Neurociência E Aprendizagem Na Educação
29 de setembro de 2026
Proposta de jardins sensoriais em ambiente escolar como estratégia de regulação emocional
Proposta de Jardins Sensoriais em Ambiente Escolar como Estratégia de Regulação Emocional
Alexandre Aníbal Valverde Marcondes de Moura; Lea Veras
DOI: 10.22167/2675-6528-202602700
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O ambiente físico escolar impacta o desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças, especialmente as neurodivergentes, e ambientes multissensoriais auxiliam na regulação emocional e comportamental. Propôs-se investigar e implementar uma estratégia de regulação emocional por meio de jardins sensoriais transportáveis com painéis psicoeducativos. O objetivo geral foi criar um método para implementar essas estratégias em crianças neurodivergentes, visando aprimorar o bem-estar, a performance acadêmica e a percepção temporal. A metodologia, fundamentada na pesquisa-ação e na neurociência da educação, buscou otimizar esses aspectos. Realizou-se a implantação da metodologia desenvolvida com uma escola parceira, que incluiu uma oficina de plantio e a criação de painéis psicoeducativos. Os resultados abrangeram a implantação real da metodologia, com o plantio de 80 espécies nativas, e a elaboração de um roteiro de atividades educativas sobre neurodiversidade e biodiversidade. Concluiu-se que a proposta demonstrou a exequibilidade de uma intervenção de baixo custo e alto impacto neurobiológico, promovendo a regulação emocional e o engajamento com a natureza em ambientes escolares.
Palavras-chave: Ambientes Enriquecidos; Autorregulação Emocional; Miopia Temporal; Neurodiversidade; Psicoeducação.
1. Introdução
O ambiente físico escolar exerce influência direta no desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças. Essa relação é particularmente notável em crianças neurodivergentes, que incluem indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). Para este grupo, ambientes que oferecem estímulos multissensoriais demonstram ser eficazes no auxílio à regulação emocional e comportamental (Pfeiffer et al., 2011).
Nesse contexto, a criação de jardins sensoriais surge como uma estratégia promissora. A proposta de utilizar plantas nativas da Mata Atlântica, incluindo Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), conforme destacado por Kinupp e Lorenzi (2014) e Cardim (2022), visa proporcionar uma rica experiência multissensorial. Essa abordagem, que envolve tato, olfato e visão, é controlada e benéfica para a regulação do sistema nervoso (Carvalho, 2022).
A exposição à natureza tem sido associada a diversos benefícios para a saúde. Estudos indicam que o contato com o ambiente natural pode reduzir marcadores físicos de estresse, como a pressão arterial, além de melhorar o estado afetivo e diminuir sintomas de ansiedade e ruminação depressiva. Ambientes biofílicos, por sua vez, contribuem para a redução de emoções negativas e o aumento de emoções positivas, com impactos positivos diretos na atividade cerebral e no fortalecimento do sistema imunológico (Jimenez et al., 2021; Yin et al., 2018).
Para crianças neurodivergentes, que frequentemente enfrentam desafios como crises de desorganização (meltdowns), retração (shutdowns) e miopia temporal, o envolvimento com jardins sensoriais oferece um espaço seguro e previsível. Esse ambiente facilita o gerenciamento de emoções e a observação concreta da passagem do tempo, promovendo o bem-estar (Santos, 2023). Complementarmente, a produção de painéis psicoeducativos e elementos de estimulação sensorial, desenvolvidos em conjunto com as crianças, aborda temas como neurodiversidade e biodiversidade, configurando um elemento neuropsicoeducacional associado (Nazareno et al., 2025).
