Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

16 de setembro de 2026

Currículos de Pedagogia e Neurociência:contribuições para uma Formação Docente Contemporânea

Pamela Amorim Gomes da Costa; Adriessa Santos

DOI: 10.22167/2675-6528-202602303

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

A pesquisa abordou a relevância da neurociência na formação de professores para atuarem com grupos cada vez mais heterogêneos e diversos. O estudo objetivou identificar a incorporação de estudos de neurociência em cursos de pedagogia, analisar sua oferta nas matrizes curriculares e compreender a relação dessa incorporação com a aprendizagem e o desenvolvimento cerebral, investigando as implicações de sua inserção na grade curricular. A metodologia empregada foi documental, exploratória e descritiva. Coletaram-se dados das matrizes curriculares de 20 instituições de ensino superior da capital de São Paulo, selecionadas por critérios de avaliação do MEC e RUF 2025, e realizaram-se buscas no Portal de Periódicos da CAPES para identificar produções acadêmicas. Os resultados revelaram baixa adesão de componentes curriculares de neurociência na formação inicial de educadores, com apenas 7 das 20 instituições analisadas oferecendo a disciplina. Observou-se também uma escassa produção acadêmica sobre o tema e uma maior concentração da neurociência em cursos de pós-graduação lato sensu, indicando uma inserção pontual e secundarizada na graduação. Concluiu-se que a baixa integração da neurociência nos currículos de graduação em Pedagogia limita a formação docente e a compreensão dos processos de aprendizagem. A pesquisa ressaltou a urgência de uma revisão curricular para incorporar a neurociência como eixo estruturante, visando uma formação mais crítica, fundamentada e alinhada às demandas educacionais contemporâneas.

Palavras-chave: Currículos de pedagogia; Educação; Formação de professores; Neurociência; Processo de Aprendizagem.

1. Introdução

A crescente presença de estudantes com diferentes necessidades de aprendizagem nas escolas tem ampliado a preocupação com a formação inicial de professores, especialmente no que se refere à sua preparação para atuar em contextos cada vez mais heterogêneos. Diante desse cenário, surgem inquietações sobre a adequação dos componentes curriculares oferecidos, questionando se estes contemplam subsídios teóricos e científicos acerca de como o cérebro aprende, como ocorre seu desenvolvimento no processo de aprendizagem e quais fatores podem interferir nesse percurso.

A aprendizagem está diretamente relacionada ao cérebro e, nesse processo, envolve as funções cognitivas, como atenção, memória, percepção, emoção e funções executivas (Guerra, 2011). Torna-se relevante integrar esses conhecimentos à formação inicial dos educadores, não como prescrição de práticas, mas como ampliação da compreensão sobre os processos de aprendizagem. É importante salientar que o desempenho na aprendizagem não depende apenas de fatores biológicos, mas também é impactado por aspectos relacionados à comunidade, à família, à escola, bem como por fatores culturais, sociais e econômicos (Guerra, 2011).

A apropriação de conhecimentos da neurociência também se mostra relevante para problematizar concepções equivocadas amplamente difundidas no campo educacional, conhecidas como neuromitos. A disseminação de neuromitos, compreendida como interpretações equivocadas de dados científicos, compromete a compreensão do que efetivamente apresenta respaldo científico no campo da neurociência (Howard Jones, 2014). A circulação dessas crenças sem fundamentação empírica contribui para a manutenção de concepções equivocadas sobre a aprendizagem e pode limitar o potencial dos estudantes. Entre as ideias equivocadas, destacam-se a noção de que o sucesso escolar estaria associado a estilos de aprendizagem específicos, a crença no uso predominante de um lado do cérebro, a associação entre o consumo de açúcar e comportamentos de hiperatividade, e a ideia de que os seres humanos usam apenas dez por cento da capacidade cerebral.

O educador que tem acesso aos fundamentos teóricos da neurociência, especialmente aqueles voltados ao desenvolvimento cerebral, amplia sua compreensão sobre suas contribuições para a educação. Além disso, passa a reconhecer que fatores como atenção, memória, equilíbrio emocional, qualidade do sono e prática de atividade física exercem influência significativa nos processos de aprendizagem (Louzada e Moreno-Louzada, 2023). Essa compreensão aprofundada dos conhecimentos acerca do funcionamento cerebral e de suas múltiplas interfaces com os processos cognitivos, emocionais e comportamentais implicados na aprendizagem, incluindo as funções executivas e a plasticidade cerebral, é crucial em contextos educativos.

