Compliance E Esg
29 de setembro de 2026
Responsabilidade social corporativa: análise comparativa entre discurso institucional e percepção social
Responsabilidade Social Corporativa: Análise Comparativa entre Discurso Institucional e Percepção Social
Bárbara Matias Bueno de Mattos Galvão; Thaís Helena Zero de Oliveira Pereira
DOI: 10.22167/2675-6528-202602703
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
O estudo analisou o discurso corporativo e as percepções sociais sobre um projeto do pilar social da agenda ESG da Ambev, multinacional do setor de bebidas. Objetivou-se compreender a medida em que o discurso apresentado no Relatório Anual de Sustentabilidade da empresa se alinhava às percepções do público externo sobre uma iniciativa específica. Para tanto, empregou-se uma pesquisa qualitativa, caracterizada como estudo de caso comparativo. Analisaram-se comentários publicados no feed do Instagram da empresa, referentes ao ano de 2024 e ao programa em questão, e o Relatório de Sustentabilidade de 2025. A análise dos dados foi conduzida por meio do método de análise de conteúdo. Os resultados evidenciaram lacunas significativas entre o discurso corporativo e a percepção social da iniciativa. O principal ponto de tensão referiu-se às condições de trabalho, pois o cuidado com os colaboradores, enfatizado institucionalmente, não se confirmou nas experiências relatadas por trabalhadores informais, como ambulantes e entregadores. Concluiu-se que, embora a agenda ESG apresente avanços, o pilar social ainda se configura como um desafio, visto que o discurso institucional nem sempre se materializa em práticas percebidas como legítimas pelos públicos diretamente envolvidos. A pesquisa contribuiu para o debate sobre responsabilidade social corporativa no Brasil.
Palavras-chave: Análise de conteúdo; Discurso organizacional; Responsabilidade social corporativa; Stakeholders.
1. Introdução
O processo de globalização e a intensificação da modernização promoveram profundas transformações no mercado de trabalho e reconfiguraram as relações sociais. Concomitantemente, houve uma ampliação da preocupação com os impactos das atividades humanas sobre o ambiente, conforme observado por Guedes e Oliveira (2026). No contexto ocidental, essas mudanças reverberaram na cultura e nos modos de produção e consumo, que passaram a ser caracterizados por um crescimento acelerado, expansão do capitalismo e do consumo, intensificando os riscos socioambientais, como apontado por Beck (2011). Nesse cenário, tornou-se imperativa a reflexão sobre estratégias de sustentabilidade como resposta às limitações do modelo de desenvolvimento vigente.
É nesse panorama que se consolidou a agenda ESG (Environmental, Social and Governance), um arcabouço conceitual orientado à sustentabilidade em sentido amplo. Essa agenda visa à responsabilização de instituições públicas e privadas pela conciliação entre desenvolvimento econômico, impacto social e preservação ambiental, em consonância com a lógica do triple bottom line, conforme proposto por Elkington (1997). Embora seus princípios já fossem debatidos em diferentes esferas, a adoção formal e sistematizada da agenda ESG pelas empresas é relativamente recente, intensificando-se a partir da década de 2010, segundo Breda et al. (2024).
O foco central da ESG é sustentado por três pilares: ambiental, social e governança. Embora os três pilares sejam igualmente importantes, estudos recentes indicam que as ações relacionadas ao meio ambiente e à governança tendem a apresentar métricas mais claras, permitindo uma avaliação mais objetiva do seu impacto. Amaral, Willerding e Lapolli (2023) afirmam que as práticas ambientais e de governança são mais facilmente mensuráveis, enquanto o pilar social enfrenta maiores desafios quanto à comprovação de sua efetiva aplicação.
O pilar ambiental da agenda ESG apresenta-se como o mais consolidado, sobretudo em razão da existência de um arcabouço jurídico robusto e do avanço da conscientização social acerca dos impactos ambientais em escala global. No contexto brasileiro, a amplitude e a complexidade da legislação ambiental (Machado, 2015), associadas à crescente sensibilização social diante dos riscos ambientais vinculados ao modelo de desenvolvimento contemporâneo (Porto-Gonçalves, 2006), evidenciam a centralidade do tema. A governança, por sua vez, é a pauta mais concreta da agenda, pois sua adoção nas organizações é praticamente inevitável, tanto por exigências legais quanto pela crescente demanda de transparência e integridade por parte dos stakeholders. No Brasil, as discussões sobre governança se intensificaram, principalmente após crises corporativas e escândalos de corrupção, que evidenciaram a necessidade de maior rigor no controle social das práticas empresariais (Andrade e Rossetti, 2017).
