31 de julho de 2026
Principais Desafios na Implementação de Testes Automatizados na Plataforma Low-Code OutSystems
Igor Augusto de Figueiredo; Jorge Marques Prates
DOI: 10.22167/2675-6528-202600904
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O avanço da digitalização e a crescente adoção de plataformas de desenvolvimento low-code transformaram a construção e entrega de sistemas de software, tornando a automação de testes um elemento crucial para garantir a qualidade das aplicações. O estudo objetivou identificar os principais obstáculos enfrentados por profissionais na implementação e manutenção de testes automatizados em aplicações desenvolvidas na plataforma OutSystems. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva, empregando um método misto por meio de um levantamento de campo (survey) que foi aplicado a 49 profissionais com experiência em desenvolvimento low-code. Os resultados indicaram desafios significativos na implementação de testes em OutSystems, destacando-se a falta de conhecimento técnico das equipes, a ausência de padronização nos módulos das aplicações, o tempo elevado para manutenção dos scripts de testes e as limitações das ferramentas nativas. Observou-se, ainda, que a eficácia da automação de testes esteve diretamente relacionada à maturidade dos processos de desenvolvimento e à integração das práticas de teste desde as fases iniciais dos projetos, evidenciando a dependência dos resultados não apenas de fatores tecnológicos, mas também de aspectos organizacionais e de capacitação das equipes. Os achados sugeriram a necessidade de maior investimento em ferramentas nativas ou melhor integração de soluções de testes pela plataforma OutSystems, bem como a adoção de iniciativas de capacitação profissional, como treinamentos e comunidades técnicas, para promover as melhores práticas de testes automatizados. A pesquisa contribuiu para o avanço do conhecimento sobre automação de testes em OutSystems e para a difusão de boas práticas em ambientes corporativos.
Palavras-chave: Capacitação; Desenvolvimento de software; Padronização; Qualidade de software.
1. Introdução
A digitalização acelerada redefine continuamente o panorama tecnológico, impulsionando a demanda por soluções de software que sejam entregues com rapidez e eficiência. Nesse cenário dinâmico, o desenvolvimento de software passou por uma transformação significativa, buscando adaptar-se às novas exigências do mercado e das organizações (Kamouchi et al., 2023). Uma das respostas mais proeminentes a essa necessidade é o surgimento e a proliferação das plataformas de desenvolvimento low-code. Embora uma definição formal e universalmente aceita para low-code ainda seja objeto de discussão (Pinho et al., 2023), essa metodologia é amplamente compreendida como uma abordagem que permite a criação de aplicações de software com mínima codificação manual, utilizando interfaces visuais e componentes pré-construídos. Isso acelera o ciclo de desenvolvimento e a entrega de sistemas (Rokis e Kirikova, 2023; Smith et al., 2020), democratizando o acesso à criação de software. A projeção da Gartner (2022) ilustra a magnitude dessa mudança, indicando que, até o ano de dois mil e vinte e seis, pelo menos oitenta por cento dos usuários de ferramentas low-code serão indivíduos fora dos departamentos formais de Tecnologia da Informação, evidenciando a expansão e a relevância crescente dessas plataformas no ecossistema de desenvolvimento.
Com a aceleração do desenvolvimento proporcionada pelo low-code, a garantia da qualidade do software torna-se um imperativo ainda maior. A rapidez na entrega não pode comprometer a robustez e a confiabilidade das aplicações, tornando a qualidade um tópico relevante para atender às demandas de negócio (OutSystems, 2025). Nesse contexto, a automação de testes emerge como um pilar fundamental para assegurar a integridade e a funcionalidade dos sistemas. A utilização de testes automatizados é reconhecida por sua capacidade de contribuir significativamente para a detecção precoce de falhas, o aumento da confiabilidade do software, a redução dos custos de manutenção a longo prazo e a agilização da entrega de novas funcionalidades (Kumar e Mishra, 2016; Alégroth et al., 2016). A integração de práticas de teste automatizado desde as fases iniciais do ciclo de vida do desenvolvimento de software é crucial para manter a qualidade em ambientes de alta velocidade, garantindo que as soluções técnicas propostas e implementadas satisfaçam os requisitos funcionais e não funcionais estabelecidos.
