16 de outubro de 2026
Critérios e usabilidade de documentos no processo de escolha de materiais didáticos
Critérios e Usabilidade de Documentos no Processo de Escolha de Materiais Didáticos
Priscila Tavares; Tatiana Giselle Guimarães Lopes
DOI: 10.22167/2675-6528-202603364
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
Um estudo analisou documentos pedagógicos que orientam a escolha de materiais didáticos no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), considerando sua relevância para a prática docente e a gestão escolar. O objetivo foi analisar a clareza, a organização e a aplicabilidade do Guia Digital do PNLD 2023 – Anos Iniciais e do Roteiro de Apoio à Análise de Materiais Didáticos do Instituto Reúna, identificando seus limites, potencialidades e implicações para a prática pedagógica. Realizou-se uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, fundamentada na análise documental orientada pela técnica de análise de conteúdo. Examinaram-se aspectos como estrutura, navegabilidade, organização dos critérios, densidade textual e estimativa de tempo de leitura. A análise revelou tensões entre regulação estatal, mercado editorial e autonomia escolar, e os resultados apresentaram diferenças significativas entre os documentos. O Guia do PNLD mostrou-se extenso, tecnicamente denso e predominantemente normativo. Em contraste, o Roteiro do Instituto Reúna organizou-se de forma progressiva e didática, com recursos gráficos que favoreceram a compreensão e o uso coletivo pelas escolas. Concluiu-se que as características estruturais e discursivas dos documentos influenciam diretamente sua usabilidade e podem impactar o grau de autonomia e participação das equipes escolares no processo de escolha dos materiais didáticos.
Palavras-chave: formação docente; materiais didáticos; PNLD; políticas curriculares; processo decisório.
1. Introdução
O material didático desempenha um papel relevante no cotidiano das escolas, configurando-se como uma das principais ferramentas para o planejamento e a execução das atividades pedagógicas, tanto na rede pública quanto na privada. Contudo, é recorrente, em diversas esferas educacionais e editoriais, a manifestação de insatisfações relacionadas à escolha e à qualidade dos materiais utilizados em sala de aula.
A seleção de materiais didáticos está intrinsecamente ligada a decisões institucionais que envolvem diferentes agentes escolares e políticos. No contexto das redes públicas brasileiras, esse processo é regulamentado por políticas como o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), instituído oficialmente pelo Decreto nº 91.542/1985 e reformulado pelo Decreto nº 9.099/2017 (Brasil, 2017). O PNLD representa uma das maiores iniciativas globais de fornecimento gratuito de materiais pedagógicos. Corrêa e Doro (2023) destacam a trajetória histórica e política do programa, ressaltando sua importância para a ampliação do acesso à leitura e para a formação de leitores nas escolas públicas. O programa não apenas organiza a avaliação, seleção e distribuição de obras, mas também influencia o mercado editorial e as práticas pedagógicas nas escolas.
Em um cenário de políticas curriculares cada vez mais centralizadas, torna-se fundamental compreender a organização, a clareza e a aplicabilidade dos documentos que orientam a escolha de materiais didáticos para avaliar seus impactos na autonomia das escolas. Uma pesquisa nacional do Instituto Reúna (2020) revelou que, embora mais de dois mil professores da rede pública considerem os materiais do PNLD importantes para o planejamento pedagógico, eles enfrentam desafios. Estes incluem o pouco uso dos guias, a limitação de tempo para análise e a dificuldade de compreensão e aplicação prática dos critérios definidos. O relatório aponta que 41% dos professores dos Anos Iniciais, em comparação com 34% dos Anos Finais, consideram o conteúdo dos materiais do PNLD insuficiente (Instituto Reúna, 2020). Esses dados reforçam a necessidade de refletir sobre a qualidade e a aplicabilidade dos instrumentos criados para apoiar esse processo decisório.
