16 de outubro de 2026
Previsão de alta precipitação no Rio Grande do Sul para prevenção de desastres hidrometeorológicos
Previsão de Alta Precipitação no Rio Grande do Sul para Prevenção de Desastres Hidrometeorológicos
Priscila Resende Nascimento; Abdoulaye Mohamed
DOI: 10.22167/2675-6528-202603366
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Em abril de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou a maior tragédia climática de sua história, evidenciando a necessidade de aprimorar estratégias de previsão e prevenção de desastres hidrometeorológicos. O estudo teve como objetivo desenvolver um modelo preditivo baseado em redes neurais do tipo Long Short-Term Memory (LSTM) para classificar eventos de alta precipitação no estado. Utilizaram-se dados históricos do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) entre 2013 e 2025, coletados de 44 estações meteorológicas automáticas. A metodologia compreendeu a seleção de variáveis pelo algoritmo Random Forest, que identificou a precipitação total horária e a temperatura do ponto de orvalho como as features de maior poder preditivo, e a modelagem com arquitetura LSTM de duas camadas, treinada com aplicação do SMOTE para tratamento do desbalanceamento entre classes. O modelo alcançou um AUC-ROC de 0,9373 e um recall de 82,4% para eventos extremos, definidos como precipitação acima do percentil 95 da distribuição histórica (8,60 mm/hora). Demonstrou-se a capacidade de identificar a grande maioria das ocorrências de alta precipitação com antecedência, confirmando a viabilidade do uso de redes neurais LSTM para a previsão de eventos hidrometeorológicos extremos. O trabalho oferece potencial contribuição para sistemas de monitoramento climático e políticas públicas de prevenção de desastres naturais no Brasil.
Palavras-chave: Desastres hidrometeorológicos; LSTM; Precipitação extrema; Redes Neurais Artificiais; Rio Grande do Sul.
1. Introdução
Os eventos climáticos extremos têm se tornado cada vez mais frequentes e intensos em escala global, evidenciando a necessidade de aprimorar os sistemas de previsão, prevenção e resposta a desastres naturais (IPCC, 2023). O Rio Grande do Sul, estado localizado em uma região de clima subtropical úmido segundo a classificação de Köppen-Geiger (Peel et al., 2007), historicamente apresenta um regime pluviométrico relativamente regular ao longo do ano. Contudo, a magnitude do desastre ocorrido em 2024 superou todos os registros anteriores, incluindo eventos significativos de 1941 e 2023, marcando a maior tragédia climática de sua história.
Fatores climáticos e estruturais contribuíram para a severidade desse evento, com o fenômeno El Niño intensificando as precipitações na região Sul do Brasil (INMET, 2024; INPE, 2024). No final de abril de 2024, a calamidade climática atingiu 478 dos 497 municípios gaúchos, correspondendo a 96,2% do total, com os maiores impactos concentrados nas regiões Central, dos Vales, Serra e Metropolitana de Porto Alegre (G1, 2025).
A tragédia resultou em 184 mortes confirmadas e 25 pessoas desaparecidas, além de afetar aproximadamente 2,4 milhões de pessoas, das quais quase 200 mil ficaram desalojadas ou desabrigadas (INMET, 2025). Os prejuízos financeiros alcançaram a soma de R$ 801 milhões, conforme levantamento da Prefeitura de Porto Alegre (2024). Em apenas três dias de chuva, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, 2024) registrou um acumulado de precipitação superior a 600 mm em algumas áreas, e acima de 400 mm em uma ampla extensão do estado, configurando um dos episódios hidrometeorológicos mais intensos da história recente do país.
Diante da complexidade desse cenário e da dificuldade de prever eventos de tal magnitude com os métodos tradicionais, as Redes Neurais Artificiais (RNAs) emergem como uma abordagem promissora para a modelagem de fenômenos climáticos. Segundo Cruz et al. (2010), modelos de redes neurais oferecem uma alternativa vantajosa aos métodos convencionais na previsão de séries temporais hidrometeorológicas. Isso ocorre porque dispensam o conhecimento físico-matemático prévio das complexas relações não lineares que descrevem o fenômeno, permitindo que o próprio modelo aprenda esses padrões diretamente a partir dos dados históricos disponíveis.
