Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

29 de setembro de 2026

Atenção alternada em crianças autistas: estratégias pedagógicas para professores de classes regulares

Atenção Alternada em Crianças Autistas: Estratégias Pedagógicas para Professores de Classes Regulares

Aline Pereira da Silva; Lea da Silva Veras

DOI: 10.22167/2675-6528-202602621

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A atenção alternada, definida como a capacidade de redirecionar o foco de uma atividade para outra, mostrou-se comprometida em crianças autistas. Buscou-se refletir sobre o cotidiano de professores diante da inclusão desses alunos em classes regulares e apresentar estratégias pedagógicas que pudessem contribuir para a aprendizagem de estudantes em circunstâncias semelhantes. Realizou-se uma revisão bibliográfica, articulada à reflexão sobre a trajetória docente em contextos escolares marcados pela expansão das políticas de inclusão. Com base nessas vivências, construíram-se casos inspirados em situações recorrentes observadas ao longo da prática profissional, com características reorganizadas para preservar a identidade dos estudantes e impedir correspondência direta com casos individuais. A análise desses casos, fundamentada na literatura, permitiu discutir como o manejo adequado das situações, a aproximação entre os interesses dos alunos e os conteúdos curriculares, e a utilização contínua de estratégias pedagógicas diversificadas podem favorecer os processos de ensino e aprendizagem de estudantes autistas, especialmente diante de dificuldades relacionadas à alternância da atenção. Concluiu-se que é fundamental considerar a individualidade de cada criança, compreendendo que as estratégias propostas possuem caráter orientador e devem ser adaptadas a cada contexto, não constituindo um modelo rígido de intervenção.

Palavras-chave: Adaptação; autismo; inclusão escolar; práticas educacionais.

1. Introdução

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por comprometimentos na comunicação e interação social, manifestando-se em diversos contextos (DSM-5, 2023). A compreensão e o manejo adequados dessas características são fundamentais para a inclusão educacional, que se tornou uma pauta central nas políticas públicas.

No cenário educacional brasileiro, observa-se um crescimento significativo no número de alunos com TEA matriculados em classes regulares. Dados do Ministério da Educação (2025) indicam um aumento de 44,4% nas matrículas de estudantes com transtorno do espectro autista na educação básica entre os anos de 2023 e 2024, passando de 636.202 para 918.877. Este cenário ressalta a urgência de se desenvolverem práticas pedagógicas inclusivas eficazes e adaptadas.

A inclusão de alunos neurodivergentes em salas de aula regulares, no entanto, apresenta desafios consideráveis para os professores. A falta de formação docente adequada é uma das principais barreiras, pois a formação inicial muitas vezes não prepara os educadores para as necessidades específicas da sala de aula inclusiva, gerando insegurança (Oliveira, 2026). Consequentemente, os professores se veem diante da necessidade de planejar aulas com adaptações de atividades, recursos e estratégias de manejo comportamental. Embora a Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana) garanta o direito a acompanhante especializado, é comum que o professor atue sozinho em turmas numerosas, enfrentando dificuldades para atender às particularidades de cada estudante.

Entre as especificidades que podem impactar o aprendizado de crianças autistas, destacam-se as dificuldades relacionadas à atenção alternada. Esta habilidade cognitiva, definida como a capacidade de redirecionar o foco de uma atividade para outra, pode ser comprometida em indivíduos com TEA. Em ambiente escolar, a criança autista pode estar imersa em seu hiperfoco, tornando o redirecionamento da atenção para as atividades curriculares um desafio. Machado e Pereira (2023) descrevem a alternância do foco atencional de um estímulo para outro como uma fraqueza cognitiva para o aluno autista, sendo uma habilidade essencial para a flexibilidade cognitiva.

Tais dificuldades atencionais comprometem diretamente o processo de aprendizagem. A atenção direcionada ao conteúdo é um pré-requisito fundamental para a aquisição do conhecimento, pois permite o desenvolvimento da concentração, a prevenção de distrações, a assimilação de informações e a conexão entre ideias e saberes já existentes (Queiroz et al., 2024). Dessa forma, a busca por alternativas e estratégias diversificadas é crucial para engajar crianças autistas nas tarefas escolares diárias e promover seu desenvolvimento.

