Artigo

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

29 de setembro de 2026

Multimodalidade textual em um livro didático do 6º ano do PNLD 2024

Multimodalidade Textual em um Livro Didático do 6º Ano do Pnld 2024

Alan Salatiel da Silva Mascarenhas; Márcia Azevedo Coelho

DOI: 10.22167/2675-6528-202602622

Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.

Resumo

As discussões sobre o ensino-aprendizagem contemporâneo evidenciaram a necessidade de superar práticas tradicionais focadas na transmissão de conteúdos, demandando múltiplas linguagens e contextualização. Este estudo analisou, à luz da Pedagogia dos Multiletramentos e da Neurociência, a estruturação e exploração da multimodalidade no capítulo “Verbo” de um livro didático de Língua Portuguesa do 6º ano, aprovado pelo PNLD 2024, e propôs um guia didático para o conteúdo. A pesquisa, de natureza qualitativa e aplicada, utilizou pesquisa documental em seções do livro didático como corpus. A coleta de dados ocorreu por meio de um protocolo fundamentado nas dimensões dos multiletramentos e da multimodalidade, abrangendo modos semióticos, integração multimodal, abordagem gramatical e práticas pedagógicas. Os resultados indicaram que a multimodalidade esteve presente de forma desigual, sendo limitada nas Seções Explicativas e mais evidente nas Atividades Propostas, sem plena articulação com o ensino-aprendizagem do conteúdo “Verbo”, o que subsidiou a elaboração do guia didático. Observou-se uma organização didática híbrida, com predominância de práticas tradicionais e inserções pontuais de elementos multimodais. Concluiu-se que a mera presença da multimodalidade não garantiu integração pedagógica nem a promoção da aprendizagem, evidenciando a necessidade de intervenções mais significativas, como o guia pedagógico elaborado.

Palavras-chave: Material didático; Multiletramentos; Neurociência; Neuroeducação; Pedagogia dos multiletramentos.

1. Introdução

Historicamente, o processo de ensino-aprendizagem no Brasil, em muitos contextos, esteve associado à centralidade da transmissão de conteúdos e à reprodução de conhecimentos apresentados pelo professor (Gadotti, 2003; Saviani, 2007, 2011). Este modelo se aproxima da noção de educação bancária, duramente criticada por Freire (1987).

Na década de 1980, no entanto, a fim de abranger um ensino-aprendizagem que considerasse o uso social do conhecimento adquirido pelo aluno, surge a noção de letramento (Kleiman, 2012; Soares e Batista, 2005). Essa noção expande-se para as implicações sociais da leitura e escrita, compreendendo-as como um conjunto de práticas sociais situadas, e não meramente a decodificação do código escrito da língua (Colomer e Camps, 2002; Kleiman, 2004).

A ampliação dessa perspectiva ganha novos contornos com a Pedagogia dos Multiletramentos, proposta pelo New London Group. Em 1996, nos Estados Unidos da América, o grupo lançou o manifesto “A Pedagogy of Multiliteracies: Designing Social Futures”, defendendo a necessidade de considerar a multiplicidade cultural e de linguagens como característica das sociedades contemporâneas, bem como as transformações decorrentes das novas tecnologias e dos meios digitais. O trabalho pedagógico é organizado em quatro fundamentos: prática situada, instrução explícita, enquadramento crítico e prática transformada (Pinheiro, 2016; Rojo, 2012).

É nesse cenário que a multimodalidade assume relevância. Kress (2010) e Kress e van Leeuwen (2001, 2006) a conceituam como a articulação de diferentes modos semióticos, como linguagem verbal, imagens e sons, nos textos. Estudos desenvolvidos no campo dos multiletramentos e da multimodalidade, como os de Lemke (2010), Ribeiro (2016), Rojo (2012), Rojo e Barbosa (2015) e Cani e Coscarelli (2016), ressaltam a importância de considerar os diferentes recursos semióticos que participam das práticas de leitura e produção textual, apontando que a produção e a interpretação de sentidos não se restringem à linguagem verbal.

