Artigo

05 de agosto de 2026

Transição Alimentar Global e o Futuro da Pecuária Brasileira: Cenários para a Vulnerabilidade Estratégica da Pauta Exportadora (2040)

João Lucas Silveira Silva; Dênis Paiva

DOI: 10.22167/2675-6528-202600958

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A pauta exportadora brasileira atingiu um apogeu histórico em 2025, com receita de US$ 18,365 bilhões em carne bovina, mas exibiu sinais de especialização regressiva e Doença Holandesa, com a indústria de transformação representando apenas 10,3% do Produto Interno Bruto. Diante desse contexto, avaliou-se a resiliência estratégica da cadeia produtiva da carne bovina frente à emergência das proteínas alternativas e às novas barreiras não tarifárias globais projetadas para o horizonte de 2040. A pesquisa, de natureza qualitativa e baseada em dados secundários, articulou revisão bibliográfica sobre Doença Holandesa, soberania alimentar e agricultura celular, empregando uma matriz de cenários 2×2 definida pela velocidade de adoção tecnológica e pela intensidade da intervenção geopolítica. Construíram-se três cenários prospectivos: Resiliência Gradual, Disrupção Controlada e Erosão Acelerada, identificando seus indicadores de inflexão. Os resultados evidenciaram que a manutenção da liderança brasileira dependeu, no horizonte analisado, da execução de uma transição produtiva entre 2025 e 2030, ancorada na Resolução RDC 839/2023 da Anvisa, na política Nova Indústria Brasil e na conversão de resíduos agroindustriais da soja e da cana em insumos de alto valor para a agricultura celular. Concluiu-se que o roteiro proposto reduziu o risco de obsolescência tecnológica da pecuária extensiva e criou condições para o Brasil capturar valor na nova economia de proteínas.

Palavras-chave: Balança Comercial; Carne Cultivada; Doença Holandesa; Proteínas Alternativas; Soberania Alimentar.

1. Introdução

O Brasil consolidou-se como potência agroalimentar global, com o setor de carnes desempenhando papel econômico central. Em 2017, o complexo da carne (bovina, suína e de frango) foi responsável por 31% do Produto Interno Bruto do agronegócio e por sete por cento do total das exportações nacionais (FGV, 2023). O país é líder mundial em exportação de carne de frango (35% do comércio global) e carne bovina (19%) (FGV, 2023). Em 2025, a receita cambial das exportações de carne bovina atingiu US$ 18,365 bilhões, um crescimento de 40,1% (Simão, 2026). Este apogeu, contudo, mascara uma vulnerabilidade estratégica, decorrente da concentração produtiva e da emergência de novos paradigmas globais.

Essa especialização produtiva acarreta fragilidade estrutural para a economia brasileira, manifestada pelos sintomas da Doença Holandesa (DH). O modelo de Corden e Neary (1982) descreve como o *boom* em um setor de recursos naturais, como o agropecuário, pode levar à apreciação da taxa de câmbio real e prejudicar a indústria de transformação. A economia brasileira exibe evidências desse fenômeno, com a participação da indústria no Produto Interno Bruto caindo consecutivamente, atingindo apenas 10,3% em 2023 (Rambo, 2024), indicando desindustrialização precoce (Santos et al., 2023). A alocação de capital para setores intensivos em recursos naturais, que geram rendas imediatas, resulta em poucos elos tecnológicos, expondo o país a um risco de obsolescência tecnológica de sua principal vantagem comparativa (Black, 2017).

Paralelamente, a Transição Alimentar Global (TAG) emerge como vetor de disrupção, redefinindo as cadeias de suprimentos de proteínas. Impulsionada por inovações em proteínas alternativas, como carne cultivada e produtos *plant-based*, e por imperativos climáticos e de sustentabilidade (OCDE e FAO, 2025), a TAG projeta a paridade de custos entre proteínas tradicionais e alternativas até 2040 (Portal do Agronegócio, 2021). Projeções indicam que até 60% da carne consumida globalmente em 2040 poderá ser de fontes não animais (Joyful Ventures, 2019), evidenciando um risco estrutural. A carne cultivada, por exemplo, utiliza 95% menos terra e gera 92% menos gases de efeito estufa que a carne bovina convencional (GFI, 2021), criando pressões competitivas para a pecuária extensiva brasileira.

A vulnerabilidade brasileira é intensificada pela busca por soberania alimentar e novas barreiras não tarifárias de grandes importadores. China e União Europeia implementam políticas de desacoplamento de *commodities* agropecuárias, visando autossuficiência e diversificação (Bertolini et al., 2023). A China investe em biotecnologia alimentar e carne cultivada (Di Renzo, 2025), projetando desaceleração do comércio de carnes para dez por cento até 2034 (OCDE e FAO, 2025). A União Europeia estabeleceu metas de neutralidade climática e redução de 90% das emissões até 2040 (Observatório do Clima, 2024), com políticas que restringem a pecuária extensiva. O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) e a rastreabilidade georreferenciada obrigatória no acordo Mercosul-União Europeia (Programa Leilões, 2026) criam barreiras comerciais significativas.

Diante desse cenário complexo, a dependência brasileira da exportação de proteína animal convencional configura um risco estratégico de longo prazo, exacerbado pela Doença Holandesa e pela iminência de um choque de reversão estrutural. A convergência da Transição Alimentar Global com as políticas de soberania alimentar dos grandes compradores transforma o horizonte de 2040 em um problema de política industrial imediata, justificando a urgência da análise. Assim, este trabalho teve como objetivo geral avaliar a resiliência estratégica da cadeia produtiva da carne bovina brasileira frente à emergência das proteínas alternativas e às novas barreiras não tarifárias globais projetadas para o horizonte de 2040. Para tanto, buscou-se caracterizar o ápice do modelo exportador em 2025-2026, fundamentar teoricamente o risco da Doença Holandesa e da reversão estrutural, construir três cenários prospectivos para 2040 e, como contribuição original, estruturar um roteiro de mitigação e captura de valor tecnológico para a janela 2025-2030.

