mão de obra especializada e dos equipamentos de locação cara, como o caminhão Munck. Essa abordagem dinâmica é essencial em projetos de infraestrutura agrícola, onde o tempo é condicionado tanto por fatores contratuais quanto por ciclos biológicos da cultura. A aplicação de métodos científicos de gestão de projetos eleva o patamar de confiabilidade das execuções no campo (Testezlaf, 2017).
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise da gestão e do controle do cronograma permitiu identificar as causas fundamentais dos desvios e implementar ações corretivas eficazes na implantação dos sistemas de irrigação por pivô central. A utilização integrada do Gráfico de Gantt e da Curva S provou ser indispensável para o monitoramento do desempenho físico, possibilitando a detecção de um atraso de 13 pontos percentuais e fundamentando a decisão de substituição de fornecedores e readequação de escopo. A integração entre o planejamento técnico de engenharia e as práticas estruturadas de gestão de projetos demonstrou ser um diferencial estratégico para mitigar riscos climáticos e operacionais, assegurando a viabilidade da infraestrutura necessária para a produção sustentável de cana-de-açúcar.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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