31 de julho de 2026
Gestão de Riscos na Setorização da Rede de Distribuição de Água em Universidade Pública Brasileira
Iany Andrade dos Santos; Márcia Aparecida Prim
DOI: 10.22167/2675-6528-202600902
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A setorização de redes de distribuição de água representa uma estratégia crucial para o controle de perdas e a melhoria da eficiência hidráulica, contudo, sua implementação em ambientes institucionais, como universidades públicas, envolve riscos técnicos, operacionais e de gestão que podem comprometer os objetivos do projeto. O estudo objetivou identificar, analisar e classificar os riscos associados à setorização da rede de distribuição de água em uma universidade pública brasileira, propondo estratégias de mitigação para aprimorar a eficiência operacional e a segurança do sistema de abastecimento institucional. A pesquisa caracterizou-se como aplicada, exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa e apoio quantitativo, configurando-se como estudo de caso. A coleta de dados envolveu revisão sistemática da literatura, análise documental institucional e levantamento junto a especialistas por meio de formulário estruturado. Os riscos identificados foram classificados utilizando-se uma matriz de probabilidade e impacto, conforme diretrizes do PMBOK. Identificaram-se 22 riscos distribuídos em cinco categorias, com um risco crítico (R22 – inconsistência topográfica/interligações não mapeadas) e 12 riscos altos, evidenciando um perfil de vulnerabilidade distribuída. A análise revelou que os riscos não se restringiram a aspectos técnicos, mas incluíram fragilidades estruturais, limitações operacionais e desafios institucionais. O plano de mitigação proposto organizou ações em horizontes temporais de curto, médio e longo prazo, demonstrando que avanços significativos podem ser alcançados por meio de organização institucional e planejamento integrado, sem dependência exclusiva de elevados investimentos financeiros. A pesquisa contribuiu com um mapeamento estruturado dos riscos e subsídios metodológicos para a gestão de projetos similares.
Palavras-chave: abastecimento institucional; infraestrutura hídrica; matriz de probabilidade e impacto; mitigação; PMBOK.
1. Introdução
A gestão dos recursos hídricos urbanos constitui um desafio crescente em escala global, exacerbado pela rápida urbanização e pelo envelhecimento das infraestruturas de abastecimento. Em diversos centros urbanos, a capacidade dos sistemas de distribuição de água é comprometida, resultando em fornecimento intermitente e ineficiências operacionais (Tucci, 2008; UNESCO, 2020). Essa problemática é particularmente acentuada em países em desenvolvimento, onde a infraestrutura muitas vezes não acompanha o ritmo do crescimento populacional e da demanda, levando a situações de desabastecimento (Saldarriaga et al., 2025). Um dos fatores mais críticos que contribuem para essa ineficiência é o elevado índice de perdas de água, que podem variar de vinte a trinta por cento da água produzida, alcançando patamares superiores a cinquenta por cento em redes antigas ou com manutenção deficiente (El-Zahab e Zayed, 2019; Elshazly et al., 2024). Tais perdas não apenas representam um desperdício de um recurso vital, mas também acarretam impactos econômicos substanciais, como custos elevados de captação, tratamento e bombeamento, além de danos à infraestrutura urbana. A mitigação dessas perdas é, portanto, imperativa para a viabilidade econômica e ambiental dos sistemas de abastecimento.
Diante desse panorama, a setorização de redes de distribuição de água emerge como uma estratégia fundamental para o monitoramento e controle eficazes. Essa técnica consiste na divisão da rede em áreas menores e hidraulicamente isoladas, permitindo um controle mais preciso de variáveis como pressão e vazão (El-Zahab e Zayed, 2019). A subsetorização facilita a detecção e localização de vazamentos, otimiza o uso de medidores e possibilita uma gestão proativa das perdas, contribuindo significativamente para a melhoria da eficiência hidráulica e operacional dos sistemas (Sela Perelman et al., 2015). Contudo, a literatura científica ainda apresenta uma lacuna significativa em relação à sua aplicação e aos riscos associados em ambientes institucionais específicos, como campi universitários. Esses contextos possuem características singulares, como redes de distribuição complexas e frequentemente antigas, grande porte territorial e demandas hídricas variadas, exigindo uma abordagem investigativa adaptada.
A implementação de um projeto de setorização em uma rede de distribuição de água, especialmente em um ambiente institucional complexo, configura-se como um empreendimento de alta complexidade. Nesse sentido, a aplicação de práticas robustas de gestão de projetos, conforme preconizado pelo Project Management Institute (PMI, 2021), é crucial para assegurar o alcance dos objetivos. O gerenciamento de riscos, em particular, assume um papel central, pois o risco é inerente a qualquer projeto e representa a incerteza de um evento ou condição que, se ocorrer, pode ter efeitos positivos ou negativos sobre os objetivos do projeto (PMI, 2021). O campus universitário objeto deste estudo exemplifica essa complexidade. A instituição passou por uma transformação significativa em seu sistema de abastecimento de água a partir de meados de dois mil e vinte e quatro, optando por implantar um sistema próprio baseado em poços tubulares e uma rede interna autogerida, em resposta a alterações regulatórias e tarifárias. No entanto, a rede de distribuição interna, com mais de cinquenta anos de uso, já apresentava um histórico de problemas recorrentes, incluindo rompimentos de tubulações e falhas em válvulas. Essa coexistência entre um sistema produtor recém-implantado e uma infraestrutura de distribuição envelhecida criou um ambiente de risco amplificado. A necessidade de suspensões temporárias de atividades acadêmicas, racionamento em setores específicos e o uso de caminhão-pipa, registrados na fase inicial de operação, evidenciaram vulnerabilidades significativas na capacidade do sistema de manter níveis aceitáveis de serviço durante intervenções. Tais ocorrências sublinharam a importância crítica de um planejamento detalhado e de uma gestão de riscos proativa para a continuidade do abastecimento e a eficiência operacional.
A relevância deste estudo reside, portanto, na necessidade de compreender e mitigar os riscos associados à transição e modernização de sistemas de abastecimento em instituições públicas, que frequentemente operam com orçamentos restritos e infraestruturas legadas. A setorização, embora promissora, demanda uma análise aprofundada dos potenciais desafios para garantir sua efetividade e sustentabilidade. Assim, este trabalho objetivou identificar, analisar e classificar os riscos inerentes à implementação da setorização da rede de distribuição de água em uma universidade pública brasileira, propondo, a partir dessa análise, estratégias de mitigação que contribuam para aprimorar a eficiência operacional e a segurança do sistema de abastecimento institucional, servindo como subsídio para projetos similares.
2. Material e Métodos
A pesquisa foi classificada como aplicada, de natureza exploratória e descritiva, adotando uma abordagem predominantemente qualitativa com suporte de análise quantitativa, conforme as diretrizes de Gil (2019). O caráter exploratório justificou-se pela escassez de estudos sobre gestão de riscos na setorização de redes de distribuição de água em ambientes universitários, visando proporcionar maior familiaridade com o problema e aprimorar hipóteses. Concomitantemente, o estudo assumiu um perfil descritivo, buscando identificar, classificar e caracterizar os riscos levantados, detalhando suas causas, consequências e probabilidade de ocorrência. Essa abordagem permitiu uma compreensão aprofundada do fenômeno investigado.
A estratégia metodológica adotada foi qualitativa, fundamentada na análise interpretativa da Revisão Sistemática da Literatura, na análise documental institucional e na coleta de percepções de especialistas por meio de um formulário estruturado. Complementarmente, incorporou-se um tratamento quantitativo através da aplicação de uma matriz de probabilidade e impacto, seguindo as diretrizes do Project Management Institute (PMI, 2021), o que possibilitou a classificação objetiva dos riscos identificados. Em termos de procedimentos técnicos, a pesquisa configurou-se como um estudo de caso, concentrando-se na setorização da rede de distribuição de água de uma universidade pública brasileira, conforme preconizado por Yin (2018).