Em particular, as redes do tipo Long Short-Term Memory (LSTM) são especialmente adequadas para a análise de séries temporais, pois possuem a capacidade de capturar dependências de longo prazo entre variáveis ao longo do tempo (Hochreiter e Schmidhuber, 1997). Essa característica é fundamental para a modelagem de padrões climáticos, onde a evolução de variáveis atmosféricas ao longo de períodos estendidos influencia a ocorrência de eventos extremos. A aplicação de modelos preditivos baseados em LSTM pode, portanto, fornecer suporte antecipado a ações preventivas e decisões estratégicas em políticas públicas, mitigando os impactos de futuros desastres hidrometeorológicos.
Considerando a intensificação dos eventos hidrometeorológicos extremos e os graves impactos observados no Rio Grande do Sul em 2024, este trabalho busca desenvolver um modelo preditivo baseado em redes neurais do tipo LSTM para classificar eventos de precipitação extrema, definidos como ocorrências acima do percentil 95 da distribuição histórica de precipitação horária, utilizando dados entre 2013 e 2025, com vistas a fornecer suporte antecipado a ações preventivas e decisões estratégicas em políticas públicas.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, visando gerar conhecimento com potencial de utilização prática na previsão de eventos de alta precipitação e no apoio a ações de prevenção de desastres hidrometeorológicos (Vergara, 2016). Adotou-se uma abordagem quantitativa, empregando dados numéricos de séries temporais meteorológicas, tratados por técnicas estatísticas e computacionais para a construção e avaliação de um modelo preditivo (Vergara, 2016).
Quanto aos objetivos, a pesquisa foi classificada como exploratória, buscando aprofundar a compreensão sobre os padrões associados à ocorrência de eventos de alta precipitação (Gil, 2019). Em termos de procedimentos técnicos, o estudo assumiu caráter documental, utilizando dados secundários de bases públicas oficiais do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), complementado por uma natureza preditiva e analítica para desenvolver um modelo computacional de classificação de eventos extremos.
A área de estudo compreendeu o estado do Rio Grande do Sul, que possui clima temperado do tipo subtropical, classificado como Mesotérmico Úmido segundo Köppen (Atlas Socioeconômico do RS, 2024). A precipitação na região é bem distribuída ao longo do ano, variando entre 1.299 e 1.800 mm anuais.
Os dados foram coletados a partir de 44 estações meteorológicas automáticas do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), disponíveis publicamente em https://portal.inmet.gov.br/dadoshistoricos, abrangendo o período de 2013 a 2025. As variáveis incluíram precipitação total horária, temperaturas do ar e do ponto de orvalho, umidade relativa, velocidade e direção do vento, pressão atmosférica e radiação global, conforme padrões da Organização Meteorológica Mundial (OMM).
Após a coleta, os dados passaram por um processo de tratamento e organização, denominado “Data Wrangling”, para garantir consistência e integridade. Valores nulos ou faltantes foram identificados e tratados conforme a natureza de cada variável, aplicando-se interpolação temporal com preenchimento bidirecional para séries temporais.
A precipitação foi tratada de forma diferenciada: valores ausentes foram substituídos por zero, considerando sua natureza esparsa e para evitar que valores sintéticos cruzassem o limiar de evento extremo de 8,60 mm/hora. Realizou-se análise exploratória com decomposição da série temporal diária de precipitação nos modelos aditivo e multiplicativo, com período sazonal de 365 dias.
Para identificar as variáveis com maior poder preditivo, utilizou-se o algoritmo Random Forest (biblioteca scikit-learn) como etapa de pré-processamento. O Random Forest foi configurado com 400 árvores de decisão e treinado como classificador binário, tendo como variável-alvo a ocorrência de evento de alta precipitação.
Criaram-se features defasadas (lags) nos intervalos de 1, 3, 6, 12 e 24 horas para cada uma das oito variáveis meteorológicas de base. O desbalanceamento entre as classes foi tratado pela técnica SMOTE (Synthetic Minority Oversampling Technique), aplicada exclusivamente nos dados de treino. As seis variáveis com maior importância agregada foram selecionadas para compor a entrada do modelo LSTM, sendo o limiar de evento de alta precipitação definido como 8,60 mm/hora, correspondente ao percentil 95 da distribuição histórica de precipitação positiva.