A aplicabilidade dessa metodologia em diversos espaços escolares, especialmente em ambientes urbanos, é um ponto crucial. Muitas escolas brasileiras, como a Escola Parceira que participou deste projeto, possuem terrenos completamente pavimentados, sem grandes áreas verdes. Esse cenário é comum, visto que apenas 25% das escolas de educação infantil no Brasil estão próximas a grandes áreas verdes (Weeberb et al., 2022). A solução proposta, focada no plantio em vasos de feltro, permite a criação de um modelo arquitetonicamente flexível, sustentável e transportável, adaptável a essas realidades.
A justificativa para este trabalho reside na necessidade de abordar os desafios significativos que crianças neurodivergentes enfrentam na autorregulação emocional e na percepção do tempo. A neurociência valida a importância de ambientes enriquecidos sensorialmente e da psicoeducação para o desenvolvimento e a regulação cerebral, com potencial para modular redes neurais relacionadas à emoção, atenção e percepção temporal por meio da plasticidade cerebral. Essa perspectiva alinha-se à compreensão freiriana de que a educação é um ato político e libertador (Freire, 2025), implicando a escola na transformação das condições concretas de existência. A motivação para a proposta também se fundamenta na experiência pessoal do pesquisador, que, sendo médico psiquiatra neurodivergente, observou a eficácia do plantio de jardins na regulação da hiperatividade e na compreensão da passagem do tempo, o que impulsionou o desenvolvimento deste estudo. O objetivo do trabalho foi desenvolver e detalhar a metodologia para a implementação de jardins sensoriais transportáveis (miniflorestas) e painéis psicoeducativos em ambientes escolares, culminando na elaboração de um Guia Prático replicável por outras instituições.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como uma pesquisa-ação de natureza qualitativa e descritiva, fundamentada na metodologia de Aprendizado Baseado em Projetos (Project-Based Learning – PBL). O estudo buscou desenvolver e detalhar a metodologia para a implementação de jardins sensoriais transportáveis, denominados miniflorestas, e painéis psicoeducativos em ambientes escolares, visando a elaboração de um Guia Prático replicável por outras instituições.
O objeto empírico da pesquisa consistiu na estruturação de uma experiência de intervenção educacional. Esta intervenção utilizou o plantio de miniflorestas em vasos portáteis de tecido como ferramenta de estimulação cognitiva e sensorial, além de criar um espaço para contemplação e ação de regeneração ambiental.
A pesquisa foi realizada em uma Escola Parceira (nome fictício), localizada em um bairro da zona oeste de São Paulo – SP. A escola, com 900m² de área construída, apresentava um terreno completamente pavimentado. Participaram do desenvolvimento do projeto 85 alunos do ensino fundamental, 9 educadores diretos e 15 educadores indiretos de instituições parceiras.
Para a intervenção, foram utilizados materiais específicos, incluindo 30 vasos de feltro com capacidades de 30L, 50L e 80L. Esses vasos foram selecionados por suas propriedades de “poda aérea” das raízes e alta oxigenação, otimizando o desenvolvimento das plantas.
O aparato botânico compreendeu 80 espécimes nativos da Mata Atlântica, incluindo árvores de dossel, arbustos e epífitas. As espécies foram selecionadas para proporcionar variação de texturas, odores e estímulos visuais, com base em critérios de frutificação nativa comestível, relevância histórica, cultural ou paisagística, e capacidade de gerar sombra (Lorenzi, 2008, 2014, 2015; Aschwanden-Vilaça, 2023; Associação Orquidófila de São Paulo, 2011).
Como critério de exclusão, foram removidas plantas venenosas e espinescentes, conforme Matos et al. (2011), para evitar riscos de acidente. Duas espécies inicialmente consideradas, Cambará e Manacá-de-cheiro, foram retiradas por produzirem frutos potencialmente tóxicos. O Pau-Brasil foi a única exceção, devido à sua importância emblemática.
Os insumos técnicos utilizados incluíram substrato orgânico, hidrogel agrícola para retenção hídrica, argila expandida e manta bidim para drenagem. Para a criação dos painéis psicoeducativos, empregaram-se hexágonos de madeira MDF de 8 cm (sete por participante), canetas hidrográficas de cores variadas e cola de madeira atóxica.