Diante deste contexto e da necessidade de apoiar a prática docente, a presente pesquisa justifica-se pela relevância de oferecer subsídios práticos para a educação inclusiva. Assim, este estudo empenhou-se em identificar estratégias pedagógicas para que crianças com Transtorno do Espectro Autista aprimorem a atenção alternada, ou seja, a capacidade de mudar de uma tarefa para outra e consigam manter o foco atencional após a mudança.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, adotando a abordagem de estudo de caso. O objetivo central foi identificar estratégias pedagógicas para o aprimoramento da atenção alternada em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em classes regulares. A metodologia empregada articulou uma revisão bibliográfica com a reflexão sobre a trajetória docente da pesquisadora, fundamentando a construção de situações-problema inspiradas em vivências profissionais.

A unidade de análise consistiu em três casos construídos, inspirados em situações recorrentes observadas ao longo da prática profissional da pesquisadora. Esses casos foram elaborados a partir de vivências em turmas de 3º e 4º anos do Ensino Fundamental I, envolvendo crianças de 8 a 9 anos. Os estudantes que serviram de inspiração para os casos apresentavam diagnóstico de TEA ou características semelhantes, com dificuldades notáveis na alternância da atenção.

Para preservar a identidade dos estudantes e das instituições envolvidas, os casos foram construídos com características reorganizadas e combinadas, impedindo a correspondência direta com indivíduos específicos. Não se utilizaram nomes reais, dados pessoais ou informações institucionais que pudessem levar à identificação. Os nomes atribuídos aos personagens nos casos são fictícios, garantindo a confidencialidade e o anonimato dos envolvidos.

A coleta de dados para embasamento teórico realizou-se por meio de uma revisão bibliográfica especializada. Utilizou-se a plataforma Google Scholar para a busca de artigos, empregando palavras-chave derivadas de cada caso construído. A pesquisa foi exploratória, abrangendo artigos relevantes e referências de autores citados, a fim de contextualizar as situações-problema e fundamentar as estratégias pedagógicas propostas.

A reflexão sobre a trajetória docente da pesquisadora foi um pilar fundamental na coleta de dados. A partir de vivências profissionais, elencaram-se situações-problema cotidianas em sala de aula, focadas nas reações de crianças autistas ao serem redirecionadas de um foco atencional para outro. Descreveu-se o processo de transição e buscaram-se na literatura embasamento para as reações observadas e para as estratégias práticas.

A organização dos dados ocorreu pela estruturação de três casos, cada um contendo elementos específicos para a análise. Em cada caso, descreveram-se as características observáveis pertinentes às situações analisadas, a explicação da relevância do caso para o estudo, a contextualização da situação-problema e as reflexões que guiaram a construção das estratégias. Essa abordagem permitiu uma análise detalhada das dificuldades relacionadas à atenção alternada.

A análise dos dados foi realizada por meio da discussão dos casos construídos, à luz da literatura especializada. Buscou-se compreender como o manejo de situações específicas, a integração dos interesses dos alunos com os conteúdos curriculares e a aplicação de estratégias pedagógicas diversificadas poderiam favorecer o ensino e a aprendizagem de estudantes autistas. O foco da análise recaiu sobre as dificuldades relacionadas à alternância da atenção.

As intervenções delineadas para cada caso foram desenvolvidas com o propósito de servir como referências para professores. Elas visam oferecer possibilidades de adaptação às características individuais dos alunos e aos diversos contextos escolares. A intenção foi proporcionar um repertório de estratégias que pudessem auxiliar educadores diante de desafios semelhantes, sem constituir um modelo rígido de aplicação.

3. Resultados e Discussão

A presente seção aborda os achados da pesquisa, que se concentraram na identificação de estratégias pedagógicas para auxiliar crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a aprimorar a atenção alternada em classes regulares. A análise foi desenvolvida a partir de três casos inspirados em situações recorrentes da prática docente, observadas em um contexto escolar hipotético de Ensino Fundamental Anos Iniciais. Este ambiente é caracterizado pela crescente inclusão de alunos com diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, com turmas de 3º e 4º anos, compostas por uma média de trinta e cinco alunos, com idades entre oito e nove anos, atendidos por uma única professora. As discussões buscam oferecer possibilidades de intervenção que possam ser adaptadas às características individuais dos estudantes e aos diferentes contextos escolares, sem constituir um modelo rígido.