Para embasar a compreensão conceitual, o livro didático é considerado um recurso pedagógico estruturante do processo de ensino e aprendizagem, indo além de um simples suporte de conteúdos (Perovano, Amaral e Mazzi, 2023). Esses autores enfatizam as múltiplas funções — didática, formativa e política — atribuídas a esse material. Eles também ressaltam que o livro didático é um artefato cultural portador de intencionalidades e valores ideológicos, o que reforça a necessidade de ferramentas críticas para avaliá-lo.
A literatura crítica sobre currículo, especialmente as contribuições de Apple (1989; 2006), ajuda a compreender que tais materiais integram disputas mais amplas sobre conhecimento, poder e regulação, compondo o que ele denominou “conhecimento oficial”. No cenário brasileiro, a consolidação do PNLD reorganizou significativamente a dinâmica do setor editorial, estabelecendo um modelo em que o Estado atua simultaneamente como avaliador pedagógico e agente econômico. Esse arranjo produziu impactos tanto na produção das coleções quanto na autonomia das escolas, uma vez que a escolha se realiza dentro de um conjunto previamente validado segundo critérios definidos centralmente. Mesmo diante das recentes reconfigurações tecnológicas e políticas, com a opção por materiais digitais em algumas redes estaduais, o PNLD continua sendo determinante para balizar a maioria das escolas públicas e o mercado editorial, reafirmando a necessidade de investigar a usabilidade dos guias que orientam esse processo (TCC, p. 4). Moreira (1989) complementa que o currículo constitui um espaço de disputa simbólica e política, onde se definem quais conhecimentos serão legitimados e quais perspectivas serão silenciadas.
A centralidade dos materiais didáticos na conformação das condições de ensino e aprendizagem (Apple, 1995) e os desafios enfrentados pelos educadores na navegação de processos seletivos complexos justificam a presente investigação. Em um contexto de crescente centralização curricular e de questões persistentes relacionadas à usabilidade dos documentos orientadores, é essencial compreender como esses instrumentos apoiam ou dificultam a autonomia pedagógica. Assim, este estudo visa analisar a clareza, a organização e a aplicabilidade de documentos pedagógicos que orientam a escolha de materiais didáticos no contexto do PNLD, identificando seus limites, potencialidades e implicações para a autonomia, a prática docente e a gestão escolar, em um cenário de coexistência entre materiais impressos, digitais e produzidos pelas próprias redes de ensino.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentada na análise documental. Utilizou-se a técnica de análise de conteúdo, conforme os preceitos de Bardin (2016), com o objetivo de produzir uma leitura sistemática, categorial e interpretativa dos documentos que subsidiam o processo de escolha de livros didáticos pelas escolas.
O objeto empírico do estudo consistiu em dois documentos principais. O primeiro foi o Guia Digital do PNLD 2023 – Ensino Fundamental – Anos Iniciais, um manual técnico oficial do Ministério da Educação (MEC) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O segundo foi o Roteiro de Apoio à Análise de Materiais Didáticos PNLD 2023 – Anos Iniciais, elaborado pelo Instituto Reúna, um material técnico-formativo.
Os procedimentos metodológicos iniciaram com uma revisão da história e atuação do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) no Brasil. Essa etapa baseou-se na análise de documentos oficiais e textos acadêmicos, incluindo as contribuições de Corrêa e Doro (2023). Em seguida, analisaram-se as relações entre o Estado, o mercado editorial e a produção de livros didáticos, considerando as perspectivas teóricas de Copatti et al. (2021).
Posteriormente, analisou-se a atuação do Instituto Reúna na proposição de instrumentos de curadoria pedagógica. Realizou-se a descrição e análise da estrutura organizacional dos documentos do PNLD e do Instituto Reúna, ambos de 2023. Examinaram-se aspectos como navegabilidade, presença de sumário, clareza das informações e formatação dos critérios de análise, buscando identificar a organização e acessibilidade para os usuários.