A metodologia foi estruturada em três fases principais. A Fase I, denominada Planejamento e Curadoria (Engajamento Executivo), envolveu a seleção das espécies, o cálculo dos insumos e o planejamento da distribuição dos jardins no local. Incluiu a definição do local, o entrosamento com a equipe escolar, a apresentação da atividade aos estudantes, a definição do número de vasos, a busca por fornecedores de plantas nativas e a compra de insumos.
Nesta fase, foram visitados três viveiros em São Paulo e quatro no interior (Santo Antônio do Pinhal, Monteiro Lobato, São Bento do Sapucaí e Taubaté) para a aquisição das espécies. Definiram-se 30 vasos (cinco de 80 L, dez de 50 L e quinze de 30 L) para serem distribuídos ao longo de 15 metros lineares no pátio da escola. As plantas chegaram três dias antes do previsto, e a atividade de plantio foi reagendada devido ao clima chuvoso, permitindo uma distribuição prévia das plantas no espaço para otimizar a configuração.
A Fase II, Intervenção Prática e Manejo (Experiência Multissensorial), consistiu na oficina de plantio. Quarenta e cinco estudantes foram divididos em três grupos de 15, que, por sua vez, foram subdivididos em cinco subgrupos de três crianças. Cada grupo realizou o plantio em um ciclo de uma hora, seguindo a estratificação natural da floresta.
Os procedimentos de plantio incluíram: (a) drenagem com argila expandida no fundo do vaso; (b) corte e posicionamento da manta bidim; (c) aplicação de três litros de gel de plantio por vaso; (d) adição de terra vegetal para estabilizar as plantas; e (e) cobertura do solo com casca de pinus. O manuseio de plantas maiores foi realizado por um adulto responsável, enquanto as crianças se ocuparam das plantas menores, e a rega foi realizada após a finalização.
A Fase III, Identificação e Simbolização (Ancoragem Cognitiva), compreendeu a oficina de painéis psicoeducativos sobre neurodiversidade e biodiversidade. Utilizando sete hexágonos de MDF, cada criança desenhou as plantas escolhidas para seu jardim em uma face e estruturas que remetiam a raízes e neurônios na outra, criando uma metáfora da floresta neuronal.
A metodologia foi embasada em dois pilares neurocientíficos: a biofilia, que postula a redução dos níveis de cortisol e a restauração da atenção dirigida pela conexão com a natureza; e o aprendizado experiencial, que promove a integração sensorial e a neuroplasticidade através do contato direto com diferentes texturas. Um exercício fenomenológico complementar, o Mapa Existencial – Fenomenologia do Eu, foi realizado em uma segunda oficina de painel, conforme detalhado no Apêndice B do trabalho original (Heidegger, 1927; Valverde, 2011).
Ferramentas de Inteligência Artificial foram empregadas em momentos auxiliares, conforme as orientações do Manual de Boas Práticas da USP/Esalq. Utilizou-se o Gemini – Google para a compilação das informações taxonômicas das 80 espécies (Apêndice A) e para a organização da tabela de despesas. O Claude – Anthropic foi usado para a adequação formal e revisão de formatação do trabalho.
A organização dos dados incluiu a compilação das informações taxonômicas das espécies em formato de tabela e a sistematização dos custos do projeto a partir de notas fiscais e recibos. A metodologia desenvolvida culminou na elaboração de um Guia Prático, que detalha os procedimentos para a implementação dos jardins sensoriais e painéis psicoeducativos, visando sua replicabilidade em outros contextos escolares.