Os casos elaborados permitiram explorar as dificuldades relacionadas à atenção alternada, uma habilidade cognitiva essencial para a flexibilidade e o redirecionamento do foco entre diferentes atividades, conforme destacado por Machado e Pereira (2023). A partir da descrição de cada situação-problema, foram delineadas propostas de intervenção que visam minimizar os desafios enfrentados por esses alunos, promovendo um ambiente de aprendizagem mais inclusivo e eficaz. A relevância de cada caso foi contextualizada, e reflexões foram apresentadas para a construção de estratégias práticas, baseadas na literatura especializada e nas vivências profissionais da pesquisadora.

Caso Théo – Afinidade tecnológica

O caso de Théo, um aluno de oito anos com diagnóstico de TEA e TDAH, ilustra as complexidades da atenção alternada em crianças com hiperfoco em estímulos digitais. Théo apresentava seletividade alimentar, comportamento impulsivo, reações agressivas e extrema dificuldade de relacionamento, além de uma alta reatividade emocional negativa. Sua imersão em conteúdos digitais, como vídeos, músicas e memes, gerava agitação e dificultava o desengajamento para as atividades escolares. Quando impedido de acessar esses recursos, Théo desregulava-se, irritava-se e agia com agressividade, arremessando materiais e precisando ser contido, o que resultava em lacunas significativas em sua aprendizagem.

A professora de Théo identificou a necessidade de adaptações na rotina escolar e nas propostas curriculares, conforme assegurado pela Lei Federal 12.764 (Brasil, 2012). As propostas de intervenção para casos semelhantes ao de Théo focaram em estratégias para uma transição mais gradual entre atividades de grande interesse e as demandas escolares. Inicialmente, o acolhimento em um local tranquilo, como a biblioteca, com acesso a recursos não digitais como gibis e livros, visava minimizar a inquietude e, gradualmente, desenvolver o interesse por atividades e pelo ambiente escolar, afastando-o do hiperfoco digital excessivo.

Em sala de aula, a dificuldade de Théo em manter-se sentado e seu comportamento hiperativo, com evocações verbais persistentes de conteúdos digitais, exigiu estratégias para canalizar esse fluxo de pensamentos. A utilização de uma “Mesa Personalizada”, revestida com papel branco para que ele registrasse seus pensamentos por meio de escrita ou desenhos, mostrou-se uma abordagem eficaz. Este recurso permitia que Théo organizasse sua comunicação, autorregulasse-se e estabilizasse-se fisicamente, promovendo um equilíbrio produtivo entre a expressão pessoal e o estudo, e reduzindo as interrupções na turma.

Para lidar com a sobrecarga cognitiva e as verbalizações persistentes, a retirada temporária de Théo da sala de aula, sob o pretexto de buscar materiais, era uma estratégia. Durante o trajeto, o professor poderia redirecionar o foco atencional por meio de diálogos sobre conteúdos curriculares, utilizando perguntas instigantes como “Você sabia que…”. Essa abordagem visava inseri-lo previamente no tema da aula, favorecendo seu engajamento ao retornar à turma. Outras estratégias incluíam a elaboração de desenhos temáticos alinhados ao conteúdo subsequente e o uso de questionamentos sobre os interesses da criança, como dinossauros ou números, para iniciar aulas de ciências ou matemática, por exemplo.

A pesquisa também considerou que nem todas as intervenções teriam o efeito desejado, sendo crucial analisar fatores externos que pudessem impactar o comportamento, como o clima. Mattos (2019) destaca que muitas crianças autistas apresentam alterações no processamento sensorial, o que pode levar à dispersão. Em dias de calor excessivo, a transferência da aula para um ambiente mais agradável ou o uso de abafadores em situações de ruído excessivo foram sugeridos. O fracionamento de tarefas em intervalos mais curtos e a priorização de atividades essenciais também foram apontados como estratégias para gerenciar a atenção. Além disso, a inclusão de sessões de relaxamento com música calma e técnicas de respiração após atividades intensas poderia beneficiar todos os alunos, promovendo um momento de calmaria na rotina escolar.