O estudo foi conduzido em uma universidade pública brasileira, cujo campus passou por uma transição significativa em seu sistema de abastecimento de água a partir de meados de dois mil e vinte e quatro. Nesse período, a instituição implementou um sistema próprio baseado em poços tubulares e uma rede interna autogerida, em resposta a alterações regulatórias e tarifárias. A rede de distribuição interna, com mais de cinquenta anos de uso, apresentava um histórico de problemas recorrentes. A unidade de análise central foi a rede de distribuição de água do campus universitário, com foco nos riscos associados à sua setorização.
A unidade de análise principal foi a rede de distribuição de água do campus universitário. A população de interesse para a revisão sistemática da literatura incluiu artigos científicos publicados entre dois mil e vinte e dois mil e vinte e seis, em inglês, nas áreas de Engenharia Civil, Recursos Hídricos, Engenharia Ambiental, Pesquisa Operacional e correlatas. Os critérios de exclusão abrangeram artigos não relacionados ao objetivo, indisponíveis para acesso ou duplicados. Para o levantamento de campo, a amostra foi composta por três especialistas com atuação técnica ou gerencial diretamente ligada ao sistema de abastecimento da instituição, selecionados por sua experiência e envolvimento com a rede de distribuição.
A coleta de dados foi estruturada em três etapas sequenciais e complementares, cujos resultados foram triangulados para a identificação e classificação dos riscos. A primeira etapa consistiu em uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), conduzida por meio de um protocolo estruturado, baseado em Dresch, Lacerda e Antunes Júnior (2015) e Galvão e Ricarte (2019). A busca foi realizada na base de dados Web of Science, utilizando uma string de busca específica e aplicando filtros temporais, de idioma e de categoria, conforme detalhado no protocolo. Essa etapa visou identificar riscos potenciais na setorização de redes de distribuição de água.
Tabela 1. Protocolo para Revisão Sistemática da Literatura
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Item |
Descrição |
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Framework conceitual |
Identificar potenciais riscos na setorização da rede de distribuição de água |
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Contexto |
Gerenciamento de riscos da rede de distribuição de água |
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Campos de Busca |
Título, Resumo e Palavras-Chave |
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Filtros de Busca |
Temporal: 2020-2026 |
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Palavras-chave |
Water distribution zoning, water distribution sectorization, sectorization e water distribution network |
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String de Busca |
((“Water distribution zoning” OR “water distribution sectorization” OR sectorization) AND “water distribution network”) |
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Base de Dados |
Web of Science |
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Critérios de Exclusão |
Não relacionado ao objetivo do trabalho |
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Fonte |
Resultados originais da pesquisa |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A segunda etapa envolveu a análise documental institucional, com o propósito de caracterizar o contexto operacional e a infraestrutura do sistema de abastecimento da universidade. Foram examinados relatórios técnicos, registros de manutenção, comunicados operacionais e projetos relacionados à implantação e operação do sistema próprio de abastecimento. Essa análise permitiu compreender o histórico de ocorrências e mapear vulnerabilidades institucionais. A terceira etapa compreendeu um levantamento junto a especialistas, utilizando um formulário eletrônico estruturado, elaborado na plataforma Google Forms, para validar riscos da literatura, identificar novos riscos e classificar a probabilidade e o impacto de cada um.
A execução da pesquisa iniciou-se com a Revisão Sistemática da Literatura, onde a busca na base de dados Web of Science resultou em trinta e cinco registros iniciais. Após a aplicação rigorosa dos critérios de exclusão definidos no protocolo, dez artigos foram selecionados para leitura completa e sumarização, fornecendo a base teórica para a identificação preliminar de riscos. Essa etapa foi crucial para contextualizar a problemática e embasar a construção do instrumento de coleta de dados junto aos especialistas, garantindo uma fundamentação robusta para as análises subsequentes.
Em seguida, procedeu-se à análise documental da universidade, examinando-se relatórios técnicos e registros operacionais para caracterizar o sistema de abastecimento e identificar vulnerabilidades históricas. Esta fase permitiu um entendimento aprofundado da infraestrutura existente e do histórico de ocorrências, mapeando os pontos críticos relacionados à setorização. Posteriormente, o formulário eletrônico foi enviado aos especialistas em quatro de março de dois mil e vinte e seis, com prazo de resposta até vinte de março do mesmo ano. As respostas obtidas foram analisadas para validar os riscos identificados e coletar novas percepções.
Os dados coletados foram submetidos a um processo de tratamento e análise que envolveu a organização dos riscos identificados em categorias temáticas. Essa categorização foi consolidada a partir da triangulação dos achados da revisão sistemática da literatura, da análise documental e das percepções dos especialistas. As respostas às questões abertas do formulário foram analisadas qualitativamente, empregando-se a técnica de análise de conteúdo para identificar percepções recorrentes e riscos adicionais não previamente contemplados, enriquecendo a compreensão do cenário de riscos.
Para a classificação dos riscos, utilizou-se a matriz de probabilidade-impacto, seguindo as orientações do Project Management Institute (PMI, 2021). A probabilidade de ocorrência (P) e o impacto potencial (I) de cada risco foram mensurados em uma escala de um a quatro, correspondendo aos níveis Baixo, Médio, Alto e Muito Alto, respectivamente. O nível de risco final foi determinado pelo produto de P por I. Os resultados foram então consolidados em uma matriz de risco, permitindo a classificação dos eventos em níveis Baixo, Médio, Alto e Crítico, fornecendo uma base objetiva para a priorização das ações de mitigação.
Com base na classificação dos riscos, especialmente aqueles categorizados como Altos e Críticos, foram propostas estratégias de mitigação. Essas estratégias foram desenvolvidas em conformidade com as diretrizes de resposta a riscos do PMBOK (PMI, 2021), visando a redução da probabilidade de ocorrência, a minimização do impacto potencial ou a combinação de ambos. O plano de mitigação buscou oferecer soluções práticas e alinhadas às boas práticas de gestão de projetos, contribuindo para aprimorar a eficiência operacional e a segurança do sistema de abastecimento institucional.
A pesquisa foi conduzida em estrita conformidade com os princípios éticos aplicáveis a estudos acadêmicos, garantindo o respeito aos direitos autorais e às normas de citação das fontes bibliográficas. O formulário eletrônico aplicado aos especialistas foi desenhado para não solicitar dados pessoais ou institucionais que pudessem identificar os participantes. A participação ocorreu de forma voluntária, com aceite prévio, e foi assegurado o anonimato e a confidencialidade das respostas, com os dados utilizados exclusivamente para fins acadêmicos e analisados de forma agregada, sem individualização dos respondentes.
Para avaliar a necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, preencheu-se o Formulário de Direcionamento Ético institucional. O resultado indicou que a submissão formal não era necessária, dada a natureza da pesquisa e a ausência de coleta de dados sensíveis ou de informações que pudessem identificar os participantes. Contudo, uma limitação metodológica relevante foi a participação restrita de especialistas ao segmento gerencial e de planejamento, com a ausência de profissionais do setor operacional. Essa restrição pode ter limitado a captação de percepções práticas e cotidianas sobre o funcionamento da rede, que poderiam complementar a visão estratégica obtida.
3. Resultados e Discussão
Com base na triangulação entre a análise de documentação institucional, trabalhos técnicos anteriores relacionados ao sistema de abastecimento de água da universidade, a revisão sistemática da literatura e o levantamento junto aos especialistas, foi possível realizar uma caracterização abrangente do contexto no qual se inseriu a rede de distribuição interna, identificar os riscos associados à proposta de setorização e subsidiar a construção da matriz de classificação de riscos. Os resultados e discussões que se seguem detalham esses achados, contextualizando-os com a literatura pertinente e explorando suas implicações práticas.