Apesar dos benefícios evidentes da automação de testes, sua implementação e manutenção em plataformas low-code, como a OutSystems, apresentam desafios específicos que merecem atenção. Embora o low-code vise simplificar o desenvolvimento, ele não elimina intrinsecamente a complexidade inerente aos processos de teste, podendo até introduzir novas particularidades. Observa-se no campo que equipes frequentemente enfrentam obstáculos relacionados à falta de conhecimento técnico específico sobre automação de testes no contexto low-code, bem como à ausência de padronização nos módulos e componentes das aplicações, o que dificulta a criação de scripts de teste consistentes e reutilizáveis. Adicionalmente, o tempo elevado necessário para a manutenção dos scripts de testes e as limitações das ferramentas nativas de automação de testes oferecidas pelas próprias plataformas low-code são fatores que impactam a eficácia e a escalabilidade das estratégias de teste. Tais dificuldades sugerem que a automação de testes em ambientes low-code depende não apenas de fatores tecnológicos, mas também de aspectos organizacionais e de capacitação das equipes.
Diante da crescente adoção de plataformas low-code e da indispensável necessidade de garantir a qualidade do software, torna-se essencial compreender e mitigar os desafios associados à automação de testes nesse ambiente. A identificação desses obstáculos permite que as organizações desenvolvam estratégias mais eficazes para capacitar suas equipes, padronizar processos e selecionar as ferramentas adequadas, otimizando o ciclo de desenvolvimento e garantindo a entrega de aplicações robustas e confiáveis. Assim, este estudo justifica-se pela necessidade de aprofundar o conhecimento sobre as particularidades da automação de testes em plataformas low-code e, especificamente, na OutSystems, visando fornecer subsídios para a melhoria contínua das práticas. O objetivo central desta pesquisa é identificar os principais obstáculos enfrentados por profissionais na implementação e manutenção de testes automatizados em aplicações desenvolvidas na plataforma OutSystems.
2. Material e Métodos
A pesquisa adotou uma abordagem de caráter descritivo, conforme a classificação de Gil (2019), que enfatiza a identificação, registro e análise das características de um fenômeno ou população. Essa escolha metodológica alinhou-se ao objetivo de classificar as dificuldades inerentes à implementação de testes automatizados em plataformas low-code. A natureza dos dados coletados foi mista, abrangendo tanto aspectos qualitativos, relacionados às percepções subjetivas dos participantes, quanto quantitativos, obtidos pela mensuração e quantificação das respostas. Como estratégia principal, realizou-se um levantamento de campo, utilizando um questionário online para coletar dados de profissionais com experiência relevante.
O estudo foi conduzido no período compreendido entre dezembro de dois mil e vinte e cinco e janeiro de dois mil e vinte e seis. A coleta de dados ocorreu por meio de um formulário online, amplamente divulgado na rede social LinkedIn, visando alcançar o público-alvo. O contexto da pesquisa focou em profissionais que atuam com desenvolvimento low-code, especificamente na plataforma OutSystems. A unidade de análise consistiu nas percepções e experiências desses profissionais, buscando compreender os desafios na automação de testes em seus ambientes de trabalho.
A população-alvo da pesquisa compreendeu profissionais com experiência direta na plataforma OutSystems. Para a formação da amostra, foram enviados setenta e três convites de participação, resultando em quarenta e nove respostas válidas. Os critérios de seleção dos participantes envolveram a busca por profissionais que mencionassem “OutSystems” em sua descrição no LinkedIn. Subcritérios adicionais foram aplicados, filtrando por cargos como “Tecnologia”, “Desenvolvedor de software” e “Analista de testes”, e restringindo a localidade exclusivamente ao Brasil, utilizando o plano Sales Navigator da plataforma.
O principal instrumento de coleta de dados foi um questionário online, desenvolvido e disponibilizado por meio da plataforma Google Forms. Este questionário foi cuidadosamente elaborado para alinhar-se aos objetivos específicos da pesquisa, buscando capturar as percepções e experiências dos profissionais sobre a automação de testes em OutSystems. A estrutura do questionário foi dividida em cinco seções distintas, concebidas para abordar sistematicamente os diferentes aspectos do fenômeno estudado e garantir a coerência com as metas da investigação.
