16 de outubro de 2026
Literacia em Saúde Digital: Percepções, Usos e Expectativas em Relação ao Cuidado com a Saúde na Era da Informação
Literacia em Saúde Digital: Percepções, Usos e Expectativas em Relação ao Cuidado com a Saúde na Era da Informação
Patricia Gabryela Moreira Bresser Lang; Márcia Azevedo Coelho
DOI: 10.22167/2675-6528-202603339
Artigo derivado de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com conteúdo baseado no trabalho original do aluno e adaptado ao formato editorial da Revista E&S com apoio da ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege para síntese e organização textual.
Resumo
A literacia em saúde digital, essencial para a tomada de decisões informadas e o autocuidado na era da informação, enfrenta desafios no contexto brasileiro. O estudo objetivou analisar o nível de literacia digital em saúde de adultos e suas percepções sobre o uso de tecnologias digitais para o autocuidado. Realizou-se uma pesquisa aplicada, exploratória e descritiva, com abordagem quantitativa e qualitativa, envolvendo 107 adultos com experiência prévia no uso de tecnologias digitais em saúde. Os dados foram coletados por questionário eletrônico no Google Forms, que incluiu a escala eHEALS. Os resultados revelaram alta utilização de internet e aplicativos de saúde, com percepções predominantemente positivas, especialmente no apoio ao autocuidado. Identificou-se um nível moderado a elevado de literacia digital para busca de informações, mas com limitações na avaliação crítica e na confiança para a tomada de decisões. Concluiu-se que as tecnologias digitais são relevantes para a autonomia em saúde, mas demandam investimento em ações educativas e políticas públicas que promovam o letramento digital, o pensamento crítico e o uso seguro dessas ferramentas, visando reduzir desigualdades e aprimorar a tomada de decisões em saúde.
Palavras-chave: Inteligência artificial em saúde; Literacia digital; Literacia em saúde.
1. Introdução
No contexto contemporâneo das ciências da saúde, observa-se uma crescente valorização da participação ativa do indivíduo nos processos de cuidado. Essa participação implica a compreensão de conceitos fundamentais como autocuidado, cuidado em saúde, literacia em saúde e literacia digital em saúde. A saúde é reconhecida como um fenômeno dinâmico, resultante da interação entre fatores biológicos, psicológicos e determinantes sociais (Engel, 1977; WHO, 2001).
O autocuidado refere-se às ações realizadas pelo próprio indivíduo com o objetivo de manter a vida, a saúde e o bem-estar, fundamentado na teoria de Orem (2001) como uma prática deliberada e consciente para regular o funcionamento e desenvolvimento pessoal. Por outro lado, o cuidado em saúde abrange o conjunto de ações desenvolvidas por profissionais e sistemas de saúde para promover, prevenir, tratar ou reabilitar condições de saúde, sendo necessário quando o indivíduo não possui capacidade suficiente para atender às suas próprias necessidades (Orem, 2001).
A efetividade das ações de prevenção e promoção da saúde depende diretamente do desenvolvimento da literacia em saúde (LS). A LS é a capacidade de acessar, compreender, avaliar e utilizar informações relacionadas à saúde para a tomada de decisões informadas, envolvendo também o pensamento crítico diante do grande volume de informações disponíveis (WHO, 1998; Carvalho et al., 2025; Peres, 2024). Essa capacidade transforma o indivíduo de figura passiva em agente ativo do próprio cuidado.
A literacia em saúde é um conceito complexo, que integra seis dimensões, incluindo a literacia tradicional, numérica, digital, midiática, informacional e científica (Norman; Skinner, 2006). Além disso, ela pode ser compreendida em três níveis: funcional, interativo e crítico, que abrangem desde a compreensão básica de informações até a autonomia e a ação transformadora (Nutbeam, 1998, 2000).
Na era digital, a literacia em saúde evoluiu para englobar a literacia digital, que é a capacidade de utilizar tecnologias de forma crítica, eficaz e segura (Gilster, 1997; Eshet-Alkalai, 2004). A integração desses conceitos forma a eHealth literacy, que permite aos indivíduos buscar, compreender e aplicar informações de saúde em ambientes digitais, promovendo decisões informadas e práticas de autocuidado mais eficazes (Norman; Skinner, 2006). No Brasil, a importância da literacia digital é respaldada pela Lei nº 14.510/2022 (Kim et al., 2023).
