Artigo

24 de agosto de 2026

A Pastoral Escolar como Dispositivo de Gestão do Cotidiano: Contribuições de Michel de Certeau para a Mediação de Conflitos Intergeracionais em um Colégio Católico

Cainan Espionosa Gimenes; Douglas Gonçalves Leite

DOI: 10.22167/2675-6528-202601824

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A presente pesquisa investigou as dinâmicas dos conflitos intergeracionais no contexto de um colégio católico, com especial atenção ao cotidiano pastoral escolar como espaço de mediação das relações, dos vínculos e dos processos formativos. O estudo objetivou compreender tais dinâmicas, partindo do pressuposto de que os conflitos não se reduzem a divergências etárias, mas expressam diferentes modos de habitar o cotidiano e participar da vida comunitária. Metodologicamente, tratou-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, que integrou a análise reflexiva da prática pastoral vivida no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, à análise documental de textos do Magistério da Igreja. A interpretação dos dados foi realizada por meio da Análise de Conteúdo, segundo Bardin, articulada às categorias certeaunianas de prática, tática e espaço praticado. Os resultados evidenciaram que os conflitos intergeracionais se manifestaram principalmente em diferenças de linguagem, formas de participação, estilos celebrativos e modos de pertencimento, mais do que em divergências doutrinais. Revelaram, ainda, que a pastoral escolar atuou como um dispositivo de gestão do cotidiano formativo, incidindo sobre dimensões simbólicas e relacionais frequentemente não contempladas pelos modelos formais de gestão. Concluiu-se que tais conflitos, quando compreendidos e acompanhados à luz do discernimento e da escuta, podem tornar-se espaços fecundos de aprendizagem, comunhão e reinvenção da prática educativa e eclesial.

Palavras-chave: Ação pastoral; Educação católica; Gestão de conflitos; Pensamento certeauniano; Relações intergeracionais.

1. Introdução

A experiência educativa contemporânea, particularmente em ambientes confessionais, é marcada por tensões que transcendem as questões meramente pedagógicas ou administrativas. Essas tensões refletem a maneira como diferentes indivíduos vivenciam o cotidiano escolar. Entre elas, os conflitos intergeracionais emergem como um desafio central, manifestando-se em distintas formas de compreender a fé, a autoridade, a linguagem e a participação na vida comunitária.

No contexto de um colégio católico, esses conflitos não se limitam a desencontros etários, mas representam diferentes “artes de fazer” o cotidiano, conforme a perspectiva de Michel de Certeau. Cada geração, inserida em seus próprios contextos históricos e culturais, desenvolve modos singulares de apropriação dos espaços, das práticas e dos discursos institucionais. Isso transforma o ambiente escolar em um local de constante negociação de sentidos e significados.

Nesse cenário, a pastoral escolar assume um papel de grande relevância. Longe de ser uma atividade secundária, ela se configura como uma prática situada que permeia a vida cotidiana da escola, influenciando as relações, os vínculos e os processos formativos. Ao atuar como um espaço de escuta, mediação e convivência, a pastoral escolar revela-se um campo privilegiado para a compreensão e a gestão das complexas dinâmicas intergeracionais.

A problemática central reside na complexidade desses conflitos, que frequentemente são mal interpretados como simples divergências etárias, quando na verdade expressam modos distintos de habitar o mundo e de se relacionar com a fé e a comunidade. A lacuna teórica e prática reside na necessidade de abordagens que compreendam essa profundidade e ofereçam caminhos eficazes de mediação que vão além dos modelos formais de gestão.

A justificativa para esta pesquisa reside na urgência de desenvolver uma compreensão mais aprofundada das tensões intergeracionais em instituições de ensino católicas. Ao invés de serem vistos como meros problemas a serem eliminados, esses conflitos, quando compreendidos e acompanhados adequadamente, podem se transformar em espaços férteis para a aprendizagem, a comunhão e a reinvenção das práticas educativas e eclesiais. A gestão desses conflitos, portanto, não se restringe a uma técnica administrativa, mas se torna uma prática espiritual e pedagógica que fortalece a formação integral dos estudantes e a vitalidade da comunidade.