Caso Antônio – Predileção por atividades artesanais

O caso de Antônio, um aluno de oito anos com TDAH e TEA, revelou um perfil de bom desempenho acadêmico e facilidade na compreensão de conceitos, mas com dificuldades significativas na autorregulação, especialmente em situações envolvendo alimentação e frustração. Seu comportamento era caracterizado por agitação e impulsividade, com baixa tolerância à frustração, um traço prevalente em mais de oitenta por cento dos autistas avaliados por Machado e Pereira (2023). Antônio buscava sistematicamente a prevalência de seus interesses, recusando-se a seguir regras e contestando orientações, o que demonstrava uma fragilidade autorregulatória.

Antônio apresentava um hiperfoco em atividades artesanais, como recorte e colagem para criar objetos tridimensionais, desenhar, colorir e fazer pulseiras, conforme descrito por Santos e Teixeira (2024) como uma concentração intensa que o fazia perder a noção do tempo e do ambiente. Essa resistência em migrar o foco de suas atividades prazerosas para as tarefas escolares constituía um desafio constante. As intervenções propostas para Antônio focaram em adaptações para diferentes contextos, incluindo o período escolar e a alimentação, visando promover a transição e a autorregulação.

Para a alimentação, sugeriu-se a utilização de “fichas” ou cartões coloridos com imagens dos itens do cardápio escolar e suas quantidades, entregues diariamente antes do recreio. Essa estratégia, com a orientação prévia dos profissionais da cozinha, visava garantir uma alimentação adequada e o cumprimento dos combinados. Em momentos de desregulação, irritação ou frustração, a professora, como principal referência do aluno, interviria com conversas para gradualmente mudar o foco de atenção de Antônio, atenuando as consequências da crise.

Em sala de aula, a diversificação de estratégias foi considerada fundamental, dada a natureza transitória da eficácia de cada uma. A professora deveria avaliar continuamente o cenário e adaptar as práticas pedagógicas. Para engajar Antônio em lições que envolviam leitura e escrita, que ele geralmente recusava apesar de dominar as habilidades, propôs-se o uso de “missões secretas”. A professora entregaria filipetas com tarefas, denominando-as “missões”, mantendo um tom de suspense e discrição. Essa ludicidade, aliada à divisão das atividades em partes menores, conforme sugerido por Santos et al. (2025), evitava a perda de atenção e prolongava o engajamento, minimizando conflitos.

Outras estratégias incluíram o uso de um cronômetro para gerenciar o tempo das tarefas, promovendo autonomia e reduzindo a ansiedade, e a implementação de uma rotina visual com um quadro colorido dos horários das aulas. Este quadro, com um campo para validação conjunta entre aluno e professora, auxiliava na antecipação das tarefas e proporcionava segurança. A viabilização de pausas para descompressão de cinco minutos após cada aula concluída, com atividades de livre escolha da “Caixa de atividade” (massinha, papéis coloridos, revistas), também foi proposta. Embora desafiador inicialmente, o cumprimento desses combinados tende a ser compreendido e seguido ao longo do tempo, auxiliando no desenvolvimento da atenção alternada.

Caso Douglas – Aptidão para expressões artísticas

O caso de Douglas, um aluno autista de oito anos, destacou a limitação na interação e comunicação social, seletividade alimentar e padrões restritos e repetitivos de comportamento. Douglas não se alimentava nem se hidratava durante o período escolar devido às suas restrições, o que o impedia de participar de saídas de estudo. Ele demonstrava insegurança em momentos como o recreio, preferindo a proximidade da professora. Em sala de aula, Douglas ficava imerso em seus desenhos, desconectando-se do ambiente. Embora realizasse as atividades teóricas com facilidade, não demonstrava interesse em atividades práticas ou coletivas, sempre retornando discretamente à sua expressão artística.

