Artigo

10 de agosto de 2026

Salvaguardas de Redd+: Engajamento de Servidores Públicos da Área Ambiental

Juliana Menezes de Carvalho; Lidiane da Silva Souza

DOI: 10.22167/2675-6528-202601019

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

As salvaguardas socioambientais em projetos de REDD+ buscam mitigar impactos negativos e promover benefícios para a proteção climática, exigindo o engajamento de servidores públicos para sua efetiva aplicação. O estudo teve como objetivo compreender os fatores que influenciam o engajamento institucional nas salvaguardas socioambientais em projetos de REDD+ e elaborar um plano de ação participativo. Para isso, desenvolveu-se uma pesquisa-ação de abordagem qualitativa, que incluiu uma fase exploratória com pesquisa bibliográfica e documental. Em seguida, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com sete servidores de uma agência ambiental estadual e uma oficina de cocriação com dez participantes, utilizando técnicas de Design Thinking, como mapa de empatia e “Os 5 Porquês”, e o Canvas de Projeto Público do GovLab. Os resultados revelaram que os servidores enfrentaram desafios como baixa familiaridade com as salvaguardas, falta de informação e capacitação, pouca integração e articulação entre setores, além da percepção de sobrecarga de trabalho e gestão do tempo. A investigação consolidou um diagnóstico do público interno e viabilizou a construção de um plano de ação participativo, com propostas priorizadas focadas em comunicação interna simplificada, divulgação de boas práticas, capacitação em formato de áudio e evidência da relação entre salvaguardas e captação de recursos. Concluiu-se que a incorporação das salvaguardas depende da capacidade organizacional de traduzir diretrizes em rotinas administrativas e da promoção de aprendizado organizacional, ressaltando o engajamento dos servidores como elemento estratégico para a plena aplicação das políticas climáticas.

Palavras-chave: Desenvolvimento de capacidades; Gestão pública; Governança ambiental; Pesquisa-ação; Políticas climáticas.

1. Introdução

A crise climática global representa um dos maiores desafios do século XXI, com a desflorestação contribuindo significativamente para as emissões de gases de efeito estufa. Estima-se que a perda florestal anual atinja milhões de hectares em todo o mundo, exacerbando a mudança climática e impactando ecossistemas e comunidades (UNEP, 2017). Neste cenário, mecanismos internacionais como o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, Conservação dos Estoques de Carbono Florestal, Manejo Sustentável de Florestas e Aumento de Estoques de Carbono Florestal) emergem como estratégias cruciais para a proteção climática. Contudo, a efetividade dessas iniciativas depende intrinsecamente da aplicação de salvaguardas socioambientais, que visam não apenas mitigar impactos negativos, mas também promover benefícios sociais e ambientais (Esteves, 2016; Moss e Nussbaum, 2011). Essas salvaguardas são projetadas para garantir que as ações de proteção florestal sejam realizadas de maneira justa, transparente e sustentável, protegendo os direitos e o bem-estar das populações locais e da biodiversidade.

A formalização dessas diretrizes ocorreu no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), resultando nas Salvaguardas de Cancun em dois mil e dez. Elas estabelecem princípios fundamentais, como o respeito aos direitos dos povos indígenas e comunidades locais, a participação plena e efetiva das partes interessadas, a repartição justa e equitativa dos benefícios, a proteção da biodiversidade, a prevenção do deslocamento de emissões e a garantia de resultados consistentes (Rando et al., 2013). No Brasil, a Estratégia Nacional para REDD+ (ENREDD+), formalizada em dois mil e dezesseis, e a Comissão Nacional de REDD+ (CONAREDD+) adaptaram essas salvaguardas ao contexto nacional, enfatizando a necessidade de aumentar e complementar políticas públicas florestais, assegurar a participação ativa de todos os atores e proteger a biodiversidade, entre outros aspectos (Brasil, Decreto 11.548, 2023; CONAREDD+, Resolução 09, 2017). A conformidade com padrões internacionais, como o Padrão de Excelência Ambiental REDD+ (TREES) da ART (Secretariado da ART, 2023), reforça a importância da integridade ambiental e social na gestão de projetos de redução de emissões.

A implementação bem-sucedida dessas salvaguardas, apesar de sua relevância normativa e técnica, enfrenta desafios significativos no contexto da gestão pública. Servidores públicos, atuando em agências ambientais estaduais, desempenham um papel central na tradução dessas diretrizes complexas em práticas cotidianas e rotinas administrativas. O engajamento desses profissionais é, portanto, um elemento estratégico para a efetivação das políticas climáticas e para a garantia de que os projetos de REDD+ alcancem seus objetivos de forma integral (PMI, 2025). A literatura sobre gestão pública e desenvolvimento de capacidades ressalta que a mera existência de normas não garante sua aplicação; é fundamental investir em aprendizado organizacional e na construção de competências para que os agentes públicos possam lidar com a complexidade e a transversalidade das questões socioambientais (Noveck, 2021). A ausência de familiaridade, a falta de informação e capacitação adequadas, a pouca integração entre setores e a percepção de sobrecarga de trabalho são barreiras que comprometem a capacidade institucional de incorporar plenamente as salvaguardas, impactando diretamente a governança ambiental e a entrega de resultados esperados.

Diante da complexidade inerente à aplicação das salvaguardas socioambientais em projetos de REDD+ e dos desafios enfrentados pelos servidores públicos na sua internalização, torna-se imperativo investigar os fatores que influenciam o engajamento institucional. A lacuna entre as diretrizes estabelecidas e a capacidade operacional para sua execução efetiva compromete a credibilidade das políticas climáticas e a proteção dos direitos das comunidades e do meio ambiente. Assim, a presente pesquisa justifica-se pela necessidade de fortalecer a capacidade institucional e o aprendizado organizacional para aprimorar a governança ambiental. Este estudo teve como objetivo compreender os fatores que influenciam o engajamento institucional nas salvaguardas socioambientais em projetos de REDD+ e elaborar um plano de ação participativo, visando aprimorar a efetividade da gestão pública ambiental.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa adotou uma abordagem metodológica descritiva, com foco qualitativo, para investigar os fatores que influenciam o engajamento institucional nas salvaguardas socioambientais. O estudo foi desenvolvido como uma pesquisa-ação, conforme preconizado por Gil (2002), buscando não apenas compreender o fenômeno, mas também intervir de modo colaborativo no contexto organizacional. Este método permitiu articular a teoria e a prática, visando aprimorar a efetividade da gestão pública ambiental. A pesquisa-ação, ao sair da prática rotineira para buscar soluções inovadoras e documentadas, promoveu um processo participativo, essencial para a construção de um plano de ação (Tripp, 2005).