Para a modelagem preditiva, utilizou-se uma rede neural recorrente do tipo Long Short-Term Memory (LSTM), implementada por meio da biblioteca TensorFlow com interface Keras, em ambiente Python 3.10, com aceleração via GPU. As seis variáveis selecionadas foram normalizadas pelo método MinMaxScaler para o intervalo entre 0 e 1. Criaram-se janelas temporais de 24 horas, onde cada observação representou o histórico das variáveis nas 24 horas anteriores.
A divisão dos dados foi sequencial: 70% para treino, 15% para validação e 15% para teste. O SMOTE foi aplicado ao conjunto de treino para equilibrar as classes. A arquitetura do modelo consistiu em duas camadas LSTM empilhadas (64 e 32 neurônios), intercaladas por camadas de Dropout (20%), e uma camada de saída com ativação sigmoid. O treinamento utilizou otimizador Adam e função de perda binary crossentropy, com EarlyStopping para evitar overfitting. As métricas de avaliação incluíram precision, recall, F1-score, acurácia, matriz de confusão e AUC-ROC, priorizando o recall da classe positiva.
3. Resultados e Discussão
A análise dos resultados da pesquisa revelou insights importantes sobre a dinâmica da precipitação no Rio Grande do Sul e a capacidade de um modelo LSTM em prever eventos extremos, contribuindo para o objetivo de desenvolver um sistema preditivo para suporte a ações preventivas. Inicialmente, a investigação focou na caracterização dos padrões de precipitação, que se mostrou a variável central para a compreensão dos desastres hidrometeorológicos. A série histórica de precipitação mensal, abrangendo o período de 2013 a 2025, evidenciou uma notável variabilidade temporal e a ocorrência de picos significativos ao longo dos anos, com uma intensificação clara dos eventos extremos a partir de 2019. Este padrão culminou em 2023 e, de forma mais acentuada, em 2024, quando se registraram os maiores volumes mensais de precipitação em diversas estações.
Os três maiores picos de precipitação mensal foram observados em maio de 2024, com a estação de Soledade (A837) registrando 738 mm, Serafina Corrêa (A894) com 714 mm e Canela (A879) com 706 mm. Esses valores destacam a magnitude excepcional dos eventos ocorridos, que superaram registros anteriores e reforçam a urgência de sistemas de alerta eficazes. Em uma escala diária, os eventos mais intensos incluíram 238,6 mm em Rio Pardo (A813) em 11 de novembro de 2013, 229,2 mm em Uruguaiana (A809) em 09 de janeiro de 2019 e 207,0 mm em Santa Maria (A803) em 30 de abril de 2024. A concentração desses eventos extremos no tempo e no espaço sublinha a natureza não linear da precipitação e a necessidade de abordagens preditivas avançadas.
A decomposição da série temporal diária de precipitação, utilizando modelos aditivo e multiplicativo, permitiu uma compreensão aprofundada de seus componentes. A série observada exibiu o comportamento típico de variáveis pluviométricas, caracterizado por extensos períodos de baixa precipitação intercalados por picos extremos. A análise da tendência revelou uma relativa estabilidade entre 2013 e 2021, seguida por um aumento expressivo a partir de 2022, com os anos de 2023 e 2024 apresentando os maiores impactos. A redução na tendência em 2025 é atribuída ao fato de a série não contemplar o ano completo, não indicando uma reversão do padrão de intensificação.
A componente sazonal, por sua vez, indicou a presença de um ciclo anual, mas com intensidade fraca. A força de sazonalidade calculada foi de 0,087 para o modelo aditivo e 0,096 para o multiplicativo, ambos abaixo do limiar de 0,4, que é considerado indicativo de sazonalidade moderada (Wang, Smith e Hyndman, 2006). Este achado é consistente com a caracterização climática do Rio Grande do Sul, onde a precipitação é historicamente bem distribuída ao longo do ano, sem uma estação seca definida (Atlas Socioeconômico do RS, 2024). A média sazonal mensal apontou outubro (+52,6 mm) e maio (+51,1 mm) como os meses de maior contribuição, e agosto (-42,6 mm) como o de menor, com uma amplitude sazonal de aproximadamente 95 mm e um padrão irregular.