A resistência de Douglas à mudança de foco era manifestada de forma discreta, por meio de choro silencioso, tentando reprimir suas insatisfações. Machado e Pereira (2023) observaram que mais de sessenta e cinco por cento dos autistas apresentam esse comportamento resistente às alterações. As propostas de intervenção para Douglas focaram em abordar a dificuldade de flexibilidade cognitiva e de alternância do foco atencional, bem como a necessidade de um adulto de referência diante de sua insegurança.

Para lidar com a não permanência de Douglas no recreio, sugeriu-se a reorientação de sua conduta, oferecendo novas possibilidades pedagógicas. A inserção em um ambiente tranquilo, como a biblioteca, com acesso a obras literárias e recursos lúdicos, poderia favorecer o contato com outras crianças e a identificação com algumas delas. Em sala de aula, a alocação estratégica de Douglas próximo à professora, com uma mesa livre de distratores, favoreceria um acompanhamento focalizado e o estímulo ao engajamento em atividades orais. Após a conclusão das tarefas, uma pausa estratégica com um caderno de desenhos para uso pessoal foi proposta enquanto os demais alunos finalizavam seus exercícios.

Visando o aprimoramento das competências interpessoais e a alternância de foco, sugeriu-se a designação de Douglas como “Auxiliar da turma” após o período de descompressão. Nesta função, ao circular pela sala para entregar atividades, ele seria estimulado a reorientar sua atenção, facilitando a transição de seu hiperfoco artístico para as demandas coletivas. Essa intervenção é fundamental para a alternância de estímulos, conferindo maior fluidez e dinamismo à sua rotina escolar. A necessidade de propostas diversas e ativas é evidente, pois crianças com TEA podem apresentar rápida dispersão cognitiva fora de seu hiperfoco, exigindo da professora um ciclo constante de observação, reflexão, tentativa e redirecionamento de práticas.

Atenção alternada em autistas

Os casos apresentados revelam que as dificuldades na alternância do foco atencional em crianças autistas manifestam-se de diversas formas, desde a impulsividade e agressividade de Théo, passando pela resistência frustrada de Antônio, até a resistência mais pacífica e discreta de Douglas. Todos os estudantes, contudo, demandam intervenções pedagógicas adequadas para as diferentes situações do cotidiano escolar, visando reduzir episódios de desregulação e promover um ambiente de aprendizagem mais adaptativo. A atenção alternada, conforme definido por Franco (2005), é a capacidade de desengajar-se de um foco e aderir a outro, e sua fragilidade impacta diretamente a participação e o desempenho acadêmico.

Os alunos descritos demonstravam hiperfoco em temas específicos, o que, segundo Fragoso e Barbosa (2025), é uma concentração extrema em um estímulo ou tarefa. Essa característica, embora possa ser um ponto de partida para certas aprendizagens, torna o engajamento em conteúdos escolares tradicionais um desafio significativo, exigindo uma mediação pedagógica mais intensa. A dificuldade na flexibilidade cognitiva, que se manifesta como resistência à mudança e insistência em um mesmo estímulo ou atividade (Cardoso; Pitanga, 2020), é um fator central a ser considerado no planejamento das intervenções.

Estratégias e adaptações de apoio ao aluno autista

As adaptações às atividades escolares demandam um planejamento estratégico, mas muitas vezes surgem da observação atenta das necessidades e interesses das crianças durante as intervenções. É crucial que o professor esteja verdadeiramente atento às características e falas de cada aluno, demonstrando cuidado e disposição para ajudar. Santos e Teixeira (2024) enfatizam que a utilização do hiperfoco do aluno nas adaptações das atividades pode impulsionar sua produtividade e engajamento, transformando um desafio em uma ferramenta pedagógica.

Para que esse envolvimento seja efetivo, o professor precisa investir tempo na construção de um vínculo de confiança e estabilidade com o aluno. Oliveira e Lopez (2024) afirmam que a relação afetiva entre professor e aluno influencia diretamente a aprendizagem. Portanto, a criação de um ambiente seguro e acolhedor é um pré-requisito para o sucesso das estratégias. A atuação do professor deve ser pautada em um ciclo contínuo de observação, reflexão, tentativa e redirecionamento de suas práticas, uma vez que crianças com TEA podem apresentar rápida dispersão cognitiva em atividades que não fazem parte de seu hiperfoco.