A caracterização do sistema da universidade revelou um cenário de transição e vulnerabilidade. O campus universitário, objeto deste estudo, passou por uma mudança significativa em seu sistema de abastecimento de água, impulsionada pela promulgação da Lei nº 14.026, de 15 de julho de 2020, o novo Marco Legal do Saneamento Básico. Essa legislação levou à concessão dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário da região metropolitana a uma operadora privada, alterando a relação contratual e tarifária com a universidade. A operadora anterior, que mantinha tarifas diferenciadas, foi substituída, e as novas cobranças foram consideradas incompatíveis com a realidade orçamentária da instituição. Essa situação forçou a gestão universitária a buscar a autossuficiência hídrica, implementando um sistema próprio de abastecimento baseado em poços tubulares e uma rede interna autogerida a partir de meados de 2024.
Essa decisão, embora estratégica para a autonomia e economia institucional, trouxe consigo uma ampliação da responsabilidade interna pelo gerenciamento de riscos na produção e distribuição de água. A Pró-Reitoria de Infraestrutura assumiu a operação do sistema produtor, composto por três poços tubulares com manutenções preventivas periódicas, e as ações de modernização da rede de distribuição. O sistema produtor, por ser novo e monitorado, apresentava um perfil de risco mais controlado, com foco na garantia da qualidade da água e eficiência hidráulica, em conformidade com as condicionantes ambientais e normas aplicáveis à operação de captações subterrâneas. Contudo, a rede de distribuição interna, com mais de 50 anos de uso, contrastava com essa modernidade. A coexistência de um sistema produtor recente e uma rede de distribuição envelhecida configurou um ambiente de risco ampliado, onde fragilidades estruturais e operacionais se manifestaram em episódios de rompimentos de tubulações e falhas em válvulas.
A literatura corrobora que a infraestrutura envelhecida é um dos principais fatores que agravam a gestão eficiente dos recursos hídricos urbanos, especialmente em contextos de crescimento desordenado e restrições orçamentárias (Tucci, 2008; UNESCO, 2020). As perdas de água, frequentemente causadas por tubulações defeituosas ou malconservadas, podem representar de 20% a 30% da água transportada, chegando a mais de 50% em redes antigas (El-Zahab e Zayed, 2019; Elshazly et al., 2024). No caso da universidade, a necessidade de suspensão temporária de atividades acadêmicas, racionamento em setores específicos e o uso de caminhão-pipa para suprir a residência universitária evidenciaram vulnerabilidades significativas na capacidade do sistema em manter níveis aceitáveis de serviço durante intervenções. Isso sugere riscos associados à gestão de pressões, à coordenação de manobras operacionais e à disponibilidade de reservas e alternativas de abastecimento, aspectos que se tornam ainda mais críticos em uma rede com histórico de problemas. A decisão de buscar autossuficiência, embora uma oportunidade de economia e controle, inseriu a setorização em um ambiente de elevada vulnerabilidade estrutural, onde intervenções poderiam gerar efeitos não previstos, especialmente relacionados à gestão de pressões e à continuidade do abastecimento. A aplicação das práticas preconizadas pelo Project Management Institute (PMI, 2021) para a gestão de riscos torna-se, portanto, fundamental para mitigar esses desafios.
A Revisão Sistemática da Literatura (RSL) foi uma etapa crucial para contextualizar a problemática e embasar a identificação preliminar de riscos. A busca na base de dados Web of Science retornou inicialmente 35 resultados. Após a aplicação rigorosa dos critérios de exclusão definidos no protocolo, 10 artigos foram selecionados para leitura completa e sumarização, conforme ilustrado no fluxograma PRISMA apresentado na Figura 1.
Figura 1. Fluxograma PRISMA da pesquisa bibliográfica
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise da literatura recente evidenciou que, embora a setorização de redes de distribuição de água seja amplamente reconhecida como estratégia eficaz para o controle de perdas, melhoria do gerenciamento operacional e aumento da eficiência hidráulica, sua implementação esteve associada a um conjunto relevante de riscos e dificuldades técnicas, operacionais e institucionais. Essa constatação é fundamental, pois desmistifica a ideia de que a setorização é uma solução universalmente simples, revelando a complexidade inerente à sua aplicação em sistemas reais.
Estudos baseados em métodos de otimização e teoria dos grafos, como os de Vasilic et al. (2020, 2024) e Raimundo et al. (2023), demonstraram que a definição de setores depende fortemente da qualidade e da disponibilidade dos dados hidráulicos e de consumo, bem como da adequada calibração dos modelos utilizados. Soluções obtidas por métodos heurísticos ou algoritmos evolutivos mostraram-se sensíveis a incertezas nos dados de entrada, especialmente em redes extensas e pouco monitoradas, resultando em setores hidraulicamente desequilibrados ou operacionalmente pouco robustos. Isso implica que, sem um levantamento cadastral preciso e dados de consumo confiáveis, a setorização pode não atingir seus objetivos de controle de perdas e otimização hidráulica, podendo até mesmo agravar problemas existentes ao criar zonas de baixa pressão ou sobrecarga. A implicação prática para a universidade é a necessidade premente de investir em levantamento de dados e modelagem hidráulica antes de qualquer intervenção física, para evitar a perpetuação de ineficiências.
Outro aspecto recorrente na literatura referiu-se ao elevado esforço computacional e à complexidade associada à aplicação de técnicas avançadas, como maximização de modularidade “fuzzy”, algoritmos de otimização multiobjetivo e abordagens baseadas em gêmeos digitais. Pandey e Srinivas (2025) e Ramos et al. (2024) discutiram que a adoção de Áreas de Medição Distrital dinâmicas e ferramentas digitais exigiu infraestrutura de automação, telemetria e comunicação em tempo real, além de equipes técnicas capacitadas. Essa exigência limita a aplicação prática dessas soluções em sistemas com restrições financeiras e institucionais, como é o caso de muitas universidades públicas. A universidade, portanto, enfrenta o desafio de equilibrar a ambição tecnológica com a realidade de seus recursos, sugerindo uma abordagem incremental e pragmática para a automação e o monitoramento, focando inicialmente nos pontos mais críticos da rede.
Do ponto de vista hidráulico, a literatura destacou que setores definidos predominantemente por critérios topológicos ou métricas de grafos nem sempre garantiram desempenho hidráulico adequado. Spizzo et al. (2023) apontaram que a redução excessiva de conexões entre setores comprometeu a redundância da rede, aumentando sua vulnerabilidade a falhas e dificultando manobras operacionais em situações de emergência. Esse risco mostrou-se ampliado quando houve inclusão de adutoras principais nos limites dos setores, o que, segundo Zhou et al. (2021), elevou o impacto de falhas e os custos de medição, embora sua exclusão tenha reduzido a capacidade de controle de fluxos e pressões. Para a universidade, isso significa que a setorização deve ser planejada cuidadosamente para manter a flexibilidade operacional e a capacidade de isolamento de trechos sem comprometer o abastecimento de áreas críticas. A redundância, muitas vezes vista como um custo adicional, é na verdade um investimento em resiliência, crucial para um ambiente institucional que não pode arcar com interrupções prolongadas.
Adicionalmente, avaliações de eficiência pós-setorização, como a realizada por Palomero-González et al. (2022), evidenciaram que setores mal concebidos tenderam a perpetuar problemas preexistentes, como pressões inadequadas, desequilíbrios de demanda e limitações decorrentes do envelhecimento da infraestrutura. Nesses casos, a setorização, em vez de atuar como solução, evidenciou fragilidades estruturais do sistema. Isso reforça a necessidade de que o projeto de setorização na universidade não seja apenas uma intervenção técnica, mas um processo de diagnóstico e planejamento abrangente que considere a condição atual da rede e as necessidades específicas de cada setor, evitando a replicação ou agravamento de problemas.