O resíduo da decomposição concentrou valores abruptos que não puderam ser explicados pela tendência ou sazonalidade, representando os eventos de precipitação extrema. Essa constatação é crucial para a modelagem preditiva, pois demonstra que os fenômenos hidrometeorológicos críticos estão associados a flutuações não lineares e de difícil captura por métodos estatísticos convencionais. Consequentemente, a utilização de redes neurais recorrentes, como as LSTM, justifica-se como uma alternativa promissora para a identificação de padrões complexos e a antecipação desses eventos, alinhando-se com a proposta do estudo de empregar técnicas avançadas de aprendizado de máquina para a previsão de desastres.
Seleção de Variáveis
Para identificar as variáveis com maior poder preditivo, o algoritmo Random Forest foi empregado como classificador binário. A variável-alvo foi definida como a ocorrência de precipitação acima de 8,60 mm/hora, que corresponde ao percentil 95 da distribuição histórica positiva de precipitação. Este limiar se mostrou coerente com a magnitude dos eventos extremos observados em abril de 2024, que apresentaram médias horárias consistentemente acima desse valor durante o período crítico. O horizonte de previsão estabelecido foi de uma hora, visando a antecipação de eventos. Dada a raridade dos eventos extremos, que representam apenas 0,42% das observações, as métricas de avaliação priorizadas foram AUC-ROC e recall da classe extrema, consideradas mais adequadas para contextos de classes desbalanceadas do que a acurácia global.
Para enriquecer a capacidade discriminativa do modelo, foram criadas 40 features defasadas (lags) para cada uma das oito variáveis meteorológicas de base, em intervalos de 1, 3, 6, 12 e 24 horas. Este procedimento permitiu que o modelo incorporasse o comportamento temporal das variáveis nas horas anteriores a cada observação, capturando indiretamente o comportamento acumulado da precipitação sem a necessidade de criar variáveis de precipitação acumulada explicitamente. A abordagem inicial para o tratamento do desbalanceamento de classes, utilizando o parâmetro `class_weight=’balanced’` do RandomForestClassifier, não foi eficaz, resultando em um recall de zero para a classe minoritária, o que indicou a incapacidade do modelo de identificar eventos de alta precipitação.
Diante dessa limitação, a técnica SMOTE (Synthetic Minority Oversampling Technique) foi adotada e demonstrou superioridade ao gerar amostras sintéticas da classe minoritária nos dados de treino. Essa estratégia permitiu que o modelo aprendesse os padrões associados aos eventos extremos de forma mais eficaz, preservando a distribuição real dos dados no conjunto de teste para uma avaliação válida. A importância de cada variável foi calculada com base na redução média de impureza nas árvores de decisão do Random Forest, e as seis variáveis com maior importância agregada foram selecionadas para a entrada do modelo LSTM, otimizando a dimensionalidade do problema.
A precipitação total horária destacou-se como a variável de maior importância agregada, com um valor de 0,4939, representando quase o triplo da segunda colocada. Esse resultado é fisicamente esperado, pois o histórico recente de precipitação é o preditor mais direto para a ocorrência de novos eventos extremos. A temperatura do ponto de orvalho ocupou a segunda posição, com 0,1628 de importância, refletindo sua relação direta com o teor de vapor d’água na atmosfera, um fator crucial para chuvas intensas. As demais variáveis selecionadas foram umidade relativa do ar (0,0856), temperatura do ar bulbo seco (0,0608), radiação global (0,0571) e vento rajada máxima (0,0548), todas reconhecidas na literatura como precursores de eventos hidrometeorológicos extremos.