Para abordar essa complexidade, o estudo mobiliza um referencial teórico que integra a sociologia das gerações, as teorias organizacionais de gestão de conflitos e a leitura do cotidiano proposta por Michel de Certeau. Essa articulação permite uma abordagem que reconhece tanto as estruturas institucionais quanto as práticas ordinárias que as atravessam, oferecendo uma chave interpretativa para as dinâmicas vividas. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, fundamentada na análise reflexiva da prática pastoral vivida em um colégio católico e na interpretação de documentos do Magistério da Igreja. Esta escolha permite compreender o cotidiano não apenas como cenário, mas como um campo analítico onde as tensões, os deslocamentos e as possibilidades de encontro entre gerações se tornam visíveis. Assim, o objetivo deste estudo é compreender as dinâmicas dos conflitos intergeracionais no ambiente eclesial, com especial atenção ao cotidiano pastoral escolar, e propor caminhos para sua mediação à luz da articulação entre espiritualidade cristã e práticas contemporâneas de gestão de pessoas.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, visando aprofundar a compreensão das dinâmicas intergeracionais em um contexto específico. Essa escolha metodológica permitiu uma investigação detalhada da pastoral escolar, entendida como um dispositivo de gestão das relações, dos conflitos e dos vínculos que se estabelecem na rotina formativa. O caráter exploratório justificou-se pela análise de um fenômeno ainda pouco estudado nesse ambiente, enquanto a natureza descritiva possibilitou um retrato fiel das práticas observadas.

O estudo foi realizado no Colégio Santo Inácio, uma instituição católica tradicional localizada na cidade do Rio de Janeiro. O cotidiano pastoral escolar dessa instituição constituiu a unidade de análise central, sendo abordado não apenas como cenário, mas como campo analítico. A pesquisa fundamentou-se na experiência cotidiana do pesquisador como agente pastoral junto a turmas do Ensino Fundamental II, onde foram observadas tensões, aproximações e distintas formas de participação entre estudantes, educadores, agentes pastorais e lideranças religiosas.

A coleta de dados empíricos foi realizada por meio de duas fontes complementares. Primeiramente, aplicou-se um formulário eletrônico, ou questionário online, que contou com a participação de 32 respondentes. Estes incluíam membros da hierarquia eclesiástica, lideranças leigas, educadores, agentes pastorais e leigos sem funções formais de liderança, proporcionando uma visão abrangente da comunidade. Em segundo lugar, procedeu-se à análise documental de textos do Magistério da Igreja e documentos pastorais relevantes para a reflexão sobre convivência comunitária e gestão pastoral.

Os instrumentos de coleta de dados incluíram o questionário online, que permitiu capturar percepções e experiências dos participantes sobre os conflitos intergeracionais. Além disso, foram analisados documentos como Caritas in Veritate, de Bento XVI; Christus Vivit e Fratelli Tutti, de Francisco; e Comunidade de Comunidades: uma nova paróquia, da CNBB. A experiência do pesquisador como agente pastoral também serviu como fonte de dados, através da observação participante e da reflexão sobre as dinâmicas vivenciadas.

Os procedimentos de coleta de dados envolveram a análise reflexiva da prática pastoral vivida no cotidiano escolar, a partir de situações recorrentes de convivência intergeracional, mediação de conflitos, espaços de escuta e formas de participação. Essas experiências foram consideradas unidades de sentido para a compreensão das dinâmicas relacionais. Paralelamente, o questionário online foi distribuído aos participantes, e os documentos eclesiais foram sistematicamente consultados e examinados para extrair informações pertinentes ao tema.

A organização e análise dos dados foram conduzidas por meio da Análise de Conteúdo, conforme a metodologia proposta por Laurence Bardin (2011). Este processo envolveu a identificação de unidades de registro significativas, tanto na experiência pastoral descrita quanto nos documentos analisados. Essas unidades foram posteriormente agrupadas em categorias emergentes, como “Conflitos de valores”, “Conflitos de comunicação” e “Estratégias de diálogo”, que permitiram estruturar a interpretação dos achados.

A interpretação dos dados foi realizada em diálogo com as categorias do cotidiano desenvolvidas por Michel de Certeau, especialmente as noções de prática, tática e espaço praticado. Essa articulação entre a prática pastoral observada, as categorias identificadas e o referencial documental possibilitou compreender o cotidiano escolar como um espaço dinâmico onde a pastoral atua concretamente na gestão das relações e das experiências vividas, oferecendo uma perspectiva aprofundada sobre os conflitos intergeracionais.