Por fim, a integração da setorização com estratégias de gestão de pressão e recuperação energética, conforme discutido por Souza, Mesquita e Blanco (2023) e Cemiloglu et al. (2023), introduziu novos desafios relacionados ao controle em tempo real, à sensibilidade às variações de demanda e à dificuldade operacional de ajuste e manutenção de múltiplos dispositivos reguladores. Esses aspectos complexos exigem não apenas tecnologia, mas também equipes capacitadas e protocolos operacionais robustos. A universidade, ao implementar a setorização, deve estar ciente de que a simples divisão da rede não é suficiente; é preciso desenvolver uma capacidade interna de gerenciamento e manutenção contínua para extrair o máximo benefício da nova configuração.
O levantamento inicial de riscos, consolidado a partir da revisão sistemática da literatura, da análise documental e das percepções dos especialistas, resultou na identificação de 22 riscos, distribuídos em cinco categorias: Infraestrutura da Rede Interna, Operação e Continuidade do Abastecimento, Produção e Qualidade da Água, Gestão, Coordenação e Comunicação, e Planejamento e Implementação da Setorização. Essa abrangência de categorias sublinha a complexidade do projeto de setorização e a necessidade de uma abordagem holística para a gestão de riscos.
Na categoria Infraestrutura da Rede Interna, o Risco R1: Rompimento de tubulações durante variações de pressão ou manobras foi identificado como um problema recorrente. Tubulações antigas, com mais de 50 anos, são inerentemente mais suscetíveis a falhas estruturais, especialmente sob estresse de pressão ou durante manobras operacionais, que podem gerar picos de pressão. Elshazly et al. (2024) e El-Zahab e Zayed (2019) destacam que a idade da infraestrutura é um fator crítico para a ocorrência de vazamentos e rompimentos, que resultam em desperdício de água, danos à infraestrutura e interrupção do abastecimento. A implicação prática é a necessidade de um programa de substituição gradual das tubulações mais antigas e a implementação de sistemas de controle de pressão para minimizar os picos.
O Risco R2: Falha de válvulas em pontos críticos de seccionamento também se mostrou relevante. Válvulas antigas ou mal conservadas podem travar, vazar ou estourar, comprometendo a capacidade de isolamento de setores e gerando a necessidade de reparos emergenciais. A literatura sobre gestão de ativos em redes de água enfatiza a importância da manutenção preventiva e da substituição programada de válvulas para garantir a operacionalidade do sistema (Souza, Mesquita e Blanco, 2023). A falha de uma válvula em um ponto estratégico pode inviabilizar a setorização, tornando o controle de perdas e a gestão de pressão ineficazes.
O Risco R3: Capacidade insuficiente de reservação dos setores foi outro achado crítico. Setores com reservatórios pequenos ou inexistentes podem ficar sem água durante manutenções programadas ou emergências, elevando o risco de desabastecimento em áreas críticas. Palomero-González et al. (2022) e Cemiloglu et al. (2023) discutem como a capacidade de reservação é vital para a resiliência do sistema, especialmente em redes setorizadas. A ausência de reservas adequadas obriga a interrupções mais longas e a dependência de soluções emergenciais, como caminhões-pipa, que são onerosas e ineficientes.
Na categoria Operação e Continuidade do Abastecimento, o Risco R4: Interrupção total ou parcial do abastecimento durante reparos foi identificado. Setorização inadequada ou manobras mal coordenadas podem resultar em interrupções não previstas, paralisando atividades essenciais e gerando prejuízos acadêmicos e administrativos. Zhou et al. (2021) alertam para a importância de um planejamento operacional detalhado para evitar interrupções desnecessárias. A complexidade de uma rede universitária, com diversas edificações e usos, exige um plano de contingência robusto e uma comunicação eficaz para minimizar os impactos.
O Risco R5: Racionamento em unidades prioritárias durante períodos de intervenção destaca a vulnerabilidade de laboratórios, centros de pesquisa, restaurante universitário e residência estudantil. Essas unidades não podem sofrer restrições de abastecimento sem impacto significativo na segurança alimentar, sanitária e nas atividades de pesquisa. A falta de um protocolo claro de priorização agrava esse risco.
O Risco R6: Dependência de soluções emergenciais, como o uso de caminhão-pipa, foi classificado como uma solução onerosa e operacionalmente insustentável a médio prazo. Cemiloglu et al. (2023) ressaltam que a falta de redundância e reserva adequada impõe custos elevados e ineficiências operacionais, tornando o sistema dependente de recursos externos em momentos de crise.
Na categoria Produção e Qualidade da Água, o Risco R7: Redução da produtividade dos poços por falhas de manutenção foi identificado. Atrasos ou inadequações nas manutenções preventivas podem levar à queda de vazão ou interrupção da produção, gerando déficit de oferta em horários de pico e dependência de soluções emergenciais. A gestão de poços tubulares exige um programa de manutenção rigoroso para garantir a sustentabilidade da fonte.
O Risco R8: Não conformidade com condicionantes ambientais e regulatórias decorre de monitoramento inadequado ou ausência de ajustes operacionais, podendo resultar em descumprimento da legislação ambiental, multas e risco de perda de autonomia operacional. A universidade, ao assumir a gestão da produção de água, assume também a responsabilidade de cumprir todas as exigências legais e ambientais, o que requer um sistema de monitoramento e relatórios robusto.
O Risco R9: Variação de qualidade da água por falhas ou atrasos em manutenções preventivas pode provocar variações de turbidez, ferro, manganês ou outros parâmetros, com riscos à saúde pública e necessidade de tratamento adicional. Spizzo et al. (2023) enfatizam a importância da qualidade da água para a saúde pública. A universidade precisa garantir análises periódicas e ações corretivas rápidas para manter a potabilidade da água distribuída.
Na categoria Gestão, Coordenação e Comunicação, o Risco R10: Falhas de comunicação interna sobre racionamentos e suspensões amplifica desnecessariamente os impactos, comprometendo a gestão de crise e deteriorando a confiança institucional. Uma comunicação clara, transparente e em tempo hábil é essencial para gerenciar as expectativas dos usuários e minimizar o pânico em situações de interrupção.
O Risco R11: Falta de priorização clara de cargas críticas leva a decisões não padronizadas e a impactos desproporcionais em áreas estratégicas. Zhou et al. (2021) destacam a importância de protocolos de priorização para otimizar a distribuição de recursos em cenários de escassez. A ausência de um plano formal pode gerar conflitos e ineficiências.
O Risco R12: Desalinhamento entre planejamento de intervenções e calendário acadêmico resulta em suspensão de atividades, com prejuízo acadêmico e impacto na imagem institucional. A coordenação entre as equipes de infraestrutura e a administração acadêmica é vital para programar manutenções em períodos de menor impacto, como recessos.
Finalmente, na categoria Planejamento e Implementação da Setorização, o Risco R13: Definição inadequada dos limites de setores foi identificado. Setores muito grandes, heterogêneos ou com interligações excessivas dificultam o controle de perdas e a gestão de pressão, comprometendo a eficiência da setorização. Raimundo et al. (2023) discutem como a otimização da setorização depende de critérios hidráulicos e topográficos bem definidos.
O Risco R14: Ausência ou insuficiência de pontos de medição por setor limita a identificação de perdas e problemas operacionais, tornando a gestão reativa em vez de proativa. Sela Perelman et al. (2015) enfatizam que a medição contínua de vazão e pressão é fundamental para o monitoramento segmentado e a detecção precoce de vazamentos. Sem esses dados, a setorização opera no escuro.
O Risco R15: Falta de integração entre setorização e plano de manutenção expõe setores críticos a riscos não gerenciados e concentra vulnerabilidades em pontos estratégicos. A setorização deve ser um componente do plano de manutenção, e não uma iniciativa isolada, para garantir que as intervenções sejam coordenadas e eficazes.
