30 de abril de 2026
Estilos de liderança e motivação em equipes de produtos
Julia Fernanda Belvedere; Gabriele Lopes
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A busca por resultados superiores e pela manutenção de uma vantagem competitiva sustentável no cenário corporativo contemporâneo exige que as organizações mantenham colaboradores motivados, especialmente em modelos de gestão que priorizam o comprometimento e a autonomia (Sgarbossa, 2023). No âmbito da gestão de pessoas, a intersecção entre motivação e liderança revela-se um campo crítico, uma vez que o estilo adotado pelos gestores impacta diretamente o engajamento de profissionais que atuam em áreas complexas, como o desenvolvimento de produtos. A liderança não deve ser compreendida como um fenômeno isolado, mas como uma relação de interdependência na qual o alcance dos objetivos organizacionais depende da colaboração estreita entre quem lidera e quem é liderado. Nesse sentido, os liderados buscam no gestor um direcionamento capaz de satisfazer necessidades e aspirações individuais, estabelecendo uma conexão baseada no reconhecimento da influência do líder, seja pelo alinhamento de valores ou pela percepção de oportunidades de crescimento profissional. Para que competências de liderança sejam desenvolvidas com eficácia, torna-se essencial compreender os fatores que impulsionam o comportamento humano, respeitando as particularidades de cada indivíduo e transformando essas motivações em alicerces para relacionamentos produtivos (Leme, 2014).
O papel do líder consiste em inspirar e direcionar seguidores rumo a objetivos comuns, o que demanda não apenas competência técnica, mas também uma sensibilidade aguçada para interpretar as expectativas da equipe. O engajamento dos colaboradores é condicionado pela disposição em colaborar em um ambiente de confiança mútua, onde a habilidade do líder em articular sua visão de mundo e conduzir os negócios se traduz em resultados concretos (Vergara, 2009). Ao longo do tempo, diferentes abordagens de liderança foram catalogadas, destacando-se os estilos autocrático, democrático, transacional, transformacional e Laissez-Faire como os mais reconhecidos na literatura acadêmica (Bhatti et al., 2024). A escolha de um estilo específico muitas vezes depende das necessidades do setor e da maturidade da equipe, tornando o estudo dessas variações essencial para a aplicação de teorias de gestão em contextos reais (Abdullahi, Anarfo e Anyigba, 2020).
O estilo autocrático caracteriza-se pela tomada de decisão unilateral, sendo frequentemente aplicado em situações que demandam rapidez e controle rigoroso, embora possa limitar a participação criativa da equipe (Modise, 2024). Em contrapartida, o estilo democrático incentiva a participação ativa dos membros do grupo no processo decisório, promovendo discussões sobre decisões importantes e fortalecendo o envolvimento dos colaboradores (Hikmat e Ghorband, 2024). Já a abordagem Laissez-Faire adota uma postura de gestão passiva, oferecendo liberdade total para que os membros da equipe tomem suas próprias decisões, o que pode ser benéfico em grupos altamente qualificados, mas arriscado em ambientes que carecem de coordenação (Norris et al., 2021). O estilo transformacional foca na inspiração e no desenvolvimento do potencial dos liderados, buscando mudanças significativas na cultura organizacional (Jaroliya e Gyanchandanig, 2021). Por fim, a liderança transacional baseia-se na troca de recompensas por desempenho, com foco na eficiência operacional e no cumprimento de metas estabelecidas (Young et al., 2021). Compreender como essas abordagens influenciam o ambiente de trabalho é fundamental para garantir o sucesso organizacional sustentável.
No contexto de equipes de produtos, a multidisciplinaridade é uma característica intrínseca, envolvendo profissionais de engenharia, marketing, design, análise de dados e processos industriais. Esses colaboradores dominam áreas distintas do conhecimento e são responsáveis pela criação de inovações de alta qualidade, o que exige um perfil de liderança capaz de integrar essas competências e gerar engajamento em projetos de alta complexidade (Nemudrova, 2024). A necessidade de entender qual estilo de liderança melhor se adapta a esse ambiente justifica a análise detalhada dos processos operacionais e das percepções dos profissionais envolvidos.