3. Resultados e Discussão
A presente seção detalha os resultados da pesquisa-ação, focando na implementação da metodologia desenvolvida para jardins sensoriais transportáveis e painéis psicoeducativos em ambiente escolar. Os achados demonstram a exequibilidade do projeto e a sua adaptação às condições reais de uma escola parceira, situada em um contexto urbano com área predominantemente pavimentada. A abordagem adotada permitiu a criação de um ambiente enriquecido sensorialmente, alinhado aos princípios da neurociência da educação e da pedagogia dialógica, conforme a introdução do estudo. A execução do projeto foi acompanhada de ajustes e observações que enriquecem a compreensão de sua aplicabilidade e impacto.
A primeira fase do projeto, anterior ao plantio, envolveu sete etapas cruciais para a estruturação da intervenção. A definição do local de implantação na escola parceira revelou a necessidade de um modelo adaptável, visto que a instituição possuía uma área construída de 900 m² completamente pavimentada, sem áreas permeáveis ou contato direto com o solo. Essa realidade, comum em escolas urbanas brasileiras, onde apenas 25% das instituições de educação infantil estão próximas a grandes áreas verdes (Weeberb et al., 2022), justificou a escolha de vasos de feltro como solução flexível e transportável. A adaptação do espaço existente, que incluía vasos vazios ou com plantas ornamentais não-nativas, foi realizada com o engajamento de professores e familiares, reordenando o ambiente para receber as novas espécies.
A interação com o interlocutor local, um articulador da organização do espaço e do diálogo com a diretoria, foi fundamental para o sucesso da primeira fase. A apresentação do projeto piloto aos estudantes, que incluía a evolução do crescimento das plantas em vasos, gerou surpresa e engajamento, especialmente ao desmistificar a ideia de que todas as árvores frutíferas comuns no Brasil são nativas. Essa atividade inicial estimulou as crianças a desenharem suas próprias visões para o jardim, promovendo a identificação e o reconhecimento taxonômico das plantas por meio da criação de cartões de identificação, um elemento psicoeducacional importante.
O dimensionamento do projeto considerou a área disponível e o número de participantes. No pátio da escola, foram demarcados 20 metros lineares, divididos em dois locais de 15 metros, onde os vasos seriam distribuídos. Quarenta e cinco estudantes foram organizados em três grupos de quinze para realizar o plantio em um ciclo de uma hora. Foram definidos trinta vasos, sendo cinco de 80 litros, dez de 50 litros e quinze de 30 litros, permitindo que cada subgrupo de três crianças preparasse um vaso grande e um pequeno, facilitando o manuseio e a mobilidade do jardim sensorial.
A busca por fornecedores de plantas nativas da Mata Atlântica representou um desafio significativo, pois a maioria dos viveiros e revendedores priorizava espécies exóticas. Foram visitados sete viveiros, três na cidade de São Paulo e quatro no interior, e nenhum possuía todas as espécies inicialmente elencadas. A seleção final das plantas obedeceu a critérios rigorosos, como serem frutíferas nativas comestíveis ou de relevância histórica, cultural ou paisagística, e terem tamanho adequado para gerar sombra e proteger outras plantas. Para as herbáceas e ornamentais, priorizou-se a diversidade de folhagem, coloração, tamanho e floração, buscando espécies distintas do mesmo gênero e representativas dos diversos estratos da floresta.
Como critério de exclusão, foram removidas plantas venenosas e espinescentes, com base em Matos et al. (2011), para garantir a segurança das crianças. Duas espécies inicialmente consideradas, Cambará e Manacá-de-cheiro, foram retiradas por produzirem frutos potencialmente tóxicos. A única exceção foi o Pau-Brasil, uma espécie emblemática, mesmo com a presença de acúleos. Ao final, o projeto incorporou oitenta espécies distintas da Mata Atlântica, cujo detalhamento taxonômico completo, incluindo nome popular, nome científico, local de ocorrência, necessidades de luz e água, e fatos curiosos, foi compilado e disponibilizado em apêndice.