Em síntese, a pesquisa evidenciou que a atenção alternada é um desafio significativo para crianças autistas, impactando sua participação e aprendizagem em classes regulares. As estratégias pedagógicas propostas, inspiradas em casos reais e fundamentadas na literatura, demonstraram a importância de acolher o aluno, utilizar seus hiperfocos como ponto de partida, estruturar transições, considerar fatores sensoriais e ambientais, e fortalecer o vínculo professor-aluno. Esses achados reforçam que as intervenções devem ser flexíveis e adaptadas à individualidade de cada criança, buscando promover a autonomia e o engajamento no processo educacional.

4. Conclusão

A presente pesquisa empenhou-se em identificar estratégias pedagógicas para que crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) aprimorassem a atenção alternada, ou seja, a capacidade de mudar de uma tarefa para outra e manter o foco atencional após a mudança. Verificou-se que a dificuldade na alternância do foco atencional em estudantes autistas manifesta-se de diversas formas, desde a impulsividade e agressividade até a resistência discreta, impactando diretamente a participação e o desempenho acadêmico. Observou-se que o hiperfoco em temas específicos, embora possa ser um ponto de partida para certas aprendizagens, torna o engajamento em conteúdos escolares tradicionais um desafio significativo. Para mitigar essas dificuldades, identificou-se um conjunto de estratégias que incluíram o acolhimento em ambientes tranquilos, a utilização de recursos visuais e lúdicos como a “Mesa Personalizada” e “missões secretas”, a estruturação de transições graduais entre atividades, e a consideração de fatores sensoriais e ambientais. Tais abordagens visaram canalizar o fluxo de pensamentos, promover a autorregulação e facilitar o redirecionamento da atenção, transformando os interesses dos alunos em ferramentas pedagógicas.

A principal contribuição deste estudo reside na oferta de um repertório de possibilidades pedagógicas que podem apoiar a prática docente na inclusão escolar de alunos autistas em classes regulares, especialmente no que tange ao manejo da atenção alternada. As estratégias apresentadas, inspiradas em situações recorrentes da prática profissional e fundamentadas na literatura, demonstram a importância de um vínculo de confiança entre professor e aluno, e da flexibilidade na aplicação das intervenções. Contudo, é fundamental reconhecer que cada criança autista possui suas especificidades, e as estratégias propostas têm caráter orientador, devendo ser adaptadas a cada contexto individual, não constituindo um modelo rígido de intervenção. A formação continuada de professores emerge como uma estratégia crucial para fortalecer a prática inclusiva, permitindo que os educadores desenvolvam um ciclo constante de observação, reflexão e redirecionamento de suas práticas para otimizar os processos de ensino e aprendizagem desses estudantes.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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17 de setembro de 2026

Adaptação de Material Didático de Ciências para Alunos com Tea no Ensino Fundamental II

A neurociência tem impulsionado o desenvolvimento de métodos educacionais, especialmente para alunos com necessidades específicas, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Um estudo buscou elaborar um material didático adaptado de Ciências para estudantes com TEA no Ensino Fundamental II, focado em uma habilidade específica da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A pesquisa, de natureza aplicada e abordagem qualitativa, configurou-se como um estudo de caso com relato de experiência de um professor de Ciências em uma escola particular. Com base nos princípios da neurociência e da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), desenvolveu-se um programa de ensino para a habilidade EF06CI14, que incluiu sua operacionalização e quatro atividades adaptadas. A estruturação sequencial das atividades, juntamente com o emprego de recursos visuais, materiais concretos e estratégias lúdicas, promoveu a progressão da aprendizagem, o desenvolvimento das funções executivas, o engajamento, a atenção e a compreensão dos alunos. Observou-se também a redução da sobrecarga cognitiva e o favorecimento da autonomia dos estudantes. Concluiu-se que a adaptação de materiais didáticos, integrada aos princípios da ABA e aos fundamentos da neurociência, representa uma estratégia eficaz para fomentar uma educação mais inclusiva e significativa, contribuindo para um ensino equitativo e de qualidade.