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados coletados, tanto por meio do formulário eletrônico quanto da análise documental, revelou percepções significativas sobre a dinâmica dos conflitos intergeracionais no ambiente eclesial. Esta seção apresenta os principais achados da pesquisa, discutindo-os à luz da fundamentação teórica adotada, com especial atenção ao contexto do cotidiano pastoral escolar no Colégio Santo Inácio. Os resultados obtidos permitiram identificar os principais fatores de tensão entre as gerações, bem como a frequência com que foram mencionados pelos participantes.

A pesquisa contou com a participação de 32 respondentes, distribuídos em diferentes níveis de atuação eclesial, incluindo sujeitos diretamente vinculados ao contexto escolar. Entre eles, encontram-se membros da hierarquia, como padres, diáconos e religiosos; lideranças leigas, representadas por coordenadores de pastorais, grupos, ministros e catequistas; bem como educadores, agentes de pastoral escolar e leigos sem funções formais de liderança. Esses dados apontam para uma dinâmica marcada pelo protagonismo do laicato e pela presença significativa de sujeitos inseridos no cotidiano do colégio, o que permite uma leitura mais situada das tensões intergeracionais no espaço educativo.

Figura 1. Papel na comunidade religiosa

Fonte: Resultados originais da pesquisa

O perfil diversificado dos participantes, composto por membros da hierarquia eclesiástica, lideranças leigas, educadores e agentes de pastoral escolar, oferece uma visão abrangente da dinâmica comunitária e educativa. Essa composição influencia diretamente a percepção dos conflitos intergeracionais e a avaliação das estratégias de gestão pastoral no contexto do colégio. A presença de padres, diáconos e religiosos contribui com uma perspectiva institucional, enquanto as lideranças leigas oferecem um olhar prático e próximo das realidades cotidianas, especialmente no acompanhamento dos estudantes e na mediação de relações.

Os educadores e agentes de pastoral escolar ocupam um lugar estratégico, inseridos diretamente na rotina formativa dos estudantes, vivenciando as tensões, aproximações e formas de participação entre gerações. Sua percepção articula dimensões pedagógicas e pastorais, permitindo uma leitura integrada dos conflitos. Já os leigos sem cargos de decisão refletem percepções espontâneas e vivenciais, possibilitando avaliar como as estratégias de diálogo e integração são efetivamente assimiladas na base da comunidade educativa. Essa diversidade de funções enriquece a compreensão das origens dos conflitos e da efetividade das iniciativas adotadas para sua mediação no cotidiano pastoral escolar.

A maioria dos participantes percebe algum nível de tensão entre gerações, com 17 respondentes indicando conflitos ocasionalmente perceptíveis e 11 como frequentes, totalizando 87% das respostas. Apenas 4 participantes consideraram os conflitos raros. Essa constatação confirma o conflito intergeracional como um elemento estrutural e inerente à dinâmica comunitária, conforme apontado por Tedeschi, Schlenker e Bonoma (1973). No contexto do colégio católico, tais tensões atravessam não apenas a vida eclesial, mas também o cotidiano educativo, incidindo diretamente nas relações entre estudantes, educadores e agentes pastorais.

Figura 2. Frequência dos conflitos entre gerações

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A elevada frequência de tensão indica um desafio central: manter o conflito em nível produtivo. No cotidiano pastoral escolar, isso se manifesta quando divergências sobre linguagem, participação ou formas de vivência da fé deixam de ser espaços de construção e passam a gerar distanciamento entre os sujeitos. Quando não mediado, o conflito tende a deslocar-se do campo das ideias para o campo das relações, tornando-se socioafetivo e, portanto, disfuncional, comprometendo os vínculos e reduzindo o bem-estar dos envolvidos.

Em contraste, o conflito de tarefa, caracterizado pela divergência de ideias, é potencialmente funcional, pois amplia alternativas, estimula a criatividade e melhora a qualidade das decisões (Gomes, 2011). No ambiente escolar, o desafio não é eliminar o conflito, mas educar para que ele permaneça no nível do diálogo e da construção comum. No entanto, a diversidade de idade, experiência e repertório geracional tende a intensificar o impacto negativo dos conflitos relacionais, especialmente quando associados a falhas de comunicação e a diferentes modos de participação (Rodrigues; Fajardo, 2018).