O Risco R16: Perda de redundância hidráulica após setorização ocorre quando o isolamento de setores por válvulas fechadas reduz as interconexões da malha, aumentando a vulnerabilidade do sistema a falhas. Souza, Mesquita e Blanco (2023) e Spizzo et al. (2023) alertam que a setorização deve buscar um equilíbrio entre isolamento e redundância para manter a capacidade de reconfiguração rápida em emergências.
O Risco R17: Desbalanceamento de pressões entre setores por setorização mal implementada ou válvulas redutoras de pressão mal calibradas resulta em pressões excessivas em alguns setores e insuficientes em outros, elevando o risco de vazamentos e desabastecimento. Palomero-González et al. (2022), Cemiloglu et al. (2023) e Zhou et al. (2021) discutem a importância da calibração precisa das VRPs para otimizar o desempenho hidráulico.
O Risco R18: Custo elevado de infraestrutura de medição e automação é um desafio significativo. A implementação de medidores, válvulas motorizadas e sistemas de automação exige investimento substancial, frequentemente incompatível com o orçamento de instituições públicas, resultando em setorização parcial ou inadequada. Ramos et al. (2024) e Cemiloglu et al. (2023) destacam que a viabilidade da setorização depende da capacidade institucional de investir em infraestrutura e tecnologia.
O Risco R19: Dificuldade de otimização de algoritmos para redes antigas decorre das características irregulares de redes com mais de 50 anos (diâmetros variáveis, materiais mistos, pressões descontroladas), que dificultam a aplicação de algoritmos modernos de otimização, resultando em setorização subótima. Raimundo et al. (2023) e Ramos et al. (2024) abordam a complexidade de modelar e otimizar redes históricas.
O Risco R20: Vulnerabilidade a falhas isoladas em nós críticos ocorre quando uma setorização inadequada cria pontos de falha únicos cuja ruptura afeta múltiplos setores simultaneamente, gerando interrupção generalizada do abastecimento. Souza, Mesquita e Blanco (2023) enfatizam a importância de identificar e proteger esses nós críticos.
Por fim, o Risco R21: Necessidade de especialistas para calibração e operação é um obstáculo. A ausência de pessoal técnico qualificado na universidade dificulta a implementação e operação de setorização sofisticada, gerando dependência de consultores externos. Ramos et al. (2024) e Zhou et al. (2021) apontam a capacitação de equipes como um fator crítico de sucesso.
O Risco R22: Inconsistência entre a setorização planejada e a topografia física da rede, incluindo interligações não mapeadas, foi o único classificado como Crítico. Esse risco, com nível PxI igual a 16, evidenciou uma limitação recorrente apontada na literatura: a dificuldade de transpor soluções teóricas ou computacionais para sistemas reais com características físicas complexas e histórico de modificações não registradas (Raimundo et al., 2023). A percepção dos especialistas consultados corroborou esse achado, tendo sido as interligações não mapeadas apontadas como o principal obstáculo ao sucesso da setorização. Esse resultado reforçou a necessidade de abordagens adaptativas, que considerassem não apenas critérios de otimização, mas também as restrições operacionais e estruturais do sistema existente. A falta de conhecimento preciso da infraestrutura subterrânea é um problema comum em redes antigas e pode inviabilizar qualquer projeto de setorização, pois as simulações e o planejamento se baseiam em dados incompletos ou incorretos.
A análise das respostas dos especialistas foi fundamental para validar, complementar e aprofundar os riscos identificados nas etapas anteriores, conferindo ao estudo uma perspectiva empírica ancorada na experiência prática dos profissionais diretamente envolvidos com o sistema de abastecimento da instituição. No que se refere ao perfil dos respondentes, os três profissionais participantes atuam nas áreas de gestão, planejamento e fiscalização técnica da infraestrutura hídrica institucional, com tempo de atuação entre um e três anos diretamente relacionado à rede de distribuição. Embora o setor operacional não tenha respondido ao formulário dentro do prazo estabelecido — conforme registrado nas limitações desta pesquisa —, o perfil obtido mostrou-se relevante para a análise estratégica e de planejamento dos riscos identificados. Essa limitação, contudo, pode ter restringido a captação de percepções práticas e cotidianas sobre o funcionamento da rede, que poderiam complementar a visão estratégica obtida. Recomenda-se que estudos futuros ampliem o alcance do levantamento, incorporando a perspectiva dos operadores de campo para uma caracterização mais abrangente dos riscos identificados.
Em relação à infraestrutura e à continuidade do abastecimento, os especialistas corroboraram os riscos levantados na literatura e na análise documental. O restaurante universitário e a residência universitária foram apontados unanimemente como os setores mais críticos da rede, em razão de sua essencialidade para o atendimento da comunidade acadêmica, tornando-os vulneráveis a interrupções. Essa percepção está alinhada aos riscos R3 (Reservação insuficiente), R4 (Interrupção total/parcial) e R5 (Racionamento em unidades prioritárias), que tratam, respectivamente, da capacidade insuficiente de reservação, da interrupção do abastecimento durante reparos e do racionamento em unidades prioritárias. A ausência de protocolo definido de priorização de setores em situações de restrição hídrica foi confirmada pelos três respondentes, reforçando o risco R11 (Falta de priorização clara de cargas críticas) e evidenciando uma lacuna de governança operacional que pode comprometer a tomada de decisão em emergências.
Quanto ao sistema produtor, os especialistas confirmaram que o sistema possui redundância suficiente entre os poços para manter a produção em caso de falha de uma unidade, o que representa um fator positivo de resiliência e atenua parcialmente os riscos R7 (Queda produtividade dos poços) e R20 (Vulnerabilidade a falhas isoladas em nós críticos). Contudo, dois respondentes indicaram que as manutenções preventivas nem sempre ocorrem conforme planejado, o que sustenta a classificação do risco R7 e aponta para a necessidade de um plano de manutenção mais estruturado. A manutenção preventiva é um pilar fundamental para a sustentabilidade de qualquer sistema de abastecimento, e sua negligência pode rapidamente comprometer a autossuficiência hídrica da universidade.
No tocante ao planejamento da setorização, os dados revelaram divergências relevantes entre os respondentes. Dois especialistas confirmaram a existência de projetos atualizados da rede de distribuição, enquanto um indicou que esses projetos existem apenas parcialmente. De forma mais definitiva, dois deles indicaram que o modelo hidráulico de setorização não foi construído em sua plenitude. Essa inconsistência corrobora os riscos R13 (Definição inadequada dos limites de setores), R14 (Ausência ou insuficiência de pontos de medição por setor) e R22 (Inconsistência topográfica/interligações), sinalizando que a base de dados disponível para o planejamento da setorização apresenta lacunas que podem comprometer a qualidade das soluções propostas, conforme apontado por Raimundo et al. (2023) e Ramos et al. (2024). A falta de um modelo hidráulico completo e atualizado é um impedimento significativo para qualquer projeto de setorização eficaz, pois impede a simulação precisa do comportamento da rede e a identificação de pontos de otimização.
A disponibilidade de recursos financeiros para investimento na setorização também gerou percepções divergentes: um especialista confirmou a existência de recursos, outro negou e o terceiro declarou não ter certeza. Essa incerteza reforça os riscos R18 (Custo elevado de infraestrutura de medição e automação) e R21 (Necessidade de especialistas), corroborando os achados de Ramos et al. (2024) e Cemiloglu et al. (2023), que destacam as restrições financeiras e institucionais como fatores limitantes à implementação plena da setorização em sistemas públicos. A gestão de projetos em instituições públicas frequentemente enfrenta desafios orçamentários, o que exige criatividade na busca por financiamento e uma abordagem incremental para a implementação de melhorias.