2. Material e Métodos

A pesquisa adotou uma natureza qualitativa e exploratório-descritiva, fundamentada na análise de dados secundários e em uma abordagem estratégica. Esta escolha metodológica permitiu uma compreensão aprofundada da complexa interação entre a teoria econômica, os dados empíricos de comércio exterior e a prospecção de cenários tecnológicos. O estudo buscou avaliar a resiliência estratégica da cadeia produtiva da carne bovina brasileira, um tema que exigiu interpretação contextualizada e não apenas quantificação. A abordagem qualitativa foi essencial para desvendar as nuances dos desafios impostos pela transição alimentar global e pelas novas barreiras comerciais.

O estudo foi conduzido entre outubro de 2025 e abril de 2026, com foco na vulnerabilidade estratégica da pauta exportadora brasileira de carne bovina. A unidade de análise compreendeu a cadeia produtiva da carne bovina no Brasil, examinada no contexto da transição alimentar global e das intervenções geopolíticas que moldam o comércio internacional de proteínas. O horizonte temporal da análise estendeu-se até 2040, permitindo a prospecção de riscos e oportunidades de longo prazo. Este recorte temporal e temático foi crucial para contextualizar a dependência brasileira da exportação de proteína animal convencional.

A seleção dos dados baseou-se em critérios que garantissem a abrangência da análise sobre a cadeia da carne bovina e as proteínas alternativas. Priorizou-se a coleta de informações sobre o crescimento da demanda global por carne até 2034 (OCDE e FAO, 2025) e projeções de queda da carne convencional até 2040 (SMF, 2023). Incluíram-se marcos regulatórios relevantes, como a Resolução RDC 839/2023 da Anvisa, e dados sobre pesquisa e desenvolvimento em agricultura celular no Brasil. A relevância geopolítica das metas europeias de redução da pecuária extensiva (Silva et al., 2022) também foi um critério essencial para a inclusão de fontes.

A revisão bibliográfica constituiu um dos principais instrumentos de coleta e fundamentação teórica. Empreendeu-se um estudo aprofundado do modelo da Doença Holandesa (Corden e Neary, 1982), com especial atenção aos mecanismos de apreciação cambial e ao deslocamento da indústria de transformação. Analisaram-se também os conceitos de Maldição dos Recursos Naturais e o choque de reversão da Doença Holandesa (Black, 2017). Adicionalmente, exploraram-se os pilares da Soberania e Segurança Alimentar, bem como seu papel no desenvolvimento de proteínas alternativas (Bertolini et al., 2023), fornecendo a base conceitual para a análise estratégica.

A coleta de dados secundários envolveu a compilação de informações de diversas fontes estatísticas e relatórios. Utilizaram-se dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) e Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Complementarmente, foram consultadas publicações científicas e relatórios de organizações internacionais, como o Good Food Institute (GFI) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essa diversidade de fontes permitiu a triangulação dos dados, conferindo robustez à base informacional da pesquisa.

A metodologia central da pesquisa envolveu a construção de uma matriz de cenários prospectivos para 2040. Esta matriz foi definida por dois eixos críticos de incerteza: a velocidade de adoção tecnológica e a intensidade da intervenção geopolítica e regulatória. O eixo da adoção tecnológica considerou cenários de paridade de custos até 2030 (rápida) ou adoção lenta (GFI). O eixo geopolítico avaliou restrições climáticas da União Europeia e políticas de autossuficiência da China (alta) ou baixa intervenção. A combinação desses eixos permitiu a geração de três cenários estratégicos distintos.

A partir da matriz de incertezas, desenvolveram-se três cenários estratégicos detalhados para o horizonte de 2040: Resiliência Gradual, Disrupção Controlada e Erosão Acelerada. Cada cenário foi construído para representar diferentes trajetórias possíveis para a cadeia produtiva da carne bovina brasileira, considerando as variáveis de adoção tecnológica e intervenção geopolítica. Este processo permitiu explorar as implicações de cada combinação de fatores, identificando os indicadores de inflexão correspondentes que sinalizariam a transição entre os cenários. A construção desses cenários foi essencial para a avaliação da resiliência estratégica.

O tratamento e a análise dos dados foram conduzidos por meio de uma análise estratégica abrangente, articulando as informações obtidas da revisão bibliográfica e dos dados secundários. A análise buscou identificar padrões emergentes, tendências de longo prazo e as relações causais entre a Doença Holandesa, a Transição Alimentar Global e as políticas de soberania alimentar. A triangulação sistemática de fontes estatísticas, projeções de mercado e marcos regulatórios permitiu uma avaliação integrada dos riscos e oportunidades. A interpretação dos cenários prospectivos foi crucial para compreender as vulnerabilidades estruturais e, subsequentemente, propor um roteiro de mitigação.

Como etapa final da pesquisa, estruturou-se um roteiro de mitigação e captura de valor tecnológico para a janela de 2025 a 2030. Este roteiro foi elaborado com base na análise dos cenários e na identificação das oportunidades de intervenção estratégica. Ele visou propor ações concretas para reduzir o risco de obsolescência tecnológica da pecuária extensiva e criar condições para o Brasil capturar valor na emergente economia de proteínas alternativas. A construção do roteiro representou a síntese das descobertas e a contribuição original do trabalho, orientando futuras políticas industriais.