Entretanto, a simples presença de diferentes modos semióticos em um texto ou material didático não implica, por si só, uma abordagem multimodal capaz de favorecer a aprendizagem. Para que a multimodalidade assuma função pedagógica, é necessário que os diferentes modos sejam articulados de maneira significativa, contribuindo para a construção de sentidos e para a compreensão do conteúdo em estudo. Assim, a relevância pedagógica da multimodalidade depende da maneira como os recursos são mobilizados e integrados às situações de aprendizagem.

Essa compreensão dialoga com as orientações da Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018), que reconhece a necessidade de considerar as diferentes práticas de linguagem e os textos multimodais no ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa. A escolha de um livro didático aprovado pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD 2024) para o 6º ano do Ensino Fundamental, com recorte no capítulo “Verbo”, justifica-se pela possibilidade de investigar a apresentação desse conteúdo em um material didático submetido aos critérios de avaliação do programa.

A discussão sobre multimodalidade também se relaciona às contribuições da Neurociência para a compreensão dos processos de aprendizagem. A integração multissensorial, que envolve o uso de múltiplos canais sensoriais (visão, audição, tato) para apresentar informações, aponta para a importância da articulação de diferentes informações sensoriais nos processos cognitivos, visto que são eficazes para a aprendizagem por estimularem diversas áreas do cérebro simultaneamente (Nava et al., 2024; Porfyri et al., 2025). Pesquisas (Trypke et al., 2024; Shams e Seitz, 2008; Gnaedinger et al., 2019; Rizzatti et al., 2023; McElligott et al., 2025; Rao, 2018; Solichah e Fardana, 2024; Radford e André, 2009) corroboram a importância da multimodalidade defendida pela Pedagogia dos Multiletramentos, ao mostrar que o cérebro humano é intrinsecamente multissensorial e que o ensino-aprendizado multissensorial é mais eficaz do que o unissensorial. Além disso, a Teoria da Aprendizagem Multimídia (Mayer, 2020) propõe que se aprende melhor quando há integração entre palavras e imagens do que quando há apenas palavras.

Contudo, essas contribuições não permitem afirmar que a simples multiplicação de estímulos ou modalidades produza automaticamente melhores resultados, sendo a organização pedagógica, a integração das informações e a construção de significados fundamentais para que diferentes recursos contribuam para a aprendizagem. Diante da necessidade de práticas pedagógicas que promovam a articulação multimodal com o conteúdo, o contexto de uso e a construção de sentidos, esta pesquisa tem como objetivo analisar, à luz da Pedagogia dos Multiletramentos e da Neurociência, como a multimodalidade é estruturada e explorada no capítulo sobre o conteúdo “Verbo”, em um livro didático de Língua Portuguesa do 6º ano selecionado pelo PNLD 2024, e, a partir das potencialidades e limitações identificadas, elaborar um guia didático, em formato e-book, para o ensino-aprendizagem do conteúdo “Verbo” por meio de uma abordagem multimodal.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza qualitativa e aplicada, buscando identificar, descrever e interpretar a mobilização de recursos multimodais no ensino-aprendizagem do conteúdo “Verbo” em um livro didático. Posteriormente, elaborou-se um guia didático para o ensino-aprendizagem desse conteúdo, fundamentado nas interpretações dos dados coletados. A abordagem qualitativa permitiu uma compreensão aprofundada dos fenômenos, enquanto a natureza aplicada visou à produção de conhecimento útil para a prática pedagógica (Gil, 2002).

O objeto empírico da pesquisa consistiu na análise da multimodalidade presente em um capítulo de um livro didático de Língua Portuguesa, destinado ao 6º ano do Ensino Fundamental – Anos Finais. A obra foi selecionada intencionalmente por ter sido aprovada no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD 2024), o que ressalta sua relevância no contexto educacional brasileiro. O recorte específico para análise foi o capítulo que aborda o conteúdo curricular “Verbo”.