O estudo foi conduzido em uma agência ambiental estadual, localizada na cidade de Cuiabá, no estado de Mato Grosso, Brasil. Este contexto institucional específico foi selecionado por sua relevância na gestão de políticas públicas ambientais e na implementação de projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+). A coleta de dados ocorreu em dois períodos distintos: as entrevistas foram realizadas em dezembro de 2025, e a oficina de cocriação, em janeiro de 2026. A unidade de análise central da pesquisa consistiu nos servidores públicos que atuam diretamente na gestão e execução de projetos ambientais.

A população do estudo foi composta por servidores públicos da agência ambiental estadual, e a amostra foi selecionada de forma não probabilística e intencional, devido à natureza qualitativa da pesquisa. Para a fase de entrevistas semiestruturadas, foram selecionados sete servidores, cujos perfis abrangiam diversas áreas de atuação, como Educação Ambiental, Gestão Florestal, Recursos Hídricos, Licenciamento, Mudanças Climáticas, Biodiversidade, Gestão da Descentralização e Regularização Ambiental. Essa seleção visou obter uma perspectiva multifacetada sobre a aplicação das salvaguardas socioambientais no cotidiano da instituição, garantindo a diversidade de experiências e conhecimentos.

Para a oficina de cocriação, a amostra foi ampliada para dez participantes, incluindo os sete servidores entrevistados e outros profissionais de setores que prestam assessoramento às áreas finalísticas, como comunicação e programas e projetos estratégicos. A inclusão desses diferentes perfis buscou enriquecer a discussão e a construção conjunta de soluções, promovendo uma visão mais abrangente e integrada dos desafios e oportunidades. Os critérios de seleção para ambos os grupos priorizaram a experiência e o envolvimento direto com as políticas públicas ambientais e os projetos de REDD+, assegurando a relevância das contribuições para os objetivos da pesquisa.

A execução da pesquisa-ação iniciou-se com uma fase exploratória, que compreendeu a pesquisa bibliográfica e documental. Nesta etapa, realizou-se um levantamento da literatura sobre salvaguardas socioambientais e o engajamento de partes interessadas, fundamentando conceitualmente o desenvolvimento do plano de ação (Marconi e Lakatos, 2017). Adicionalmente, foram analisados documentos brasileiros, estaduais e internacionais relacionados aos incentivos de REDD+, às definições e interpretações das salvaguardas de Cancun e aos padrões de certificação jurisdicionais, como o TREES, para uma compreensão aprofundada do mecanismo e sua articulação com as políticas públicas locais (Prodanov e Freitas, 2013).

Em seguida, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os sete servidores, com duração média de quarenta minutos cada. As entrevistas foram conduzidas presencialmente pela autora, utilizando um questionário de treze perguntas abertas, que permitiram a coleta de informações primárias sobre a percepção e atuação dos servidores em relação às salvaguardas socioambientais (Malhotra, 2004). Quando necessário, para nivelar o conhecimento dos entrevistados, apresentou-se um quadro resumo da Resolução CONAREDD+ 15 de 2018, detalhando as diretrizes socioambientais, seus conceitos e objetivos, garantindo que todos tivessem uma base comum de entendimento.

A terceira etapa consistiu na realização de uma oficina de cocriação, com duração de quatro horas, em janeiro de 2026, envolvendo os dez participantes. Esta oficina utilizou técnicas de Design Thinking (Brown, 2020) e o Canvas de Projeto Público do GovLab (Noveck e Cantú-Predaza, 2016) para estimular a co-criação e o engajamento. As atividades incluíram a construção de um Mapa da Empatia do Servidor Público, a investigação das causas-raiz dos desafios por meio da técnica “Os Cinco Porquês”, e a elaboração de um carrossel de ideias para propor soluções, culminando na priorização de propostas e no preenchimento do Canvas.

Para o tratamento e análise dos dados das entrevistas, as gravações foram armazenadas e transferidas para a ferramenta de inteligência artificial Pinpoint – Journalist Studio, do Google, que realizou a transcrição e organização em blocos. A análise reflexiva dos dados seguiu as seis etapas da análise temática propostas por Braun e Clarke (2006): familiarização com os dados, codificação, geração de temas iniciais, desenvolvimento e revisão dos temas, refinamento e nomeação dos temas, e redação da narrativa analítica. As transcrições foram revisadas e sistematizadas em uma planilha Excel, onde os temas mais recorrentes foram identificados e codificados.

Durante a análise temática, a ferramenta ChatGPT 5.2 foi utilizada como apoio exploratório para revisar as linhas e identificar convergências, divergências e perguntas geradoras de debates, embora a interpretação final tenha permanecido sob responsabilidade da pesquisadora. Esse processo aprofundou a reflexão sobre os temas recorrentes, que foram nomeados como informação, integração, capacitação e gestão, com a sobrecarga e a gestão do tempo emergindo como eixos transversais desafiadores. As propostas geradas na oficina foram priorizadas com base na teoria de Valfrido Pareto, que sugere que 80% dos resultados provêm de 20% dos esforços.

Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados em todas as etapas da pesquisa. A coleta e o registro das informações respeitaram os princípios estabelecidos na Resolução CNS n° 510/2016, que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos. Assegurou-se o consentimento livre e esclarecido de todos os participantes, garantindo sua autonomia e privacidade. Adicionalmente, a pesquisa esteve em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018), protegendo a confidencialidade das informações coletadas. Na fase de redação, a inteligência artificial Clarice foi empregada para auxiliar na revisão textual, assegurando a correção gramatical e o bom uso da norma culta da língua portuguesa.

A pesquisa apresenta algumas limitações metodológicas que devem ser consideradas. O recorte institucional e geográfico específico, focado em uma única agência ambiental estadual em Cuiabá, e o número reduzido de participantes, limitam a generalização dos resultados para outros contextos ou instituições. Embora a abordagem qualitativa tenha proporcionado um olhar aprofundado sobre o tema do engajamento, ela não permite quantificar o nível real de conhecimento e integração das salvaguardas em toda a secretaria. Contudo, a metodologia e o plano de ação desenvolvidos podem ser replicados em outras situações, servindo como base para futuras investigações e intervenções.