Os custos totais para a execução do projeto, compilados a partir de notas fiscais e recibos, totalizaram R$ 9.990,60. O custo médio por vaso foi de R$ 333,02. Um fator relevante foi o frete, que representou 20% do custo total, devido à necessidade de adquirir plantas em viveiros distantes, já que as lojas nas regiões centrais não ofereciam espécies nativas ou as vendiam a preços mais elevados. A ausência de contratação de ajudantes para o dia da execução, embora tenha reduzido os custos, é um ponto a ser considerado para futuras replicações, dado o esforço físico demandado pela atividade.
A logística das entregas dos materiais também apresentou desafios, com empresas realizando entregas nos finais de semana, período em que a escola estava fechada. Comércios vizinhos auxiliaram no armazenamento temporário de alguns insumos. As plantas, por serem mais sensíveis, chegaram três dias antes do previsto, mas o dia planejado para o plantio foi chuvoso, resultando em um adiamento de dez dias. Durante esse período, as plantas foram regadas diariamente para mitigar o estresse da exposição excessiva ao sol, e a equipe aproveitou para distribuir as plantas no local, planejando a melhor configuração espacial para que as espécies maiores pudessem criar nichos de proteção para as menores e mais sensíveis.
Segunda fase – o dia do plantio
A segunda fase da metodologia, o dia do plantio, foi cuidadosamente estruturada para maximizar a participação e o aprendizado dos estudantes. Quarenta e cinco crianças, divididas em três grupos de quinze, realizaram a oficina em um ciclo de uma hora. A professora, que conhecia os alunos, organizou-os em cinco subgrupos de três crianças, garantindo uma distribuição variada de idades e porte físico. Essa organização permitiu que os estudantes mais velhos e maiores auxiliassem os menores no manuseio das plantas de maior porte, promovendo a cooperação e o aprendizado colaborativo.
A distribuição das plantas no espaço foi planejada considerando o volume, a função e a necessidade de incidência de luz de cada espécie. Os insumos foram organizados na área coberta, ao alcance das crianças, enquanto os materiais cortantes, como estiletes e tesouras, permaneceram sob a supervisão do adulto responsável. Trinta litros de gel de plantio foram preparados em bacias plásticas para uso posterior. Durante a atividade, discutiu-se a importância das espécies nativas da Mata Atlântica e as relações ecológicas entre as plantas, destacando a diversidade horizontal e vertical que orientou o projeto. Observou-se que muitas árvores visíveis do pátio eram exóticas, o que reforçou a relevância do plantio de espécies nativas.
A preparação dos vasos de feltro seguiu uma sequência didática: primeiro, uma camada de argila expandida de aproximadamente dez centímetros no fundo do vaso para drenagem; em seguida, o corte e posicionamento da manta bidim para separar a argila da terra; depois, a aplicação de três litros de gel de plantio em cada vaso para mitigar a desidratação; a adição de terra vegetal para estabilizar a planta maior e servir de substrato para as menores; e, por fim, o acabamento com casca de pinus para proteção térmica e hídrica do solo. O engajamento corporal e tátil das crianças durante essas etapas foi notável, evidenciando a experiência multissensorial proposta pela metodologia.
O manuseio das plantas de maior porte foi realizado pelo adulto responsável, que as posicionou respeitando a inclinação para o sol e o volume da copa. As crianças, por sua vez, se dedicaram às plantas de menor porte, seguindo regras para organizar o posicionamento e manter a visualidade de cada elemento no vaso. As crianças da última turma tiveram a oportunidade de plantar seis sementes de Araucaria angustifolia, uma árvore brasileira ameaçada de extinção, cujas sementes estavam disponíveis na época da oficina. Após o plantio, foi realizada uma checagem e ajuste da quantidade de terra e do posicionamento das plantas, e os vasos, por serem de tecido, puderam ser facilmente reordenados no pátio para otimizar a proteção entre as espécies e o aspecto visual do jardim.