Para preservar a ética da pesquisa, não se divulgaram informações que pudessem identificar diretamente a obra didática analisada, sendo esta descrita apenas por suas características gerais. A seleção da obra não teve caráter representativo do conjunto de livros didáticos do PNLD, e os resultados obtidos referem-se exclusivamente ao corpus investigado. A análise concentrou-se em duas unidades: as Seções Explicativas e as Atividades Propostas.

A coleta de dados foi realizada por meio de pesquisa documental, tendo como fonte o próprio livro didático selecionado. Procedeu-se à leitura integral do capítulo “Verbo”, seguida da identificação e delimitação das unidades de análise. Os dados foram organizados com base em um protocolo de análise previamente elaborado, que orientou o registro sistemático das ocorrências relevantes para o estudo (Gil, 2002; Severino, 2007). Este protocolo foi desenvolvido com base na Pedagogia dos Multiletramentos e na Neurociência.

O protocolo de análise contemplou quatro dimensões. A primeira, “Modos semióticos mobilizados”, identificou os modos presentes (verbal, visual, tipográfico e diagramático). A segunda, “Integração multimodal”, verificou a relação funcional desses modos na apresentação do conteúdo. A terceira, “Abordagem multimodal do conteúdo gramatical ‘Verbo'”, analisou a mobilização de modos semióticos na apresentação ou aplicação do conteúdo gramatical, incluindo gêneros textuais multimodais. Por fim, a dimensão “Práticas de multiletramentos” buscou elementos relacionados à Prática Situada, Instrução Explícita, Enquadramento Crítico e Prática Transformada (Cope; Kalantzis, 2002; Rojo, 2012).

As dimensões foram classificadas em quatro níveis: Ausente, Baixo(a), Médio(a) e Alto(a). O nível “Ausente” indicou a não ocorrência. “Baixo(a)” referiu-se à presença incipiente ou limitada, com ocorrências pontuais. “Médio(a)” correspondeu à presença moderada e funcional, sem atingir alto grau de integração. “Alto(a)” indicou presença consistente, sistemática e significativa, com articulação de qualidade e papel central na construção de sentidos. A classificação considerou a função, o grau de articulação e a contribuição dos elementos para a organização pedagógica.

A análise dos dados ocorreu em duas etapas. Na Etapa 1, Análise Descritiva, realizou-se a identificação e categorização dos elementos presentes em cada unidade de análise, conforme as dimensões estabelecidas no protocolo. Os dados foram registrados sistematicamente. Na Etapa 2, Análise Interpretativa, os dados foram interpretados à luz do referencial teórico da Pedagogia dos Multiletramentos e da Neurociência, buscando compreender a contribuição dos modos semióticos para a construção de sentidos relacionados ao conteúdo “Verbo” e a presença de práticas de multiletramentos.

Com base nas potencialidades e limitações identificadas na análise, elaborou-se um guia pedagógico em formato e-book. Este guia contém sugestões para o ensino-aprendizagem do conteúdo “Verbo” em sala de aula, orientado pela Pedagogia dos Multiletramentos e pela Neurociência. A construção do guia seguiu etapas como a identificação de lacunas e potencialidades do material analisado, a definição de princípios pedagógicos alinhados e a elaboração de uma proposta didática que contempla os fundamentos dos multiletramentos e a utilização de múltiplas linguagens.

A proposta didática do guia incluiu a prática situada, a instrução explícita, o enquadramento crítico e a prática transformada, além de atividades de análise crítica e produção de textos multimodais. O guia didático foi organizado para subsidiar a prática docente, constituindo uma proposição pedagógica derivada das observações do corpus. O caráter aplicado da pesquisa se manifestou na intervenção pedagógica materializada por este guia, que não visou substituir o livro analisado, mas sim complementar as práticas de ensino.