Adicionalmente, estimou-se o tempo necessário para a leitura integral de cada documento. Para isso, realizou-se uma contagem aproximada de palavras, dividindo-se o total por uma velocidade de leitura compreensiva de 200 a 250 palavras por minuto. O cálculo foi expresso em intervalo de tempo, visando dimensionar o esforço inicial de leitura e sua compatibilidade com o cotidiano de professores e gestores.
Por fim, analisou-se a aplicabilidade dos critérios propostos nos documentos, considerando a possibilidade de apropriação prática por professores e gestores escolares. Essa etapa buscou identificar o potencial dos critérios para subsidiar processos de escolha, avaliação e uso de materiais didáticos nas instituições de ensino.
A análise dos dados foi conduzida pela técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2016), buscando identificar padrões, limites e potencialidades dos documentos como instrumentos de apoio pedagógico. As categorias qualitativas foram agrupadas em três dimensões: Usabilidade, Esforço de Leitura e Grau de Facilidade da Aplicação.
A dimensão Usabilidade abrangeu a navegabilidade, estrutura, presença e clareza do sumário, clareza geral, formatação e organização dos itens. O Esforço de Leitura referiu-se ao tempo estimado de leitura integral. O Grau de Facilidade da Aplicação avaliou a exequibilidade dos critérios para uso na escolha dos livros, considerando os tempos e contextos práticos vivenciados nas escolas.
A leitura e análise dos materiais foram guiadas por questões específicas. Investigou-se a estrutura dos documentos em termos de linguagem, organização e disposição das informações, incluindo a quantidade de páginas e a presença de elementos de apoio. Questionou-se o nível de esforço de leitura exigido, considerando a linguagem técnica, extensão e tempo estimado. Avaliou-se a acessibilidade da linguagem para educadores e a aplicabilidade prática das ferramentas e critérios propostos, explorando limites e potencialidades como instrumentos de apoio à curadoria de livros.
3. Resultados e Discussão
Esta seção apresenta os resultados da análise documental de dois instrumentos orientadores que subsidiam a escolha de materiais didáticos nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental: o Guia Digital do PNLD 2023 – Anos Iniciais, elaborado pelo Ministério da Educação e Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, e o Roteiro de Apoio à Análise de Materiais Didáticos dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, desenvolvido pelo Instituto Reúna em 2023. A análise foi organizada a partir de três dimensões principais: usabilidade, esforço de leitura e grau de aplicabilidade prática, considerando as condições reais de trabalho de professores e gestores escolares.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Reúna em 2019, que envolveu mais de dois mil professores da rede pública, revelou a alta importância atribuída ao material didático no cotidiano escolar. Mais da metade dos professores considerou o material didático de extrema importância para o aluno estudar e fazer lição de casa (57%), para orientar o planejamento do trabalho do professor (53%), para apoiar o trabalho do professor na sala de aula (53%), para apoiar o trabalho do aluno em sala de aula (55%) e para o estudo e aprofundamento do professor no conteúdo (50%). Esses dados, que representam as notas máximas atribuídas em uma escala de zero a dez, corroboram a relevância dos documentos orientadores para escolhas assertivas, conforme destacado por Apple (1995), que enfatiza como os livros didáticos estabelecem grande parte das condições materiais para o ensino e a aprendizagem.
Usabilidade dos documentos: estrutura, clareza e organização dos critérios
Do ponto de vista da usabilidade, os documentos analisados revelaram finalidades distintas, refletindo-se diretamente em sua organização e linguagem. O Guia do PNLD 2023 – Anos Iniciais, por exemplo, é um documento extenso e normativo, com aproximadamente 900 páginas, caracterizado por um grande volume de informações técnicas e descritivas. Sua estrutura privilegia a apresentação detalhada das coleções aprovadas, acompanhadas de pareceres técnicos e referências às exigências do edital, o que sugere uma consulta fragmentada e seletiva, mais voltada à busca de informações específicas do que à leitura integral.