Após o plantio, a rega foi realizada, e a equipe de limpeza da escola foi sensibilizada para a necessidade de manter o asseio do local, que ficou impregnado de terra. No dia seguinte, uma máquina de limpeza com pressão foi utilizada para restaurar a higiene do pátio e da cantina. Essa etapa prática consolidou a experiência multissensorial e o aprendizado sobre o cuidado com a natureza, elementos essenciais para a regulação emocional e o desenvolvimento cognitivo das crianças neurodivergentes, conforme a literatura que sustenta a importância de ambientes enriquecidos (Pfeiffer et al., 2011; Jimenez et al., 2021).
Oficina de painel: biodiversidade e neurodiversidade
A oficina de painel, realizada após o plantio, permitiu aos estudantes a criação de um Sistema Modular Hexagonal de Integração Bio-Existencial. Utilizando sete placas de MDF em formato de hexágono, cada criança desenhou as plantas escolhidas para seu jardim em uma das faces. Na outra face, foram representadas estruturas que se assemelham tanto às raízes das plantas quanto aos neurônios, estabelecendo uma ponte visual e conceitual entre a botânica e a neurociência. O hexágono central funcionou como um espelho entre o macro (a minifloresta) e o micro (o cérebro), reforçando a ideia de que, assim como as plantas vivem em redes micorrízicas de troca, o córtex cerebral funciona como uma floresta neuronal.
Essa atividade de criação de painéis celebra tanto a biodiversidade, vivenciada no plantio dos vasos, quanto a neurodiversidade, expressa na singularidade de cada painel. Cada estudante produziu um painel único, refletindo sua percepção e escolha das plantas, e a representação dos neurônios em rede. A proposta integra a dimensão tátil da oficina com o embasamento teórico da neurociência e da fenomenologia, proporcionando um exercício neuropsicoeducacional que conecta o cuidado com a natureza ao autoconhecimento e à compreensão da própria mente, conforme sugerido por Nazareno et al. (2025).
Terceira fase – manutenção, cuidados, reflexões e perspectivas futuras
A terceira fase do projeto abordou a manutenção e os cuidados contínuos com o jardim sensorial, bem como as reflexões e perspectivas futuras. A escola parceira, por meio do Grupo de Responsabilidade (GR) Meio Ambiente, designou um grupo de alunos, educadores e funcionários para as tarefas de rega, exposição à luz, movimentação dos vasos, controle de pragas e doenças, e poda. As folhas mortas e restos de poda foram destinados à compostagem, promovendo um ciclo de sustentabilidade e aprendizado prático sobre a gestão de resíduos orgânicos.
Os ciclos de manutenção diária e semanal estabeleceram rotinas e marcadores temporais claros, o que é particularmente benéfico para pessoas neurodivergentes que apreciam a previsibilidade e enfrentam desafios como a miopia temporal. Essa prática de cuidado contínuo com o jardim sensorial não apenas garante a saúde das plantas, mas também oferece um ambiente estruturado que auxilia na regulação emocional e na percepção do tempo, conforme destacado por Santos (2023). A observação do crescimento e desenvolvimento das plantas ao longo do tempo se torna uma oportunidade pedagógica contínua, gerando discussões sobre diversas áreas do conhecimento.
Aprendizados, relações, analogias e exercícios a partir do jardim
1. Padrões, Geometria e Concreção Matemática
A morfologia vegetal presente nos jardins sensoriais oferece uma lição prática sobre fractais e proporções, conceitos que se tornam tangíveis para estudantes neurodivergentes, que frequentemente demonstram apreço pelo reconhecimento de padrões. As bifurcações das plantas, como as observadas na Árvore Pitagórica, mimetizam sistemas biológicos complexos, como bronquíolos e dendritos, estabelecendo uma ponte interdisciplinar entre botânica e anatomia. A sequência de Fibonacci, visível no entouceiramento de orquídeas e bromélias, serve como um marcador temporal concreto, essencial para a compreensão da passagem do tempo por indivíduos com miopia temporal, como aqueles com TDAH ou TEA. Um exercício sugerido é o mapeamento sensorial, explorando o tato de texturas rugosas, a visão de padrões geométricos, o olfato de ervas aromáticas e a audição do ruído das folhagens, promovendo a integração sensorial e a neuroplasticidade.