Apesar da reconhecida relevância da neurociência para a compreensão dos processos de aprendizagem, a integração desses conhecimentos nos currículos de graduação em Pedagogia ainda se configura de forma pontual, fragmentada e secundarizada. Observa-se uma baixa adesão de componentes curriculares relacionados à neurociência na formação inicial de educadores, com apenas sete das vinte instituições analisadas oferecendo tais disciplinas. Essa lacuna curricular impacta a articulação entre os conhecimentos sobre o funcionamento cerebral e a prática pedagógica, evidenciando a necessidade de sua integração mais efetiva na formação inicial, de modo a subsidiar práticas docentes mais fundamentadas e conscientes.

Diante do exposto, este estudo justifica-se pela necessidade de investigar a forma como os conhecimentos da neurociência são incorporados nos cursos de Pedagogia e sua relevância para a formação docente, visando uma compreensão mais atenta do desenvolvimento dos estudantes e o apoio à construção de práticas pedagógicas conscientes e inclusivas. A pesquisa teve como objetivo identificar quais instituições de ensino superior da capital de São Paulo incluem componentes curriculares relacionados à neurociência nos cursos de pedagogia, além de refletir sobre sua relevância na formação docente e analisar em que medida esses conhecimentos podem contribuir para uma compreensão mais atenta do desenvolvimento dos estudantes, apoiando a construção de práticas pedagógicas mais conscientes e inclusivas.

2. Material e Métodos

A pesquisa caracterizou-se como documental, exploratória e descritiva. Para fundamentação teórica, foram consideradas as contribuições de Grossi, Oliveira e Fonseca (2019).

A fase documental e exploratória envolveu a coleta de informações de 20 instituições de ensino superior da capital de São Paulo. Os dados foram extraídos dos sites das instituições, abrangendo matrizes curriculares com informações sobre carga horária, semestre, modalidade, localização e a presença ou ausência de componentes curriculares relacionados à neurociência e educação.

A seleção das instituições baseou-se em três critérios: localização na capital de São Paulo; nota igual ou superior a 3 no Sistema Eletrônico de Informações do Ministério da Educação e-MEC; e boa avaliação no Ranking Universitário Folha – RUF 2025.

Adicionalmente, foram realizadas buscas no Portal de Periódicos da CAPES para identificar produções acadêmicas dos últimos cinco anos sobre currículos de neurociência na formação de educadores.

Esta linha de análise buscou compreender a oferta de disciplinas de neurociência nos cursos de pedagogia da capital paulista e a relação entre neurociência e prática educacional, visando uma visão geral do cenário atual.

Os dados coletados foram organizados em tabelas e submetidos a uma análise comparativa, discussiva e interpretativa. O objetivo foi compreender a configuração e as implicações da presença de componentes curriculares de neurociência na formação inicial de educadores. A sistematização permitiu comparar carga horária, modalidades de oferta e nomenclaturas das disciplinas, e examinar fatores que podem limitar a inserção ou a ampliação desse campo na estrutura curricular dos cursos analisados. Esse processo visou aprofundar a compreensão da forma como a neurociência é incorporada na formação docente e a articulação entre os conhecimentos sobre o funcionamento cerebral e a prática pedagógica.

3. Resultados e Discussão

Os resultados observados evidenciaram uma baixa adesão de componentes curriculares relacionados à neurociência na formação inicial de educadores. Das 20 instituições analisadas, apenas 7 contemplam essas disciplinas em seus currículos, com especificidades quanto à carga horária, modalidade e conceito dos cursos, conforme detalhado na Tabela 1.

Tabela 1. Instituições cidade de São Paulo que oferecem disciplinas de Neurociência no curso de Pedagogia

Nome da InstituiçãoCarga horária totalModalidadeConceito InstitucionalDenominação da disciplina
Universidade Presbiteriana Mackenzie4 horassíncrona livre e assíncrona5Neurociência e aprendizagem
Anhanguera Educacional60 horassemipresencial5Neurociência e aprendizagem
Universidade Cruzeiro do Sul40 horassemipresencial4Neurociência e educação
UNIFAI-Centro Universitário Assunção40 horaspresencial5Neurociência aplicada à educação
UniPaulistana68 horaspresencial3Neurociências e educação
Centro Universitário São Camilo80 horassemipresencial4Contribuições das Neurociências para o trabalho docente com a infância
Instituto Singularidades45 horaspresencial síncrono e assíncrono4Neurociência e Ciências da Aprendizagem

Fonte: Organizado pela autora a partir dos sites oficiais das instituições 2026 e e-MEC.