A organização do Guia do PNLD inclui seções como Início, Por que ler o guia?, Apresentação, Princípios e critérios, Código das obras, Escolha, Referências e Componentes Curriculares. Embora reforce a importância do processo decisório das escolas, o documento oferece poucos recursos de mediação pedagógica, como guias de leitura ou orientações passo a passo. Além disso, o sumário, quando o documento é baixado em formato PDF, não possui paginação interativa, o que dificulta a navegação direta para as seções desejadas e a comparação entre as obras.
Em contraste, o Roteiro de Apoio à Análise de Materiais Didáticos, com aproximadamente 70 páginas, apresenta uma estrutura didática, progressiva e orientadora. Ele é organizado em etapas claramente delimitadas: Preparação, Análise, Ensaio e Decisão. O documento incorpora diversos elementos de apoio à leitura, como sumário interativo, destaques visuais, quadros explicativos e esquemas gráficos, que favorecem a compreensão do processo de escolha como uma prática coletiva, reflexiva e contextualizada, ampliando sua usabilidade no cotidiano escolar.
O Instituto Reúna complementa o Roteiro com documentos adicionais, como a pesquisa sobre o uso de material didático no Brasil e três infográficos de apoio, incluindo um “simulador” com cronograma para aplicação do roteiro. Essa abordagem multifacetada visa apoiar a compreensão e a aplicação do instrumento pelas escolas. A análise evidenciou, portanto, diferenças estruturais significativas entre os dois documentos, com o Guia do PNLD priorizando a apresentação de pareceres avaliativos e o Roteiro do Instituto Reúna focando em uma estrutura progressiva e didática.
A distinção entre os documentos não é meramente formal, mas reflete a natureza do livro didático como artefato pedagógico, cultural e econômico, articulado às políticas públicas (Gatti Jr., 2004). O Guia do PNLD, como instrumento estatal, materializa a dimensão regulatória do currículo, informando e delimitando as possibilidades de decisão pedagógica. Sua centralidade normativa pode ser interpretada como expressão de um modelo de regulação curricular centralizado, onde o Estado define critérios e valida conteúdos, alinhando-se à ideia de “conhecimento oficial” de Apple (1989).
Por outro lado, o Roteiro do Instituto Reúna adota um caráter formativo e instrumental, buscando mediar a relação entre política pública e prática escolar. Contudo, mesmo com sua abordagem pedagógica, o Roteiro mantém um forte alinhamento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), reforçando a centralidade da Base como eixo organizador da escolha. Essa predominância da BNCC, conforme Moreira (1989), pode reduzir a visibilidade de projetos político-pedagógicos locais e saberes construídos no cotidiano escolar, tensionando a autonomia docente.
Esforço de leitura: extensão, densidade textual e tempo estimado
No que se refere ao esforço de leitura, os documentos diferem significativamente em extensão, densidade conceitual e tempo estimado para compreensão integral. O “esforço” aqui não se limita à métrica cronológica, mas abrange a carga cognitiva e o desgaste impostos ao docente. A estimativa de tempo de leitura foi calculada com base na contagem aproximada de palavras e na velocidade média de leitura de textos acadêmicos (200 a 250 palavras por minuto), sem considerar interrupções ou leituras fragmentadas, comuns no cotidiano escolar.
O Guia do PNLD 2023 exige um alto esforço cognitivo e temporal. Com quase 900 páginas, um professor precisaria de dezenas de horas ininterruptas para uma leitura integral, o que é inviável no cotidiano escolar. A leitura, na prática, torna-se fragmentada, dificultando a retenção de informações técnicas, o cruzamento de dados e a tomada de decisões comparativas precisas. A densidade das informações e as múltiplas demandas do trabalho escolar tornam a leitura integral do Guia pouco viável, especialmente quando acompanhada de comparação entre obras, registros e discussão coletiva.