Nesse cenário, a liderança assume um papel decisivo. Mais do que gerir processos, o líder, particularmente no contexto pastoral escolar, é chamado a reconhecer necessidades, mediar relações e sustentar espaços de escuta. Sua eficácia está diretamente vinculada à capacidade de conduzir transformações e promover ambientes de diálogo, conforme indicam Morais e Cova (2025). As estratégias de gestão de pessoas aplicadas a esse contexto envolvem práticas que favorecem a inclusão, a comunicação e o desenvolvimento das equipes, com a liderança adaptativa e inclusiva destacando-se como eixo central.

A análise da distribuição etária dos respondentes evidencia a predominância das gerações Y (adultos jovens, 11 respondentes) e X (adultos de meia-idade, 9 respondentes), indicando que o engajamento nas comunidades eclesiais e no cotidiano escolar é mais significativo entre esses grupos. A Geração Z (menos de 18 anos) representa 5 respondentes, enquanto a faixa de 46 a 60 anos conta com 7 participantes. Essa composição demográfica é um fator importante para a compreensão das dinâmicas intergeracionais, uma vez que o perfil etário influencia não apenas a percepção dos conflitos, mas também a forma como são mediados e vividos no interior da comunidade educativa.

Figura 3. Faixa etária.

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Os adultos jovens, notadamente a Geração Y, tendem a valorizar abordagens de mediação participativa e diálogo colaborativo, buscando reconhecimento e ambientes mais informais e flexíveis, priorizando o equilíbrio entre vida pessoal e compromisso institucional (Dutra, 2016). No contexto do colégio, isso se traduz em uma expectativa por maior escuta, participação nas decisões e sentido nas propostas formativas. Sua preferência por interações horizontais e pelo uso de tecnologias digitais contrasta com as expectativas de outras faixas etárias, que demonstram maior adesão a estilos de organização mais estruturados e hierárquicos, valorizando a estabilidade e a comunicação formal.

A Geração Z, embora menos representativa na amostra, introduz um elemento decisivo para a compreensão dessas dinâmicas. Como nativos digitais, os jovens tendem a esperar agilidade, abertura ao diálogo e formas mais imediatas de comunicação. No ambiente pastoral escolar, isso aparece, por exemplo, na forma como se engajam nas propostas, na maneira como interpretam a linguagem religiosa e na expectativa por experiências mais participativas e significativas. Diante desse cenário, a gestão das relações intergeracionais exige uma liderança flexível e adaptativa, capaz de ler o contexto e ajustar suas práticas, não se limitando à gestão de processos, mas se expressando também como cuidado com as relações e escuta das diferenças.

A predominância da avaliação da convivência intergeracional como “regular” (17 respondentes) indica um ambiente que, embora não hostil, pois não houve registros de avaliações “ruim” ou “muito ruim”, apresenta fragilidades que requerem atenção analítica à luz da gestão de conflitos e do clima organizacional. Treze participantes consideraram a convivência “boa”, e apenas dois a classificaram como “excelente”. Tal percepção sugere que os conflitos não estão sendo evitados, mas possivelmente velados ou geridos de forma pouco construtiva, o que pode gerar estagnação e apatia entre os membros da equipe.

Figura 4. Avaliação da convivência entre diferentes gerações na sua comunidade

Fonte: Resultados originais da pesquisa

O conflito velado se manifesta quando tensões e sentimentos negativos, como frustração ou descrédito, não são explicitados, permanecendo latentes e prejudicando a dinâmica do grupo (Bobbio, 1998). Abordagens interacionistas defendem que o conflito, quando bem conduzido, é um motor de inovação e melhoria de decisões, permitindo que problemas sejam manifestados e resolvidos de forma construtiva, evitando o acúmulo de tensões. Assim, transformar a convivência “regular” em produtiva exige estratégias que convertam divergências em oportunidades de aprendizado e crescimento, promovendo um ambiente de segurança psicológica.

Os dados revelam que a percepção predominante é de que os jovens (Geração Z e Millennials) são a geração que apresenta maior dificuldade em escutar os demais, com 15 respondentes indicando essa dificuldade. Adultos (30 a 59 anos) foram apontados por 8 respondentes, e idosos (60+) por 2. Apenas 3 participantes acreditam que todas as gerações são igualmente ouvidas, e 4 não souberam responder. Essa percepção é possivelmente em função da maior familiaridade da juventude com dinâmicas digitais e ritmos mais acelerados de comunicação, conforme Morais, Andrade Neto e Souza (2016).