A investigação foi estruturada por meio de uma abordagem qualitativa, utilizando o método de estudo de caso único para aprofundar a compreensão sobre o fenômeno estudado (Yin, 2016). O cenário da pesquisa foi uma empresa internacional do ramo de construção civil, situada em São Paulo, especializada na fabricação de pressurizadores e eletrobombas centrífugas de água. A coleta de dados ocorreu entre os dias 15 de maio de 2025 e 23 de maio de 2025, utilizando um questionário on-line estruturado na ferramenta Google Forms. O instrumento foi composto por quatro perguntas abertas, permitindo que os participantes relatassem suas experiências e percepções de forma detalhada e espontânea. A amostra foi constituída por nove colaboradores da área de produtos, garantindo o anonimato e a voluntariedade por meio de um termo de consentimento livre e esclarecido, conforme os preceitos éticos da pesquisa acadêmica.
O questionário foi elaborado com base em estudos prévios que investigam a relação entre liderança e motivação (Marhendra e Wahyuningtyas, 2025; Aman, 2024). Para a análise do material coletado, aplicou-se a técnica de análise narrativa, fundamentada em quatro dimensões centrais (Hulst e Ybema, 2020). A primeira dimensão, denominada tellabilidade, refere-se à relevância e carga emocional dos eventos relatados, identificando o que torna uma história digna de ser contada no contexto organizacional. A segunda dimensão foca nos gatilhos narrativos, ou seja, nas situações específicas que provocam a emergência dos relatos dos colaboradores. A terceira dimensão analisa a forma narrativa, observando a estrutura, a profundidade e a organização do discurso. Por fim, a quarta dimensão aborda o trabalho narrativo, examinando a função simbólica e emocional das histórias na construção de sentido e identidade profissional.
O processo operacional de coleta de dados foi desenhado para capturar a subjetividade dos profissionais de produtos, que lidam diariamente com a pressão por inovação e prazos rigorosos. A escolha de perguntas abertas visou permitir que os respondentes descrevessem não apenas o “quê”, mas o “como” e o “porquê” de suas percepções sobre a liderança. A análise narrativa permitiu que os dados fossem interpretados além da superfície, conectando as falas individuais aos conceitos teóricos de liderança autocrática, democrática e transformacional. O detalhamento das etapas de análise garantiu que a interpretação dos resultados fosse rigorosa, buscando evidências de interações e negociações de sentido dentro do habitat natural da organização.
Os resultados obtidos revelaram que a percepção dos colaboradores sobre o estilo de liderança impacta severamente o bem-estar e a produtividade. Ao investigar como os participantes se sentem ao trabalhar com líderes centralizadores em comparação com líderes que promovem a participação, observou-se uma clara dicotomia. Estilos centralizadores foram associados a sentimentos de frustração e limitação profissional. Um dos participantes descreveu-se como um instrumento de trabalho estático, afirmando que a liderança centralizadora poda o desenvolvimento individual e, consequentemente, o da equipe. Esse relato evidencia que a ausência de autonomia transforma o profissional em um mero executor de ordens, reduzindo sua capacidade de contribuição criativa e gerando um sentimento de invisibilidade.
Em contrapartida, a liderança que promove a participação e a autonomia é vista como um fator de valorização e confiança. Quando o colaborador participa ativamente dos processos decisórios, ele não apenas executa tarefas, mas se reconhece como parte integrante e relevante da organização. Esse sentimento de pertencimento é um dos pilares da motivação intrínseca, conforme destacado na literatura sobre liderança transformacional. A análise das narrativas sugere que a construção de uma identidade profissional sólida está vinculada à liberdade de contribuir com ideias e à percepção de que o conhecimento técnico do colaborador é respeitado pelo gestor. Outro participante reforçou que o líder que envolve a equipe nas decisões transmite proximidade e segurança psicológica, permitindo que ideias valiosas surjam daqueles que lidam diretamente com as rotinas operacionais.
A conexão entre autonomia e motivação foi aprofundada na segunda etapa da análise. Os respondentes indicaram que a liberdade para realizar tarefas e tomar decisões está diretamente ligada ao aumento da responsabilidade e da autoconfiança. Um dos colaboradores mencionou que a autonomia o motiva a buscar o desenvolvimento contínuo, pois sente que sua capacidade de realizar entregas assertivas é reconhecida. No entanto, a análise também revelou que a autonomia deve ser acompanhada de suporte emocional e técnico. Um participante relatou sentir insegurança em situações onde a responsabilidade é elevada, destacando que a liberdade de decisão é valiosa, mas pode ser desafiadora se não houver um ambiente de confiança e uma liderança empática para oferecer suporte nos momentos de incerteza.