3. Resultados e Discussão

A análise do corpus, conforme delineado na metodologia, concentrou-se nas Seções Explicativas e nas Atividades Propostas de um capítulo de livro didático do 6º ano sobre o conteúdo “Verbo”. Os resultados foram obtidos por meio de uma análise descritiva inicial, que identificou e categorizou os elementos presentes em cada unidade, seguida por uma análise interpretativa que buscou compreender a contribuição dos modos semióticos para a construção de sentidos e a promoção de práticas de multiletramentos. Essa abordagem permitiu avaliar a estruturação e exploração da multimodalidade à luz da Pedagogia dos Multiletramentos e da Neurociência, conforme o objetivo central da pesquisa.

Na unidade de análise referente às Seções Explicativas, observou-se uma predominância de uma abordagem tradicional para o ensino-aprendizagem da gramática. O conteúdo “Verbo” foi apresentado majoritariamente por meio da transmissão de conceitos e do uso da metalinguagem verbal, o que resultou em uma classificação de “Baixa” para a Abordagem do conteúdo gramatical. Embora houvesse a mobilização de modos semióticos em nível “Médio”, com a presença de recursos tipográficos e diagramáticos, esses elementos funcionaram mais como organização visual do texto do que como uma integração multimodal significativa para a compreensão do conteúdo.

Apesar da presença de elementos visuais, como o excerto que ilustra os modos verbais indicativo, subjuntivo e imperativo, a análise revelou que tais recursos não foram didaticamente mobilizados para a construção do conhecimento sobre o “Verbo”. A imagem, por exemplo, que acompanhava a explicação dos modos verbais, não estabelecia uma relação funcional com o conteúdo gramatical, limitando-se a um papel ilustrativo ou estilístico. Essa constatação levou à classificação de “Baixa” para a Integração multimodal, indicando que a simples coexistência de diferentes modos semióticos não garante uma articulação pedagógica eficaz.

A dimensão das Práticas de multiletramentos nas Seções Explicativas também foi avaliada como “Baixa”. Embora a Pedagogia dos Multiletramentos preconize a “instrução explícita” como um de seus fundamentos, no material analisado, essa instrução se manifestou de forma alinhada à concepção tradicional de ensino-aprendizagem. A explicação dos conceitos gramaticais ocorreu predominantemente por meio da linguagem verbal e metalinguagem, sem a utilização de elementos multimodais como imagens, infográficos ou fluxogramas para enriquecer a compreensão do “Verbo”. Isso sugere que a instrução explícita, nesse contexto, não explorou o potencial da multimodalidade para a construção de sentidos.

A análise da segunda unidade, as Atividades Propostas, demonstrou alguns avanços em comparação com as Seções Explicativas, especialmente no que tange à diversidade de Modos semióticos mobilizados, classificados como “Alto”. Verificou-se a inserção de diversos gêneros discursivos e uma variedade de recursos visuais e textuais. No entanto, a despeito dessa maior diversidade, a Integração multimodal desses recursos permaneceu limitada, sendo classificada como “Baixa”, pois o potencial semiótico das modalidades não foi plenamente explorado em associação direta com o conteúdo “Verbo”.

A multimodalidade nas Atividades Propostas frequentemente se apresentou como um pretexto para a análise gramatical, em vez de uma abordagem integrada ao conteúdo “Verbo”. Por exemplo, em atividades que utilizavam tirinhas, como a que mostrava o personagem Gaturro, a tarefa principal era identificar verbos na fala das personagens ou analisar aspectos gramaticais isolados, sem uma exploração mais profunda da relação entre os modos semióticos e a construção de sentidos do “Verbo” no contexto narrativo. A Abordagem do conteúdo gramatical, portanto, também foi classificada como “Baixa” nessa unidade de análise.