3. Resultados e Discussão

A análise dos resultados revelou uma complexa ambiguidade estrutural na economia brasileira, caracterizada por um lado pelo apogeu histórico do complexo agroindustrial de carnes e, por outro, por uma crescente vulnerabilidade estratégica de longo prazo. Os dados coletados entre 2024 e o início de 2026 confirmaram a consolidação do Brasil como um dos principais fornecedores globais de proteína animal convencional (Simão, 2026; Formigoni, 2026). Contudo, essa hegemonia, embora robusta no curto prazo, assenta-se sobre alicerces frágeis diante da emergência da Transição Alimentar Global e das reorientações geopolíticas de mercados estratégicos (Santos et al., 2023; Pereira, 2026). A convergência desses fatores sugere que o país está exposto a um choque exógeno de substituição tecnológica, com potencial para erodir sua principal vantagem comparativa no horizonte de 2040 (Tunes, 2024; Di Renzo, 2025). Este cenário de aparente sucesso, portanto, mascara riscos estruturais profundos que exigem uma reavaliação estratégica urgente da pauta exportadora.

O ano de 2025 representou um ápice para a pecuária brasileira, com as exportações de carne bovina atingindo patamares sem precedentes. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) indicaram um volume total exportado de 3,853 milhões de toneladas, um crescimento de 20,7% em relação a 2024. A receita cambial total alcançou US$ 18,365 bilhões, um salto de quase 40% em termos nominais (Simão, 2026). Este desempenho notável, conforme apresentado na Tabela 1, reflete uma fase de expansão e rentabilidade que, embora positiva no curto prazo, pode gerar um ambiente de complacência estratégica, dificultando a percepção e a resposta a ameaças emergentes.

Tabela 1. Indicadores comparativos de exportação de carne bovina (2024-2025)

Indicador de desempenho

2024

2025

Variação (%)

Volume total exportado (milhões de toneladas)

3,19

3,853

+20,7

Receita cambial total (bilhões US$)

13,11

18,365

+40,1

Participação da China no faturamento (%)

43,5

48,2

+4,7 p.p.

Preço médio por tonelada in natura (US$/t)

5.028,9

5.573,2

+10,8

Número de destinos atendidos

162

177

+9,2

Fonte: elaborado com base em Simão (2026) e Estadão Conteúdo (2026)

A concentração massiva no segmento de carne bovina *in natura*, responsável por aproximadamente 90% do faturamento externo do setor, e a forte dependência da demanda chinesa, que absorveu 48,2% das exportações, gerando US$ 8,845 bilhões (Simão, 2026), são indicativos de uma especialização produtiva que, embora lucrativa, acentua a vulnerabilidade. A diversificação para mercados como a União Europeia, que apresentou crescimento de 76,5% em valor e 57% em volume em 2025 (Estadão Conteúdo, 2026), é um passo positivo, mas ainda insuficiente para mitigar o risco de concentração. A força do setor, observada no fechamento de 2025, começou a sinalizar uma transição cíclica no início de 2026, com a StoneX (2026) apontando que os abates históricos de 2025 foram impulsionados por um descarte elevado de fêmeas, um movimento que tende a se inverter em 2026 com a retenção de matrizes (Infocoweb, 2026). Essa dinâmica cíclica, embora mantenha preços e faturamento elevados no curto prazo, como evidenciado pelo recorde de faturamento de US$ 1 bilhão em janeiro (Formigoni, 2026; Pereira, 2026), não aborda as fragilidades estruturais de longo prazo. A situação do mercado americano, com o menor rebanho bovino desde 1951, que sustenta a demanda pela proteína brasileira mesmo com tarifas adicionais (Jornal da Unicamp, 2024), reforça a ideia de que o Brasil se beneficia de condições de mercado favoráveis, mas potencialmente transitórias.

A dependência brasileira das exportações de *commodities* agropecuárias é um sintoma clássico da Doença Holandesa (DH), conforme o modelo teórico de Corden e Neary (1982). Este fenômeno descreve como o *boom* em um setor baseado em recursos naturais, como a pecuária, pode levar à apreciação da taxa de câmbio real, prejudicando a competitividade da indústria de transformação. No caso brasileiro, essa apreciação é intensificada pelos fluxos de capital financeiro atraídos por altas taxas de juros, que amplificam a pressão sobre o câmbio (Silva e Flôres, 2019). Os dados revelaram que a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu pelo quinto ano consecutivo em 2023, atingindo apenas 10,3% (Rambo, 2024). Este patamar contrasta drasticamente com o pico de 25% em 1986 e os 13,6% em 2004, evidenciando uma trajetória de desindustrialização precoce (Santos et al., 2023). Essa alocação de capital para setores intensivos em recursos naturais, embora gere rendas ricardianas imediatas, resulta em poucos elos tecnológicos com o restante da economia, limitando o desenvolvimento de setores de maior valor agregado. A vulnerabilidade estratégica é ainda mais evidente quando se observa que o agronegócio representou 22% do PIB total em 2017, com o complexo da carne respondendo por 31% desse montante (FGV, 2023). Essa estrutura econômica, embora atualmente lucrativa, é inerentemente frágil e suscetível a choques externos, como a mudança na demanda global por proteínas.

O risco mais significativo identificado pela pesquisa é o choque de reversão da Doença Holandesa, um conceito explorado por Black (2017). Ao contrário do modelo clássico, onde o setor de *boom* se esgota fisicamente, a ameaça para o Brasil no horizonte de 2040 é a obsolescência tecnológica de seu recurso natural. A Transição Alimentar Global (TAG) atua como um vetor de substituição, capaz de desvalorizar permanentemente as vastas áreas de pastagens brasileiras, transformando ativos estratégicos em recursos obsoletos. Se a paridade de custos da carne cultivada levasse a um colapso na demanda global por proteína animal convencional, o Brasil perderia sua principal fonte de divisas sem ter desenvolvido um setor industrial robusto capaz de absorver a mão de obra e sustentar a balança comercial (Black, 2017; Portal do Agronegócio, 2021; Tunes, 2024). Este cenário representa um risco sistêmico, com implicações profundas para a estabilidade econômica e social do país. Em 2025, a valorização do real já havia resultado em uma perda média de faturamento de R$ 5,9 bilhões para os frigoríficos, demonstrando como a variação cambial pode corroer margens rapidamente (Beefpoint, 2025; Abiec, 2025). No horizonte de 2040, o problema não se limitaria ao câmbio apreciado, mas à ausência de demanda externa para o produto base, o que provocaria uma crise estrutural na conta de transações correntes do balanço de pagamentos. A falta de um setor industrial diversificado e inovador para absorver o valor agregado da nova economia de proteínas agravaria a situação, levando a um desemprego massivo e à desestabilização regional, especialmente nas áreas mais dependentes da pecuária extensiva.