Outro ponto relevante surgiu da tensão entre autonomia e a necessidade de validação externa. Um dos profissionais expressou que, embora se sinta empoderado ao realizar suas atividades, ainda prefere validar o resultado final com o líder. Isso sugere que, em algumas culturas organizacionais, a figura do gestor permanece como um ponto de controle necessário para a segurança do colaborador, o que pode limitar o exercício pleno da autonomia se não for bem gerenciado. Por outro lado, o senso de propósito foi manifestado por participantes que sentem que sua contribuição faz sentido para a empresa. A percepção de que o trabalho possui um significado maior atua como um motor para a dedicação e a qualidade no desempenho das funções, reforçando o vínculo subjetivo entre identidade e reconhecimento.
A forma como a liderança lida com erros e punições também se mostrou determinante para a motivação. As narrativas indicaram que, em ambientes onde o erro é tratado com acolhimento e feedback construtivo, os colaboradores conseguem ressignificar a experiência, transformando-a em aprendizado e amadurecimento. Um participante relatou que, ao receber orientações verbais em vez de punições severas, foi capaz de absorver a crítica de forma positiva e buscar a melhoria contínua. Outro relato detalhou uma situação de erro que gerou custos para a empresa; o colaborador sentiu vergonha e desânimo inicial, mas a postura reflexiva da liderança permitiu que ele compreendesse as causas do problema e evitasse a reincidência, demonstrando resiliência emocional.
Entretanto, quando o feedback é percebido como descontextualizado ou injusto, o impacto na autoestima é negativo. Um dos profissionais descreveu um sentimento de baixa estima sobre seu conhecimento técnico após uma reunião de feedback que causou mal-estar. Outro caso emblemático envolveu a transição para o trabalho híbrido, onde uma colaboradora foi rotulada como profissional morna devido à sua menor frequência presencial no escritório, apesar de suas entregas serem de alta qualidade. Esse conflito entre modelos tradicionais de avaliação, baseados na presença física, e modelos contemporâneos, focados em resultados, evidencia a necessidade de a liderança atualizar seus critérios de avaliação para não desmotivar talentos que prezam pela flexibilidade e autonomia.
Os fatores que influenciam positivamente o desenvolvimento profissional, segundo os participantes, incluem o reconhecimento, as relações interpessoais saudáveis, a clareza nos objetivos e a existência de um plano de carreira. A ausência de organização no setor e falhas na gestão de atividades por parte de figuras como o Product Owner ou o Gestor de Equipe foram citadas como obstáculos que geram estresse e desmotivação. A falta de uma comunicação clara sobre como as tarefas individuais se conectam à estratégia global da empresa também foi apontada como uma lacuna que prejudica o engajamento. Um dos respondentes enfatizou que a comunicação agressiva por parte do gestor e a falta de perspectiva de crescimento são os elementos que mais impactam negativamente seu cotidiano laboral.
A cultura organizacional e o alinhamento de valores pessoais com os da empresa surgiram como temas transversais nas narrativas. Um participante utilizou a metáfora do barco que está afundando para descrever a desmotivação profunda ao trabalhar em um ambiente onde os resultados do negócio são ruins e não há congruência de valores. Essa percepção de crise iminente gera um senso de urgência e insegurança que compromete a saúde emocional e o compromisso com a organização. Por outro lado, a presença de uma liderança que coordena o trabalho de forma colaborativa, atuando como um elo entre os objetivos organizacionais e as contribuições individuais, é vista como o cenário ideal para a produtividade.
A síntese dos achados permite concluir que estilos de liderança democráticos e transformacionais são os mais eficazes para fomentar a motivação em equipes multidisciplinares de produtos. Esses estilos promovem a segurança psicológica, incentivam a inovação e fortalecem o senso de pertencimento. Em contrapartida, a liderança autocrática, ao tratar colaboradores como meros executores, inibe o desenvolvimento de competências e gera afastamento emocional. O estilo Laissez-Faire, embora ofereça a desejada autonomia, requer um suporte presente para não ser confundido com negligência ou falta de direção. A eficácia da liderança, portanto, reside na capacidade do gestor de equilibrar o direcionamento estratégico com a valorização humana, criando um ambiente onde o erro é visto como oportunidade de crescimento e a comunicação é transparente e bidirecional.
A discussão dos dados reforça que a motivação não é um estado estático, mas um processo dinâmico influenciado pelas interações cotidianas entre líderes e liderados. A autonomia, quando bem gerida, atua como um potente catalisador de responsabilidade e inovação. No entanto, a liderança deve estar atenta às necessidades individuais de suporte, garantindo que a liberdade de ação não se transforme em sobrecarga ou desorientação. O reconhecimento constante e a clareza de propósitos emergem como ferramentas indispensáveis para manter o engajamento em níveis elevados, especialmente em setores tecnológicos e de engenharia, onde a complexidade dos projetos exige um esforço intelectual e colaborativo contínuo.