A análise da Tabela 1 revelou que a carga horária destinada às disciplinas de neurociência varia significativamente entre as instituições, de 4 a 80 horas. A discrepância, especialmente a oferta de apenas 4 horas, levanta questionamentos sobre a profundidade necessária para abordar a complexidade dos conteúdos, como funcionamento cerebral, plasticidade neural, sistemas de memória e o impacto das emoções na aprendizagem.

A ausência de uma integração mais ampla da neurociência na educação sugere que este é um campo em processo de consolidação. Embora áreas como a Psicologia da Educação e a Psicologia do Desenvolvimento abordem o desenvolvimento cerebral, a neurociência possui um estatuto epistemológico próprio, aprofundando conhecimentos sobre o funcionamento cerebral e suas interfaces com processos cognitivos, emocionais e comportamentais, incluindo funções executivas e plasticidade cerebral em contextos educativos.

Entre as instituições que não contemplam a neurociência em seus currículos de graduação, destacam-se a Faculdade de Educação da USP (FEUSP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Universidade Paulista, Universidade São Judas Tadeu, Centro Universitário FMU, Universidade Anhembi Morumbi, Universidade Santo Amaro (UNISA), UNESP EAD, Instituto Vera Cruz, UNINOVE, Faculdade Campo Salles e Sumaré Centro Universitário. Algumas instituições, como UNIP e UNINOVE, não disponibilizaram suas matrizes curriculares para consulta, impossibilitando a verificação da oferta.

Um aspecto relevante é que, das 20 universidades analisadas, 11 não incluem o estudo da neurociência na formação inicial de educadores, mas 9 ofertam esse componente em cursos de pós-graduação lato sensu. Essa realidade aponta para uma compreensão da neurociência como conhecimento complementar, a ser desenvolvido em etapas posteriores da formação acadêmica, e não como um elemento estruturante desde o início. Tal configuração curricular pode resultar na perda da oportunidade de articular precocemente os conhecimentos sobre aprendizagem com a prática pedagógica.

A Tabela 2 apresenta as instituições que não incluem neurociência na graduação, mas a disponibilizam na pós-graduação.

Tabela 2. Instituições que não incluem neurociência na graduação, mas disponibilizam a disciplina na pós-graduação

Nome da InstituiçãoCarga horária total/duração do cursoModalidadeConceito InstitucionalDenominação da disciplina
PUC- SPA carga horária não está disponível no site.EAD4Neurociência, Educação e desenvolvimento Infantil
São Judas360 a 400EAD4Neuropsicologia
USP/ESALQ360EAD5Neurociência e aprendizagem Na educação
UNIP400EAD3A Neurociência comportamento humano e a gestão de pessoas
UNIP410EAD3Neuropsicologia
UNIP400EAD3Psicopedagogia e Neurociência
Centro Universitário Fmu360EAD3Neurociência aplicado a educação
Centro Universitário Fmu360presencial3Neuropsicologia
Centro Universitário Fmu360presencial3Neurodiversidade e práticas interdisciplinares
Centro Universitário Fmu360semipresencial3Neurociência da música
Universidade Santo Amaro – UnisaA carga horária não está disponível no site.EAD e presencial4Neurociência na educação
UninoveA carga horária não está disponível no site.EAD3Neurociência da aprendizagem especialização
Sumaré Centro UniversitárioA carga horária não está disponível no site.EAD3Neuropsicopedagogia

Fonte: Elaborado pela autora a partir de sites oficiais das instituições 2026 e e-MEC.

A falta de incentivos acadêmicos e de estímulos à pesquisa nessa temática pode ser uma explicação para essas lacunas, limitando a reformulação curricular. Esse cenário reforça a necessidade de fortalecer a articulação entre educação e ciências do cérebro, conforme discutido por Grossi, Oliveira e Fonseca (2024).