Já o pilar social tem se revelado o mais frágil no que tange à comprovação de sua aplicação prática. Muitas iniciativas, embora reconhecidas, ainda se limitam à criação de programas superficiais e não estabelecem mecanismos claros para a verificação de sua efetividade. Dessa forma, apesar da visibilidade dada às questões sociais, ainda são limitados os mecanismos capazes de aferir a efetividade das ações implementadas.
Diante desse contexto, persiste o desafio de compreender se as iniciativas sociais adotadas pelas empresas, para além de sua divulgação, produzem impactos positivos nas comunidades. A análise torna-se mais complexa quando se considera o setor de atuação da empresa, como o de bebidas alcoólicas, que está potencialmente associado a problemas sociais como o consumo abusivo e a dependência. Dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA, 2024) indicam que o consumo abusivo de álcool no Brasil passou de 18,1% para 20,8% em 2023. As percepções acerca do impacto da bebida alcoólica na vida social dos indivíduos tornam relevante a investigação sobre as iniciativas sociais desenvolvidas por empresas desse setor, especialmente diante dos efeitos positivos e negativos dessas atividades econômicas.
A partir dessa lacuna, o presente estudo propõe analisar um projeto social desenvolvido pela Ambev, empresa brasileira de bebidas, criada em 1999 pela união da Cervejaria Brahma e da Companhia Antarctica, que lidera o mercado de cervejas no Brasil e opera em vários outros países da América. O objetivo é investigar em que medida o discurso de responsabilidade social corporativa da empresa se alinha às percepções do público externo sobre suas iniciativas sociais.
2. Material e Métodos
A pesquisa caracterizou-se como qualitativa, buscando a compreensão da dinâmica das relações sociais e a interpretação das percepções da comunidade acerca dos projetos sociais desenvolvidos pela Ambev. Conforme destacam Gerhardt e Silveira (2009), a pesquisa qualitativa centra-se na compreensão e explicação dos fenômenos sociais a partir dos significados atribuídos pelos grupos envolvidos. Adicionalmente, foi de natureza exploratória, cujo objetivo foi proporcionar maior familiaridade com o problema investigado, tornando-o mais explícito e possibilitando a construção de hipóteses (Gerhardt; Silveira, 2009).
O delineamento metodológico adotado foi o estudo de caso comparativo, que permitiu a análise aprofundada da atuação social de uma única organização e das percepções de seus stakeholders, indivíduos e/ou grupos afetados pela concretização dos objetivos da empresa (Freeman, 1984). A escolha por esse delineamento justificou-se pela complexidade do objeto investigado e pela necessidade de articular mais de uma fonte de evidência (Gil, 2007; Yin, 2015).
A Ambev, organização objeto do estudo, é uma empresa de grande porte, de capital aberto, atuante no setor de bebidas, com produção e comercialização de bebidas alcoólicas e não alcoólicas. Trata-se de uma companhia integrante de um grupo multinacional, com presença no território brasileiro, incluindo unidades produtivas e centros de distribuição localizados em diferentes regiões do país, com destaque para o estado de São Paulo. A escolha de uma empresa do ramo de bebidas conferiu maior complexidade à análise do pilar social da agenda ESG, considerando os impactos associados ao consumo de bebidas alcoólicas (CISA, 2024).
A coleta de dados baseou-se exclusivamente em fontes públicas, não sendo necessário o contato direto com representantes institucionais nem o acesso a informações sigilosas. O percurso metodológico foi estruturado sob a forma de um protocolo de pesquisa, conforme propõe Flick (2009). As fontes primárias foram o Relatório Anual de Sustentabilidade da Ambev, edição de 2025 com dados referentes ao ano de 2024, e comentários publicados no feed do Instagram da empresa, coletados ao longo de 2024.