No que diz respeito às respostas abertas, os especialistas identificaram como principais consequências de uma setorização mal planejada: perdas de água, problemas de pressão, má gestão e controle da rede, dificuldade de identificação de vazamentos e comprometimento da qualidade da água. Essas percepções convergem diretamente com os riscos R13, R16, R17 e R19, reforçando a pertinência dos riscos mapeados na literatura. Um risco considerado mais crítico pelos especialistas foi a existência de interligações não mapeadas na rede, apontada por um dos respondentes como o principal obstáculo ao sucesso da setorização. Outro especialista destacou o dimensionamento inadequado do sistema como risco central, enfatizando que a ausência de um diagnóstico hidráulico detalhado pode comprometer toda a lógica de setorização. Ambas as percepções convergem para o risco R22 — inconsistência entre a setorização planejada e a topografia física da rede —, classificado como o único risco Crítico da matriz, com nível PxI igual a 16. Esse resultado está alinhado com Raimundo et al. (2023), que alertam para a dificuldade de transpor soluções computacionais para sistemas reais com características físicas complexas e histórico de modificações não registradas.
Como estratégia de mitigação prioritária, os especialistas convergiram para a realização de um diagnóstico hidráulico e cadastral detalhado da rede antes da implantação definitiva da setorização, incluindo levantamento topográfico, identificação de interligações existentes, modelagem hidráulica com uso de softwares especializados como EPANET ou WaterCAD, e definição criteriosa dos limites dos setores. Essa recomendação fundamenta diretamente as estratégias de mitigação propostas para os riscos Altos e Críticos, apresentadas na seção seguinte. Por fim, todos os especialistas reconheceram a importância da instalação de medidores de vazão e pressão por setor para a identificação de perdas e problemas operacionais, validando o risco R14 (Ausência ou insuficiência de pontos de medição por setor) e reforçando que o monitoramento contínuo constitui condição essencial para a efetividade da setorização. A unanimidade nesse ponto evidencia que, independentemente das divergências sobre recursos e planejamento, há consenso entre os profissionais quanto à necessidade de instrumentação adequada como pré-requisito para uma gestão hídrica mais eficiente e proativa.
Os 22 riscos identificados foram consolidados na matriz de probabilidade-impacto apresentada na Tabela 2, elaborada conforme as diretrizes do PMBOK (PMI, 2021). A classificação resultante apontou um risco crítico, 12 riscos altos, cinco riscos médios e quatro riscos baixos, evidenciando um perfil de vulnerabilidade predominantemente elevado no contexto analisado.
Tabela 2. Matriz de classificação de risco
|
Código |
Risco |
Categoria |
P |
I |
PxI |
Classificação |
|
R1 |
Rompimento de tubulações |
Infraestrutura |
2 |
4 |
8 |
Médio |
|
R2 |
Falha de válvulas |
Infraestrutura |
3 |
3 |
9 |
Alto |
|
R3 |
Reservação insuficiente |
Infraestrutura |
3 |
4 |
12 |
Alto |
|
R4 |
Interrupção total/parcial |
Operação |
2 |
4 |
8 |
Médio |
|
R5 |
Racionamento em unidades prioritárias |
Operação |
3 |
4 |
12 |
Alto |
|
R6 |
Dependência de caminhão-pipa |
Operação |
1 |
3 |
3 |
Baixo |
|
R7 |
Queda produtividade dos poços |
Produção/Qualidade |
1 |
3 |
3 |
Baixo |
|
R8 |
Não conformidade ambiental |
Produção/Qualidade |
3 |
3 |
9 |
Alto |
|
R9 |
Variação de qualidade da água |
Produção/Qualidade |
2 |
3 |
6 |
Médio |
|
R10 |
Falhas de comunicação interna |
Gestão |
1 |
3 |
3 |
Baixo |
|
R11 |
Falta de priorização de cargas críticas |
Gestão |
2 |
3 |
6 |
Médio |
|
R12 |
Desalinhamento com calendário acadêmico |
Gestão |
1 |
2 |
2 |
Baixo |
|
R13 |
Definição inadequada de setores |
Setorização |
3 |
4 |
12 |
Alto |
|
R14 |
Ausência de medição por setor |
Setorização |
3 |
4 |
12 |
Alto |
|
R15 |
Falta de integração com manutenção |
Setorização |
3 |
3 |
9 |
Alto |
|
R16 |
Perda de redundância hidráulica |
Setorização |
3 |
4 |
12 |
Alto |
|
R17 |
Desbalanceamento de pressões |
Setorização |
3 |
4 |
12 |
Alto |
|
R18 |
Custo elevado de automação |
Setorização |
4 |
3 |
12 |
Alto |
|
R19 |
Dificuldade de otimização em redes antigas |
Setorização |
3 |
3 |
9 |
Alto |
|
R20 |
Vulnerabilidade em nós críticos |
Setorização |
2 |
4 |
8 |
Médio |
|
R21 |
Necessidade de especialistas |
Setorização |
3 |
3 |
9 |
Alto |
|
R22 |
Inconsistência topográfica/interligações |
Setorização |
4 |
4 |
16 |
Crítico |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A análise dos resultados evidenciou que os riscos associados à setorização da rede de distribuição de água no campus estudado não se restringiram a aspectos puramente técnicos, mas refletiram uma combinação de fragilidades estruturais, limitações operacionais e desafios institucionais. Essa constatação esteve alinhada com a literatura, que aponta que a eficácia da setorização depende não apenas das técnicas empregadas, mas da sua integração com as condições reais do sistema e da capacidade operacional da organização (Raimundo et al., 2023; Ramos et al., 2024). A complexidade de um sistema de abastecimento universitário, com sua infraestrutura antiga e as demandas variadas de uma comunidade, exige uma abordagem multifacetada que transcende a mera engenharia hidráulica.
A aplicação do Diagrama de Pareto aos níveis de risco obtidos, apresentado na Figura 2, revelou que, para se atingir 80% da criticidade acumulada do sistema, foi necessário considerar os 14 primeiros riscos ordenados por nível decrescente — o que corresponde a 64% dos riscos identificados. Esse resultado indica que a distribuição de criticidade no sistema analisado não seguiu o padrão de concentração típico da regra 80/20, mas apresentou-se de forma relativamente uniforme entre as categorias identificadas.
Figura 2. Diagrama de Pareto com priorização de riscos
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Tal achado constitui, em si, um resultado relevante: ao contrário de sistemas em que poucos riscos dominam a vulnerabilidade total, o campus estudado revelou um perfil de vulnerabilidade distribuída, no qual múltiplas categorias e dimensões do sistema contribuíram de forma expressiva para o risco global. Esse padrão reforça a necessidade de uma gestão de riscos abrangente e estruturada ao longo de todo o ciclo de vida do projeto, e não apenas pontual ou restrita a um subconjunto de eventos críticos, em plena consonância com as diretrizes do PMBOK (PMI, 2021). A ausência de uma concentração clara de riscos significa que a universidade não pode focar seus esforços de mitigação em apenas um ou dois problemas, mas deve implementar um plano de gestão de riscos que aborde todas as categorias de forma sistemática e contínua.
Observou-se que os riscos classificados como Altos e Críticos concentraram-se predominantemente nas categorias de planejamento e implementação da setorização e infraestrutura da rede, o que reforçou o argumento de que redes antigas e pouco monitoradas tenderam a apresentar maior sensibilidade a intervenções, conforme discutido por Spizzo et al. (2023) e Palomero-González et al. (2022). No caso analisado, a coexistência entre um sistema produtor recente e uma rede de distribuição envelhecida intensificou esse cenário, ampliando a probabilidade de falhas durante manobras operacionais e ajustes de pressão. A infraestrutura física existente impõe restrições significativas ao planejamento e à execução da setorização, e a falta de dados precisos sobre essa infraestrutura agrava ainda mais o problema.