O texto do Guia mobiliza frequentemente termos associados à legislação educacional, à BNCC, aos critérios de avaliação do edital e à análise pedagógica das obras, pressupondo familiaridade prévia com esses referenciais. Isso indica a necessidade de momentos formativos para explorar os materiais, discutir com colegas e outras demandas que cabem aos docentes e gestores. A exigência de leitura integral de documentos extensos pressupõe condições ideais de trabalho que nem sempre correspondem à realidade das escolas públicas, onde o trabalho docente é marcado por múltiplas demandas simultâneas, fragmentação das tarefas e intensificação das responsabilidades, conforme Tardif (2014).
Embora a Lei do Piso do Magistério (Lei nº 11.738/2008) determine que um terço da jornada seja destinado a atividades extraclasse, a organização concreta do trabalho docente frequentemente não garante tempo efetivo para estudo aprofundado de documentos extensos como o Guia do PNLD. A elevada densidade normativa do Guia pode, assim, ampliar a dimensão burocrática do trabalho pedagógico, alinhando-se às análises de Apple (1989) sobre os mecanismos de regulação e controle nas políticas educacionais. Sem condições objetivas de tempo e formação, esses instrumentos tendem a deslocar para o professor a responsabilidade pela interpretação de diretrizes complexas.
Em contraste, o Roteiro de Apoio apresenta um texto mais fluido, com linguagem predominantemente acessível, embora fundamentada em conceitos pedagógicos e normativos. O esforço de leitura é mitigado pelo uso de exemplos, explicações contextuais e organização visual do conteúdo. Estima-se que a leitura integral do Roteiro possa ser realizada em duas a três horas, dependendo do ritmo do leitor, sendo compatível com momentos de estudo coletivo ou formação continuada. Os resultados indicam, portanto, que o Roteiro demanda um esforço de leitura mais compatível com a realidade do trabalho docente, enquanto o Guia do PNLD apresenta barreiras relacionadas sobretudo à sua extensão e densidade informacional.
Grau de aplicabilidade prática: possibilidades e limites no contexto escolar
No que se refere à aplicabilidade prática, tanto o Guia do PNLD 2023 quanto o Roteiro de Apoio à Análise de Materiais Didáticos apresentam potencialidades e limites. O Guia do PNLD 2023 constitui uma fonte oficial indispensável, reunindo informações detalhadas sobre as obras aprovadas, seus pareceres técnicos e o alinhamento às exigências legais e curriculares. Contudo, sua aplicabilidade prática direta é limitada devido às suas aproximadamente 900 páginas e à estrutura predominantemente técnica e normativa, que exigem elevado esforço de leitura e sistematização.
A extensão do Guia dificulta a leitura integral no cotidiano escolar, especialmente diante da intensificação do trabalho docente, marcado pelo acúmulo de exigências administrativas e pedagógicas. Sob a perspectiva de Apple (2006), o Guia materializa o conhecimento institucional, atuando como instrumento de regulação curricular e reforçando a centralização decisória no âmbito estatal. Além disso, o documento não orienta explicitamente como organizar o processo coletivo de escolha na escola, tampouco oferece ferramentas para mediação do debate entre professores e gestores, exigindo tempo, experiência prévia e forte mediação da equipe gestora e pedagógica para seu uso efetivo.
Em contraste, o Roteiro do Instituto Reúna foi concebido explicitamente para apoiar o processo coletivo de escolha. Organizado em etapas progressivas (Preparação, Análise, Ensaio e Decisão), ele apresenta critérios sistematizados, linguagem mais acessível e recursos gráficos que favorecem a navegação. Seu caráter formativo aproxima-se mais do cotidiano escolar, e a estimativa de duas a três horas para leitura integral o torna mais compatível com momentos formativos coletivos. No entanto, sua aplicação integral pressupõe condições institucionais específicas, como tempo institucionalizado para estudo e planejamento coletivo, estabilidade da equipe docente, coordenação pedagógica estruturada e cultura de trabalho colaborativo consolidada, pressupondo um funcionamento escolar ideal.