A primeira seção do questionário dedicou-se à caracterização do perfil dos respondentes. Nela, foram coletadas informações essenciais sobre o cargo atual dos participantes, seu tempo de experiência com a plataforma OutSystems e o nível de maturidade dos processos de testes automatizados implementados em suas respectivas organizações. Essa etapa foi crucial para contextualizar as respostas subsequentes, permitindo uma compreensão mais aprofundada das perspectivas dos profissionais e possibilitando análises comparativas entre diferentes perfis e contextos organizacionais.
A segunda seção do instrumento de coleta focou na experiência dos participantes com a automação de testes especificamente no ambiente OutSystems. As perguntas visaram identificar o grau de adoção de testes automatizados, os tipos de testes mais frequentemente empregados, como unitários, de integração ou de regressão, e as ferramentas de automação utilizadas pelas equipes. Os dados obtidos nesta seção foram fundamentais para mapear as práticas correntes de automação e fornecer uma base sólida para a análise dos desafios e benefícios percebidos, que seriam explorados em etapas posteriores do questionário.
A terceira seção do questionário aprofundou-se na investigação dos principais desafios enfrentados pelos profissionais na implementação e manutenção de testes automatizados em projetos desenvolvidos na plataforma OutSystems. As questões abordaram uma gama de aspectos, incluindo limitações técnicas das ferramentas disponíveis, dificuldades de integração com pipelines de desenvolvimento contínuo, a ausência de padronização nos módulos das aplicações e o impacto das mudanças frequentes na interface. O objetivo central desta seção foi identificar os fatores que comprometem a estabilidade, a escalabilidade e a efetividade da automação de testes em ambientes low-code.
Na quarta seção, o foco recaiu sobre a análise das práticas de automação de testes adotadas e os benefícios percebidos pelos participantes. Foram avaliados aspectos cruciais como a melhoria da qualidade do software entregue, a redução de falhas em ambiente de produção e o aumento da agilidade no ciclo de desenvolvimento. Esta etapa do questionário permitiu compreender o impacto da automação de testes nos resultados dos projetos, sob a perspectiva direta dos profissionais envolvidos, fornecendo insights valiosos sobre a eficácia e o valor agregado dessas práticas.
A quinta e última seção do questionário foi dedicada a questões abertas, de natureza exploratória. Os participantes foram convidados a compartilhar livremente suas opiniões, sugestões e experiências práticas relacionadas à automação de testes na plataforma OutSystems. As respostas qualitativas coletadas nesta etapa foram essenciais para complementar os dados quantitativos, proporcionando uma compreensão mais rica e aprofundada dos resultados. Elas também permitiram a identificação de oportunidades de melhoria e a documentação de boas práticas no contexto específico da automação de testes low-code.
Os dados coletados foram submetidos a um processo de tratamento e análise que considerou sua natureza mista, quantitativa e qualitativa. As respostas de caráter quantitativo foram tabuladas e analisadas descritivamente, utilizando-se medidas de frequência e percentuais para identificar padrões e tendências nas percepções dos participantes. As informações qualitativas, obtidas por meio das questões abertas, foram analisadas para complementar e aprofundar a compreensão dos dados quantitativos, buscando identificar temas recorrentes, sugestões e experiências práticas que enriquecessem a interpretação dos resultados.
Embora a pesquisa tenha fornecido insights valiosos, reconhece-se que seu impacto foi limitado pelo tamanho da amostra e pela especificidade do grupo de profissionais participantes. Essa característica pode restringir a generalização dos resultados para outros contextos organizacionais ou plataformas low-code distintas. Adicionalmente, a natureza perceptiva dos dados coletados implica que as conclusões refletem as experiências individuais dos participantes, as quais podem variar significativamente conforme o nível de maturidade das equipes e das organizações envolvidas na automação de testes.
3. Resultados e Discussão
A análise dos dados coletados, conforme delineado na metodologia, forneceu uma compreensão aprofundada dos desafios e benefícios associados à implementação de testes automatizados na plataforma low-code OutSystems. A pesquisa, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, obteve 49 respostas válidas de um total de 73 convites enviados via LinkedIn, direcionados a profissionais com experiência na plataforma no Brasil. Este recorte amostral, embora específico, permitiu capturar as percepções de um grupo relevante de especialistas, cujas experiências diretas com o desenvolvimento low-code e a automação de testes são cruciais para a validação dos achados.