Em síntese, o estudo identificou que a incorporação da neurociência nos cursos de pedagogia em 2026 ainda se configura de forma pontual, fragmentada e secundarizada. Apenas 7 das 20 instituições analisadas oferecem componentes curriculares de neurociência voltados à educação em suas matrizes curriculares de graduação. Essa lacuna na formação inicial pode fazer com que o professor ingresse na sala de aula sem o arcabouço teórico necessário para compreender a complexidade biológica, cognitiva e emocional dos processos de aprendizagem.

A concentração da neurociência em cursos de pós-graduação lato sensu, em vez da graduação, sugere uma lógica formativa excludente, onde o acesso a conhecimentos essenciais sobre o funcionamento cerebral na aprendizagem ocorre tardiamente e de forma opcional. Essa dissociação entre ciência e educação sustenta a premissa de que a compreensão dos processos de aprendizagem pode prescindir de fundamentos neurocientíficos. O preenchimento dessa lacuna é crucial para capacitar professores a interpretar dificuldades de aprendizagem, planejar intervenções pedagógicas e desmistificar concepções desatualizadas sobre o cérebro.

Portanto, este estudo sugere a urgência de uma revisão curricular nos cursos de Pedagogia, com a incorporação da neurociência como eixo estruturante. Isso permitiria uma carga horária adequada para desmistificar neuromitos e ampliar a compreensão de como o sistema nervoso central consolida a aprendizagem, considerando fatores além dos cognitivos, como qualidade do sono, alimentação, atividade física e experiências que promovam a plasticidade cerebral. A consolidação desse campo na formação inicial é uma necessidade formativa e ética para uma prática docente mais crítica, fundamentada e comprometida com o desenvolvimento integral dos estudantes.

4. Conclusão

O estudo objetivou identificar a incorporação de estudos de neurociência em cursos de pedagogia na capital de São Paulo, analisando sua presença nas matrizes curriculares e a relevância para a formação docente. Verificou-se uma baixa adesão de componentes curriculares de neurociência na formação inicial de educadores, com apenas sete das vinte instituições analisadas oferecendo a disciplina. Observou-se que a carga horária destinada a essas disciplinas variava significativamente, e que a neurociência se concentrava predominantemente em cursos de pós-graduação lato sensu, indicando uma inserção pontual, fragmentada e secundarizada na graduação. Essa lacuna na formação inicial limita a capacidade dos futuros professores de compreender a complexidade biológica, cognitiva e emocional dos processos de aprendizagem, bem como de desmistificar neuromitos que permeiam o campo educacional. A pesquisa, portanto, contribui ao evidenciar a necessidade de uma formação docente mais robusta e fundamentada nos conhecimentos sobre o funcionamento cerebral e suas interfaces com a aprendizagem.

Uma limitação do estudo residiu na impossibilidade de verificar as matrizes curriculares de algumas instituições, o que impediu uma análise completa da oferta de disciplinas. Contudo, os achados reforçam a urgência de uma revisão curricular nos cursos de Pedagogia, com a incorporação da neurociência como eixo estruturante. Sugere-se que essa integração contemple uma carga horária adequada para aprofundar a compreensão dos processos de aprendizagem, considerando não apenas fatores cognitivos, mas também a influência da qualidade do sono, alimentação, atividade física e experiências que promovem a plasticidade cerebral. Tal atualização é crucial para capacitar os educadores a planejar intervenções pedagógicas mais conscientes e inclusivas, alinhadas às demandas educacionais contemporâneas e ao desenvolvimento integral dos estudantes.

Referências Bibliográficas

GROSSI, Márcia Gorett Ribeiro; OLIVEIRA, Eliane Silvestre; FONSECA, Renata Gadoni Porto. Currículo, neurociência e a formação de professores. Revista e-Curriculum, São Paulo-volume. 22, p. 1-26, 2024. e-ISSN: 1809-3876.

GUERRA, Leonor Bezerra. O diálogo entre a Neurociência e a Educação: da euforia aos desafios e possibilidades. Porto Alegre: Artmed, 2011.

HOWARD-JONES, P. A. Neuroscience and education: myths and messages. Nature Reviews Neuroscience, Londres, v. 15, n. 12, p. 817–824, 2014.

Louzada, F.; Moreno-Louzada, L. (2023). Qual o lugar das neurociências na educação? Revista De Estudos Culturais, 8, 49-60).

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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Palavras-chave: Altas habilidades/superdotação; Blogs; Identidade; Masking; Norma-padrão.

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