3. Resultados e Discussão

Nesta seção, são apresentados e discutidos os resultados obtidos por meio da pesquisa-ação, que compreendeu entrevistas em profundidade e uma oficina participativa de cocriação. A análise dos dados revelou uma complexa teia de fatores que influenciam o engajamento dos servidores públicos nas salvaguardas socioambientais, com destaque para desafios de ordem informacional, integrativa, capacitacional e de gestão, todos perpassados pela questão da sobrecarga de trabalho e da gestão do tempo. A abordagem metodológica adotada permitiu não apenas diagnosticar esses desafios, mas também cocriar soluções alinhadas às necessidades e realidades do contexto institucional estudado, promovendo um aprendizado organizacional significativo.

Etapa 1: Entrevistas em profundidade

As entrevistas semiestruturadas com os sete servidores públicos revelaram um cenário de heterogeneidade no que tange à familiaridade e ao conhecimento sobre as sete salvaguardas que orientam os projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+). Embora a agência ambiental estadual seja, de alguma forma, beneficiada pela captação de recursos associados a esses projetos, a maioria dos entrevistados demonstrou dificuldade em elencar as diretrizes sem o auxílio de um quadro resumo. Apenas uma servidora, cujo contato diário com o tema é intrínseco à sua função, demonstrou conhecimento aprofundado e capacidade de discorrer sobre as salvaguardas sem hesitação. Este achado inicial sublinha a lacuna entre a importância estratégica das salvaguardas e a sua internalização no cotidiano dos servidores, corroborando a literatura que aponta para a necessidade de comunicação eficaz e contínua em processos de implementação de políticas públicas complexas (Noveck, 2021). A falta de familiaridade pode comprometer a aplicação efetiva das salvaguardas, transformando-as em meros requisitos burocráticos, em vez de princípios orientadores de ações.

A partir da apresentação das salvaguardas, a relação das diretrizes com o cotidiano laboral dos servidores começou a emergir, especialmente no que se refere às salvaguardas ambientais. Este conforto com a dimensão ambiental é compreensível, dado o escopo de atuação da agência. No entanto, as salvaguardas sociais se mostraram mais presentes na rotina dos entrevistados que atuam em áreas com sistemas de governança mais definidos, como Educação Ambiental, Recursos Hídricos, Unidades de Conservação e Mudanças Climáticas. Este contraste sugere que a institucionalização de processos e a clareza nas estruturas de governança são facilitadores cruciais para a incorporação das salvaguardas, especialmente as de cunho social, que muitas vezes exigem abordagens mais participativas e sensíveis às realidades locais (Rando et al., 2013). A ausência de mecanismos claros para a aplicação das salvaguardas sociais pode levar à sua negligência, resultando em impactos negativos para as comunidades e povos tradicionais, contrariando os princípios de justiça climática e equidade (Esteves, 2016).

A análise temática das entrevistas, seguindo as etapas propostas por Braun e Clarke (2006), identificou que a dificuldade em incorporar as salvaguardas nas três dimensões da gestão das políticas públicas – estrutural, processual e de resultados, conforme o Padrão ART Trees (Secretariado da ART, 2023) – reside em desafios de ordem individual e estrutural. Os fatores individuais incluem a falta de informação e capacitação, enquanto os desafios estruturais foram categorizados como integração e gestão. De forma transversal, a sobrecarga de trabalho e a gestão do tempo emergiram como eixos temáticos desafiadores, apresentando-se como riscos significativos à efetiva incorporação das diretrizes na rotina diária dos servidores. Este panorama complexo é detalhado na Tabela 1, que sintetiza os principais desafios e as falas dos entrevistados.

Tabela 1. Eixos temáticos levantados pela análise

TemaPrincipais desafiosPrincipais falas
InformaçãoConhecimento mais aplicado em um contexto prático Baixa memorização do conteúdo teórico das salvaguardas Necessidade de estabelecimento de conexão entre as ações práticas e o conteúdo das salvaguardas Maior aplicação diária das salvaguardas ambientais e menos familiaridade com as salvaguardas sociais“Eu percebo que, como as pessoas não conhecem as salvaguardas, elas não as aplicam. Elas não fazem relação”. (E1) “Para mim é tudo muito novo, a gente fica muito focado na parte do licenciamento, das ações, dos produtos que a gente entrega, que a gente fica meio alheio às outras informações, outros projetos que estão acontecendo”. (E5) “Não conheço. Eu até iria pedir para você me falar o que são as salvaguardas”. (E4)
IntegraçãoAlta especialização dos setores Pouca integração e articulação entre setores e entre políticas públicas Baixa articulação transversal“A gente tem muita demanda e a gente fica acaba ficando muito especializado naquilo que a gente faz”. (E2) “Basicamente, eu sou muito mais desconhecedor do que conhecedor das ações. Até porque dentro da secretaria, pelo menos na minha visão, eu acho que a gente cria certo os nichos internos aqui e que falta essa conexão de forma clara e objetiva de que setores agem internamente, um conectado com o outro, fazendo essa interação, o processamento do que um faz, até para ver se a gente não tá sobrepondo ações internas aqui, um caminhando para um lado e outro para o outro”. (E5)
CapacitaçãoNecessidade de conhecimento para condução de processos participativos Dificuldade em tornar o processo participativo produtivo Insegurança para agir e lidar com conflitos e expectativas inerentes a processos participativos“Não é só ouvir aqui. Então talvez realmente seja um trabalho de formação para desenvolver essa habilidade e conhecer métodos para fazer essa escuta”. (E3) “Gente, tá comprovando dia por dia que quando a base não participa, até sai, sabe? Sai, porque impõe, né? Faz e tal, mas é muito mais difícil. Se fizer assim: olha tais e tais e tais casos que fracassaram. Ou que que fizeram mas poderiam ter sido melhores, né? Porque não foi envolvido o segmento que precisava”. (E7)
GestãoMetas e indicadores que demonstrem resultados e impactos Sensibilização da alta liderança Priorização institucional“Teria que ter a prioridade da própria gestão, né, de tornar essas essas questões mais obrigatórias”. (E4) “Então, quando as coisas realmente se concretizam para ela começar a ser bem avaliada é importante ter os indicadores bem definidos”. (E7)
Sobrecarga e gestão do tempoTemas que surgem como desafio nos quatro eixos temáticos“Relacionado a curso, a participação de oficina, às vezes isso fica em segundo plano, segundo, terceiro, quarto plano, porque ele está sendo cobrado para desempenhar a função de análise, de processo”. (E3) “Então assim, a gente acaba jogando todas as forças nisso e o restante, que seria participar mais desses movimentos dentro da SEMA, estudar mais sobre outras coisas que compõem todo sistema, todo o sistema de formação fica em segundo plano”. (E3) “Por mais que o curso seja importante, ninguém vai ter muito tempo e paciência para isso, né? Eu acho que é igual aqueles comunicados mandados, né? Rápido”. (E6)