Na prática, muitas escolas públicas enfrentam desafios como a rotatividade docente e o acúmulo de funções pela gestão. Dados do Censo Escolar indicam um crescimento no percentual de docentes com vínculos temporários nas redes estaduais entre 2015 e 2024, o que está associado a uma maior rotatividade e à fragilização do planejamento coletivo. Esse cenário evidencia que a aplicabilidade dos instrumentos analisados não depende apenas de sua qualidade técnica, mas das condições estruturais da política educacional, tornando etapas previstas no Roteiro, como o “Ensaio” (simulação e esboço de planejamentos), difíceis de executar e limitando a aplicabilidade integral do instrumento.
A análise dos documentos revelou sete pontos críticos em sua aplicabilidade. Primeiramente, ambos pressupõem condições ideais de funcionamento escolar, desconsiderando a rotatividade docente, o acúmulo de funções da gestão e a ausência de horários dedicados à formação, o que pode limitar a aplicação integral em escolas públicas. Em segundo lugar, a centralidade exclusiva da BNCC, embora promova equidade, reduz a visibilidade de currículos locais e projetos político-pedagógicos, podendo induzir uma leitura normativa e dificultar o uso por docentes menos familiarizados com a Base.
Em terceiro lugar, a linguagem, embora amigável, utiliza intensamente conceitos pedagógicos e técnicos, e a ausência de glossário ou definições sistematizadas pode gerar barreiras conceituais, dificultando a compreensão e o acesso à formação continuada. O quarto ponto é o risco de instrumentalização excessiva, onde documentos estruturados para sistematizar a escolha podem ser utilizados de forma burocrática ou mecanizada sob pressão de prazos, esvaziando o caráter formativo e reflexivo do processo de escolha.
O quinto ponto crítico é a dependência da mediação da gestão. A ausência ou fragilidade de uma liderança pedagógica ativa na organização e mediação do processo pode reduzir a efetividade do instrumento, resultando em subutilização ou uso superficial do material. Em sexto lugar, a pouca problematização do mercado editorial, com foco na qualidade pedagógica dos materiais, negligencia as relações entre políticas públicas, mercado editorial e estratégias comerciais, limitando a formação de uma leitura crítica do livro didático como artefato cultural e político (Gatti Jr., 2004).
Por fim, a aplicabilidade desigual entre as redes é o sétimo ponto, pois os documentos são mais facilmente aplicados em redes com suporte técnico estruturado. Escolas vulneráveis podem ter maior dificuldade de apropriação do instrumento, ampliando as desigualdades no acesso a processos qualificados de curadoria pedagógica. Essa forte centralidade da BNCC nos documentos, embora favoreça referenciais curriculares, pode reduzir a visibilidade de currículos locais e saberes construídos nas escolas, tensionando a autonomia docente, conforme Apple (1995) e Moreira (1989).
Apple (1995) argumenta que os materiais didáticos exercem influência significativa sobre o trabalho docente, estabelecendo grande parte das condições materiais para o ensino. Assim, quando os critérios de escolha são rigidamente alinhados a um referencial centralizado, ampliam-se os mecanismos de regulação curricular. Além disso, embora o Roteiro trate da qualidade pedagógica dos materiais, dedica pouca atenção às relações entre políticas públicas e mercado editorial. O PNLD consolidou-se como principal estruturador desse mercado, movimentando valores bilionários a cada ciclo, e o silêncio sobre essa dimensão econômica pode favorecer uma leitura tecnicista da escolha, descolada das relações entre Estado, mercado e produção cultural.