Destacou-se, em especial, o risco R22 — inconsistência entre a setorização planejada e a topografia física da rede, incluindo interligações não mapeadas —, classificado como o único risco Crítico da matriz, com nível PxI igual a 16. Esse resultado evidenciou uma limitação recorrente apontada na literatura: a dificuldade de transpor soluções teóricas ou computacionais para sistemas reais com características físicas complexas e histórico de modificações não registradas (Raimundo et al., 2023). A percepção dos especialistas consultados corroborou esse achado, tendo sido as interligações não mapeadas apontadas como o principal obstáculo ao sucesso da setorização. Esse resultado reforçou a necessidade de abordagens adaptativas, que considerassem não apenas critérios de otimização, mas também as restrições operacionais e estruturais do sistema existente. A ausência de um cadastro atualizado e preciso da rede é um gargalo fundamental que impede a aplicação eficaz de qualquer metodologia de setorização, pois as simulações e o planejamento se baseiam em uma representação incompleta ou incorreta da realidade.
Sob a perspectiva da Gestão de Projetos, os resultados indicaram que a setorização deve ser tratada como um projeto de alta complexidade, no qual a gestão de riscos assume papel central ao longo de todo o ciclo de vida. De acordo com o Project Management Institute (PMI, 2021), a identificação, análise e resposta aos riscos são processos fundamentais para aumentar a probabilidade de sucesso do projeto. No caso estudado, a predominância de riscos classificados como Altos e Críticos, aliada à distribuição uniforme de criticidade entre as categorias, sugeriu que, sem um planejamento estruturado e uma gestão ativa de riscos, a implementação da setorização poderia não apenas falhar em atingir seus objetivos, mas também agravar problemas preexistentes na rede. A gestão de riscos, portanto, não é um mero apêndice, mas um componente intrínseco e contínuo de todo o processo de setorização, desde a fase de concepção até a operação e manutenção.
A presença de riscos relacionados à comunicação institucional (R10), à priorização de cargas críticas (R11) e ao desalinhamento com o calendário acadêmico (R12) evidenciou que os desafios não foram exclusivamente técnicos, mas também organizacionais. Esses achados reforçaram a importância da integração entre as áreas técnicas e administrativas e da adoção de práticas de governança de projetos, conforme preconizado pelo PMBOK (PMI, 2021), especialmente nos processos de planejamento e engajamento das partes interessadas. A setorização, em um ambiente universitário, não pode ser vista apenas como um projeto de engenharia, mas como uma iniciativa que impacta toda a comunidade e exige coordenação interdepartamental para minimizar interrupções e garantir a continuidade das atividades acadêmicas e administrativas.
A limitação de recursos financeiros e humanos, evidenciada nos riscos relacionados ao custo de automação (R18) e à necessidade de especialistas qualificados (R21), corroborou os achados de Ramos et al. (2024) e Cemiloglu et al. (2023), que destacaram que a viabilidade da setorização dependeu diretamente da capacidade institucional de investir em infraestrutura, tecnologia e capacitação técnica. Em instituições públicas, essas restrições tenderam a ser ainda mais significativas, o que exigiu estratégias de priorização e implementação incremental, abordagem coerente com os princípios de planejamento progressivo preconizados pelo PMBOK (PMI, 2021). A universidade, com suas restrições orçamentárias e de pessoal, precisa adotar uma abordagem faseada, priorizando as intervenções de maior impacto e buscando soluções que otimizem o uso dos recursos disponíveis, talvez por meio de parcerias ou financiamentos externos.
Por fim, os resultados sugeriram que a setorização, embora amplamente reconhecida como estratégia eficaz para o controle de perdas, não deveria ser compreendida como solução isolada. Sua efetividade dependeu da integração com políticas de manutenção, gestão de pressão, monitoramento contínuo e planejamento estratégico. Nesse sentido, a gestão de riscos apresentou-se como elemento estruturante, capaz de orientar a tomada de decisão e aumentar a resiliência do sistema frente às incertezas inerentes ao ambiente operacional analisado. A setorização deve ser parte de um programa mais amplo de gestão da infraestrutura hídrica, que inclua a modernização da rede, a capacitação de equipes e a implementação de tecnologias de monitoramento.
Com base na classificação obtida na matriz de risco, foram propostas estratégias de mitigação para os 13 riscos, 12 classificados como Altos e para o único risco Crítico, conforme apresentado na Tabela 3. As estratégias adotadas seguiram as diretrizes de resposta a riscos do PMBOK (PMI, 2021), contemplando as abordagens de mitigar, evitar e aceitar, selecionadas conforme a natureza e a viabilidade de intervenção sobre cada risco.
Tabela 3. Plano de Mitigação de Riscos Críticos e Altos.
|
Código |
Risco |
Classif. |
Ação de Mitigação |
Responsável |
Prazo |
|
R22 |
Inconsistência topográfica e interligações não mapeadas |
Crítico |
Realizar diagnóstico hidráulico e cadastral completo da rede antes da implantação da setorização, com levantamento topográfico, identificação de todas as interligações existentes e modelagem hidráulica em software especializado (EPANET ou WaterCAD). |
Pró-Reitoria de Infraestrutura / Consultoria técnica especializada |
Curto prazo |
|
R13 |
Definição inadequada dos limites de setores |
Alto |
Definir limites de setores com base em critérios hidráulicos, topográficos e de demanda, utilizando modelagem computacional calibrada com dados reais da rede institucional. |
Equipe técnica de engenharia / Consultoria especializada |
Curto prazo |
|
R14 |
Ausência ou insuficiência de pontos de medição por setor |
Alto |
Planejar e instalar medidores de vazão e pressão em pontos estratégicos de cada setor, priorizando setores críticos (RU, residência, laboratórios), com integração a sistema de monitoramento contínuo. |
Pró-Reitoria de Infraestrutura / Setor de manutenção |
Médio prazo |
|
R16 |
Perda de redundância hidráulica após setorização |
Alto |
Projetar a setorização preservando interconexões estratégicas entre setores, garantindo rotas alternativas de abastecimento em situações de emergência ou manutenção. |
Equipe técnica de engenharia |
Curto prazo |
|
R17 |
Desbalanceamento de pressões entre setores |
Alto |
Instalar e calibrar válvulas redutoras de pressão (VRPs) nos pontos críticos de cada setor, com monitoramento contínuo e ajustes periódicos conforme variações de demanda. |
Pró-Reitoria de Infraestrutura / Setor de operação |
Médio prazo |
|
R18 |
Custo elevado de infraestrutura de medição e automação |
Alto |
Adotar modelo de implementação incremental, priorizando setores críticos na primeira fase e expandindo gradualmente conforme disponibilidade orçamentária. Avaliar fontes de financiamento externo (FNDE, emendas parlamentares). |
Gestão institucional / Pró-Reitoria de Planejamento |
Longo prazo |
|
R3 |
Capacidade insuficiente de reservação dos setores |
Alto |
Avaliar e ampliar a capacidade de reservação dos setores críticos, garantindo volume mínimo de abastecimento autônomo para períodos de manutenção programada ou emergencial. |
Pró-Reitoria de Infraestrutura |
Médio prazo |
|
R5 |
Racionamento em unidades prioritárias durante intervenções |
Alto |
Elaborar protocolo formal de priorização de setores críticos (RU, residência, laboratórios, TI), com procedimentos operacionais padrão para situações de restrição hídrica. |
Pró-Reitoria de Infraestrutura / Gestão universitária |
Curto prazo |
|
R2 |
Falha de válvulas em pontos críticos de seccionamento |
Alto |
Implementar programa de inspeção e manutenção preventiva periódica das válvulas de seccionamento, com substituição programada de componentes em fim de vida útil. |
Setor de manutenção |
Curto prazo |
|
R8 |
Não conformidade com condicionantes ambientais e regulatórias |
Alto |
Estruturar rotina de monitoramento ambiental conforme condicionantes do órgão licenciador, com registro sistemático de parâmetros operacionais e relatórios periódicos de conformidade. |
Pró-Reitoria de Infraestrutura / Assessoria ambiental |