A seleção do Instagram como plataforma de coleta de dados ocorreu a partir de uma etapa exploratória destinada a identificar, entre as redes sociais institucionais da organização (Instagram, LinkedIn e Threads), aquela que apresentava maior pertinência ao objeto da pesquisa. O Instagram foi selecionado por reunir, no período analisado, maior quantidade de publicações e comentários diretamente relacionados ao projeto investigado, configurando-se como um espaço legítimo para a investigação qualitativa de práticas discursivas situadas (Flick, 2009).
Para a análise dos comentários, delimitou-se a coleta aos dez primeiros comentários de cada postagem no feed do Instagram da Ambev, referentes ao ano de 2024, que continham opiniões escritas e eram pertinentes ao objeto de estudo. Comentários não pertinentes ao desenvolvimento do trabalho, como reclamações de consumo individual, comentários genéricos sem relação com o projeto, emojis isolados ou palavras descontextualizadas, foram desconsiderados. A delimitação temporal foi fundamental para garantir a profundidade analítica e evitar dispersões que comprometessem a consistência dos resultados (Gil, 2007).
A análise dos dados foi realizada utilizando o método de análise de conteúdo, conforme a metodologia proposta por Bardin (2016). Essa abordagem permitiu a interpretação sistemática do discurso corporativo presente no Relatório de Sustentabilidade e das percepções expressas nos comentários do Instagram, alinhando-se à perspectiva qualitativa centrada na compreensão das relações sociais (Gerhardt; Silveira, 2009).
Os dados extraídos do Instagram e do Relatório Anual de Sustentabilidade foram organizados e classificados em sete categorias analíticas predefinidas: a) avaliação geral do projeto; b) acesso e participação; c) relação econômica e financeira; d) condições de trabalho e parceria; e) comunicação e responsividade institucional; f) ética, responsabilidade social e ambiental; e g) imagem corporativa. Essas categorias foram aplicadas de forma transversal a ambas as fontes, permitindo confrontar o discurso institucional com as percepções expressas pela comunidade.
A interpretação dos resultados foi orientada por dois eixos analíticos principais: o discurso institucional da empresa, considerando estratégias, narrativas e formas de comunicação relacionadas aos projetos sociais, e as percepções externas, a partir da análise dos comentários e manifestações da comunidade. Buscou-se identificar e analisar possíveis convergências e tensões entre o discurso organizacional e a recepção social das iniciativas, em coerência com o objetivo de investigar o alinhamento entre o discurso de responsabilidade social corporativa e as percepções do público externo.
3. Resultados e Discussão
A análise comparativa entre o discurso institucional da Ambev, presente em seu Relatório Anual de Sustentabilidade de 2025, e as percepções do público externo, manifestadas em comentários no Instagram da empresa durante o ano de 2024, revelou um descompasso significativo. Enquanto o relatório constrói uma narrativa estratégica de responsabilidade social corporativa, as manifestações da comunidade indicam experiências que tensionam essa imagem. O estudo evidenciou que, embora a empresa se esforce para alinhar-se aos princípios da agenda ESG, a materialização prática dessas diretrizes, especialmente no pilar social, enfrenta desafios consideráveis, conforme a perspectiva de Bertoncello e Chang Junior (2007) sobre a incorporação dos interesses de múltiplos atores sociais.
No que concerne ao discurso corporativo, o Relatório de Sustentabilidade de 2025 não apresenta um projeto social isolado, mas sim uma série de iniciativas diluídas em informações relevantes para os stakeholders, como objetivos, lucros e riscos. Essa abordagem estratégica visa a uma narrativa integrada, com múltiplas ações conectadas, o que, por sua vez, dilui a análise de impacto específico e reforça o caráter sistêmico das atividades da empresa. A organização busca associar seu sucesso empresarial à capacidade de estabelecer e sustentar vínculos com diversos públicos, reforçando a centralidade do pilar social como um elemento estratégico para sua legitimação institucional.
A narrativa institucional reitera projetos sociais articulados a valores como responsabilidade, impacto positivo e crescimento compartilhado, buscando aproximar a empresa de demandas sociais amplamente reconhecidas por seus stakeholders. Inserida no mercado de bebidas alcoólicas, a Ambev utiliza iniciativas como a distribuição de água potável em calamidades ou programas de inclusão produtiva para reposicionar simbolicamente sua imagem, deslocando o foco da atividade principal para o consumo responsável e o compromisso social. Essa estratégia contribui para a construção de uma imagem socialmente comprometida, conforme observado na análise do discurso.