Essa limitação na Abordagem do conteúdo gramatical é crucial, pois impede uma análise linguístico-semiótica mais robusta, conforme preconizado pela Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018). A utilização de textos multimodais, como a tirinha mencionada, poderia ter sido explorada para identificar as situações narrativas e a função dos verbos na construção da temporalidade e das ações, mas essa oportunidade foi subaproveitada. A mera presença de diferentes modos semióticos, sem uma articulação didática funcional, não garante a construção do conhecimento sobre o “Verbo” de forma integrada e significativa.

As Práticas de multiletramentos nas Atividades Propostas foram classificadas como “Média”, indicando uma presença moderada, mas ainda não plenamente explorada. Embora houvesse abertura para o “enquadramento crítico” e a “prática transformada”, por exemplo, em uma atividade que propunha a produção de uma receita culinária, a instrução explícita sobre o uso do verbo e da multimodalidade na produção textual era insuficiente. A atividade solicitava a produção com base em um modelo, mas não guiava o aluno na compreensão e aplicação consciente dos verbos e da articulação multimodal para a construção de sentidos.

Os resultados, portanto, evidenciaram uma organização didática híbrida no material analisado, caracterizada pela coexistência de práticas pedagógicas tradicionais, focadas na linguagem verbal e na metalinguagem, com inserções pontuais de elementos multimodais. Essa constatação corrobora a perspectiva de Rojo (2012), que argumenta que a simples presença de múltiplas linguagens em materiais didáticos não é suficiente para configurar uma Pedagogia dos Multiletramentos efetiva. A qualidade pedagógica da multimodalidade reside na forma como os recursos são mobilizados, articulados e integrados para a construção de sentidos e a aprendizagem.

A pesquisa demonstrou que, para que os diferentes modos semióticos contribuam efetivamente para o processo pedagógico, é imprescindível que sejam mobilizados de maneira funcional, articulada e significativa. Essa mobilização deve estar intrinsecamente relacionada ao conteúdo em estudo, ao gênero discursivo, à situação comunicativa e aos processos cognitivos de construção de sentidos. A Neurociência, por sua vez, reforça a importância da integração multissensorial para a aprendizagem, indicando que o cérebro humano é multissensorial e que o ensino-aprendizado multissensorial é mais eficaz (Mayer, 2020; Nava et al., 2024; Porfyri et al., 2025; Shams e Seitz, 2008).

As lacunas e limitações identificadas no material didático analisado, especialmente a baixa integração multimodal e a abordagem gramatical tradicional, fundamentaram a elaboração de um guia pedagógico. Este guia, em formato e-book, foi concebido para articular a multimodalidade, a Pedagogia dos Multiletramentos e as contribuições da Neurociência em um protótipo de aula voltado especificamente para o ensino-aprendizagem do conteúdo “Verbo”. O objetivo foi oferecer uma intervenção pedagógica que superasse as fragilidades observadas no livro didático.

O guia didático foi estruturado em duas seções principais. A primeira, intitulada “Por que uma Aprendizagem Multimodal?”, apresentou a fundamentação teórica da multimodalidade e argumentou, com base em estudos da neurociência, sobre a eficácia de um processo de ensino-aprendizagem que integra diferentes modos semióticos. Essa seção buscou contextualizar a importância da abordagem proposta, alinhando-a às evidências científicas sobre como o cérebro humano processa e retém informações de maneira mais eficiente quando múltiplos canais sensoriais são ativados (McElligott et al., 2025; Porfyri et al., 2025).

A segunda seção do guia, “Protótipo de aula”, apresentou o conceito de protótipo como uma proposta didática aberta e flexível (Rojo, 2012), orientada pelos quatro fundamentos da Pedagogia dos Multiletramentos: prática situada, instrução explícita, enquadramento crítico e prática transformada (Pinheiro, 2016; Rojo, 2012). O protótipo de aula para o conteúdo “Verbo” foi desenvolvido com foco na análise e produção de textos de circulação social contemporânea, especialmente aqueles do mundo digital, visando a uma aprendizagem contextualizada e significativa.