Fonte: Dados originais da pesquisa

O tema da Informação revelou que o conhecimento sobre as salvaguardas é, em grande parte, teórico e descontextualizado da prática diária dos servidores. Há uma baixa memorização do conteúdo e uma dificuldade em estabelecer conexões claras entre as ações práticas e as diretrizes das salvaguardas. Um entrevistado (E1) afirmou: “Eu percebo que, como as pessoas não conhecem as salvaguardas, elas não as aplicam. Elas não fazem relação”. Outro (E5) destacou: “Para mim é tudo muito novo, a gente fica muito focado na parte do licenciamento, das ações, dos produtos que a gente entrega, que a gente fica meio alheio às outras informações, outros projetos que estão acontecendo”. A fala de E4, “Não conheço. Eu até iria pedir para você me falar o que são as salvaguardas”, é particularmente ilustrativa da lacuna informacional. Essa desconexão entre o conhecimento teórico e a aplicação prática das salvaguardas é um obstáculo substancial. A literatura sobre gestão do conhecimento em organizações públicas enfatiza que a mera disponibilização de informações não garante sua assimilação e uso efetivo; é crucial que a informação seja contextualizada, relevante e integrada aos fluxos de trabalho existentes (Noveck, 2021). A ausência de uma comunicação interna estratégica e simplificada, que traduza a complexidade das salvaguardas em termos operacionais e exemplos práticos, contribui para a percepção de que o tema é distante e pouco aplicável. As implicações práticas dessa lacuna informacional são vastas, desde a perda de oportunidades para fortalecer a governança socioambiental até a potencial falha em mitigar riscos e impactos negativos dos projetos de REDD+. Para reverter esse quadro, é imperativo desenvolver estratégias de comunicação interna que utilizem linguagens acessíveis, formatos diversificados (como áudios, vídeos curtos e infográficos) e canais de comunicação já estabelecidos, como a intranet e redes sociais internas, para disseminar o conhecimento de forma contínua e engajadora.

A Integração entre os setores e as políticas públicas foi identificada como um desafio estrutural significativo. Os servidores apontaram para uma alta especialização dos setores, o que, embora necessário para a eficiência técnica, resulta em pouca articulação e comunicação transversal. O entrevistado E2 observou: “A gente tem muita demanda e a gente fica acaba ficando muito especializado naquilo que a gente faz”. E5 complementou: “Basicamente, eu sou muito mais desconhecedor do que conhecedor das ações. Até porque dentro da secretaria, pelo menos na minha visão, eu acho que a gente cria certo os nichos internos aqui e que falta essa conexão de forma clara e objetiva de que setores agem internamente, um conectado com o outro, fazendo essa interação, o processamento do que um faz, até para ver se a gente não tá sobrepondo ações internas aqui, um caminhando para um lado e outro para o outro”. Essa fragmentação institucional é um problema crônico na administração pública, dificultando a implementação de políticas transversais como as salvaguardas socioambientais, que exigem uma visão holística e colaborativa (PMI, 2025). A falta de integração não apenas gera ineficiências e sobreposição de esforços, mas também impede a construção de uma compreensão compartilhada sobre o papel de cada setor na promoção das salvaguardas. As implicações práticas incluem a dificuldade em coordenar ações, a perda de sinergias e a incapacidade de responder de forma ágil e integrada aos desafios socioambientais complexos. Para superar essa barreira, é fundamental promover mecanismos de articulação intersetorial, como grupos de trabalho multidisciplinares, plataformas de compartilhamento de informações e projetos-piloto que exijam a colaboração de diferentes áreas. A divulgação de boas práticas e a criação de um repositório de exemplos de aplicação das salvaguardas podem incentivar a troca de experiências e o aprendizado mútuo, fortalecendo a cultura de colaboração.

No que diz respeito à Capacitação, os servidores expressaram insegurança e falta de preparo para conduzir processos participativos, uma habilidade essencial para a aplicação das salvaguardas sociais. A dificuldade em tornar o processo participativo produtivo e a insegurança para lidar com conflitos e expectativas inerentes a esses processos foram destacadas. E3 afirmou: “Não é só ouvir aqui. Então talvez realmente seja um trabalho de formação para desenvolver essa habilidade e conhecer métodos para fazer essa escuta”. E7 reforçou a importância da participação: “Gente, tá comprovando dia por dia que quando a base não participa, até sai, sabe? Sai, porque impõe, né? Faz e tal, mas é muito mais difícil. Se fizer assim: olha tais e tais e tais casos que fracassaram. Ou que que fizeram mas poderiam ter sido melhores, né? Porque não foi envolvido o segmento que precisava”. A ausência de formação prática em metodologias participativas é um gargalo significativo, pois a efetividade das salvaguardas depende diretamente da capacidade dos servidores de engajar as partes interessadas de forma significativa e inclusiva (UNEP, 2017). A falta de competências em facilitação, mediação de conflitos e design de processos participativos pode levar a resultados insatisfatórios, desengajamento das comunidades e até mesmo à invalidação dos projetos. As implicações práticas são a subutilização do potencial da inteligência coletiva, a perpetuação de abordagens top-down e a dificuldade em construir legitimidade e aceitação social para as políticas ambientais. A solução passa pela oferta de capacitações práticas e acessíveis, em formatos flexíveis como áudios e vídeos curtos, que abordem técnicas de Design Thinking, facilitação de workshops e comunicação não violenta. Tais capacitações devem ser integradas à rotina de trabalho, evitando a percepção de que são mais uma demanda adicional.