Figura 5. Dificuldades de escuta segundo faixas etárias na comunidade

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Membros da Geração Z têm um comportamento imediatista, esperando que todas as gerações antecessoras os respondam com a mesma rapidez e agilidade que encontram nos ambientes virtuais (Matta, Carvalho Neto e Diniz, 2024). Além disso, a Geração Z tende a dar menos importância aos conselhos das gerações mais velhas, confiando mais em informações obtidas pela internet, e pode ter maior dificuldade em diálogos em grupos devido à timidez. A juventude também valoriza a conectividade e a abertura ao diálogo nas instituições, o que pode gerar atrito com métodos de comunicação mais formais preferidos por gerações mais antigas (Corrêa, 2021).

Os dados revelam um achado central sobre a capacidade das lideranças eclesiais em mediar conflitos intergeracionais. Embora 17 respondentes (53%) indiquem que a liderança atua bem “na maioria das vezes”, chama atenção o fato de 7 (22%) perceberem essa atuação apenas “raramente” e 6 (19%) declararem “não saber dizer”. Apenas 1 participante afirmou que a liderança sempre media bem. Esses números evidenciam uma experiência de mediação marcada por avanços, mas também por incertezas, o que repercute diretamente na qualidade da convivência comunitária.

Figura 6. Posicionamento da liderança para mediar bem os conflitos entre gerações

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Para Chiavenato (2010), a gestão de pessoas requer o desenvolvimento contínuo de competências relacionais e de liderança para que se crie um ambiente de cooperação e confiança. Nesse sentido, a lacuna percebida sugere que os líderes ainda não consolidaram práticas consistentes de escuta e resolução de conflitos. As implicações são significativas: a falta de percepção clara da mediação enfraquece a coesão entre gerações e dificulta o aprendizado coletivo, aspecto que Edmondson (1999) denomina “segurança psicológica”, condição necessária para que equipes se sintam encorajadas a dialogar e inovar. Os resultados dialogam com a perspectiva da liderança servidora, na qual o líder coloca o cuidado com as pessoas como prioridade (Hybels, 2015).

Os participantes identificaram diversas fontes de tensão que atuam como catalisadores para o surgimento de conflitos no ambiente eclesial. A resistência à mudança e a dificuldade em engajar os jovens foram as mais citadas, ambas com 62,5% das respostas. O estilo musical nas celebrações (59,4%) e as formas de vestir e se comportar na Igreja (56,2%) também se destacaram como pontos de atrito. A participação em decisões pastorais foi mencionada por 50% dos respondentes, e a falta de entendimento entre gerações por 46,9%.

Figura 7. Temas que causam tensão ou divergência entre gerações

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A resistência à mudança se configura como um obstáculo significativo ao crescimento e à renovação institucional, fenômeno amplamente reconhecido em estudos sobre comportamento organizacional (Robbins, 2005; Chiavenato, 2010). Essa resistência é notadamente expressa, em muitos casos, pelas gerações mais antigas, em consonância com Mannheim (1952) e Pilcher (1994), que descrevem como diferentes gerações desenvolvem visões de mundo próprias, influenciadas por contextos históricos específicos, dificultando a adaptação a novas práticas. Em contraste, observa-se uma dificuldade em engajar os jovens, percebida como consequência direta da carência de programas e abordagens pastorais que efetivamente ressoem com suas necessidades e interesses contemporâneos.

Um dos pontos de maior sensibilidade e recorrência nos relatos diz respeito ao estilo musical adotado nas celebrações litúrgicas. Este elemento reflete a tensão dialética entre tradição e inovação, já observada em contextos comunitários que enfrentam mudanças culturais (Murad, 2007; Nogueira, 2008). Enquanto as gerações mais antigas tendem a valorizar e priorizar o repertório de hinos tradicionais, as mais jovens demonstram preferência por composições que incorporam ritmos e sonoridades contemporâneas, o que evidencia diferentes “hermenêuticas da realidade” (Bento XVI, 2009). Adicionalmente, as formas de vestir e de se comportar dentro do espaço eclesial foram apontadas como fontes de fricção, pois espelham compreensões divergentes sobre a conduta apropriada e respeitosa no contexto sacro, reforçando a análise de Santos Oliveira et al. (2025) sobre como gerações moldam valores e expectativas.