Palavras-chave: Atividade adaptada; Educação básica; Inclusão; Neurociência na educação.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

16 de setembro de 2026

Neurociência, DUA e Inclusão no Currículo da Cidade de Matemática da Prefeitura de São Paulo

A demanda por sistemas de ensino flexíveis e adaptados à diversidade dos estudantes impulsionou a investigação das bases teóricas que sustentam os documentos curriculares oficiais. Analisou-se o Currículo da Cidade de Matemática da Prefeitura de São Paulo para identificar se suas proposições contemplaram os fundamentos da Neurociência Educacional, do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e as premissas da Educação Inclusiva. A metodologia empregou uma pesquisa aplicada, documental e descritiva, com abordagem mista e utilização da técnica de Análise de Conteúdo temática. Os resultados revelaram um robusto alinhamento teórico do documento com os eixos analisados, com destaque para o estímulo às funções executivas e à flexibilidade curricular. Contudo, a triangulação com dados secundários evidenciou disparidades persistentes, como elevados índices de ausência de estudantes com necessidades educacionais especiais (NEE) em avaliações oficiais e carência de acessibilidade física e de suporte especializado em parte das unidades escolares. Constatou-se que, embora o currículo possua elevado potencial técnico e inovador, sua efetivação na prática foi limitada por barreiras estruturais e pela oferta incompleta de Atendimento Educacional Especializado (AEE). Concluiu-se que a inclusão plena no ensino de matemática exigiu a articulação entre as inovações pedagógicas do plano teórico e as condições reais de infraestrutura e apoio docente. A teoria, isoladamente, não garantiu a reversão das desigualdades de desempenho na rede municipal.

Palavras-chave: Desenho Universal para Aprendizagem; Educação Inclusiva; Ensino de Matemática; Neurociência Educacional; Rede Municipal.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

16 de setembro de 2026

Currículos de Pedagogia e Neurociência:contribuições para uma Formação Docente Contemporânea

A pesquisa abordou a relevância da neurociência na formação de professores para atuarem com grupos cada vez mais heterogêneos e diversos. O estudo objetivou identificar a incorporação de estudos de neurociência em cursos de pedagogia, analisar sua oferta nas matrizes curriculares e compreender a relação dessa incorporação com a aprendizagem e o desenvolvimento cerebral, investigando as implicações de sua inserção na grade curricular. A metodologia empregada foi documental, exploratória e descritiva. Coletaram-se dados das matrizes curriculares de 20 instituições de ensino superior da capital de São Paulo, selecionadas por critérios de avaliação do MEC e RUF 2025, e realizaram-se buscas no Portal de Periódicos da CAPES para identificar produções acadêmicas. Os resultados revelaram baixa adesão de componentes curriculares de neurociência na formação inicial de educadores, com apenas 7 das 20 instituições analisadas oferecendo a disciplina. Observou-se também uma escassa produção acadêmica sobre o tema e uma maior concentração da neurociência em cursos de pós-graduação lato sensu, indicando uma inserção pontual e secundarizada na graduação. Concluiu-se que a baixa integração da neurociência nos currículos de graduação em Pedagogia limita a formação docente e a compreensão dos processos de aprendizagem. A pesquisa ressaltou a urgência de uma revisão curricular para incorporar a neurociência como eixo estruturante, visando uma formação mais crítica, fundamentada e alinhada às demandas educacionais contemporâneas.

Palavras-chave: Currículos de pedagogia; Educação; Formação de professores; Neurociência; Processo de Aprendizagem.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

16 de setembro de 2026

Dupla Excepcionalidade e Inclusão: Desafios e Estratégias Pedagógicas para o Desenvolvimento Integral do Aluno