A avaliação geral dos projetos no relatório é predominantemente positiva e generalizada, especialmente no que tange às condições de trabalho e participação. A relação econômica é apresentada de forma diluída, sem vincular diretamente ações sociais a resultados financeiros específicos. A imagem corporativa é construída para ressaltar aspectos positivos, como ética e preocupação socioambiental. Contudo, o relatório não aborda diretamente a percepção da comunidade externa, embora mencione os stakeholders, o que limita a análise da categoria individualmente e reforça a necessidade de confrontar o discurso com as experiências do público.
Apesar da ênfase em narrativas positivas sobre o impacto social, o relatório também inclui trechos que abordam os riscos associados às atividades da empresa, inseridos em seções de conformidade e gestão de riscos. Esses conteúdos contrastam com o discurso institucional de impacto positivo, evidenciando tensões entre a construção de legitimidade e o reconhecimento de potenciais impactos adversos. Essa dualidade sugere uma complexidade na comunicação corporativa, onde a empresa busca equilibrar a promoção de suas ações sociais com a transparência sobre os desafios inerentes ao seu setor e operações.
Na análise dos excertos do Relatório de Sustentabilidade, foram categorizados 48 registros. A maioria desses excertos foi alocada na categoria “comunicação e responsividade institucional”, que representou 11 registros. Em seguida, as categorias “ética, responsabilidade social e ambiental” e “condições de trabalho e parceria” apresentaram 10 registros cada. A categoria “imagem corporativa” teve 7 registros, “avaliação geral do projeto” 6, “relação econômica e financeira” 3 e “acesso e participação” 1. Essa distribuição indica as áreas de maior ênfase no discurso formal da empresa.
Em contrapartida, a análise dos comentários no Instagram revelou um cenário distinto. Foram categorizados 87 comentários, distribuídos em 13 postagens. A categoria “condições de trabalho e parceria” concentrou o maior volume de manifestações, com 40 comentários, sendo a maioria de cunho negativo. As demais categorias receberam: “comunicação e responsividade institucional” (15 comentários), “ética, responsabilidade social e ambiental” (10 comentários), “imagem corporativa” (8 comentários), “avaliação geral do projeto” (6 comentários), “relação econômica e financeira” (5 comentários) e “acesso e participação” (3 comentários). Essa concentração de críticas aponta para uma área de alta sensibilidade e insatisfação entre os públicos.
Condições de trabalho e parceria
A categoria “condições de trabalho e parceria” emergiu como o principal ponto de tensão entre o discurso institucional e as percepções da comunidade. No relatório, a empresa enfatiza a valorização dos stakeholders, destacando a “escuta ativa” como estratégia central e o compromisso em “assegurar condições saudáveis e seguras de trabalho para todos os colaboradores, próprios e parceiros” (Ambev, 2025, p. 26). Essa narrativa busca associar a atuação da empresa a princípios de cuidado, suporte e desenvolvimento, alinhando-se às expectativas de responsabilidade social corporativa.
Entretanto, os comentários no Instagram revelaram uma realidade contrastante, marcada por relatos recorrentes de precarização, dificuldades operacionais e ausência de suporte adequado. As manifestações, provenientes principalmente de revendedores e ambulantes, destacaram problemas logísticos, longos períodos de espera e condições de trabalho inadequadas, especialmente durante eventos de alta demanda como o carnaval. Um relato exemplificou essa situação: “esse ano foi o pior carnaval (…), tivemos que dormir na rua (…) mais de 4 horas para conseguir abastecer (…), uma verdadeira vergonha” (Dados da pesquisa, 2026).
Outros comentários intensificaram as críticas, apontando para condições degradantes: “somos tratados iguais cachorro (…) não tem nem torneira para escovar os dentes (…) impossível trabalhar com sono, cansados e sem banho”. Essa discrepância entre o discurso institucional de uma relação estruturada e segura e as experiências concretas dos trabalhadores indiretos evidencia fragilidades na execução das diretrizes de responsabilidade social. A “escuta ativa” promovida pela empresa não se materializa, segundo os relatos, em respostas efetivas às necessidades desses trabalhadores, indicando uma lacuna entre a intenção e a prática percebida.