A pesquisa evidenciou que a participação em decisões pastorais constitui um ponto nevrálgico. A dificuldade percebida pela juventude em obter “voz e vez” nas instâncias deliberativas da Igreja indica uma potencial fragilidade nos processos de integração e valorização da perspectiva juvenil, tema destacado pelo Papa Francisco (2019), que exorta a Igreja a escutar e envolver os jovens nas decisões. Tais tensões são exacerbadas pela falta de entendimento intergeracional, decorrente de distintas experiências de vida e diferentes contextos socioculturais (Mannheim, 1952; Pilcher, 1994). Finalmente, o uso de tecnologias na evangelização também configura uma lacuna digital que gera conflitos acerca da forma mais eficaz e pertinente de a Igreja comunicar sua mensagem e exercer sua missão evangelizadora no cenário contemporâneo, convergindo com as análises de Corrêa (2021) sobre comunicação em equipes multigeracionais.

Quando relacionados aos estilos de gestão de conflitos descritos pelo Modelo de Thomas-Kilmann (Thomas; Kilmann, 1974; Mcpheat, 2025), observa-se que as respostas indicam a predominância de comportamentos compatíveis com os estilos acomodar e evitar em gerações mais antigas. Em contrapartida, os jovens tendem a buscar estratégias de competir ou colaborar, especialmente quando sentem que suas ideias e necessidades não estão sendo reconhecidas. Essa dinâmica demonstra que a falta de alinhamento entre estilos de gestão de conflitos pode intensificar tensões, gerando frustrações e dificultando a integração intergeracional, corroborando as observações de Tedeschi, Schlenker e Bonoma (1973) sobre a relação entre conflito, poder e jogos de influência.

Há uma percepção recorrente de que os jovens (até 29 anos) são os que mais enfrentam dificuldade de escuta na comunidade, resultado que converge com os achados de Matta, Carvalho Neto e Diniz (2024) sobre a rotatividade e as expectativas da geração Z. Ademais, algumas respostas mencionam conflitos espirituais entre diferentes formas de vivência da fé, demonstrando que a questão intergeracional, embora central, está interligada a outros aspectos da diversidade na vida eclesial, o que reforça a necessidade de liderança servidora e de competências relacionais para mediar tensões (Hybels, 2015; Chiavenato, 2010).

Estratégias Adotadas e Desafios

Diante da percepção generalizada de conflitos, a pesquisa buscou identificar as estratégias que as comunidades eclesiais têm adotado para promover o diálogo. A formação conjunta (retiros, catequeses) foi apontada como a prática mais eficaz por 75% dos respondentes, seguida por eventos e festas comunitárias (62,5%) e grupos multigeracionais (40,6%). A participação colaborativa em conselhos foi mencionada por 37,5% dos participantes, e testemunhos intergeracionais em celebrações por 28,1%. Ações de caridade em conjunto e missas e celebrações festivas foram as menos citadas, ambas com 3,1%.

Figura 8. Práticas mais eficazes para aproximar as gerações na Igreja

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A preferência pela formação conjunta revela que os participantes percebem o aprendizado coletivo como um espaço privilegiado para criar vínculos e construir significados comuns. Em termos de gestão de pessoas, essa prática se aproxima do conceito de treinamento e desenvolvimento organizacional, no qual a aprendizagem compartilhada favorece a socialização, a transmissão de valores e a criação de uma cultura unificada (Chiavenato, 2014). Assim como nas organizações, a Igreja se beneficia de momentos em que diferentes gerações compartilham conteúdos formativos, pois isso gera senso de pertencimento e reforça a identidade institucional.

Em seguida, os eventos e festas comunitárias ocupam um lugar de destaque, evidenciando a importância da interação informal para fortalecer laços sociais. A gestão de pessoas reconhece que atividades de integração, como confraternizações e celebrações, ampliam a coesão do grupo e melhoram o clima organizacional (Robbins; Judge, 2017). Na realidade eclesial, essas práticas criam oportunidades de convivência que extrapolam as funções litúrgicas, possibilitando que jovens, adultos e idosos se encontrem em um ambiente de alegria e reciprocidade, promovendo o respeito mútuo e a quebra de estereótipos.