A análise da importância das variáveis por lag revelou a predominância da precipitação total horária nos lags mais recentes, indicando uma forte dependência temporal imediata para a ocorrência de eventos extremos. Variáveis como temperatura do ponto de orvalho, umidade relativa e radiação global também apresentaram relevância distribuída ao longo dos lags, sugerindo que o comportamento atmosférico acumulado nas horas anteriores influencia significativamente a capacidade preditiva do modelo. Embora o Random Forest tenha obtido um AUC-ROC de 0,9350 no conjunto de teste, seu recall de 13,8% para a classe extrema confirmou que sua principal função neste estudo foi a seleção de variáveis, e não a previsão final, que seria realizada pelo modelo LSTM.
Modelagem LSTM
O modelo preditivo foi construído utilizando uma rede neural recorrente do tipo Long Short-Term Memory (LSTM), implementada com a biblioteca TensorFlow e Keras. A entrada do modelo consistiu nas seis variáveis selecionadas pelo Random Forest: precipitação total horária, temperatura do ponto de orvalho, umidade relativa do ar, temperatura do ar bulbo seco, radiação global e velocidade de rajada máxima do vento. Os dados de entrada foram normalizados pelo método MinMaxScaler, que reescalou os valores para o intervalo entre zero e um, prevenindo que diferenças de magnitude entre as variáveis afetassem o aprendizado do modelo. Em seguida, foram criadas janelas temporais de 24 horas, onde cada observação representava o histórico das seis variáveis nas 24 horas anteriores.
A arquitetura do modelo LSTM foi composta por duas camadas LSTM empilhadas, com 64 e 32 neurônios, respectivamente, e intercaladas por camadas de Dropout com taxa de 20% para mitigar o overfitting. Uma camada densa intermediária com 16 neurônios e ativação ReLU foi adicionada antes da camada de saída, que utilizou um neurônio com função de ativação sigmoid para produzir a probabilidade de ocorrência de evento de alta precipitação. O modelo totalizou 31.137 parâmetros treináveis. O treinamento foi configurado para até 50 épocas, com um batch size de 256 e o otimizador Adam, utilizando a função de perda binary crossentropy. Para evitar o overfitting, foi implementado o callback EarlyStopping com paciência de cinco épocas, monitorando a perda de validação e restaurando automaticamente os melhores pesos.
O treinamento do modelo LSTM foi interrompido pelo EarlyStopping na sexta época, pois o melhor desempenho de validação foi alcançado já na primeira época, com uma perda de validação de 0,1491. As épocas subsequentes mostraram um aumento progressivo da perda de treino e oscilações crescentes na perda de validação, indicando que o modelo não manteve a capacidade de generalização. Este comportamento justificou a adoção do EarlyStopping, assegurando que o modelo final correspondesse à configuração com a menor perda de validação observada, garantindo a robustez do modelo na previsão de eventos extremos. A avaliação do modelo foi realizada utilizando métricas como precision, recall, F1-score, acurácia, matriz de confusão e AUC-ROC.
Os resultados obtidos no conjunto de teste demonstraram a eficácia do modelo LSTM. O AUC-ROC alcançou 0,9373, indicando uma capacidade discriminativa muito boa entre eventos de precipitação normal e extrema, com 93,73% de probabilidade de classificar corretamente um evento extremo em relação a um evento normal. Este desempenho é considerado excelente na literatura para problemas de classificação com classes desbalanceadas. O recall para a classe extrema foi de 0,824 (82,4%), o que significa que o modelo foi capaz de identificar a grande maioria das ocorrências de alta precipitação com antecedência, um resultado crucial para a prevenção de desastres hidrometeorológicos.
A matriz de confusão revelou que o modelo identificou corretamente 3.235 dos 3.925 eventos extremos presentes no conjunto de teste, confirmando o recall de 82,4%. No entanto, foram registrados 690 eventos extremos não detectados (falsos negativos) e 64.933 falsos alarmes (situações normais classificadas incorretamente como extremas). O valor de precision para a classe extrema foi de 0,047, refletindo o número de falsos alarmes gerados. Este comportamento é esperado em modelos calibrados para maximizar o recall em contextos de prevenção de desastres, onde a não detecção de um evento real representa um risco significativamente maior do que a emissão de um alerta desnecessário. A redução dos falsos alarmes, embora seja uma oportunidade de melhoria, pode ser explorada em trabalhos futuros através do ajuste do limiar de classificação ou da incorporação de variáveis adicionais.