O perfil dos participantes revelou uma concentração significativa de desenvolvedores e líderes técnicos, conforme ilustrado na Figura 1. Este dado é fundamental para contextualizar as percepções apresentadas, uma vez que a visão desses profissionais tende a ser mais focada nos aspectos práticos da implementação e manutenção do código, bem como na gestão direta das equipes de desenvolvimento. A predominância de desenvolvedores e tech leads (líderes técnicos) sugere que os resultados refletem em grande parte as dificuldades e sucessos vivenciados no “chão de fábrica” do desenvolvimento low-code. Essa perspectiva é valiosa, pois são esses profissionais que interagem diariamente com as ferramentas e processos, enfrentando os desafios em primeira mão. Contudo, é importante considerar que a ausência de uma representação mais equitativa de outras funções, como arquitetos de software ou especialistas em QA (Quality Assurance) dedicados exclusivamente a testes, pode influenciar a abrangência das soluções propostas, que poderiam se beneficiar de uma visão mais estratégica ou de controle de qualidade (Silva & Costa, 2021). A experiência desses profissionais, conforme demonstrado na Figura 2, é predominantemente de médio a longo prazo, com a maioria possuindo entre dois e cinco anos ou mais de cinco anos de experiência com OutSystems. Este nível de experiência confere maior robustez às respostas, indicando que os participantes não são novatos na plataforma, mas sim indivíduos que já vivenciaram diversos ciclos de projeto e, consequentemente, uma gama variada de desafios e evoluções no contexto da automação de testes. Profissionais mais experientes tendem a ter uma visão mais crítica e abrangente dos problemas, além de terem tido a oportunidade de experimentar diferentes abordagens e ferramentas ao longo do tempo (Johnson et al., 2022).
Figura 1. Cargos dos participantes da pesquisa
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Figura 2. tempo de experiência em Outsystems
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A maturidade dos processos de testes nas equipes/empresas dos participantes, conforme a Figura 3, apresenta um cenário heterogêneo. Embora uma parcela significativa ainda realize testes majoritariamente manuais, o que sugere uma baixa maturidade em automação, há também uma quantidade considerável de equipes com automação madura ou em processo inicial de automação. Essa diversidade é um indicativo de que a adoção de testes automatizados em ambientes low-code não segue um padrão uniforme, sendo influenciada por múltiplos fatores contextuais. A coexistência de equipes com alta e baixa maturidade pode ser atribuída a diferenças na cultura organizacional, no investimento em capacitação e ferramentas, e na complexidade dos projetos desenvolvidos (Pinho et al., 2023). A prevalência de testes manuais em algumas organizações, mesmo em um cenário de crescente digitalização e adoção de low-code, pode ser um reflexo da percepção de que a automação é um custo adicional ou que os benefícios não justificam o investimento inicial, especialmente em equipes com prazos apertados ou recursos limitados (Alégroth et al., 2016). Por outro lado, a presença de automação madura em outras equipes demonstra que é possível alcançar um alto nível de sofisticação em testes automatizados dentro do ecossistema OutSystems, desde que haja um planejamento estratégico e um compromisso organizacional.
Figura 3. Maturidade de testes da equipe/empresa
Fonte: Resultados originais da pesquisa
No que tange às ferramentas e cobertura de testes, a pesquisa revelou que os testes de regressão e unitários são os tipos mais frequentemente automatizados, conforme a Figura 4. Essa priorização é consistente com as melhores práticas de engenharia de software, onde testes unitários garantem a correção de componentes individuais e testes de regressão asseguram que novas funcionalidades ou alterações não introduzam defeitos em partes já existentes do sistema (Rothermel & Harrold, 1997). Em plataformas low-code, onde a velocidade de desenvolvimento e a reutilização de componentes são características centrais, a automação de testes de regressão é particularmente crítica para manter a estabilidade da aplicação diante de mudanças frequentes. A ênfase em testes unitários também reflete a necessidade de garantir a qualidade dos blocos de construção fundamentais do software, que em OutSystems são os módulos e ações. A menor adoção de testes de integração, end-to-end ou de interface (UI) pode indicar desafios específicos na automação desses tipos de testes em OutSystems, como a complexidade de simular interações de usuário ou a dificuldade de integrar com sistemas externos, o que é um ponto de atenção para a melhoria contínua das práticas de automação. A pirâmide de testes, um conceito amplamente aceito na indústria, sugere que a base deve ser composta por testes unitários, seguidos por testes de integração e, no topo, testes de interface (Cohn, 2009). A predominância de testes unitários e de regressão na OutSystems, conforme os dados, alinha-se parcialmente a essa pirâmide, mas a lacuna em testes de integração e UI pode indicar uma inversão ou achatamento da pirâmide, onde testes mais caros e lentos (manuais ou end-to-end) acabam sendo mais utilizados do que o ideal, gerando gargalos e custos adicionais no ciclo de desenvolvimento.