A presença de grupos multigeracionais indica a relevância da colaboração estruturada entre pessoas de idades diversas. Essa iniciativa se alinha à noção de equipes intergeracionais, valorizada em ambientes corporativos, onde a diversidade etária é vista como fator de inovação e complementaridade de competências (Tapscott, 2010). Na Igreja, tais grupos não apenas favorecem a troca de experiências, mas também contribuem para quebrar estereótipos e reduzir conflitos geracionais, promovendo uma cultura de respeito mútuo e fortalecendo o senso de missão.

Por fim, os testemunhos intergeracionais refletem o poder da gestão do conhecimento dentro das comunidades. Ao compartilhar experiências de fé entre diferentes faixas etárias, a Igreja mobiliza um processo de mentoria semelhante ao que ocorre em organizações que valorizam a transferência de saberes tácitos (Nonaka; Takeuchi, 1997). Esse tipo de prática não apenas preserva a memória comunitária, mas também inspira os mais jovens e fortalece o senso de missão, contribuindo para uma compreensão mais profunda da tradição e da inovação.

Propostas para a Melhoria do Diálogo e da Cooperação

A partir do mapeamento do conteúdo das questões abertas do formulário eletrônico, emergiram cinco eixos principais de propostas para a melhoria do diálogo e da cooperação entre as diferentes faixas etárias na Igreja. O primeiro eixo refere-se à criação e fortalecimento de espaços de escuta e troca de experiências. Diversos participantes sugeriram a realização de rodas de conversa intergeracionais, programas de mentoria reversa e fóruns de diálogo aberto, com o objetivo de permitir que cada geração expresse suas ideias e seja ouvida. Essa proposta dialoga com a literatura de Gestão de Pessoas ao evidenciar a importância da escuta ativa e da construção de segurança psicológica para favorecer a confiança e o aprendizado coletivo (Edmondson, 1999; Chiavenato, 2010).

O segundo eixo destaca o incentivo à participação intergeracional em espaços de decisão pastoral. As respostas indicaram a necessidade de garantir representatividade equilibrada em conselhos e comissões, investir na formação de novas lideranças e criar processos claros para a transição de responsabilidades. Essa prática converge com o conceito de liderança situacional (Robbins, 2003) e com o apelo da CNBB (2014) e do Papa Francisco (2019) para que a juventude seja efetivamente envolvida na tomada de decisões, promovendo um senso de corresponsabilidade e pertencimento.

Outro eixo identificado diz respeito ao desenvolvimento de atividades artísticas e culturais conjuntas, como festivais de talentos, projetos de serviço comunitário e grupos de estudo sobre temas atuais. Essas iniciativas, presentes em diversas respostas, foram interpretadas como estratégias para fortalecer laços informais e promover a cooperação, em sintonia com práticas de team building e integração social recomendadas pela gestão de pessoas para melhorar o clima organizacional (Robbins; Judge, 2017). Tais atividades permitem que diferentes gerações se encontrem em um ambiente descontraído, favorecendo a construção de vínculos e a superação de preconceitos.

O quarto eixo foca na formação e capacitação em comunicação intergeracional e mediação de conflitos, isto é, na implementação de processos formais de mediação e protocolos claros de resolução de conflitos como uma solução estrutural, em vez de apenas oferecer treinamentos isolados. Os participantes ressaltaram a necessidade de procedimentos previsíveis, como canais de queixas, mediação multigeracional e regras para transições de liderança, visando transformar conflitos latentes em processos regulados de deliberação, o que favorece tanto a segurança psicológica (Edmondson, 1999) quanto a gestão racional de pessoas (Chiavenato, 2010; Robbins, 2005).

Por fim, emergiu a proposta de valorização da espiritualidade intergeracional, incluindo a adaptação das celebrações litúrgicas para contemplar a diversidade de estilos, a partilha de testemunhos de fé e a organização de retiros em que um grupo etário sirva ao outro. Essa categoria reflete a integração entre espiritualidade e gestão defendida por Murad (2007) e Nogueira (2008), que reconhecem a importância de práticas pastorais que unam tradição e inovação, fortalecendo o reconhecimento mútuo e a corresponsabilidade. A pesquisa evidencia oportunidades para que líderes eclesiais repensem suas práticas de gestão de pessoas, contribuindo para uma Igreja mais integrada, inclusiva e harmoniosa.