A Transição Alimentar Global (TAG) é impulsionada por inovações em proteínas alternativas, como a carne cultivada e os produtos *plant-based*, que buscam mimetizar as propriedades sensoriais e nutricionais da carne convencional com uma fração do custo ambiental e de recursos. Os resultados indicaram que o ponto de inflexão tecnológico, onde a carne cultivada deverá alcançar paridade de custos com a proteína animal tradicional, está projetado para ocorrer por volta de 2030 (Portal do Agronegócio, 2021). Este marco temporal é crucial, pois a partir dele, a pressão competitiva sobre a pecuária extensiva brasileira se tornará insustentável. Estudos de Avaliação do Ciclo de Vida (GFI, 2021) demonstraram que a produção celular utiliza 95% menos terra e gera 92% menos gases de efeito estufa do que a carne bovina convencional. Esses diferenciais de eficiência, em um cenário global de restrições climáticas severas, transformam-se em barreiras comerciais potencialmente intransponíveis para os produtores brasileiros. A Tabela 2, embora não seja incluída aqui como tag, detalha essas diferenças, mostrando que, em termos de insumo vegetal por kg de carne, a carne bovina convencional requer cerca de 7 kg de grãos, enquanto a carne cultivada (projeção 2030) necessita de aproximadamente 1,5 kg de biomassa e a carne *plant-based* cerca de 1,3 kg de grãos. Em relação à redução no aquecimento global e no uso de terras, ambas as alternativas apresentam reduções superiores a 90% em comparação com a carne convencional. Os custos projetados também indicam uma vantagem para as alternativas, com a carne cultivada a US$ 5,66/kg e a *plant-based* entre US$ 3,50 e US$ 6,00/kg, enquanto a carne convencional tem um custo variável (GFI, 2021; Lehner, 2022; EY, 2023).

A análise qualitativa sugeriu que a carne cultivada, por ser biologicamente equivalente ao tecido animal, tenderá a ganhar a preferência dos consumidores no longo prazo, superando as barreiras sensoriais ainda enfrentadas pelas opções *plant-based*. O mercado de proteínas alternativas como um todo é estimado em US$ 162 bilhões nos próximos anos, com a carne cultivada potencialmente respondendo por US$ 600 bilhões em vendas globais até 2040 (EY, 2023; Edison Group, 2022). Essas projeções de mercado sublinham a magnitude da disrupção e a urgência para o Brasil em se posicionar nesse novo cenário. A falha em reconhecer e se adaptar a essa transição pode resultar na perda de mercados e na obsolescência de uma parte significativa da infraestrutura produtiva atual, com graves consequências econômicas e sociais. A transição não é apenas uma questão de sustentabilidade ambiental, mas uma reconfiguração fundamental das cadeias de valor globais de proteínas.

A vulnerabilidade brasileira é intensificada pelo uso da inovação tecnológica como ferramenta de autonomia estratégica por grandes compradores. A China, principal destino das exportações brasileiras, e a União Europeia implementaram políticas de desacoplamento do sistema global de *commodities* agropecuárias (Bertolini et al., 2023; Seixas, 2021). O 14° Plano Quinquenal da China elegeu a segurança alimentar como prioridade nacional, com investimentos significativos em biotecnologia alimentar, incluindo centros de pesquisa de US$ 11 milhões para carne cultivada (Di Renzo, 2025). Essa iniciativa demonstra a busca chinesa por reduzir sua dependência de importações de proteína do Mercosul. A desaceleração prevista para o comércio internacional de carnes na próxima década — de 37% para apenas 10% de crescimento (OCDE e FAO, 2025) — é um sintoma direto dessa busca por autossuficiência. Embora restrições estruturais como urbanização acelerada, escassez hídrica e degradação do solo limitem a autossuficiência plena chinesa no médio prazo (Seixas, 2021), a vulnerabilidade imediata já se materializou: em janeiro de 2026, a China implementou salvaguardas limitando a cota de importação a 1,1 milhão de toneladas e aplicando tarifa extraquota de 55%, transformando a dependência geopolítica em barreira tarifária concreta (Infocoweb, 2026).

Paralelamente, a União Europeia estabeleceu metas juridicamente vinculativas de neutralidade climática até 2050, com o objetivo intermediário de reduzir 90% das emissões até 2040 (Observatório do Clima, 2024). O Pacto Ecológico Europeu e o pacote *Fit for 55* impuseram restrições diretas ao consumo de carne vermelha e à pecuária extensiva, identificada como grande emissora de metano. O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), que iniciou sua cobrança efetiva em 2026, embora não contemple a pecuária na primeira fase, eleva os custos de fertilizantes importados, impactando indiretamente o agronegócio brasileiro (CNA, 2023). Em fases subsequentes, a inclusão da agropecuária dependerá da metodologia europeia para contabilizar desmatamento, metano e captura de carbono no solo, onde tecnologias do Plano ABC+ poderiam converter-se em créditos para a carne brasileira (Mapa, 2012). Além disso, a ratificação das cláusulas ambientais do acordo Mercosul-União Europeia a partir de 2026 torna a rastreabilidade georreferenciada um requisito técnico obrigatório, exigindo que os produtores brasileiros comprovem que suas exportações não se originaram em áreas desmatadas (Programa Leilões, 2026). O Regulamento Europeu Livre de Desmatamento (EUDR) desconsidera a legalidade do desmatamento conforme o Código Florestal brasileiro, criando uma barreira não tarifária mesmo para produtores formalmente regulares. Nos Estados Unidos, a estratégia de soberania alimentar combina programas de assistência externa e medidas domésticas de conteúdo local, ampliando o quadro geopolítico para além do binômio China-União Europeia (Bertolini et al., 2023). Essas políticas, tanto na China quanto na UE e nos EUA, demonstram uma tendência global de internalização da produção e de imposição de barreiras não tarifárias baseadas em critérios ambientais e de sustentabilidade, o que representa um desafio existencial para o modelo exportador brasileiro de carne convencional.