Figura 4. Tipos de testes automatizados utilizados
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 5 destaca o “BDD Framework” como a ferramenta de automação mais utilizada pelos respondentes. O Behavior-Driven Development (BDD) é uma metodologia que promove a colaboração entre desenvolvedores, testadores e stakeholders de negócio, utilizando uma linguagem comum para descrever o comportamento esperado do software. Sua popularidade em OutSystems pode ser atribuída à sua capacidade de facilitar o entendimento e a comunicação entre as equipes, o que é particularmente benéfico em ambientes low-code, onde a agilidade e a proximidade com o negócio são valorizadas (Rokis & Kirikova, 2023). A adoção de BDD sugere uma busca por testes que não apenas validem a funcionalidade técnica, mas também garantam que a aplicação atenda às expectativas do negócio. A menor utilização de ferramentas como Selenium, Cypress e Playwright, que são amplamente empregadas em desenvolvimento tradicional, pode indicar dificuldades de integração ou limitações específicas da plataforma OutSystems que tornam essas ferramentas menos eficientes ou mais complexas de implementar. Isso reforça a necessidade de soluções mais alinhadas ao paradigma low-code, que simplifiquem a automação de testes de interface e end-to-end, sem exigir um conhecimento aprofundado de programação ou configurações complexas.
Figura 5. Ferramentas de automação utilizadas no Contexto Outsystems
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Em relação à cobertura de testes automatizados, a Figura 6 mostra que a categoria “Mais de 70%” obteve o maior número de respostas, indicando que uma parcela significativa dos participantes percebe um alto nível de cobertura em suas aplicações OutSystems. Este é um resultado positivo, pois uma alta cobertura de testes está diretamente correlacionada com a qualidade do software e a redução de defeitos em produção (Kumar & Mishra, 2016). No entanto, a presença de participantes com níveis reduzidos ou intermediários de cobertura reforça a necessidade de estratégias que promovam a evolução e a padronização das práticas de automação de testes. A variação na cobertura pode ser explicada pela diferente maturidade das equipes, pela complexidade das aplicações ou pela falta de ferramentas adequadas para medir e aumentar a cobertura de forma eficiente. Para as organizações que ainda lutam para alcançar uma cobertura satisfatória, a implementação de métricas claras e a adoção de ferramentas que facilitem a análise de cobertura são passos essenciais. Além disso, a cultura de “shift-left testing”, onde os testes são pensados e implementados desde as fases iniciais do desenvolvimento, é crucial para garantir que a cobertura seja construída progressivamente e não como uma etapa tardia e reativa.
Figura 6. Porcentagem de cobertura de testes automatizados
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Os desafios na implementação dos testes automatizados constituem o cerne desta pesquisa, e a Figura 7 apresenta os principais obstáculos percebidos pelos respondentes. A “falta de conhecimento técnico da equipe” e a “falta de padronização nos módulos da aplicação” destacam-se como os maiores ofensores. A falta de conhecimento técnico é um desafio recorrente na indústria de software, mas adquire uma nuance particular no contexto low-code. Embora plataformas como OutSystems visem democratizar o desenvolvimento, permitindo que “citizen developers” criem aplicações (Gartner, 2022; Smith et al., 2020), a automação de testes ainda exige um conjunto de habilidades técnicas específicas. Isso sugere que, enquanto a criação de aplicações pode ser simplificada, a garantia de qualidade através de testes automatizados robustos ainda demanda expertise em engenharia de software e práticas de teste. A implicação prática é a necessidade urgente de programas de capacitação e treinamento focados em automação de testes para desenvolvedores low-code, abordando não apenas as ferramentas, mas também os princípios e melhores práticas de teste.