A proposta de aula do guia didático, por exemplo, sugere a apresentação de vídeos curtos sem áudio para que os alunos identifiquem ações e movimentos, conectando-os ao conceito de verbo em uma “prática situada”. Em seguida, a “instrução explícita” é promovida pela construção de um mapa mental sobre o verbo e pela associação de emojis a verbos, incentivando a escrita de frases que descrevam ações ou estados. O “enquadramento crítico” é estimulado pela pesquisa e análise de vídeos pelos alunos, discutindo o significado dos verbos no contexto e as intenções por trás de seu uso.

Finalmente, a “prática transformada” é alcançada com a produção de um vídeo curto autoral, no qual os alunos exploram e explicam o conceito de verbo de forma dinâmica e criativa, seguindo um roteiro que alinha o verbo à ação visualizada, constrói falas e explica o conceito, além de indicar sentidos contextuais e sociais. Essa abordagem visa a uma aplicação ativa e criativa do conhecimento, permitindo que os alunos “redesenhem” o que aprenderam. O guia, enriquecido com elementos multimodais e hiperlinks, constitui uma proposição pedagógica que busca superar as limitações identificadas no material didático analisado, promovendo uma integração efetiva entre modos semióticos e o conteúdo “Verbo” para uma aprendizagem mais significativa.

Em síntese, a pesquisa revelou que o livro didático analisado, embora apresente elementos multimodais, não os integra de forma pedagógica significativa para o ensino do conteúdo “Verbo”, mantendo uma abordagem predominantemente tradicional. As Seções Explicativas mostraram baixa integração multimodal e práticas de multiletramentos limitadas, enquanto as Atividades Propostas, apesar de maior diversidade de modos semióticos, falharam em articulá-los funcionalmente com o conteúdo gramatical. Essas constatações sublinham a necessidade de intervenções pedagógicas mais robustas, como o guia didático elaborado, que busca promover uma aprendizagem multimodal mais eficaz e alinhada aos princípios da Pedagogia dos Multiletramentos e da Neurociência.

4. Conclusão

A pesquisa buscou analisar, à luz da Pedagogia dos Multiletramentos e da Neurociência, a estruturação e exploração da multimodalidade no capítulo “Verbo” de um livro didático de Língua Portuguesa do 6º ano, aprovado pelo PNLD 2024. Verificou-se que a multimodalidade esteve presente de forma desigual no material, sendo limitada nas seções explicativas e mais evidente nas atividades propostas. Observou-se que, apesar da mobilização de diferentes modos semióticos, a integração multimodal com o conteúdo “Verbo” foi baixa, com os recursos visuais e textuais frequentemente servindo como elementos ilustrativos ou pretextos para a análise gramatical tradicional, sem uma articulação pedagógica funcional para a construção de sentidos. Essa constatação indicou que a mera presença de elementos multimodais não garante, por si só, uma integração pedagógica eficaz nem a promoção da aprendizagem significativa do conteúdo.

Diante das lacunas e limitações identificadas na abordagem da multimodalidade no material didático, o estudo contribuiu com a elaboração de um guia pedagógico em formato e-book. Este guia propôs um protótipo de aula para o ensino-aprendizagem do conteúdo “Verbo”, fundamentado na Pedagogia dos Multiletramentos e nas contribuições da Neurociência sobre a integração multissensorial, visando a uma abordagem mais funcional e contextualizada. A pesquisa, embora restrita à análise de um único capítulo de livro didático, não permitindo a generalização dos resultados para o universo do PNLD, evidenciou a necessidade de práticas pedagógicas que transcendam a simples inserção de múltiplas linguagens, promovendo uma articulação multimodal mais profunda com o conteúdo, o contexto de uso e a construção de sentidos, o que abre caminhos para futuras investigações sobre a implementação e os impactos de tais abordagens.

Referências Bibliográficas

Colomer, T.; Camps, A.