A dimensão da Gestão revelou que a estrutura institucional e a priorização de ações influenciam diretamente a continuidade e a efetividade das salvaguardas. Os entrevistados apontaram a necessidade de metas e indicadores claros que demonstrem os resultados e impactos das salvaguardas, bem como a sensibilização da alta liderança e a priorização institucional do tema. E4 enfatizou: “Teria que ter a prioridade da própria gestão, né, de tornar essas essas questões mais obrigatórias”. E7 complementou: “Então, quando as coisas realmente se concretizam para ela começar a ser bem avaliada é importante ter os indicadores bem definidos”. A ausência de indicadores e metas institucionais relacionadas às salvaguardas as torna invisíveis na agenda gerencial, dificultando sua incorporação plena. A gestão por resultados, amplamente adotada na administração pública, exige que as ações sejam mensuráveis e que seus impactos sejam demonstrados para justificar investimentos e prioridades (Noveck e Cantú-Pedraza, 2016). Quando as salvaguardas não são traduzidas em métricas claras, elas correm o risco de serem percebidas como requisitos secundários, em detrimento de outras demandas mais urgentes ou com indicadores já estabelecidos. As implicações práticas incluem a falta de recursos, a descontinuidade de iniciativas e a dificuldade em demonstrar o valor estratégico das salvaguardas para a proteção ambiental e a captação de recursos. Para endereçar essa questão, é crucial evidenciar a relação entre a aplicação das salvaguardas, a captação de recursos financeiros para projetos de REDD+ e a avaliação institucional. A alta liderança precisa ser sensibilizada para o valor estratégico das salvaguardas, e o tema deve ser integrado aos planos de gestão, metas e indicadores de desempenho da agência.

Transversalmente a todos esses eixos, a Sobrecarga e a Gestão do Tempo emergiram como desafios onipresentes. Os servidores relataram que a participação em cursos e oficinas, ou mesmo a dedicação a novas informações, frequentemente fica em segundo, terceiro ou quarto plano devido à pressão para cumprir as demandas rotineiras. E3 expressou: “Relacionado a curso, a participação de oficina, às vezes isso fica em segundo plano, segundo, terceiro, quarto plano, porque ele está sendo cobrado para desempenhar a função de análise, de processo”. E6 adicionou: “Por mais que o curso seja importante, ninguém vai ter muito tempo e paciência para isso, né? Eu acho que é igual aqueles comunicados mandados, né? Rápido”. Este achado é consistente com a literatura que descreve a realidade do serviço público, frequentemente caracterizado por recursos limitados, demandas crescentes e uma cultura de urgência (Thiollent, 2011). A sobrecarga de trabalho não é apenas um fator de estresse individual, mas um risco sistêmico que compromete a capacidade da organização de inovar, aprender e implementar novas diretrizes. A percepção de que qualquer nova iniciativa é “mais uma tarefa” para um servidor já sobrecarregado gera resistência e desengajamento. As implicações práticas são a baixa adesão a capacitações, a superficialidade na assimilação de novas informações e a dificuldade em integrar as salvaguardas aos fluxos de trabalho existentes. Qualquer plano de ação para engajamento deve, portanto, considerar a otimização do tempo dos servidores e a integração das novas práticas de forma a minimizar a carga adicional, buscando sinergias com as atividades já realizadas.

Os resultados das entrevistas evidenciam uma preocupação genuína dos servidores em adquirir mais conhecimento sobre outras políticas públicas ambientais e desenvolver habilidades para atuar além do escopo atual de suas funções. No entanto, essa aspiração esbarra no desconhecimento de outros campos e na necessidade de desenvolver novas competências. A priorização por parte da gestão e a integração entre setores e políticas públicas são questões estruturais que demandam resolução, especialmente em um cenário onde a sobrecarga é um desafio central. Esses achados dialogam com domínios clássicos da gestão de projetos, como governança, gerenciamento de partes interessadas e gestão de riscos (PMI, 2025). A sobrecarga e a gestão do tempo se apresentam como riscos à aplicação das salvaguardas, particularmente as sociais, que exigem maior interação e processos participativos. Já os temas de integração e gestão sublinham a necessidade de uma governança participativa e transparente. Os temas de informação e capacitação, por sua vez, apontam para a urgência de estratégias estruturadas de gerenciamento de partes interessadas, comunicação eficaz e desenvolvimento de competências. A complexidade do serviço público, onde o servidor é frequentemente chamado a resolver problemas fora de sua experiência direta, reforça a necessidade de novas habilidades, como planejamento participativo e a capacidade de construir soluções a partir da inteligência das comunidades (Noveck, 2021).

Etapa 2: Oficina Participativa

Os eixos temáticos identificados na primeira etapa da pesquisa serviram como base para as discussões e atividades da oficina participativa. A metodologia de Design Thinking (Brown, 2020) e o Canvas de Projeto Público do GovLab (Noveck e Cantú-Predaza, 2016) foram empregados para estimular a cocriação e o engajamento dos dez participantes. A oficina iniciou-se com uma dinâmica para nivelar o conhecimento sobre as Salvaguardas de Cancun, utilizando cartões com conceitos e objetivos para que os participantes estabelecessem as correspondências, promovendo um processo de investigação e reflexão (Thiollent, 2011).

Após o nivelamento, os resultados das entrevistas em profundidade foram apresentados, destacando os desafios apontados pelos gestores. A partir disso, os participantes foram convidados a construir o Mapa da Empatia do Servidor Público, uma ferramenta visual que busca compreender as perspectivas e sentimentos do público-alvo. Os participantes responderam a cinco questionamentos-chave: (i) O que pensa e sente?; (ii) O que fala e faz?; (iii) O que escuta?; (iv) O que vê?; e (v) O que faz no contexto das salvaguardas. As respostas foram registradas em notas adesivas e organizadas nos quadrantes correspondentes, conforme ilustrado na Figura 1.

Figura 1. Mapa da empatia elaborado pelos participantes da Oficina de Cocriação.

Fonte: Dados originais da pesquisa

O Mapa da Empatia revelou sentimentos de desvalorização, desmotivação, sobrecarga e pressão, embora também houvesse satisfação com o trabalho. Os pensamentos se concentravam na redução da carga horária e na necessidade de capacitação sobre o tema. No que escutam, os servidores percebem que o tema das salvaguardas não é importante, que há 24 horas para cumprir demandas e que os recursos são limitados, além de ouvirem conversas de corredor sobre metas de produtividade. No que veem, foram apontadas falhas em sistemas tecnológicos, má distribuição de tarefas, colegas sobrecarregados, limitação de recursos e escolhas contrárias à proteção ambiental, além de redes sociais e sites da SEMA. No contexto das salvaguardas, os servidores afirmaram aplicar as políticas públicas ambientais e boa parte das salvaguardas mesmo sem saber, evidenciando a falta de conhecimento explícito sobre o tema.