Um resultado crucial da pesquisa foi a identificação de um avanço institucional no Brasil que prepara o terreno para a economia de proteínas alternativas: a Resolução RDC 839/2023 da Anvisa (Anvisa, 2023). Publicada em dezembro de 2023, esta resolução estabeleceu o marco regulatório para o registro de alimentos e ingredientes inovadores, retirando o setor de carnes cultivadas de uma zona cinzenta jurídica. A RDC 839 enquadrou especificamente culturas de células e tecidos animais, bem como processos produtivos inovadores como a fermentação de precisão, sob regras rigorosas de análise de risco e segurança nutricional. A exigência de determinação do NOAEL (nível sem efeitos adversos observáveis) e análises microbiológicas detalhadas para novos produtos, juntamente com a classificação de ingredientes sem histórico de consumo seguro no Brasil como novos, exigindo autorização prévia da Anvisa, são fundamentais para garantir a segurança alimentar e a confiança do consumidor (GFI, 2021). Estrategicamente, esse marco posiciona o Brasil como um polo apto a atrair investimentos em pesquisa e desenvolvimento, permitindo que empresas como JBS e BRF desenvolvam suas divisões biotecnológicas internamente (Edison Group, 2022; ICEX-Invest in Spain, 2021). No entanto, os resultados também apontaram o risco de o Brasil atuar apenas como fornecedor de matérias-primas vegetais (soja e milho) para a produção de meios de cultura de empresas estrangeiras, sem capturar o valor agregado da propriedade intelectual e da manufatura de biorreatores (Goldbeck, 2024). Este risco ressalta a necessidade de uma política industrial proativa que vá além da mera exportação de *commodities*, visando a internalização de tecnologias e a criação de valor agregado.

A pesquisa construiu três cenários estratégicos para o horizonte de 2040, a partir de uma matriz de incertezas definida pela velocidade de adoção tecnológica e pela intensidade da intervenção geopolítica, conforme resumido na Tabela 2. A probabilidade de adoção massiva das proteínas alternativas condiciona-se à convergência de três variáveis: paridade de preço, experiência sensorial equivalente e ampla distribuição (Pressinott, 2025). No plano doméstico, a pesquisa de hábitos revelou que 51% dos brasileiros rejeitaram a ideia de provar carne cultivada e 41% identificaram o preço como principal barreira à adoção de *plant-based* (EY, 2023), indicadores que moderam a velocidade local de transição. No plano político, proibições estaduais à comercialização de carne cultivada na Flórida e no Texas, e tentativas análogas no Brasil, introduzem um vetor regulatório capaz de travar trajetórias de adoção nos cenários de Disrupção e Erosão (Pressinott, 2025).

Tabela 2. Matriz de projeções globais de participação de mercado (2040)

Fator de análise

Cenário 1: Resiliência Gradual

Cenário 2: Disrupção Controlada

Cenário 3: Erosão Acelerada

Participação de proteínas alternativas

14%

32%

60%

Participação de carne convencional

~85%

~68%

~40%

Ponto de inflexão

Pós-2035 (barreiras de custo)

2030 (adoção em híbridos)

2030 (paridade e regulação)

Vetor principal

Inércia do consumo

Eficiência em processados

Soberania alimentar e clima

Fonte: elaborado com base em Social Market Foundation (2023) e Joyful Ventures (2019)

O Cenário 1, denominado Resiliência Gradual, projeta que a carne cultivada falharia em superar os gargalos de escalabilidade industrial antes de 2035, mantendo as proteínas alternativas como um mercado de nicho, com apenas 14% de participação em 2040 (SMF, 2023). Neste cenário, a demanda global por carne convencional acompanharia o crescimento populacional, com o frango liderando o aumento do consumo em 62% (OCDE e FAO, 2025). O Brasil manteria sua liderança, mas sob crescentes “barreiras verdes” (CNA, 2023). A ratificação do acordo Mercosul-União Europeia exigiria rastreabilidade georreferenciada total (Programa Leilões, 2026), e os produtores brasileiros enfrentariam erosão de margens devido aos custos de conformidade ESG e à manutenção de uma economia dependente de *commodities*, prolongando os sintomas da Doença Holandesa e a vulnerabilidade industrial (Santos et al., 2023; Black, 2017). As implicações práticas deste cenário seriam a continuidade de uma dependência econômica frágil, com o país perdendo competitividade devido a custos de conformidade ambiental e a uma crescente pressão por práticas mais sustentáveis, sem uma transição significativa para setores de maior valor agregado.

No Cenário 2, Disrupção Controlada, a paridade de custos seria atingida em 2030, na faixa de US$ 5,66 por kg (Portal do Agronegócio, 2021). A disrupção ocorreria via produtos híbridos, combinando fibras vegetais e células animais, o que reduziria custos e manteria a experiência sensorial. As proteínas alternativas capturariam cerca de 32% do mercado global de carnes (EY, 2023). Grandes *players* como JBS e BRF já teriam investido em biotecnologia celular para mitigar riscos (Pressinott, 2025; Inaes, 2021). O risco estratégico para o Brasil seria atuar apenas como fornecedor de matérias-primas (soja e milho) para alimentar biorreatores na China e nos Estados Unidos, perdendo a captura de valor agregado tecnológico (Seixas, 2021). O uso da Resolução RDC 839/2023 (Anvisa, 2023) e a internalização da produção de ingredientes inovadores a partir de resíduos agroindustriais (farelo de soja e bagaço de cana) (Goldbeck, 2024) são identificados como cruciais para conter esse risco. As implicações práticas incluem a necessidade de investimentos em P&D e infraestrutura para processamento de resíduos, transformando o Brasil de exportador de *commodities* brutas em fornecedor de insumos biotecnológicos de alto valor.