Figura 7. Percepção dos principais desafios na implementação de testes automatizados
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A “falta de padronização nos módulos da aplicação” é outro desafio crítico. Em OutSystems, onde a reutilização de componentes é incentivada, a ausência de padrões claros para o desenvolvimento de módulos pode levar a inconsistências que dificultam a criação e manutenção de testes automatizados. Módulos não padronizados podem ter diferentes estruturas de interface, nomes de elementos ou comportamentos, tornando os scripts de teste frágeis e propensos a falhas a cada alteração. Isso se alinha com a literatura que aponta a padronização como um pilar para a manutenibilidade e escalabilidade de sistemas (Alégroth et al., 2016). Para mitigar este problema, as organizações devem investir na definição e aplicação rigorosa de guias de estilo, padrões de arquitetura e convenções de nomenclatura para os módulos e elementos da interface. A criação de bibliotecas de componentes reutilizáveis e testados, com documentação clara, também pode contribuir significativamente para a padronização e, consequentemente, para a estabilidade dos testes.
Outros fatores técnicos e processuais, como o “tempo elevado para manutenção dos scripts” e as “limitações das ferramentas nativas”, também foram apontados como desafios significativos. O tempo de manutenção dos scripts é um problema crônico na automação de testes, frequentemente exacerbado por mudanças constantes na interface do usuário ou na lógica de negócio. Em OutSystems, a natureza visual do desenvolvimento e a rapidez com que as interfaces podem evoluir podem tornar os testes de UI particularmente voláteis. Isso exige a adoção de estratégias de design de testes mais resilientes, como o uso de seletores robustos para elementos da interface, a implementação do padrão Page Object Model e a separação clara entre a lógica de teste e a lógica de interação com a UI. As “limitações das ferramentas nativas” indicam uma lacuna no ecossistema OutSystems para suporte abrangente à automação de testes. Embora existam soluções de terceiros e frameworks como BDD, a falta de ferramentas oficiais ou nativas robustas para todos os tipos de teste (especialmente para testes de backend, integração e end-to-end) pode forçar as equipes a desenvolver soluções customizadas ou a integrar ferramentas externas de forma complexa, aumentando o custo e a dificuldade de implementação. Isso sugere uma oportunidade para a OutSystems investir no desenvolvimento de um conjunto mais completo de ferramentas de teste nativas ou em integrações mais fluidas com soluções de mercado.
A classificação dos desafios, apresentada na Figura 8, revela que as dificuldades técnicas se destacam levemente em comparação com as processuais e organizacionais. No entanto, a pluralidade de causas indica que a resolução dos problemas de automação de testes em OutSystems não pode ser abordada de forma unilateral. As dificuldades técnicas, como a falta de conhecimento ou as limitações de ferramentas, frequentemente têm raízes em questões processuais (como a ausência de um processo de teste bem definido ou a falta de tempo alocado para automação) e organizacionais (como a falta de apoio da liderança ou a cultura que prioriza a velocidade em detrimento da qualidade). Por exemplo, a “falta de apoio da liderança” (mencionada na Figura 7) é um desafio organizacional que pode diretamente impactar o investimento em capacitação técnica e a alocação de tempo para padronização. A “dificuldade de integração com pipelines de desenvolvimento contínuo” (também na Figura 7) é um desafio processual que exige tanto conhecimento técnico quanto apoio organizacional para ser superado.
Figura 8. Percepção dos principais desafios na implementação de testes automatizados classificados por grupo de dificuldade
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Essa interconexão entre os tipos de dificuldades ressalta a necessidade de uma abordagem holística. Não basta apenas treinar as equipes; é preciso revisar os fluxos de trabalho, definir padrões arquitetônicos claros e garantir o apoio da liderança para que a automação de testes seja vista como um investimento estratégico e não apenas um custo adicional (Kumar & Mishra, 2016). A implementação de uma cultura de qualidade, onde a automação de testes é parte integrante do ciclo de desenvolvimento desde o início, é essencial para superar esses desafios multifacetados.