Esses achados do Mapa da Empatia reforçam a percepção de sobrecarga e a necessidade de reconhecimento e valorização, alinhando-se com a literatura que destaca a importância da motivação e do bem-estar dos servidores para a efetividade da gestão pública (Tripp, 2017). A percepção de que as salvaguardas não são prioridade ou que são “mais uma demanda” é um reflexo direto da falta de informação e integração, como já observado nas entrevistas. A capacidade de aplicar as salvaguardas “sem saber” sugere que muitas práticas já estão alinhadas aos seus princípios, mas a falta de formalização e reconhecimento impede uma aplicação mais estratégica e consciente. As implicações práticas do Mapa da Empatia são a necessidade de uma comunicação que valorize o trabalho dos servidores, reconheça seus desafios e conecte as salvaguardas às suas atividades diárias de forma explícita. É fundamental que as soluções propostas considerem a realidade emocional e cognitiva dos servidores, buscando reduzir a percepção de sobrecarga e aumentar o senso de propósito e valorização.

A atividade seguinte utilizou a técnica dos “Cinco Porquês” para investigar as causas-raiz dos problemas enfrentados em cada eixo temático. Os participantes foram instigados a questionar repetidamente “por que” até chegarem à causa primordial. As perguntas geradoras foram:

*   Informação: Por que o servidor não consegue se apropriar do conteúdo das salvaguardas no trabalho diário?

*   Integração: Por que os setores e políticas públicas têm dificuldade de se articular na prática?

*   Capacitação: Por que o servidor se sente pouco preparado para conduzir processos participativos?

*   Gestão: Por que a estrutura institucional influencia a continuidade e a priorização de ações relacionadas às salvaguardas?

As reflexões dos grupos foram registradas em quadros, conforme apresentado na Figura 2.

Figura 2. Investigação da causa raiz dos desafios apresentados nos eixos temáticos.

Fonte: Dados originais da pesquisa

A investigação da causa-raiz revelou conclusões impactantes para cada eixo. Para a Informação, a causa primordial identificada foi a falta de prioridade da gestão. Isso significa que, independentemente da complexidade do conteúdo ou da sobrecarga, se a gestão não prioriza a disseminação e a assimilação das salvaguardas, os servidores não as internalizarão. Essa conclusão ressalta a importância do patrocínio da alta liderança, conforme defendido por autores como Gil (2017) e PMI (2025), que enfatizam o papel da liderança na definição de prioridades e na alocação de recursos. A implicação prática é que qualquer estratégia de comunicação deve ser endossada e impulsionada pela alta gestão para ser eficaz.

Para a Integração, as causas-raiz foram duplas: a pressão para entregar produtos (acordo de resultados) e a intensa cobrança sobre o órgão para minimizar impactos negativos e preservar o meio ambiente (celeridade). Esses fatores levam os setores a focar em suas próprias metas, negligenciando a articulação intersetorial. Essa dinâmica é um reflexo da cultura de silos organizacionais, comum na administração pública, onde a performance individual ou setorial é priorizada em detrimento da colaboração transversal (Noveck, 2021). A implicação prática é que a integração não pode ser vista como uma atividade adicional, mas como um componente intrínseco aos acordos de resultados e às metas de celeridade, demonstrando como a colaboração pode otimizar processos e melhorar a entrega de resultados.

Na Capacitação, a causa-raiz foi atribuída ao “comodismo e facilidade em priorizar o que já se faz normalmente”. Essa conclusão aponta para uma resistência à mudança e à adoção de novas metodologias, especialmente aquelas que envolvem processos participativos, que podem ser percebidos como mais complexos ou demorados. A literatura sobre mudança organizacional destaca que a resistência pode ser superada por meio de incentivos, treinamento adequado e demonstração clara dos benefícios das novas práticas (Brown, 2020). A implicação prática é que as capacitações devem ser desenhadas para desmistificar os processos participativos, demonstrar seu valor prático e oferecer ferramentas que facilitem sua aplicação, superando a inércia e o medo do desconhecido.

Finalmente, para a Gestão, a causa-raiz identificada foi que “a relevância das salvaguardas para a proteção ambiental ainda não está traduzida em prioridades institucionais, metas ou indicadores de gestão”. Essa conclusão sintetiza a falta de alinhamento estratégico e a ausência de um framework de governança que integre as salvaguardas aos objetivos organizacionais. Sem metas e indicadores claros, as salvaguardas permanecem como um ideal, mas não como uma diretriz operacional (Noveck e Cantú-Pedraza, 2016). A implicação prática é a necessidade urgente de desenvolver um sistema de monitoramento e avaliação que traduza as salvaguardas em indicadores de desempenho, vinculando-as diretamente à captação de recursos e à avaliação institucional, tornando sua aplicação uma prioridade estratégica.

Após a identificação das causas-raiz, os participantes engajaram-se em um carrossel de ideias para propor soluções. Cada eixo temático recebeu cerca de dez propostas, e, com base na teoria de Valfrido Pareto, que sugere que 80% dos resultados provêm de 20% dos esforços, os participantes priorizaram uma proposta para cada quadrante. A inteligência coletiva do grupo resultou em quatro sugestões principais, conforme ilustrado na Figura 3.

Figura 3. Resultado final da sessão de brainstorming com a priorização de quatro propostas.

Fonte: Dados originais da pesquisa.

Para a Informação, a proposta priorizada foi “realizar comunicação interna simplificada, como um quadro nas redes sociais do órgão e Intranet” (3 votos). Essa solução reconhece a necessidade de tornar o conteúdo mais acessível e integrado aos canais de comunicação já utilizados pelos servidores, combatendo a sobrecarga informacional. A simplificação da linguagem e a escolha de formatos curtos e visuais são cruciais para a absorção de novos conhecimentos em um ambiente de trabalho dinâmico, conforme sugerido por Brown (2020) no contexto do Design Thinking. As implicações práticas incluem a criação de um plano de comunicação interna que utilize infográficos, vídeos curtos e podcasts, disseminados em plataformas como a intranet e grupos de mensagens internas, para garantir que as salvaguardas sejam compreendidas e aplicadas no dia a dia.

Para a Integração, a proposta vencedora foi “integrar e listar os setores com aplicação de salvaguardas similares, além de disparar e-mail marketing com o conteúdo ‘Você Sabia?'” (5 votos). Essa solução visa quebrar os silos organizacionais, identificando sinergias entre os setores e promovendo a troca de informações sobre as práticas existentes. O e-mail marketing “Você Sabia?” é uma forma de comunicação proativa que pode despertar o interesse e o reconhecimento das ações de outros setores, fomentando uma cultura de colaboração. A identificação de pontos de contato entre as atividades dos diferentes setores pode revelar oportunidades para otimizar processos e evitar a duplicação de esforços, fortalecendo a governança transversal (PMI, 2025). As implicações práticas envolvem a criação de um mapeamento de processos intersetoriais relacionados às salvaguardas, a organização de reuniões periódicas de alinhamento e a implementação de uma campanha de comunicação interna que destaque as contribuições de cada setor para a efetivação das salvaguardas.