Apesar do potencial das tecnologias digitais, o contexto brasileiro apresenta desafios significativos, como a baixa oferta de programas educativos, a linguagem técnica e as desigualdades socioeconômicas e de gênero, que dificultam o acesso e o uso adequado das informações em saúde (do resumo). A proliferação de conteúdos imprecisos na internet e a complexidade da linguagem em materiais educativos intensificam essas dificuldades (Borges et al., 2019; Sentell; Vamos; Okan, 2020; McQueen, 2020; Federal, 2022; UFMG, 2022). Baixos níveis de LS estão associados a dificuldades na compreensão de prescrições, na navegação em sistemas de saúde complexos (WHO, 2024; Peres, 2024), a hospitalizações frequentes, má adesão a tratamentos e uso inadequado de medicamentos, impactando financeiramente os orçamentos de saúde (Carvalho et al., 2025; Eichler et al., 2009; Walters et al., 2020).
O fortalecimento da literacia em saúde, especialmente em sua vertente digital, é crucial para a promoção da saúde pública, capacitando os indivíduos a compreender riscos e benefícios, aderir a tratamentos e prevenir doenças, impactando positivamente os sistemas de saúde e reduzindo custos com doenças evitáveis (Sorensen et al., 2012; Eichler et al., 2009; Walters et al., 2020). O campo da neurociência, por sua vez, oferece o embasamento científico para compreender os mecanismos cerebrais envolvidos na aprendizagem, tomada de decisão e uso crítico da informação, orientando o desenvolvimento de intervenções educacionais baseadas em evidências (Kandel et al., 2013). Diante desse cenário, investir em estratégias de letramento digital em saúde que promovam autonomia, pensamento crítico e uso responsável dessas tecnologias é essencial, e o objetivo geral deste estudo foi analisar como os indivíduos utilizam a internet e as tecnologias digitais no manejo da própria saúde, investigando como as experiências pessoais contribuem para a autonomia e a tomada de decisão informada.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, de abordagem quantitativa com complemento qualitativo, adotando um delineamento exploratório e descritivo. Essa metodologia buscou compreender o nível de literacia digital em saúde dos participantes e analisar suas percepções sobre o uso de tecnologias digitais. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética do Instituto de Pesquisas e Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresa – PECEGE (CAAE: 95144525.6.0000.9927), seguindo os princípios do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012).
A unidade de análise foi composta por 107 adultos, selecionados por amostragem por conveniência. Como critério de inclusão, foram considerados indivíduos que já haviam utilizado tecnologias digitais para o autocuidado em saúde. Essa escolha visou a participação de usuários reais dessas ferramentas, permitindo uma avaliação da literacia digital em saúde aplicada ao contexto de uso. Foram excluídos os participantes que não responderam o questionário na íntegra ou que apresentaram dificuldades de leitura e compreensão do instrumento.
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário eletrônico, desenvolvido na plataforma Google Forms. O instrumento incluiu a escala eHealth Literacy Scale (eHEALS), criada por Cameron Norman e Harvey Skinner (Norman; Skinner, 2006). Essa escala é composta por oito itens que avaliam a percepção dos indivíduos quanto à sua capacidade de buscar, compreender e utilizar informações eletrônicas relacionadas à saúde.
Cada item da escala eHEALS foi avaliado por meio de uma escala do tipo Likert de cinco pontos, com opções de resposta que variavam de “discordo completamente” a “concordo completamente”. Adicionalmente, o formulário continha três perguntas abertas. Essas questões objetivaram explorar os hábitos de busca e uso de informação em saúde digital, investigar o uso prático de tecnologias de autocuidado e relacionar a autopercepção de literacia digital em saúde com o eHEALS.
Os procedimentos de coleta de dados ocorreram no mês de março de 2026. O questionário foi divulgado aos participantes por intermédio de contatos pessoais e redes sociais. Antes de iniciar o preenchimento, todos os participantes concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo informados sobre os objetivos da pesquisa, a confidencialidade dos dados e a possibilidade de desistência a qualquer momento, sem prejuízos.
No que se refere à análise dos dados, as informações quantitativas coletadas foram submetidas à estatística descritiva. Essa abordagem permitiu organizar e sumarizar os dados numéricos, fornecendo uma visão geral das características da amostra e das respostas obtidas na escala eHEALS, sem, contudo, apresentar interpretações ou inferências sobre os resultados.
Os dados qualitativos, provenientes das três questões abertas do questionário, foram examinados por meio de métodos de análise qualitativa de conteúdo. Para essa etapa, utilizaram-se duas abordagens metodológicas complementares, visando uma compreensão aprofundada das percepções dos participantes. As abordagens empregadas foram a Análise Temática e a Análise de Conteúdo.
A Análise Temática, conforme proposta por Virginia Braun e Victoria Clarke (2006), consistiu em um método para identificar, analisar e interpretar padrões de significado, ou temas, presentes nos dados qualitativos. O processo analítico envolveu seis etapas: familiarização com os dados, geração de códigos iniciais, busca por temas, revisão dos temas, definição e nomeação dos temas, e produção do relatório analítico.