2. Temporalidade e Desenvolvimento Assíncrono
O jardim sensorial proporciona uma metáfora viva para a compreensão de que a natureza não cresce de forma linear, e que os estudantes neurodivergentes também possuem ritmos de desenvolvimento distintos. Essa perspectiva ajuda a naturalizar a ideia de que diferentes ritmos não são falhas, mas sim especificidades individuais. Fenômenos como o fototropismo e o crescimento em espiral, exemplificado pelo Costus spiralis, podem ser relacionados aos stimmings (movimentos de autoestimulação), validando funções regulatórias do corpo. A observação do desenvolvimento assíncrono, comparando o crescimento rápido de uma espécie com a lentidão de outra, auxilia na validação da assincronia comum em perfis de Altas Habilidades/Superdotação e autismo. As mudanças sazonais, como florescimento e queda de folhas, funcionam como marcadores visuais que auxiliam na percepção do tempo e na construção da identidade.
3. Analogias Cognitivas e Psicoeducação
A estrutura física das plantas facilita a compreensão de processos internos complexos, tornando a comunicação mais acessível. O espessamento e a rigidez do caule, resultantes do acúmulo de carbono, servem como uma metáfora para a inflexibilidade cognitiva, ajudando a explicar por que certas mudanças são difíceis e facilitando a aceitação de estratégias de suporte. A dinâmica entre as espécies em um vaso, que envolve proteção, competição e complementaridade, ilustra a diversidade funcional de uma sala de aula, onde cada estudante, assim como cada estrato da floresta, desempenha um papel vital no ecossistema. Essa analogia promove a compreensão da interdependência e da importância de cada indivíduo no grupo.
4. Dinâmicas Sociais, Luto e Autonomia
O jardim sensorial se estabelece como um ambiente seguro para o desenvolvimento de habilidades sociais e o processamento de emoções intensas, por meio da observação dos ciclos naturais da vida. As interações entre as raízes das plantas, que formam redes micorrízicas, servem como analogia para discutir redes de apoio e interdependência entre os indivíduos. O manejo de “espécies invasoras” pode abrir um diálogo sobre relações de poder e vulnerabilidade social. A senescência e a perda de uma planta, e seu encaminhamento para a compostagem, permitem abordar a tolerância à frustração e o luto de forma naturalizada, transformando o fim em nutriente para novos ciclos. A observação da autopoiese do jardim, que se autorregula e atrai fauna, fortalece o senso de pertencimento do estudante e promove a saúde mental através do cuidado direto com a vida. O espaço também pode ser utilizado para atividades de propriocepção e equilíbrio, integrando o corpo ao ambiente calmo e previsível da natureza, contribuindo para a regulação emocional.
Articulação com políticas públicas: o PlaNAU
As oficinas de plantio de mudas nativas e a criação de minijardins em vasos demonstram um potencial de articulação com políticas públicas, como o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), lançado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em novembro de 2025 e formalizado pela Portaria 1.639/2026. Este programa federal visa aumentar a cobertura vegetal nas cidades brasileiras, combater as mudanças climáticas, promover justiça climática e melhorar a qualidade de vida. A participação das escolas nesse processo, por meio do ciclo de plantio, desenvolvimento e transplante dos vasos para espaços públicos, pode impulsionar uma economia de reflorestamento difusa em todo o país. Os vasos, nesse contexto, transformam-se em “totens vivos” do processo de escolarização, simbolizando um rito de formatura que libera espaço para novas turmas e fomenta a continuidade da ação regenerativa.