Freire, P. 1987. Pedagogia do oprimido. 17ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Gadotti, M. 2003. História das ideias pedagógicas. 8ed. Ática, São Paulo, SP, Brasil.

Kleiman, A. B. 2012. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola. p. 15-61. In: Kleiman, A. B. Os significados de letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. 2ed. Mercado das Letras, Campinas, SP, Brasil.

Saviani, D. 2007. História das ideias pedagógicas no Brasil. Autores Associados, Campinas, SP, Brasil.

Saviani, D. 2011. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11ed. Autores Associados, Campinas, SP, Brasil.

Soares, M. B.; Batista, A. A. G. 2005. Alfabetização e letramento: caderno do professor. Ceale/FaE/UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil. Disponível em: <https://livrosabertos.fae.ufmg.br/produto/alfabetizacao-e-letramento/>. Acesso em: 23 out. 2025.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Neurociência e Aprendizagem na Educação

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30 de setembro de 2026

Gestão de Pessoas e os desafios da liderança escolar em tempos de apagão profissional

A crescente escassez de profissionais qualificados na educação configura-se como um desafio central para as instituições escolares contemporâneas, impactando a organização pedagógica e a sustentabilidade das equipes. Analisou-se como gestores escolares conduziram a gestão de pessoas frente ao apagão profissional, buscando identificar práticas de liderança que promovessem o engajamento, a motivação e a permanência dos profissionais. Realizou-se uma pesquisa aplicada, exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa, que utilizou pesquisa bibliográfica e documental, além de um questionário semiestruturado aplicado à equipe pedagógica de uma instituição privada de ensino via Google Forms. Os resultados indicaram que a maioria dos gestores reconheceu o apagão profissional, com impactos na dificuldade de contratação, sobrecarga das equipes e desafios na manutenção do engajamento e motivação. Identificaram-se iniciativas institucionais pontuais de valorização profissional, como formação continuada, reorganização de rotinas e fortalecimento das relações interpessoais. Concluiu-se que a liderança escolar desempenhou um papel fundamental na mediação desses desafios, ressaltando a necessidade de estratégias mais sistematizadas para ambientes de trabalho colaborativos e sustentáveis.

Palavras-chave: Apagão profissional; Clima organizacional; Engajamento docente; Gestão de pessoas; Liderança.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

30 de setembro de 2026

Comunicação digital, autoridade pedagógica e trabalho docente em grupos de WhatsApp de pais

A crescente incorporação de tecnologias de comunicação digital, especialmente do WhatsApp, reconfigurou as relações entre escola e família no Ensino Fundamental – Anos Iniciais, impactando a organização institucional e o trabalho docente. O estudo analisou as repercussões do uso de grupos de WhatsApp de pais na dinâmica escolar, à luz da Neurociência da Aprendizagem e da mediação institucional, buscando compreender suas implicações para o trabalho docente, a autoridade pedagógica e o clima relacional. A investigação caracterizou-se como qualitativa, de natureza aplicada e descritivo-exploratória, fundamentada na sistematização reflexiva da prática profissional, articulada a dados secundários nacionais e revisão documental. Identificou-se que a ausência de delimitação institucional clara esteve associada à intensificação das demandas comunicacionais, à exposição pública de conflitos e à ampliação de interações reativas, com repercussões sobre a autoridade pedagógica e o clima relacional. Sob a perspectiva da Neurociência da Aprendizagem, tais ambientes comunicacionais podem impactar processos de autorregulação, estabilidade emocional e condições atencionais. A mediação institucional emergiu como categoria central, deslocando o debate da dimensão tecnológica para a organizacional e pedagógica. Como desdobramento aplicado, elaborou-se um Guia de Mediação Institucional para o Uso de Grupos de WhatsApp de pais, estruturado em protocolos comunicacionais, estratégias de mediação e orientações de ética digital. Concluiu-se que a organização institucional da comunicação digital é relevante para a preservação da autoridade pedagógica, da estabilidade relacional e das condições favoráveis ao ensino e à aprendizagem.