As políticas educacionais não são implementadas de forma linear, sendo reinterpretadas e ressignificadas nos contextos escolares, de acordo com as condições materiais, culturais e organizacionais de cada instituição. Assim, a efetividade do Roteiro depende menos de sua qualidade técnica e mais das condições organizacionais concretas que sustentam sua utilização. Em síntese, enquanto o Guia do PNLD 2023 cumpre função regulatória e informativa essencial, mas apresenta baixa usabilidade prática no cotidiano escolar, o Roteiro do Instituto Reúna amplia as possibilidades de uma escolha mais participativa e fundamentada.
Contudo, a efetividade do Roteiro depende de condições objetivas de trabalho, como tempo, estabilidade da equipe, apoio da gestão e cultura colaborativa, que não estão igualmente asseguradas nas diferentes redes de ensino. Desse modo, ambos os documentos evidenciam a tensão constitutiva das políticas curriculares contemporâneas entre regulação central e prática local, padronização e autonomia. A aplicabilidade prática dos documentos depende, portanto, das condições institucionais de cada escola, sendo o tempo para estudo coletivo, a estabilidade da equipe e a coordenação pedagógica estruturada fatores decisivos para que o processo de escolha seja formativo e não apenas burocrático.
Limites e potencialidades dos documentos como instrumentos de apoio a gestão
De forma sintética, os resultados apontam que o Guia do PNLD apresenta como principal potencialidade sua legitimidade institucional e a riqueza de informações técnicas, mas enfrenta limites relacionados à usabilidade e ao esforço de leitura. Já o Roteiro do Instituto Reúna destaca-se pela clareza, organização e foco na prática escolar, embora dependa de condições estruturais para sua implementação efetiva. Os achados reforçam a necessidade de refletir sobre a distância entre os documentos orientadores e as condições concretas das escolas, especialmente no que se refere ao tempo disponível para uma escolha cuidadosa, dialogada e consciente dos materiais didáticos.
Embora os instrumentos analisados apresentem fundamentação técnica consistente e propostas estruturadas, sua efetiva apropriação depende de condições organizacionais que nem sempre estão asseguradas nas redes públicas de ensino. Nesse contexto, a gestão escolar assume papel central como mediadora entre política pública e prática pedagógica. Cabe à equipe gestora organizar tempos institucionais, estruturar momentos formativos, promover a leitura orientada dos documentos e garantir espaços de participação docente no processo decisório. Sem essa mediação, há o risco de que a escolha dos materiais didáticos se reduza a um procedimento burocrático, orientado apenas por prazos administrativos, esvaziando seu potencial formativo.
Além disso, a gestão pode atuar estrategicamente para mitigar os limites identificados, por meio da divisão de tarefas entre docentes, sistematização coletiva de critérios, produção de sínteses orientadoras e articulação entre o Guia oficial e instrumentos formativos mais didáticos. Tais ações contribuem para transformar um processo normativo em uma oportunidade de desenvolvimento profissional e fortalecimento da cultura colaborativa da escola. A análise demonstrou, por fim, que aprimorar o processo de escolha de materiais didáticos requer não apenas instrumentos bem estruturados, mas também condições efetivas de trabalho, formação e participação docente.
Em suma, a qualidade da escolha dos materiais didáticos não depende exclusivamente da robustez técnica dos documentos orientadores, mas fundamentalmente da capacidade da gestão escolar de criar condições institucionais que sustentem a reflexão pedagógica, a participação docente e a tomada de decisão fundamentada. Os resultados indicam que, embora o Guia do PNLD cumpra uma função regulatória essencial, sua extensão e densidade dificultam a apropriação, enquanto o Roteiro do Instituto Reúna, com sua estrutura didática e foco na prática, oferece um caminho mais viável para uma escolha participativa, desde que as condições institucionais de tempo e apoio à equipe estejam presentes.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar a clareza, a organização e a aplicabilidade de documentos pedagógicos que orientam a escolha de materiais didáticos no contexto do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), identificando seus limites, potencialidades e implicações para a prática docente e a gestão escolar. Verificou-se que o Guia Digital do PNLD 2023 – Anos Iniciais, embora seja uma fonte oficial indispensável e rica em informações técnicas, apresentou elevada extensão e densidade normativa, o que resultou em baixa usabilidade e alto esforço cognitivo e temporal para os docentes. Em contraste, o Roteiro de Apoio à Análise de Materiais Didáticos do Instituto Reúna demonstrou uma estrutura mais didática, progressiva e com recursos gráficos que favoreceram a compreensão e o uso coletivo, demandando um esforço de leitura mais compatível com a realidade escolar. Os achados indicaram que as características estruturais e discursivas desses documentos influenciam diretamente sua usabilidade e, consequentemente, o grau de autonomia e participação das equipes escolares no processo de escolha dos materiais didáticos, evidenciando uma tensão entre a regulação centralizada e a prática pedagógica local.