Possibilidade de cooperativas de costureiras: exercício de uso de IA
A metodologia desenvolvida também abre a possibilidade de integrar as oficinas a uma rede de produtores locais de mudas regionais e cooperativas de costureiras. Estas cooperativas poderiam confeccionar os vasos de feltro a partir de sobras de tecidos da indústria da moda, promovendo uma economia circular, local e engajada com a regeneração florestal e a destinação de rejeitos. A utilização de ferramentas de Inteligência Artificial, conforme as orientações do Manual de Boas Práticas para Uso da IA da USP/Esalq, foi explorada para auxiliar na compilação de informações taxonômicas das espécies e na adequação formal do trabalho. Além disso, exercícios de IA podem propor a criação de projetos assemelhados, organizando a escola, estudantes, educadores e famílias em torno dessas ideias, e calculando impactos sociais e econômicos positivos. Sugestões incluem o cálculo do sequestro de carbono se o projeto fosse replicado em cada escola do Brasil e a quantidade de vasos necessários para anular a pegada de carbono de uma pessoa com consumo médio, transformando a atividade em um tema para aulas de cidadania e projetos sociais.
Em síntese, a pesquisa demonstrou a viabilidade da implementação de jardins sensoriais transportáveis e painéis psicoeducativos em ambientes escolares urbanos, superando desafios logísticos e estruturais. A metodologia, baseada na pesquisa-ação e nos princípios da neurociência da educação, não apenas proporcionou uma rica experiência multissensorial e de aprendizado prático sobre biodiversidade, mas também ofereceu um arcabouço para a regulação emocional, aprimoramento da percepção temporal e desenvolvimento de habilidades sociais em crianças neurodivergentes. A integração de conceitos de biofilia, aprendizado experiencial e psicoeducação, aliada à flexibilidade do modelo de vasos de feltro, configura uma intervenção de baixo custo e alto impacto neurobiológico, com potencial para ser replicada e articulada com políticas públicas de arborização urbana, promovendo o bem-estar e a conexão com a natureza.
4. Conclusão
O presente estudo propôs desenvolver e detalhar uma metodologia para a implementação de jardins sensoriais transportáveis e painéis psicoeducativos em ambientes escolares, visando aprimorar o bem-estar, a performance acadêmica e a percepção temporal de crianças neurodivergentes. Verificou-se a exequibilidade da metodologia por meio de sua implantação em uma escola parceira, situada em contexto urbano com área predominantemente pavimentada. A intervenção envolveu o plantio de oitenta espécies nativas da Mata Atlântica em vasos de feltro, demonstrando a flexibilidade e adaptabilidade do modelo. Observou-se o engajamento dos quarenta e cinco estudantes na oficina de plantio e na criação de painéis psicoeducativos, os quais estabeleceram uma ponte conceitual entre biodiversidade e neurodiversidade. A metodologia configurou-se como uma intervenção de baixo custo e alto impacto neurobiológico, promovendo a regulação emocional, aprimoramento da percepção temporal e desenvolvimento de habilidades sociais, fundamentada nos princípios da neurociência da educação e do aprendizado experiencial.
Apesar dos desafios logísticos enfrentados na aquisição de espécies nativas e nos custos de frete, a proposta demonstrou um potencial significativo de replicação. Sugere-se que estudos futuros explorem a articulação desta metodologia com políticas públicas de arborização urbana, como o PlaNAU, para impulsionar uma economia de reflorestamento difusa e a criação de cooperativas locais de produção de vasos de feltro a partir de resíduos têxteis. A observação contínua do jardim sensorial, com seus ciclos de manutenção diária e semanal, estabeleceu rotinas e marcadores temporais claros, o que se mostrou particularmente benéfico para pessoas neurodivergentes. Assim, o trabalho oferece um modelo para a transformação social, que celebra a biodiversidade e a neurodiversidade, ao mesmo tempo em que promove a saúde mental e a regeneração ambiental.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação
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