Avaliação geral do projeto
Na categoria “avaliação geral do projeto”, observou-se uma clara discrepância entre a comunicação da empresa e a percepção do público. O discurso institucional da Ambev apresenta seus projetos com um viés positivo, transformador e com ênfase no crescimento compartilhado. Contudo, as avaliações dos comentários foram todas de cunho negativo, questionando a transparência e a veracidade das informações divulgadas. Essa divergência sugere que a legitimidade construída pela empresa difere significativamente da legitimidade percebida pelos públicos externos, indicando um desafio na construção de confiança.
Comunicação e responsividade institucional
A categoria “comunicação e responsividade institucional” concentrou críticas relacionadas ao atendimento ao cliente e à resolução de problemas. Enquanto o relatório da Ambev afirma que a “escuta é […] o ponto de partida” para identificar e resolver as “dores do ecossistema” (Ambev, 2025, p. 21), os parceiros reclamaram da dificuldade em resolver chamados ou concretizar compras. Embora a empresa relate valores de longo prazo e impacto transformador, e reconheça no relatório que não há garantia de gerenciamento adequado dos riscos sociais, as manifestações indicam que a existência de canais de comunicação não se traduz em responsividade efetiva às demandas.
Relação econômica e financeira
Na categoria “relação econômica e financeira”, o relatório da empresa apresenta lucros significativos para o período de 2024, mas não detalha os investimentos específicos em projetos sociais. Essa ausência de informações concretas limita a avaliação da dimensão material do compromisso social da empresa. As manifestações do público, por sua vez, focaram em cobranças relacionadas a pagamentos pendentes de um edital cultural e dificuldades de acesso a linhas de crédito fornecidas pela empresa, deslocando a discussão para a experiência concreta dos beneficiários e parceiros em relação aos recursos.
Acesso e participação
A categoria “acesso e participação” não apresentou uma dicotomia tão acentuada quanto outras. O discurso da empresa no Relatório de Sustentabilidade descreve suas iniciativas como amplas, inclusivas e com alcance significativo, com a meta de mobilizar 5 milhões de pessoas até 2032. No entanto, apenas um comentário crítico foi coletado nesta categoria, apontando uma suposta preferência da empresa por fechar negócios com parceiros de grande porte em detrimento de pequenos empreendedores. Essa lacuna empírica nos comentários não permite confirmar ou refutar a narrativa institucional, sugerindo a necessidade de investigação mais aprofundada.
Ética, responsabilidade social e ambiental
A categoria “ética, responsabilidade social e ambiental” revelou críticas pontuais sobre a distribuição em massa de bebidas alcoólicas, mas essas não foram embasadas em experiências sociais robustas o suficiente para confrontar o que o relatório propõe. O tema da responsabilidade ambiental foi mencionado em apenas um comentário genérico. Em contraste, a empresa afirma liderar iniciativas ambientais, com programas focados na redução do impacto ambiental e no estímulo ao uso de embalagens retornáveis, dedicando 10 dos 48 excertos do relatório a essa frente e destacando sua atuação em desastres ambientais e pandemias.
Imagem corporativa
A categoria “imagem corporativa” apresentou uma natureza dicotômica. A empresa projeta uma imagem ética, comprometida, de alto impacto, valor e perenidade em seu discurso. Contudo, os stakeholders, especialmente os colaboradores indiretos, expressaram desconfiança em relação às informações publicadas pela empresa e aos relatos de terceiros. Essa divergência sugere que a construção da imagem socialmente responsável não se sustenta apenas no plano discursivo, exigindo coerência entre o que é comunicado e o que é efetivamente experienciado pelos públicos.
O perfil dos sujeitos que se manifestaram nos comentários analisados é um aspecto relevante. As interações concentraram-se em clientes diretos, consumidores e, principalmente, colaboradores indiretos, como ambulantes. Esses públicos, frequentemente em posições mais vulneráveis na cadeia de valor, são os que mais expressaram críticas. No caso dos colaboradores indiretos, a relação de dependência econômica com a empresa, apesar das condições adversas e contestações, limita sua margem de decisão efetiva, uma vez que a continuidade de seus negócios depende do acesso aos produtos da Ambev.