Na Capacitação, a proposta priorizada foi “promover capacitação em formato de áudio” (4 votos). Essa solução inovadora responde diretamente ao desafio da sobrecarga de tempo, permitindo que os servidores acessem o conteúdo de forma flexível, durante deslocamentos ou em momentos de menor demanda. O formato de áudio, como podcasts ou audiolivros curtos, é uma alternativa prática e acessível que se alinha às necessidades de um público com tempo limitado, maximizando a adesão e o aprendizado (Noveck e Cantú-Pedraza, 2016). As implicações práticas incluem o desenvolvimento de módulos de capacitação em áudio sobre metodologias participativas, gestão de conflitos e comunicação eficaz, disponibilizados em plataformas de fácil acesso. A flexibilidade do formato pode aumentar significativamente a participação e o desenvolvimento de competências, sem adicionar uma carga excessiva à rotina dos servidores.

Para a Gestão, a proposta mais votada foi “destacar a importância das salvaguardas para obtenção de recursos financeiros e a implementação de políticas públicas” (6 votos). Essa solução aborda a causa-raiz da falta de priorização, conectando diretamente as salvaguardas aos objetivos estratégicos da agência, como a captação de recursos para projetos de REDD+ e a efetividade das políticas públicas ambientais. Ao demonstrar o valor tangível das salvaguardas, a proposta busca sensibilizar a alta liderança e garantir que o tema seja integrado às prioridades institucionais e aos indicadores de desempenho. A vinculação das salvaguardas aos resultados financeiros e à credibilidade institucional é um poderoso argumento para sua priorização (Esteves, 2016). As implicações práticas envolvem a elaboração de relatórios e apresentações para a alta gestão que demonstrem o retorno sobre o investimento na aplicação das salvaguardas, a revisão dos planos estratégicos para incluir metas e indicadores relacionados ao tema e a criação de um sistema de reconhecimento para as equipes que se destacam na implementação das salvaguardas.

A etapa final da oficina consistiu no preenchimento do Canvas de Projeto Público do GovLab (Noveck e Cantú-Predaza, 2016), um modelo que sintetiza os elementos essenciais de um plano de ação. Os participantes, com base em todo o conhecimento adquirido e nas soluções priorizadas, preencheram os 20 tópicos do template, consolidando o plano de ação resultante da pesquisa-ação.

O Canvas preenchido, apresentado na Figura 4, oferece uma visão abrangente do problema, das soluções e dos riscos.

Figura 4. Canvas de Projeto Público do GovLab preenchido durante oficina participativa.

Fonte: Dados originais da pesquisa

O Canvas identificou como principal desafio o “Baixo engajamento dos servidores na observação das salvaguardas socioambientais em Projetos de REDD+”. As pessoas mais impactadas são os povos originários, comunidades tradicionais e agricultores familiares (externo) e os próprios servidores (interno). As principais causas foram a sobrecarga e a alta demanda judicial e administrativa. As evidências incluem a pressão para cumprimento de prazos judiciais e a necessidade de cumprir funções administrativas em detrimento da implementação de políticas públicas. A “Grande Ideia” é a “Produção de conteúdo curto e simplificado, especialmente por áudio”. Os mecanismos de mudança envolvem a integração de setores e sistemas, com impactos mensuráveis na produtividade e no atendimento das salvaguardas. Aqueles que desejam a mudança são os servidores engajados com o impacto das políticas públicas e aqueles em início ou meio de carreira, enquanto os que se opõem são os que temem o aumento da sobrecarga. O funcionamento do plano se dará pela implementação das propostas obtidas, com o patrocínio da alta gestão e a parceria dos setores de Educação Ambiental e Gestão de Pessoas. A justificativa para a ação (“Por que agora?”) é a credenciação do Estado para o REDD+ Jurisdicional e a necessidade de auditoria. O que ainda não está sendo feito é uma capacitação rápida, prática e acessível e a escuta ativa do servidor. Os recursos essenciais incluem tempo, conhecimento, plataformas e recursos humanos. As estratégias de implementação envolvem a governança da execução entre Educação Ambiental e Mudanças Climáticas, e a incorporação das propostas aos fluxos de trabalho existentes. A sustentabilidade do projeto será garantida pela vinculação do plano de engajamento aos indicadores de cumprimento das salvaguardas. Os riscos identificados são o baixo engajamento e a criação de mais uma tarefa para o servidor já sobrecarregado. A divulgação será feita pelos canais de comunicação do órgão.

A síntese do Canvas reforça a complexidade do desafio e a necessidade de uma abordagem multifacetada. A “Grande Ideia” de conteúdo curto e simplificado, especialmente por áudio, é uma resposta direta à sobrecarga e à falta de tempo, buscando otimizar a assimilação de informações. A integração de setores e sistemas como mecanismo de mudança é crucial para superar a fragmentação institucional. A identificação de “quem deseja a mudança” e “quem se opõe” é fundamental para a gestão de partes interessadas, permitindo estratégias de engajamento direcionadas (PMI, 2025). O patrocínio da alta gestão e a parceria com setores estratégicos são elementos-chave para a viabilidade e sustentabilidade do plano. A vinculação aos indicadores de cumprimento das salvaguardas é essencial para garantir que o plano não seja percebido como uma iniciativa isolada, mas como parte integrante da estratégia institucional. Os riscos identificados, como o baixo engajamento e a sobrecarga, devem ser monitorados e mitigados proativamente, com base nas propostas de comunicação simplificada e capacitação flexível.

Em suma, os resultados da pesquisa indicam que a incorporação das salvaguardas socioambientais não depende apenas da existência de diretrizes normativas, mas fundamentalmente da capacidade organizacional de traduzir essas diretrizes em rotinas administrativas, práticas colaborativas e mecanismos institucionais de coordenação. A sobrecarga de trabalho, a fragmentação institucional e a ausência de instrumentos claros de governança emergem como fatores estruturais que influenciam diretamente a aplicação das salvaguardas no cotidiano da administração pública. No campo do conhecimento técnico, a necessidade de mais informações sobre as salvaguardas e capacitação para condução de processos participativos são primordiais. Para que o governo seja mais eficaz, é preciso investir no treinamento dos servidores para que desenvolvam habilidades de solução de problemas a partir do uso de dados e de construções coletivas (Noveck, 2021). A construção cooperativa de soluções a partir da inteligência coletiva das comunidades é uma das habilidades que devem ser desenvolvidas pelos servidores públicos para que as propostas sejam inovadoras e efetivas.