O Cenário 3, Erosão Acelerada, seria o de maior ruptura, alinhado às projeções da A.T. Kearney, nas quais 60% da carne consumida não viria de animais abatidos (35% cultivada e 25% *plant-based*) (Tunes, 2024; Joyful Ventures, 2019). A União Europeia consolidaria a meta de redução de 90% das emissões até 2040, restringindo severamente a pecuária extensiva (Observatório do Clima, 2024), enquanto a China aceleraria sua autossuficiência por meio de centros de pesquisa de proteínas alternativas (Di Renzo, 2025). Os custos da carne cultivada teriam caído 85% desde 2020, e 35% dos compradores institucionais demonstrariam interesse na tecnologia (Pressinott, 2025). O impacto sobre a economia brasileira seria substancial: uma queda de 50% na demanda externa por carne bovina convencional desestabilizaria o saldo comercial e as reservas internacionais (USDA, 2025; Pereira, 2026). O setor de carne bovina, responsável por 8,4% do PIB e 8,9 milhões de empregos em 2024, sofreria contração estrutural sem precedentes, com a produção nacional podendo cair 25% até 2050 como resposta direta às restrições climáticas (Abiec, 2025). A vulnerabilidade regional seria devastadora no Norte e no Centro-Oeste, com produtores de baixa rentabilidade enfrentando risco de insolvência superior a 80% (Pereira e Bernasconi, 2025). O setor industrial, já atrofiado pela Doença Holandesa prévia, não teria capital nem infraestrutura para absorver a massa de trabalhadores rurais desempregados (Santos et al., 2023; Black, 2017). As implicações deste cenário são catastróficas, exigindo uma reestruturação econômica e social profunda e urgente, com foco na diversificação e na criação de novas indústrias para absorver a mão de obra e gerar valor.

A estratégia de mitigação para o Brasil reside na internalização da produção de insumos de alto valor para a agricultura celular. O meio de cultura representa o principal componente de custo da carne cultivada, respondendo por algo entre 55% e 95% do custo total de produção e, em estimativas de *baseline* industrial, por até 99% do custo básico de produção, com fatores de crescimento e proteínas recombinantes concentrando cerca de 99% do custo do próprio meio (Cultivated Meat Shop, 2024; Edison Group, 2022). Historicamente, esses meios utilizaram insumos da indústria farmacêutica ou soro fetal bovino, cujos custos e implicações éticas inviabilizaram a escala alimentar (Jornal da Unicamp, 2024). O Brasil apresenta uma vantagem competitiva em função da abundância de subprodutos agroindustriais das cadeias da soja e da cana-de-açúcar, passíveis de conversão em nutrientes para biorreatores (Goldbeck, 2024; GFI, 2025b).

O fracionamento e hidrolisados de soja foram identificados como a fonte mais eficiente de aminoácidos para o crescimento celular. O uso de farinha desengordurada de soja e de hidrolisados proteicos pode suprir mais de 50% da demanda de nitrogênio das células em cultivo, reduzindo drasticamente a dependência de insumos sintéticos importados (GFI, 2025b). A captura de valor ocorre ao transformar o farelo de soja, uma *commodity* tipicamente exportada, em peptídeos e aminoácidos de grau alimentício utilizados como ingrediente biotecnológico de alto valor unitário (Goldbeck, 2024). Essa estratégia permite ao Brasil agregar valor a um produto que já domina, movendo-se na cadeia de valor de *commodities* para produtos de alta tecnologia.

O aproveitamento da cadeia sucroenergética também se mostra promissor. Subprodutos como melaço de cana, vinhaça e bagaço foram apontados como fontes ideais de carbono e açúcares redutores para processos de fermentação de precisão (GFI, 2025b). A biomassa de levedura proveniente da produção de etanol é passível de processamento para extração de fatores de crescimento e vitaminas, essenciais para a proliferação celular acelerada (Fenasucro, 2024). Essa rota conecta diretamente a liderança brasileira em bioenergia com a cadeia emergente de agricultura celular, agregando valor a subprodutos que antes tinham destinação predominantemente energética ou fertilizante. A integração dessas cadeias produtivas existentes com a nova economia de proteínas alternativas representa uma oportunidade única para o Brasil.

A substituição de insumos críticos, como a albumina, é fundamental para a viabilidade econômica da carne cultivada. A albumina foi caracterizada como uma das proteínas mais caras e necessárias no cultivo celular, contribuindo sozinha com 80% a 95% do custo das proteínas recombinantes no meio (Edison Group, 2022). Pesquisas conduzidas na Unicamp por Goldbeck e Flaibam demonstraram a viabilidade de substituir o soro fetal bovino e a albumina cara por hidrolisados proteicos derivados de farelos de soja e amendoim, permitindo reduzir a concentração de soro no meio de 10% para 2,5% e obter aumento de 38% no crescimento celular em relação ao cultivo de controle (Jornal da Unicamp, 2024; Goldbeck, 2024). Do ponto de vista econômico, o soro fetal bovino custou entre US$ 70 e US$ 170 por grama seca, enquanto o extrato proteico de farelo de soja atingiu US$ 1,10 por grama e o farelo hidrolisado apenas US$ 0,17 por grama, derrubando os custos proteicos em três ordens de grandeza (BNDES, 2022; GFI, 2024a). A Tabela 4, embora não seja incluída aqui como tag, sintetiza o potencial de substituição nacional para os principais componentes do meio de cultura. Ela mostra que o soro fetal bovino, que representa até 55% do custo total e é importado, pode ser substituído por hidrolisados de soja e análogos de albumina, com uma redução de custo esperada de até 95% no insumo. Aminoácidos sintéticos (15% a 25% do custo, importados) podem ser substituídos por hidrolisados de farelo de soja, com redução de 50% a 70%. Açúcares redutores (5% a 10% do custo, glicose importada) podem ser substituídos por melaço e vinhaça de cana, com redução de 60% a 80%. Fatores de crescimento e vitaminas (10% a 15% do custo, sintéticos importados) podem ser substituídos por biomassa de levedura do etanol, com redução de 40% a 60% (Cultivated Meat Shop, 2024; GFI, 2025b; Jornal da Unicamp, 2024). Essas substituições demonstram o vasto potencial do Brasil para desenvolver uma cadeia de suprimentos interna e de baixo custo para a agricultura celular.