Em contraste, o consumidor final, embora também tenha apresentado críticas, demonstrou um engajamento menor em volume e intensidade. Notavelmente, outros stakeholders relevantes, como investidores, parceiros institucionais e colaboradores diretos, não participaram de forma significativa das interações nas redes sociais analisadas. Esse cenário sugere que as críticas públicas tendem a emergir predominantemente dos segmentos mais expostos às condições operacionais e aos efeitos diretos das práticas corporativas, enquanto grupos com maior poder institucional ou menor dependência imediata da atividade permanecem relativamente silenciosos no espaço de discussão.
A hipótese inicial de que a inserção da empresa no setor de bebidas alcoólicas tensionaria as críticas sociais, especialmente na categoria de responsabilidade social corporativa, não se sustentou de forma robusta. Apenas duas das 87 manifestações analisadas abordaram explicitamente a questão do consumo de álcool, sugerindo que o público prioriza questões mais imediatas e experienciadas, como as condições de trabalho e o suporte oferecido. Isso pode indicar uma relativa eficácia do discurso institucional em reorientar o debate público, afastando o foco da natureza da atividade econômica da empresa.
Os resultados desta pesquisa evidenciam que a relação entre organizações e stakeholders é uma via de mão dupla, onde os públicos envolvidos não apenas são afetados pelas decisões da empresa, mas também produzem avaliações, críticas e demandas que tensionam o discurso institucional. A consideração dos stakeholders, portanto, implica não apenas reconhecer sua existência na comunicação corporativa, mas compreender que suas experiências e manifestações contribuem para a construção da atuação e da imagem da organização, reforçando a necessidade de que o discurso institucional se traduza em práticas concretas e percebidas como legítimas.
Em síntese, a pesquisa revelou um descompasso significativo entre o discurso de responsabilidade social corporativa da Ambev e a percepção social de suas iniciativas, com a categoria “condições de trabalho e parceria” sendo o principal ponto de tensão. Embora o discurso institucional se alinhe às premissas do ESG, sua efetividade depende da capacidade de traduzir esses princípios em práticas concretas, percebidas como legítimas pelos diferentes públicos. A análise comparativa entre o relatório e as manifestações da comunidade evidencia que a construção de uma imagem socialmente responsável exige coerência entre o que é comunicado e o que é efetivamente experienciado, desafiando a empresa a aprimorar suas práticas no pilar social da agenda ESG.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou investigar a medida em que o discurso de responsabilidade social corporativa da Ambev se alinhava às percepções do público externo sobre suas iniciativas sociais. Verificou-se um descompasso significativo entre a narrativa institucional, presente no Relatório Anual de Sustentabilidade de 2025, e as experiências relatadas pela comunidade em comentários no Instagram da empresa durante 2024. Identificou-se que, embora o discurso corporativo construísse uma imagem de impacto positivo e crescimento compartilhado, as manifestações dos stakeholders, especialmente trabalhadores informais como ambulantes e entregadores, apontaram para condições de trabalho precarizadas, dificuldades operacionais e ausência de suporte adequado. A categoria “condições de trabalho e parceria” emergiu como o principal ponto de tensão, evidenciando que a “escuta ativa” promovida pela empresa não se materializava em respostas efetivas às necessidades desses públicos. Observou-se, ainda, uma discrepância na avaliação geral dos projetos e na comunicação institucional, onde a legitimidade construída pela empresa diferia da legitimidade percebida pelos públicos.
A pesquisa contribuiu para o debate sobre responsabilidade social corporativa no Brasil, ao fornecer subsídios que podem auxiliar gestores e formuladores de políticas no aprimoramento das práticas voltadas à dimensão social da agenda ESG. Contudo, o estudo apresentou limitações, como a assimetria na participação dos stakeholders, visto que grupos com maior poder institucional ou menor dependência da empresa permaneceram relativamente silenciosos no espaço analisado. Além disso, a categoria “acesso e participação” não produziu evidências suficientes para confirmar ou refutar a narrativa institucional, sugerindo a necessidade de investigação mais aprofundada sobre a efetividade das iniciativas de inclusão e o perfil dos beneficiários. Os resultados reforçam que a construção de uma imagem socialmente responsável exige coerência entre o que é comunicado e o que é efetivamente experienciado pelos diferentes públicos, desafiando as organizações a traduzir os princípios do ESG em práticas concretas e percebidas como legítimas.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Compliance e ESG do MBA USP/Esalq
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