A pesquisa-ação permitiu compreender, a partir da experiência dos servidores, os fatores que influenciam o engajamento institucional nas salvaguardas socioambientais em projetos de REDD+. A investigação consolidou o diagnóstico do público interno, viabilizando a construção de um plano de ação para engajamento desse ator estratégico para a implementação das salvaguardas socioambientais. Por meio da pesquisa-ação, também foi possível reunir a inteligência coletiva de servidores de diversas áreas e tempo de carreira para compreender os gargalos e oportunidades e desenhar propor ações com maior potencial de implementação e engajamento.

Os achados indicam que a incorporação das salvaguardas socioambientais depende menos da existência de diretrizes normativas e mais da capacidade organizacional de traduzir essas diretrizes em rotinas administrativas, práticas colaborativas e mecanismos institucionais de coordenação. A abordagem de pesquisa-ação permitiu não apenas diagnosticar os desafios institucionais, mas também testar processos participativos de reflexão coletiva, produzindo aprendizado organizacional sobre a implementação das salvaguardas. Para uma aplicação bem-sucedida deste plano de ação, será importante detalhar o plano de comunicação a partir dos temas de informação e integração, estabelecer diretrizes de governança e pactuar as metas e indicadores. O plano poderá ser avaliado por meio de entrevistas, pesquisas quantitativas, além da aferição da melhoria no atendimento nos indicadores de estrutura, processo e resultado aferidos pelo Padrão ART Trees.

Do ponto de vista da implementação das políticas públicas, nota-se que o órgão está mais confortável na aplicação das salvaguardas ambientais, exceto nos casos em que a política pública já estabeleceu em lei uma estrutura de governança. Assim, é essencial o desenvolvimento de competências e habilidades para que os servidores possam ter segurança e efetividade ao estabelecer diálogos por meio de metodologias colaborativas para criar conversas compassivas e capazes de estabelecer coalizão, assegurando o atendimento às necessidades das comunidades mais vulneráveis. A pesquisa traz limitações como o recorte institucional e geográfico específico e número de participantes reduzido. Já a pesquisa qualitativa oferece um olhar aprofundado sobre o tema, mas não permite quantificar o nível real de conhecimento e integração das salvaguardas em toda a secretaria. Nesse sentido, os dados não podem ser generalizados, ainda que a metodologia e plano de ação possam ser replicados em outras situações.

Para pesquisas futuras, recomenda-se realizar um amplo mapeamento de todas as partes interessadas na captação de recursos para projetos de REDD+ no Estado, classificando-as quanto ao seu nível de interesse, adesão à temática e capacidade de influência e decisão, ampliando o plano de engajamento e efetividade das ações. Já em nível nacional, a pesquisa pode ser ampliada para incluir todos os estados amazônicos que tenham feito a adesão ao Padrão ART Trees para acreditação das ações jurisdicionais de REDD+. A incorporação das salvaguardas às políticas públicas ambientais, aos seus processos, resultados e rotinas operacionais vai muito além do atendimento a requisitos técnicos para a acreditação de projetos de proteção do clima. Trata-se da efetivação de um mecanismo de justiça climática para os territórios que ainda possuem florestas e demais tipos de vegetação nativa, em especial para comunidades cujos modos de vida estão diretamente relacionados à saúde dos ecossistemas. A internalização das salvaguardas tem potencial para fortalecer mecanismos de governança capazes de assegurar a participação social, a proteção da biodiversidade e o respeito aos direitos e saberes de povos e comunidades tradicionais, contribuindo para que as iniciativas de REDD+ apoiem efetivamente a proteção do clima. Nesse cenário, o engajamento dos servidores públicos emerge como elemento estratégico para que as salvaguardas se traduzam em práticas concretas no cotidiano institucional e contribuam para a plena aplicação das políticas climáticas. Ao reconhecer os desafios enfrentados na administração pública, como sobrecarga de trabalho, fragmentação organizacional e limitações de tempo, esta pesquisa evidencia que o fortalecimento das capacidades institucionais é condição indispensável para que as políticas climáticas alcancem seus objetivos socioambientais. O avanço dos efeitos adversos das mudanças climáticas e os riscos associados exigem iniciativas capazes de integrar conhecimento técnico, gestão pública e participação social. A integração das salvaguardas às políticas públicas fortalece a credibilidade dos mecanismos de REDD+ e contribui para a construção de caminhos institucionais capazes de conciliar a proteção da vegetação nativa, o respeito às comunidades locais e a conservação da biodiversidade. Assim, as salvaguardas também emergem como um mecanismo de aprendizado institucional e de construção coletiva de soluções para os desafios impostos pelas mudanças climáticas, contribuindo para a sustentabilidade das condições que tornam possível a vida na Terra.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, ao compreender os fatores que influenciam o engajamento institucional nas salvaguardas socioambientais em projetos de REDD+ e elaborar um plano de ação participativo. A pesquisa-ação revelou que a baixa familiaridade com o tema, a fragmentação intersetorial, a carência de capacitação em processos participativos e a falta de priorização gerencial são desafios cruciais. A sobrecarga de trabalho e a gestão do tempo emergiram como eixos transversais que comprometem a efetiva internalização dessas diretrizes. A inteligência coletiva dos servidores permitiu a cocriação de um plano de ação focado em comunicação simplificada, integração setorial, capacitação em áudio e valorização estratégica das salvaguardas para a captação de recursos, visando aprimorar a gestão pública ambiental.

Contudo, a presente pesquisa possui limitações inerentes ao seu recorte institucional e geográfico específico, além do número reduzido de participantes. A natureza qualitativa do estudo, embora aprofundada, não permite a generalização dos dados para toda a secretaria ou a quantificação do nível de conhecimento e integração das salvaguardas. Para estudos futuros, recomenda-se um mapeamento mais abrangente das partes interessadas em projetos de REDD+ no Estado, classificando-as por interesse e influência. Sugere-se também a ampliação da pesquisa para outros estados amazônicos aderentes ao Padrão ART Trees, a fim de validar e expandir as estratégias de engajamento propostas. A efetivação das salvaguardas é vital para a justiça climática e a sustentabilidade dos ecossistemas.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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