A pesquisa, de natureza qualitativa, limitou-se à análise documental, não investigando as práticas concretas de escolha nas escolas. Contudo, a análise revelou que a aplicabilidade prática de ambos os documentos pressupõe condições ideais de funcionamento escolar, como tempo institucionalizado para estudo coletivo, estabilidade da equipe docente e coordenação pedagógica estruturada, as quais nem sempre estão asseguradas nas redes públicas. Essa dependência de condições estruturais pode limitar a efetividade dos instrumentos, especialmente em cenários de rotatividade docente e acúmulo de funções da gestão. Sugere-se que estudos futuros investiguem a utilização desses instrumentos em diferentes realidades educacionais e explorem o potencial de ferramentas digitais para aprimorar a estruturação e a usabilidade dos guias governamentais. A principal contribuição prática do estudo reside em reforçar o papel central da gestão escolar como mediadora entre as políticas públicas e a prática pedagógica, sendo fundamental para organizar tempos, promover a leitura orientada e garantir a participação docente, transformando o processo de escolha em uma oportunidade de desenvolvimento profissional e fortalecimento da cultura colaborativa.
Referências Bibliográficas
Apple, M.W. 1989. Educação e poder. Artmed, Porto Alegre, RS, Brasil.
Apple, M.W. 1995. Cultura e comércio do livro didático. In: Apple, M.W. Trabalho docente e textos: economia política das relações de classe e de gênero em educação. Artes Médicas, Porto Alegre, RS, Brasil: 81-105.
Bardin, L. 2016. Análise de conteúdo. Edições 70, São Paulo, SP, Brasil.
Brasil. 2017. Decreto nº 9.099, de 18 de julho de 2017. Diário Oficial da União, Brasília, DF, Brasil.
Copatti, C.; Andreis, A.M.; Zuanazzi, L.C. 2021. Olhares ao programa nacional do livro e do material didático: relações entre estado, mercado editorial e os livros didáticos na escola. Perspectivas em Políticas Públicas 14(27): 1-26.
Corrêa, C.C.M.; Doro, F.G. 2023. Origem e trajetória do plano nacional do livro e do material didático e a relação com o desenvolvimento de formação de leitores. Biblioteca Escolar em Revista 9(1).
Gatti Jr., 2004 [Referência completa não encontrada no documento original]
Instituto Reúna. 2020. O PNLD e os usos de material didático no Brasil. Instituto Reúna, São Paulo, SP, Brasil. Disponível em: https://www.institutoreuna.org.br/uploads/files/file/PesquisaMateriaisDidaticosReuna.pdf. Acesso em: 19 abr. 2026.
Moreira, A.F.B. 1989. A contribuição de Michael Apple para o desenvolvimento de uma teoria curricular crítica no Brasil. Forum Educacional 13(4): 17-30.
Perovano, A.P.; Amaral, R.B.; Mazzi, L.C. 2023. Livro didático como recurso pedagógico: conceito, função, escolha e uso. Revista Binacional Brasil Argentina 12(2): 16-32.
Tardif, M. 2014. Saberes docentes e formação profissional. 17ed. Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