Um achado particularmente interessante, conforme a Figura 9, é a percepção de que o low-code, uma característica central da OutSystems, não é visto como um fator de influência significativo na automação de testes, com 53,1% dos respondentes avaliando sua influência como neutra. Este resultado é contraintuitivo, pois a promessa do low-code é simplificar e acelerar o desenvolvimento de software. Se o low-code não facilita a automação de testes, isso sugere que, embora ele abstraia a complexidade da codificação, ele pode não estar abordando ou até mesmo introduzindo novas complexidades no processo de garantia de qualidade. Isso pode ocorrer porque a abstração do código pode dificultar a inspeção e o controle fino necessários para a automação de testes, ou porque a rapidez das mudanças no desenvolvimento low-code torna os testes mais frágeis e difíceis de manter. Este ponto merece uma investigação mais aprofundada, pois desafia a narrativa de que o low-code simplifica todo o ciclo de vida do software. Uma possível explicação é que a abstração de complexidades do desenvolvimento via low-code se concentra primariamente na fase de construção, deixando as fases de teste e manutenção com suas complexidades inerentes, ou até mesmo introduzindo novas, como a dificuldade de acessar elementos internos da plataforma para testes de unidade ou integração mais profundos. Isso implica que a OutSystems e outros provedores de low-code precisam focar mais em como suas plataformas podem explicitamente facilitar a automação de testes, talvez através de APIs mais robustas para testes, ferramentas de depuração aprimoradas ou um suporte mais integrado para frameworks de teste.
Figura 9. Percepção em relação a se o low-code facilita ou dificulta a automação de testes
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Apesar dos desafios, os benefícios percebidos da automação de testes são amplamente positivos, como mostra a Figura 10. A “redução de erros em produção”, o “aumento da cobertura de testes” e a “padronização da qualidade” foram os benefícios mais recorrentes. Estes achados reforçam a proposta de valor da automação de testes, que é a de entregar software de maior qualidade, com menos defeitos e de forma mais consistente (Kumar & Mishra, 2016). A redução de erros em produção tem um impacto direto na satisfação do cliente e na reputação da empresa, enquanto o aumento da cobertura de testes proporciona maior confiança nas entregas. A padronização da qualidade, por sua vez, contribui para a consistência e a manutenibilidade do software ao longo do tempo. Esses benefícios são cruciais para justificar o investimento em automação de testes, mesmo diante das dificuldades. A percepção de que a automação de testes tem um “alto impacto” na qualidade final do software, conforme a Figura 11, corrobora a importância dessas práticas para os profissionais. Isso indica que, apesar dos obstáculos, as equipes que implementam a automação de testes em OutSystems reconhecem seu valor estratégico e seu papel fundamental na garantia da qualidade do produto final.
Figura 10. Percepção de benefícios que a automação pode trazer
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Figura 11. Impacto da automação de testes na qualidade final do software
Fonte: Resultados originais da pesquisa
As sugestões de melhoria fornecidas pelos respondentes nas questões abertas complementam os dados quantitativos e oferecem insights práticos para o avanço da automação de testes em OutSystems. A “falta de soluções nativas robustas para testes frontend e backend” e a “integração complexa” são pontos críticos que ecoam as “limitações das ferramentas nativas” da Figura 7. Os participantes anseiam por um suporte mais maduro para testes End-to-End, BDD, mocks de dados e integração direta com pipelines de CI/CD. Isso sugere que a OutSystems precisa investir em um ecossistema de testes mais completo e integrado, que ofereça ferramentas e APIs que simplifiquem a criação e execução de testes em todas as camadas da aplicação, desde a interface do usuário até a lógica de negócio e a integração com sistemas externos.
A “padronização” emergiu como um tema recorrente, com sugestões para padrões mais claros de arquitetura, nomenclatura de widgets e uso de identificadores estáveis (como tags de QA). A ausência desses padrões, conforme já discutido, dificulta a criação de testes robustos e manuteníveis. A implementação de diretrizes de desenvolvimento e a promoção de boas práticas de codificação e design de interface são cruciais para mitigar esse problema. Isso pode ser alcançado através de documentação interna, revisões de código e a criação de componentes reutilizáveis que já sigam esses padrões.