A transição produtiva exige uma intervenção deliberada do Estado. A política Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024 (Ministério da Fazenda, 2024), estabeleceu missões estratégicas que conversam diretamente com a necessidade de captura de valor biotecnológico. A Missão 1 visa o desenvolvimento de cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais, mobilizando R$ 300 bilhões em investimentos até 2026, enquanto a Missão 5 concentra a agenda de bioeconomia e descarbonização, com R$ 468,38 bilhões somados de recursos públicos e privados (ABDI, 2024; Macke Consultoria, 2024). A política industrial é, portanto, a alavanca central para transformar a janela 2025-2030 em vantagem estratégica para o país (Schapiro e Torres Filho, 2020).

O financiamento público, articulado entre BNDES e FINEP, é mobilizado para subvencionar a construção de plantas piloto de biorreatores de grande escala, acima de 10.000 litros, superando o gargalo de infraestrutura (Finep, 2023; BNDES, 2022). O BNDES atua como motor de capital estruturante, direcionado a investimentos robustos em CAPEX, implantação industrial, modernização e expansão da capacidade produtiva de tecnologias sustentáveis, enquanto a FINEP atua na fronteira tecnológica com subvenções para pesquisa aplicada, prototipagem e projetos-piloto, usando recursos não reembolsáveis do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) em editais especificamente voltados a proteínas alternativas e carne cultivada (Finep, 2023). Essa infraestrutura é pré-condição para que *startups* e empresas do setor possam testar formulações e escalar processos sem depender de instalações no exterior, alinhando o Brasil à trajetória observada em centros internacionais de referência (GFI, 2025a). Levantamento do GFI Brasil evidenciou a magnitude do gargalo: apenas seis instituições nacionais dispõem de biorreatores com volume superior a 100 litros e somente três mantêm certificação *food-grade*, condição indispensável para escalonamento comercial (GFI, 2025a).

Uma segunda linha de atuação envolve o financiamento de pesquisas em tropicalização de linhagens celulares de bovinos brasileiros, em especial o Nelore, garantindo que a carne cultivada nacional preserve o sabor característico valorizado nos mercados globais (Embrapa, 2024; GFI, 2024b). Essa particularidade técnica constitui um ativo de diferenciação competitiva, elemento ausente em estratégias focadas apenas em replicar genéticas europeias ou norte-americanas. A capacidade de oferecer um produto com características sensoriais específicas e valorizadas pode ser um diferencial competitivo importante em um mercado global cada vez mais segmentado.

A implementação de um *sandbox* regulatório sob a égide da RDC 839/2023 (Anvisa, 2023) permite acelerar o teste de novos meios de cultura baseados em resíduos nacionais, garantindo segurança e agilidade no *time-to-market*. Essa abordagem reduz o risco regulatório para desenvolvedores e para o setor industrial que investiu nas novas tecnologias (Goldbeck, 2024). Dois *benchmarks* internacionais informam o desenho do mecanismo brasileiro: o modelo da Singapore Food Agency, que aprova produtos em prazos de três a seis meses mediante consultoria proativa aos proponentes, e a divisão de competências adotada nos Estados Unidos, na qual a Food and Drug Administration (FDA) supervisiona o cultivo celular e o Departamento de Agricultura o processamento e a rotulagem, referência para a harmonização operacional entre Anvisa e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Embrapa, 2024).

A criação de um Consórcio Nacional de Meios de Cultura, envolvendo JBS, BRF, Embrapa e universidades, é identificada como ação imediata prioritária para padronizar formulações baseadas em soja e cana, com meta de redução do custo dos insumos em 90% até 2028 (GFI, 2025b). Paralelamente, o investimento público-privado da ordem de R$ 500 milhões é dirigido à criação de pelo menos três centros de referência com biorreatores em escala industrial, atuando como *Contract Manufacturing Organizations* (CMOs) para *startups* (GFI, 2025a). Essas iniciativas conjuntas visam criar um ecossistema robusto para a agricultura celular no Brasil, desde a pesquisa básica até a produção em escala industrial, garantindo a competitividade e a captura de valor.

A transição alimentar não é um processo neutro do ponto de vista territorial. O setor de carne bovina sustenta cerca de 8,9 milhões de empregos no Brasil, com alta concentração nas regiões Norte e Centro-Oeste (Abiec, 2025). O crescimento do rebanho no Norte se deu de forma majoritariamente extensiva, com expansão de pastagens frequentemente associada a desmatamento, resultando em produtividade por hectare muito inferior à média nacional e em margens estreitas (Pereira e Bernasconi, 2025). Estudos da Orbitas Finance (2023) indicaram que, em cenários de queda de 30% nos preços da carne convencional, o risco de insolvência para produtores de baixa eficiência pode superar 80%. A recuperação de pastagens muito degradadas, por outro lado, pode elevar a produtividade por hectare em até 310% e aumentar a lucratividade em mais de R$ 1.875 por hectare (Abiec, 2025), evidenciando a assimetria entre o cenário de risco e o de adaptação tecnológica.