As limitações do estudo residem no foco em um caso único, o que impede a generalização dos resultados para todos os setores da indústria. Contudo, a profundidade das narrativas coletadas oferece insights valiosos para gestores que buscam aprimorar suas práticas de liderança em contextos de alta complexidade. Sugere-se que pesquisas futuras explorem a influência da liderança em equipes totalmente remotas, comparando os impactos na motivação com os modelos híbridos e presenciais aqui analisados. Além disso, a investigação sobre como diferentes gerações de profissionais de produtos reagem aos estilos de liderança pode fornecer subsídios para uma gestão de pessoas ainda mais personalizada e eficaz.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise das narrativas dos colaboradores da área de produtos permitiu identificar que os estilos de liderança democrático e transformacional exercem uma influência positiva e determinante na motivação, enquanto abordagens autocráticas e centralizadoras resultam em desengajamento e frustração profissional. A pesquisa evidenciou que a autonomia, o reconhecimento e a segurança psicológica são elementos centrais para o fortalecimento do vínculo entre o indivíduo e a organização, sendo o papel do líder fundamental na mediação desses fatores. A substituição de práticas punitivas por feedbacks construtivos e a promoção de um ambiente de diálogo aberto mostraram-se essenciais para o desenvolvimento de talentos e para a sustentabilidade dos resultados organizacionais em contextos multidisciplinares complexos.
Referências Bibliográficas:
ABDULLAHI, A.; ANARFO, E.; ANYIGBA, H. The impact of leadership style on organizational citizenship behavior: does leaders’ emotional intelligence play a moderating role?. Journal of Management Development, [S.l.], v. 39, n. 5, p. 621-634, 2020.
AMAN, A. The effect of leadership styles on employee motivation in Adama Hospital Medical College, Adama – Ethiopia. Journal of Human Resource Management, 2024.
BHATTI, S. et al. The impact of leadership style in team-based primary care – staff satisfaction and motivation. BJGP Open, v. 8, 2024.
HIKMAT, H.; GHORBANDI, N. Effect of Democratic Leadership Styles on Corporate Performance. Journal for Research in Applied Sciences and Biotechnology, 2024.
HULST, M.; YBEMA, S. From ‘the story’ to ‘storying’: narrative sensemaking in organizational research. Organizational Research Methods, [S.l.], v. 23, n. 4, p. 738–763, 2020.
JAROLIYA, D.; GYANCHANDANI, R. Transformational leadership style: a boost or hindrance to team performance in IT sector. Vilakshan – XIMB Journal of Management, 2021.
LEME, R. (Org.). Gestão por competências no setor público. Rio de Janeiro: Qualymark, 2014.
MARHENDRA, A.; WAHYUNINGTYAS, R. The effect of leadership style and employee motivation on employee performance of PT. Indotoko Pangan Makmur. Enrichment: Journal of Multidisciplinary Research and Development, 2025.
MODISE, J. Assessing the Impact of Autocratic Leadership Styles on Police Department Effectiveness and Community Relations. International Journal of Innovative Science and Research Technology (IJISRT), 2024.
NEMUDROVA, I. (2024). Product management: A multi-faceted approach to successful product development. International Journal of Science and Research Archive.
NORRIS, K.; GHAHREMANI, H.; LEMOINE, G. Is it Laissez-Faire Leadership or Delegation? A Deeper Examination of an Over-Simplified Leadership Phenomenon. Journal of Leadership & Organizational Studies, v. 28, p. 322-339, 2021.
SGARBOSSA, M. Contribuição do clima organizacional na motivação de trabalhadores de uma cooperativa. Caderno de Administração, v. 31, n. 2, p. 85-109, 2023.
VERGARA, S. C. Gestão de pessoas e a questão das subjetividades. In: BIANCO, M. F.; JUNQUILHO, G. S.; WAIANDT, C. (Org.). Tecnologias de gestão: por uma abordagem multidisciplinar. Vitória: Flor & Cultura, 2009.
YIN, R. K. Pesquisa qualitativa: do início ao fim. 1. ed. Porto Alegre: Bookman, 2016.
YOUNG, H. et al. A Meta-Analysis of Transactional Leadership and Follower Performance: Double-Edged Effects of LMX and Empowerment. Journal of Management, v. 47, p. 1255-1280, 2021.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy




