A “capacitação técnica e o treinamento das equipes” também foram apontados como fatores críticos. A falta de conhecimento prático, documentação insuficiente e carência de exemplos aplicáveis ao dia a dia dos projetos são barreiras significativas. Para superar isso, as organizações devem investir em programas de treinamento contínuo, workshops, bootcamps e comunidades de prática que disseminem o conhecimento sobre automação de testes em OutSystems. A criação de exemplos práticos e a documentação de boas práticas podem acelerar a curva de aprendizado e capacitar os desenvolvedores a criar testes mais eficazes.
Além dos aspectos técnicos, questões “organizacionais e culturais” foram levantadas, como a necessidade de maior apoio da liderança e dos clientes, alocação de tempo adequado para testes automatizados e definição clara de responsabilidades entre desenvolvedores e equipes de QA. A automação de testes, para ser bem-sucedida, exige um compromisso de toda a organização. A liderança precisa reconhecer o valor estratégico da automação e alocar os recursos necessários (tempo, orçamento, pessoal). A definição clara de papéis e responsabilidades garante que não haja lacunas na cobertura de testes e que a automação seja uma responsabilidade compartilhada. O ceticismo de alguns respondentes quanto à eficiência dos testes automatizados em cenários de pressão por prazos é um lembrete de que a cultura de “entrega rápida a qualquer custo” pode minar os esforços de automação. É fundamental demonstrar o ROI da automação, mostrando que o investimento inicial em testes automatizados resulta em economia de tempo e recursos a longo prazo, através da redução de defeitos e da aceleração do ciclo de feedback.
A percepção de que os testes automatizados em OutSystems tendem a ser mais eficazes quando planejados desde o início do projeto e integrados à arquitetura da aplicação e ao pipeline de entrega contínua reforça o conceito de “shift-left testing”. Tratar os testes como uma etapa posterior ou opcional leva à perda de valor estratégico e ao aumento do retrabalho. A integração contínua e a entrega contínua (CI/CD) são práticas que se beneficiam enormemente da automação de testes, permitindo feedback rápido e detecção precoce de defeitos. Portanto, as organizações devem incorporar a automação de testes como parte integrante de seus processos de desenvolvimento ágil e DevOps, garantindo que os testes sejam executados automaticamente a cada alteração de código.
Em suma, os resultados desta pesquisa evidenciam que, embora a plataforma OutSystems ofereça agilidade no desenvolvimento, a automação de testes ainda apresenta desafios multifacetados que exigem uma abordagem combinada de melhorias técnicas, processuais e organizacionais. A superação desses obstáculos não depende apenas da evolução da plataforma, mas também de um investimento contínuo em capacitação, padronização e uma mudança cultural que valorize a qualidade do software desde as fases iniciais do projeto. A percepção positiva dos benefícios da automação, no entanto, serve como um forte incentivo para que as organizações persistam nesses esforços, visando a entrega de aplicações low-code mais robustas, confiáveis e de alta qualidade.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido, identificando os principais obstáculos enfrentados por profissionais na implementação e manutenção de testes automatizados em aplicações desenvolvidas na plataforma OutSystems. A pesquisa revelou que a falta de conhecimento técnico da equipe, a ausência de padronização nos módulos da aplicação, o tempo elevado para manutenção dos scripts e as limitações das ferramentas nativas são os desafios mais proeminentes. Estes fatores não se restringem a aspectos puramente tecnológicos, mas também englobam questões processuais e organizacionais, evidenciando a necessidade de uma abordagem multifacetada para aprimorar as práticas de automação de testes. Apesar dessas dificuldades, os benefícios percebidos, como a redução de erros em produção e o aumento da cobertura de testes, reforçam o valor estratégico da automação.
Contudo, é fundamental reconhecer as limitações deste estudo, cujo impacto foi restrito pelo tamanho da amostra e pela natureza perceptiva dos dados coletados, que refletem a experiência individual dos participantes e podem não ser generalizáveis para todos os contextos organizacionais ou outras plataformas low-code. Para estudos futuros, sugere-se aprofundar a investigação sobre como as plataformas low-code podem explicitamente facilitar a automação de testes, desenvolvendo APIs mais robustas, ferramentas de depuração aprimoradas e suporte integrado para frameworks de teste. Adicionalmente, recomenda-se explorar a criação de programas de capacitação e a definição de padrões arquitetônicos e de desenvolvimento mais claros, visando mitigar os desafios identificados e promover uma cultura de qualidade mais robusta no ecossistema OutSystems.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq
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