Entretanto, a implementação dessas propostas encontra obstáculos significativos. A resistência à mudança, típica em comunidades mais apegadas à tradição, pode dificultar a adoção de novos estilos de liderança e comunicação. Recursos limitados, sejam humanos, financeiros ou formativos, restringem a possibilidade de investir em programas estruturados de mediação e capacitação. Além disso, há a necessidade de uma mudança cultural, que demanda tempo, perseverança e liderança consistente para que práticas de escuta ativa, feedback contínuo e colaboração intergeracional se tornem hábitos consolidados no cotidiano comunitário.

Assim, a construção de uma cultura organizacional orientada ao diálogo e à corresponsabilidade exige compromisso permanente de toda a comunidade, com a liderança pastoral atuando como facilitadora e promotora de uma visão compartilhada. Ao abraçar essas iniciativas, a Igreja pode transformar os desafios dos conflitos intergeracionais em oportunidades para uma convivência mais rica, harmoniosa e evangelizadora. Os resultados evidenciam que as tensões se manifestam sobretudo em diferenças de linguagem, formas de participação, estilos celebrativos e modos de pertencimento, mais do que em divergências doutrinais propriamente ditas, deslocando o foco da análise para a forma como as diferenças são vividas, comunicadas e mediadas no cotidiano.

Nesse cenário, a pastoral escolar emerge como um espaço privilegiado de gestão das relações, atuando nas dimensões simbólicas, afetivas e comunitárias da experiência educativa. Sua ação, muitas vezes discreta e não formalizada, incide diretamente sobre a qualidade dos vínculos e sobre a construção de um ambiente de pertencimento, configurando-se, à luz de Michel de Certeau, como prática que atravessa o regime estratégico da instituição e opera por meio de táticas no cotidiano. A pesquisa, portanto, demonstra que os conflitos intergeracionais, quando compreendidos e acompanhados à luz do discernimento e da escuta, podem tornar-se espaços fecundos de aprendizagem, comunhão e reinvenção da prática educativa e eclesial, respondendo ao objetivo de propor caminhos para sua mediação.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou compreender as dinâmicas dos conflitos intergeracionais no contexto de um colégio católico, com especial atenção ao cotidiano pastoral escolar como espaço de mediação das relações, dos vínculos e dos processos formativos. Verificou-se que tais conflitos não se reduziram a meras divergências etárias, mas expressaram modos distintos de habitar o cotidiano, de compreender a fé e de participar da vida comunitária. Os resultados evidenciaram que as tensões se manifestaram principalmente em diferenças de linguagem, formas de participação, estilos celebrativos e modos de pertencimento, mais do que em divergências doutrinais. Observou-se que a pastoral escolar atuou como um dispositivo de gestão do cotidiano formativo, incidindo sobre dimensões simbólicas e relacionais frequentemente não contempladas pelos modelos formais de gestão. Identificou-se que a resistência à mudança e a dificuldade em engajar os jovens foram as principais fontes de tensão, enquanto a formação conjunta e os eventos comunitários se revelaram as práticas mais eficazes para aproximar as gerações.

A principal contribuição deste estudo reside na explicitação de que os conflitos intergeracionais, quando compreendidos e acompanhados à luz do discernimento e da escuta, podem tornar-se espaços fecundos de aprendizagem, comunhão e reinvenção da prática educativa e eclesial. Propôs-se a criação e fortalecimento de espaços de escuta, o incentivo à participação intergeracional em decisões pastorais, o desenvolvimento de atividades artísticas e culturais conjuntas, a capacitação em comunicação e mediação de conflitos, além da valorização da espiritualidade intergeracional. Contudo, a implementação dessas propostas enfrenta obstáculos como a resistência à mudança, a limitação de recursos e a necessidade de uma profunda mudança cultural. Assim, a gestão desses conflitos não se restringe a uma técnica administrativa, mas se configura como uma prática espiritual e pedagógica que fortalece a formação integral dos estudantes e a vitalidade da comunidade, exigindo compromisso permanente e liderança consistente para transformar desafios em oportunidades de convivência mais rica e harmoniosa.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

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