Em síntese, os resultados da pesquisa confirmam a viabilidade e a eficácia do modelo preditivo baseado em redes neurais LSTM para a classificação de eventos de alta precipitação no Rio Grande do Sul. A capacidade de identificar 82,4% dos eventos extremos com antecedência, aliada a uma alta capacidade discriminativa (AUC-ROC de 0,9373), demonstra o potencial do modelo para fornecer um suporte antecipado valioso a ações preventivas e decisões estratégicas em políticas públicas de prevenção de desastres hidrometeorológicos. Embora o desafio dos falsos alarmes persista, a priorização do recall para eventos extremos é justificada pelo contexto de mitigação de riscos, consolidando a contribuição deste trabalho para o monitoramento climático e a segurança da população.
4. Conclusão
O presente estudo teve como objetivo desenvolver um modelo preditivo baseado em redes neurais do tipo Long Short-Term Memory (LSTM) para classificar eventos de alta precipitação no Rio Grande do Sul, visando fornecer suporte antecipado a ações preventivas e decisões estratégicas em políticas públicas. Verificou-se que a precipitação no estado apresentou notável variabilidade temporal e picos significativos, com uma intensificação clara dos eventos extremos a partir de 2019, culminando nos maiores volumes mensais e diários em 2023 e 2024. A análise de decomposição da série temporal revelou uma tendência de aumento expressivo a partir de 2022 e uma sazonalidade fraca, indicando que os fenômenos hidrometeorológicos críticos estão associados a flutuações não lineares. Por meio do algoritmo Random Forest, identificou-se a precipitação total horária e a temperatura do ponto de orvalho como as variáveis de maior poder preditivo. O tratamento do desbalanceamento de classes com SMOTE foi crucial para o aprendizado do modelo. O modelo LSTM desenvolvido alcançou um AUC-ROC de 0,9373, demonstrando excelente capacidade discriminativa, e um recall de 82,4% para a classe extrema, evidenciando sua eficácia em identificar a grande maioria das ocorrências de alta precipitação com antecedência.
A principal contribuição deste trabalho reside no potencial de oferecer um suporte antecipado valioso para sistemas de monitoramento climático e políticas públicas de prevenção de desastres hidrometeorológicos no Brasil, mitigando os impactos de futuros eventos extremos. Contudo, uma limitação identificada foi o número de falsos alarmes gerados pelo modelo, refletido em um valor de precision de 0,047 para a classe extrema. Embora este comportamento seja esperado em modelos calibrados para maximizar o recall em contextos de prevenção, o excesso de alertas desnecessários pode comprometer a confiança dos usuários. Como desdobramentos futuros, sugere-se a exploração do ajuste do limiar de classificação para otimizar o equilíbrio entre precision e recall, a incorporação de variáveis adicionais como dados de relevo e índices climáticos, e a avaliação de arquiteturas de redes neurais mais complexas ou modelos híbridos. Recomenda-se também a adoção de validação temporal por janela deslizante e a integração do modelo a sistemas operacionais existentes no INMET e na Defesa Civil para aplicação prática dos resultados.
Referências Bibliográficas
Instituto Nacional de Meteorologia [INMET]. 2024. El Niño: saiba como foi a atuação do fenômeno no Brasil. Disponível em: <https://portal.inmet.gov.br/noticias/el-niño-saiba-como-foi-a-atuação-do-fenômeno-no-brasil>. Acesso em: 15 de março 2025.
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais [INPE].
IPCC. 2023. Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Geneva: IPCC. Disponível em: <https://www.ipcc.ch/report/ar6/syr/downloads/report/IPCC_AR6_SYR_FullVolume.pdf>. Acesso em: 15 de março 2025.
Peel, M. C.; Finlayson, B. L.; McMahon, T. A. 2007. Updated world map of the Köppen-Geiger climate classification. Hydrology and Earth System Sciences, v. 11, n. 5, p. 1633–1644. Disponível em: <https://hess.copernicus.org/articles/11/1633/2007/>. Acesso em: 15 de março 2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