A dupla excepcionalidade, caracterizada pela coexistência de altas habilidades/superdotação (AH/SD) com deficiências, transtornos ou síndromes, representa um desafio complexo para a inclusão escolar. A identificação e o atendimento a esses estudantes permanecem limitados, resultando em práticas pedagógicas insuficientes para o desenvolvimento de suas potencialidades. O estudo objetivou examinar a percepção de pais e responsáveis sobre o suporte educacional oferecido, identificando desafios e oportunidades de aprimoramento na gestão escolar. A metodologia adotou natureza exploratória e descritiva, utilizando levantamento de campo (survey) e pesquisa documental. Os dados foram coletados via questionário on-line e submetidos à análise quantitativa e de conteúdo. Os resultados revelaram que as escolas, em sua maioria, não participaram ativamente da identificação da dupla excepcionalidade, aceitando diagnósticos apresentados pelas famílias. Constatou-se que a comunicação entre família e escola foi frequentemente insuficiente, dificultando a construção de estratégias pedagógicas adequadas e a implementação de planos educacionais individualizados eficazes. Os achados contribuem para a compreensão da efetividade das políticas de inclusão sob a ótica familiar, apontando caminhos para práticas que assegurem tanto a valorização do potencial quanto o suporte às necessidades específicas dos alunos duplamente excepcionais.

Palavras-chave: Altas habilidades; Apoio familiar; Mascaramento; Práticas pedagógicas; Transtornos de aprendizagem.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

16 de setembro de 2026

Práticas Inclusivas da Avaliação para Alunos com Tea na Educação Básica: um Estudo do Conhecimento

A avaliação educacional é um pilar fundamental para superar defasagens e promover a aprendizagem, reconhecida por diretrizes nacionais e internacionais, sendo crucial para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Este estudo objetivou mapear a produção científica nacional sobre práticas inclusivas de avaliação para alunos com TEA na Educação Básica, visando subsidiar a elaboração de Planos Educacionais Individualizados. Realizou-se uma pesquisa quali-quantitativa, de caráter exploratório, por meio de revisão sistemática de literatura. A busca concentrou-se em teses e dissertações publicadas nos últimos cinco anos (a partir de 2025) na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), utilizando descritores como “transtorno do espectro autista” e “avaliação educacional”, “avaliação contínua” ou “avaliação das aprendizagens”. Os resultados indicaram que a produção científica não acompanhou o aumento de matrículas de estudantes com TEA, e não se observou correlação entre o volume de matrículas e a produção acadêmica por região. Identificaram-se lacunas na pesquisa sobre o Ensino Médio e componentes curriculares além de Língua Portuguesa e Matemática. As pesquisas analisadas enfatizaram a importância de considerar aspectos sociais e emocionais, além dos cognitivos, no processo avaliativo. O estudo forneceu indícios para futuras investigações, visando aprimorar as respostas às necessidades de estudantes com TEA em avaliações.

Palavras-chave: Avaliação educacional; Educação básica; Estratégias avaliativas; Inclusão; Transtorno do espectro autista.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

16 de setembro de 2026

Celular na Escola e o Desenvolvimento de Funções Executivas

A pesquisa analisou os prejuízos do uso de telas no desenvolvimento cognitivo infantil, com foco nas funções executivas, como controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. O estudo objetivou analisar as leis brasileiras nº 15.100/2025 e nº 15.211/2025 e sua relação com o desenvolvimento das funções executivas, comparando-as com políticas regulatórias da França (Lei nº 2018-698) e Bangladesh (Ordem Administrativa de 2017). Realizou-se uma pesquisa descritiva, com estudo de casos comparativo e análise documental das legislações mencionadas, além de uma revisão bibliográfica sobre o impacto do uso de telas nas funções executivas. Os resultados indicaram prejuízos do uso de telas no controle inibitório e na memória de trabalho na primeira infância, enquanto a flexibilidade cognitiva não apresentou danos evidentes e pode ser aprimorada por jogos digitais. A comparação das legislações revelou que Brasil e França apresentaram restrições mais semelhantes e menos restritivas, com justificativas ligadas ao desenvolvimento cognitivo infantil. No entanto, a legislação francesa limitou-se a escolas públicas, e a brasileira não especificou consequências para o descumprimento. Concluiu-se que a eficácia das políticas regulatórias depende da educação das comunidades escolares e da sociedade para o uso consciente e responsável da tecnologia, exigindo um equilíbrio entre restrição e uso pedagógico.

Palavras-chave: Brasil; Desenvolvimento cognitivo infantil; Educação; Políticas regulatórias; Uso de telas.

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