A reconversão de pastagens degradadas se articula em torno da transformação dessas áreas em polos de produção de biomassa para bioenergia e biotecnologia, aproveitando os instrumentos do Plano ABC+ (Mapa, 2012; Embrapa, 2025). Essa estratégia abre caminho para que a base territorial antes dedicada à pecuária extensiva possa alimentar biorreatores e plantas de fermentação, consolidando a transição produtiva ao nível do uso da terra. A integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) aumenta a resiliência térmica e a produtividade por hectare, permitindo que o pecuarista tradicional passe a atuar como fornecedor de serviços ambientais e de insumos de alta qualidade (Mapa, 2012; Agroicone, 2025). Essa diversificação reduz a exposição ao risco de choque de preço da carne e gera fontes complementares de receita ligadas à manutenção da floresta e ao sequestro de carbono.

Destaca-se o imperativo da justiça na transição, traduzido em programas de requalificação de mão de obra para que os trabalhadores do setor de abate possam atuar na manutenção e na operação de plantas de bioprocessos e fermentação (Systemiq, 2025). A adoção do conceito de licença social, articulando políticas territoriais, modelos agregadores de produtores e protagonismo das comunidades locais, é apontada como diretriz operacional para evitar que a transformação tecnológica gere exclusão social em massa, ancorando a mitigação do risco sistêmico também na dimensão distributiva (Systemiq, 2025; Agroicone, 2025). A transição justa é crucial para garantir que os benefícios da nova economia de proteínas sejam amplamente distribuídos e que as comunidades dependentes da pecuária tradicional não sejam deixadas para trás.

A janela de oportunidade para a realização da transição produtiva localiza-se, conforme esta pesquisa demonstrou, entre 2025 e 2030. Após esse período, a consolidação da infraestrutura biotecnológica na China, nos Estados Unidos e em Cingapura pode tornar a entrada brasileira tardia e excessivamente onerosa (Pressinott, 2025; Seixas, 2021). As ações imediatas recomendadas englobam quatro frentes articuladas. A primeira é a criação do Consórcio Nacional de Meios de Cultura já descrito. A segunda é a expansão da infraestrutura de biorreatores nos moldes dos três centros de referência em escala industrial antes delineados (GFI, 2025a). A terceira é a diplomacia ambiental e tecnológica, por meio da qual se utiliza a liderança brasileira na COP30 para negociar o reconhecimento internacional da carne cultivada nacional como ativo de descarbonização, evitando que o CBAM europeu penalize novas exportações biotecnológicas (CNA, 2023). A quarta é a certificação de resíduos, com a criação de um selo de conformidade para resíduos agroindustriais de soja e cana, garantindo que os insumos para a carne cultivada sejam livres de contaminantes e originados em áreas de desmatamento zero, atendendo aos requisitos da RDC 839 e do mercado externo (Goldbeck, 2024; Programa Leilões, 2026). A Tabela 5, embora não seja incluída aqui como tag, detalha este roteiro de inflexão 2025-2030, apresentando indicadores, gatilhos observados e respostas estratégicas. Por exemplo, a paridade de custos da carne cultivada (custo ≤ US$ 5,66/kg) até 2030 exige acelerar a substituição de insumos via soja e cana. A expansão do CBAM à agropecuária, com a norma da UE publicada até 2026-2028, demanda diplomacia ambiental e um selo de baixo carbono. O desacoplamento chinês, com o comércio global desacelerando para 10% entre 2025-2030, exige diversificar destinos e investir em CMOs. O acordo Mercosul-UE, com rastreabilidade georreferenciada obrigatória até 2026, requer adesão plena ao desmatamento zero. Finalmente, a capacidade global de biorreatores (> 10.000 L em operação comercial) até 2028-2030 exige a criação de três centros de referência nacionais (Anvisa, 2023; Ministério da Fazenda, 2024; GFI, 2025a; StoneX, 2026). Este roteiro apoia-se em um ecossistema nacional já em formação, com a Universidade Federal do Paraná instituindo a primeira pós-graduação em agricultura celular e o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação em Proteínas Alternativas consolidando uma rede multiuniversitária de pesquisa aplicada (Embrapa, 2024). No plano empresarial, JBS e BRF já comprometeram investimentos significativos em biotecnologia celular, e *startups* como Cellva, Sustineri Piscis, Moondo, Ambi Real Food e Núcleo Vitro integram o tecido empreendedor que o roteiro pretende fortalecer (GFI, 2024a).

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, ao avaliar a resiliência estratégica da cadeia produtiva da carne bovina brasileira frente à emergência das proteínas alternativas e às novas barreiras não tarifárias globais projetadas para 2040. A pesquisa demonstrou que, apesar do apogeu exportador em 2025, a economia brasileira exibe uma vulnerabilidade estrutural significativa, exacerbada pela Doença Holandesa e pela iminência de um choque de reversão tecnológica. A Transição Alimentar Global, aliada às políticas de soberania alimentar de grandes importadores, configura um risco sistêmico de obsolescência da pecuária extensiva. Contudo, o estudo também evidenciou uma janela de oportunidade crucial entre 2025 e 2030 para o Brasil reposicionar-se, internalizando a produção de insumos biotecnológicos de alto valor a partir de resíduos agroindustriais de soja e cana, conforme detalhado no roteiro de mitigação proposto.

Este trabalho, de natureza qualitativa e baseado em dados secundários, apresenta como limitação a ausência de uma análise quantitativa aprofundada dos impactos econômicos regionais e da aceitação do consumidor brasileiro. Embora tenha sido feita uma prospecção de cenários, a modelagem econométrica dos efeitos da transição em diferentes elos da cadeia produtiva e sobre o emprego rural poderia refinar as projeções. Sugere-se, portanto, para estudos futuros, a realização de pesquisas primárias sobre a percepção e a disposição de compra dos consumidores em relação às proteínas alternativas, bem como a elaboração de modelos de equilíbrio geral que quantifiquem os impactos macroeconômicos e regionais dos cenários de disrupção. Aprofundar a análise sobre a implementação de políticas de transição justa e requalificação de mão de obra também se mostra fundamental.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq

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