Curto prazo |
|
R15 |
Falta de integração entre setorização e plano de manutenção |
Alto |
Desenvolver plano integrado de manutenção preventiva alinhado ao projeto de setorização, identificando prioridades por setor e estabelecendo cronograma compatível com o calendário acadêmico. |
Setor de manutenção / Pró-Reitoria de Infraestrutura |
Médio prazo |
|
R19 |
Dificuldade de otimização de algoritmos para redes antigas |
Alto |
Adotar abordagem iterativa e adaptativa na setorização, com calibração progressiva do modelo hidráulico a partir de dados coletados em campo, revisando os limites dos setores conforme necessário. |
Consultoria técnica especializada / Equipe de engenharia |
Médio prazo |
|
R21 |
Necessidade de especialistas para calibração e operação |
Alto |
Capacitar a equipe técnica institucional por meio de treinamentos específicos em operação de sistemas setorizados e modelagem hidráulica, reduzindo progressivamente a dependência de consultores externos. |
Pró-Reitoria de Infraestrutura / RH institucional |
Médio prazo |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
O risco R22 (Inconsistência topográfica/interligações), classificado como Crítico, demandou ação prioritária e imediata, sendo associado à estratégia de mitigação por meio da realização de diagnóstico hidráulico e cadastral completo da rede antes da implantação da setorização. Essa ação foi corroborada pela percepção dos especialistas consultados, que apontaram as interligações não mapeadas como o principal obstáculo ao sucesso do projeto, e está alinhada às recomendações de Raimundo et al. (2023), que enfatizam a necessidade de conhecimento detalhado das características físicas da rede como pré-requisito para qualquer intervenção de setorização. A ausência de um cadastro preciso e de um modelo hidráulico calibrado é um impedimento fundamental para qualquer projeto de setorização, pois as decisões seriam baseadas em dados incompletos ou incorretos, levando a soluções subótimas ou até mesmo a problemas maiores. O investimento inicial em levantamento de dados e modelagem é, portanto, um pré-requisito indispensável para o sucesso do projeto.
Para os riscos Altos, as ações propostas foram organizadas em três horizontes temporais. No curto prazo, priorizaram-se ações de planejamento e prevenção, como a definição criteriosa dos limites de setores (R13), a elaboração de protocolo de priorização de cargas críticas (R5), a manutenção preventiva de válvulas (R2) e a estruturação de rotina de monitoramento ambiental (R8). A definição clara dos limites de setores, baseada em critérios hidráulicos, topográficos e de demanda, é essencial para garantir a eficácia da setorização no controle de perdas e gestão de pressão. A criação de um protocolo de priorização de cargas críticas assegura que, em situações de restrição hídrica, as áreas mais sensíveis da universidade (como laboratórios e residência estudantil) recebam abastecimento prioritário, minimizando impactos acadêmicos e sociais. A manutenção preventiva de válvulas de seccionamento é crucial para garantir a capacidade de isolamento de trechos da rede, facilitando reparos e minimizando interrupções. Por fim, a rotina de monitoramento ambiental garante a conformidade com as regulamentações e a qualidade da água produzida pelos poços.
No médio prazo, concentraram-se ações de infraestrutura e capacitação, incluindo a instalação de medidores por setor (R14), o controle de pressões via válvulas redutoras (R17), a ampliação da reservação (R3), a integração entre setorização e plano de manutenção (R15) e a capacitação da equipe técnica (R21). A instalação de medidores de vazão e pressão em pontos estratégicos de cada setor é vital para transformar a gestão de reativa em proativa, permitindo a identificação precoce de perdas e problemas operacionais. O controle de pressões por meio de VRPs calibradas otimiza o desempenho hidráulico, reduzindo vazamentos e o risco de rompimentos. A ampliação da capacidade de reservação nos setores críticos aumenta a resiliência do sistema, garantindo abastecimento autônomo durante manutenções. A integração do plano de setorização com o plano de manutenção garante que as intervenções sejam coordenadas e que as vulnerabilidades sejam gerenciadas de forma holística. A capacitação da equipe técnica institucional é fundamental para reduzir a dependência de consultores externos e construir uma capacidade interna de gestão e operação de sistemas setorizados.
No longo prazo, a implementação incremental da infraestrutura de medição e automação (R18) foi proposta como estratégia para compatibilizar as necessidades técnicas com as restrições orçamentárias características de instituições públicas. Essa abordagem reconhece que investimentos significativos em tecnologia podem não ser viáveis de uma só vez, mas podem ser realizados em fases, priorizando os setores mais críticos e expandindo gradualmente conforme a disponibilidade orçamentária. A busca por fontes de financiamento externo, como FNDE ou emendas parlamentares, também é uma estratégia importante para viabilizar esses investimentos a longo prazo.
De forma geral, o plano de mitigação evidenciou que a maioria das ações requeridas não dependeu exclusivamente de investimentos financeiros elevados, mas de organização institucional, planejamento integrado e adoção de protocolos operacionais estruturados — fatores plenamente acessíveis à gestão universitária e coerentes com as práticas de governança de projetos preconizadas pelo PMBOK (PMI, 2021). Isso é particularmente relevante para instituições públicas, que frequentemente operam com orçamentos limitados. A ênfase na governança, no planejamento e na capacitação interna demonstra que avanços significativos na gestão de riscos podem ser alcançados por meio de uma abordagem estratégica e sistemática, sem depender exclusivamente de grandes aportes financeiros. A gestão de riscos, portanto, emerge como um pilar para a sustentabilidade e eficiência do sistema de abastecimento de água da universidade, garantindo a continuidade dos serviços e a segurança hídrica da comunidade acadêmica.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao identificar, analisar e classificar os riscos inerentes à implementação da setorização da rede de distribuição de água em uma universidade pública brasileira. O estudo mapeou 22 riscos em cinco categorias, com 13 classificados como Altos e um como Crítico, destacando a inconsistência entre o planejamento e a topografia física da rede, incluindo interligações não mapeadas (R22), como o principal desafio. A análise revelou um perfil de vulnerabilidade distribuída, reforçando a necessidade de uma gestão de riscos abrangente e contínua, em consonância com as diretrizes do PMBOK. As estratégias de mitigação propostas, organizadas em horizontes temporais de curto, médio e longo prazo, demonstraram que a maior parte das intervenções prioritárias depende mais de organização institucional e planejamento integrado do que de elevados investimentos financeiros, o que é crucial para instituições públicas com orçamentos restritos.
Apesar da abrangência dos achados, o estudo apresentou como limitação o número restrito de especialistas participantes, o que pode ter influenciado a diversidade de percepções, especialmente no que tange à perspectiva operacional. Para estudos futuros, sugere-se o aprofundamento em abordagens quantitativas para a análise de riscos, a implementação prática das estratégias de mitigação propostas e a validação dos resultados em ambiente real. Tais iniciativas contribuirão para o aprimoramento contínuo da gestão de riscos e para o fortalecimento da maturidade em gestão de projetos no contexto da gestão hídrica institucional, servindo como valioso subsídio para projetos similares em outras universidades públicas.
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Vasilic, Z.; Stanic, M.; Kapelan, Z.; Prodanovic, D.; Babic, B. 2020. Uniformity and heuristics-based DeNSE method for sectorization of water distribution networks. Water Resources Management 34: 2217–2234.
Yin, R.K. 2018. Case study research and applications: design and methods. 6 ed. Sage, Thousand Oaks, CA, USA.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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