Palavras-chave: conectividade; ética digital; gestão escolar; mediação pedagógica; neuroeducação.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

30 de setembro de 2026

Equidade na Avaliação: Estratégias para Alunos com TDAH e Dislexia nos Anos Finais

O estudo analisou as características de avaliações de Língua Portuguesa nos anos finais do Ensino Fundamental, com foco na organização dos instrumentos avaliativos e em sua relação com a acessibilidade e a equidade. O objetivo consistiu em analisar de que modo avaliações regulares e adaptadas incorporaram elementos relacionados à clareza linguística, à organização visual e à distribuição das demandas cognitivas. Para isso, realizou-se uma pesquisa qualitativa de natureza documental, que analisou 24 avaliações de 6º e 7º anos, incluindo versões regulares e adaptadas, aplicadas ao longo dos três trimestres de 2025, e uma ata de reunião pedagógica institucional. A análise foi conduzida pela técnica de Análise de Conteúdo, considerando as categorias linguagem dos comandos, organização visual e demandas cognitivas. Os resultados evidenciaram um movimento progressivo de transformação nas avaliações adaptadas ao longo do período analisado, com modificações inicialmente pontuais e, posteriormente, mais consistentes, especialmente na clareza dos comandos, na segmentação das tarefas e na redução da sobrecarga cognitiva. Apesar dos avanços, persistiram variações entre os instrumentos, indicando a necessidade de maior sistematização dos critérios de adaptação. Concluiu-se que a organização linguística, visual e cognitiva das avaliações é central para promover condições mais equitativas de acesso às tarefas propostas.

Palavras-chave: Acessibilidade; Aprendizagem; Inclusão; Linguagem; Neurodiversidade.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

30 de setembro de 2026

Cultivo dos ritmos e do fazer manual no jardim de infância Waldorf, contribuições da neurociência.

Uma lacuna no diálogo entre as práticas de cultivo dos ritmos e do fazer manual na Educação Infantil Waldorf e as evidências contemporâneas da neurociência da aprendizagem na primeira infância foi identificada. O estudo objetivou descrever práticas pedagógicas em um Jardim de Infância Waldorf e analisá-las, à luz da literatura neurocientífica, considerando suas possíveis contribuições para o desenvolvimento de crianças de 3 a 6 anos. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso qualitativo, exploratório-descritivo, realizado em uma instituição Waldorf no interior de São Paulo. Utilizaram-se documentos institucionais não identificáveis e um diário reflexivo profissional como fontes de dados. A análise fundamentou-se na triangulação teórica entre a Pedagogia Waldorf, a neurociência da aprendizagem e o desenvolvimento infantil. Os resultados indicaram que as práticas pedagógicas investigadas estiveram relacionadas à manifestação de comportamentos compatíveis com processos de autorregulação emocional, atenção sustentada, coordenação motora e aspectos iniciais das funções executivas. Observou-se que a organização previsível dos ritmos e a repetição das atividades contribuíram para a segurança emocional e a adaptação das crianças, enquanto as atividades manuais foram associadas à ação intencional, persistência na tarefa e envolvimento positivo. Concluiu-se que o cultivo dos ritmos e do fazer manual constituiu um eixo pedagógico com convergências em evidências contemporâneas sobre o desenvolvimento infantil, especialmente quanto à previsibilidade, repetição, experiências sensoriais e motoras, participação ativa, relações sociais e vínculo. A pesquisa contribuiu para ampliar o diálogo entre a Pedagogia Waldorf e a neurociência da aprendizagem, evidenciando a relevância de práticas cotidianas para uma compreensão integrada do desenvolvimento na primeira infância.

Palavras-chave: Aprendizagem; Educação Infantil; Primeira infância; Rudolf Steiner; Trabalho manual.

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