Complementarmente, empregou-se a Análise de Conteúdo, sistematizada por Laurence Bardin (2011). Essa técnica foi utilizada para a organização e interpretação sistemática das comunicações. A abordagem de Bardin estrutura-se em três fases fundamentais: pré-análise, exploração do material, e tratamento dos resultados, inferência e interpretação.
A combinação dessas abordagens metodológicas possibilitou uma análise mais aprofundada e sistemática dos dados qualitativos. Essa integração permitiu tanto a identificação de padrões temáticos quanto a organização estruturada do conteúdo das respostas, contribuindo para uma compreensão abrangente das percepções dos participantes acerca do uso de tecnologias digitais em saúde.
3. Resultados e Discussão
A análise dos dados revelou um panorama detalhado sobre a literacia digital em saúde e as percepções dos participantes acerca do uso de tecnologias digitais para o autocuidado. O estudo envolveu 107 adultos, predominantemente mulheres (71%), com idade média de 39,9 anos, variando entre 18 e 69 anos. A maioria dos participantes (55,1%) possuía escolaridade superior completa, indicando um perfil de amostra com bom nível educacional. Observou-se que 80,4% dos participantes utilizam a internet ou aplicativos para buscar informações sobre saúde, enquanto 19,6% não o fazem. Essa alta taxa de uso inicial já sinaliza a relevância das plataformas digitais como fonte de informação em saúde para este grupo.
A escolha de uma amostra por conveniência, composta por usuários já familiarizados com tecnologias digitais em saúde, permitiu uma avaliação aplicada da literacia digital. Contudo, essa característica metodológica implica uma limitação na generalização dos resultados para a população brasileira em geral. É crucial notar que, mesmo em um grupo com alta escolaridade e familiaridade tecnológica, foram identificadas lacunas significativas no julgamento crítico e na confiança para a tomada de decisões. Isso sugere que a vulnerabilidade informacional e cognitiva pode ser ainda mais acentuada em populações com menor instrução e acesso restrito às tecnologias, reforçando a importância de intervenções direcionadas.
Os resultados da escala eHEALS, um instrumento validado internacionalmente para mapear indicadores de eHealth literacy, revelaram um escore global médio de 28,9 pontos, com desvio padrão de 5,2, em uma variação teórica de 8 a 40 pontos. Este escore indica um nível geral moderado a elevado de literacia digital em saúde na amostra. No entanto, uma análise mais aprofundada dos itens da escala evidenciou assimetrias importantes entre a capacidade de busca de informações e a habilidade de análise crítica e tomada de decisão, conforme detalhado nas respostas dos participantes.
Nos itens da escala eHEALS relacionados à capacidade de encontrar e utilizar recursos de saúde na internet, como “Eu sei como encontrar recursos de saúde úteis na Internet” e “Eu sei como usar a Internet para responder às minhas perguntas sobre saúde”, a maioria das respostas concentrou-se nas categorias “Concordo” e “Concordo totalmente”. Por exemplo, 86 participantes concordaram ou concordaram totalmente com a capacidade de encontrar recursos úteis, e 83 afirmaram saber usar a internet para responder perguntas de saúde. Esses dados demonstram uma boa familiaridade dos participantes com a busca de informações de saúde no ambiente digital, indicando uma competência funcional para o acesso à informação.
Em contraste, o item que aborda o conhecimento sobre a variedade de recursos de saúde disponíveis na internet (“Eu sei quais recursos de saúde estão disponíveis na Internet”) apresentou uma distribuição mais dispersa, com 34 participantes respondendo “Nem concordo nem discordo”. Esse resultado sugere uma incerteza ou conhecimento parcial sobre a diversidade de ferramentas e fontes digitais disponíveis, mesmo entre aqueles que se consideram aptos a buscar informações. Essa lacuna pode limitar a exploração de opções mais qualificadas ou adequadas às suas necessidades específicas de saúde.
A avaliação crítica da qualidade das informações digitais em saúde revelou maiores limitações. Nos itens “Eu tenho as habilidades necessárias para avaliar os recursos de saúde que encontro na Internet” e “Eu consigo distinguir recursos de saúde de alta qualidade dos de baixa qualidade na Internet”, as respostas foram mais equilibradas e dispersas. No primeiro item, 55 participantes concordaram ou concordaram totalmente, enquanto 52 se distribuíram entre discordância ou neutralidade. No segundo, embora 66 participantes tenham indicado concordância ou concordância total, uma parcela considerável ainda manifestou neutralidade ou discordância, evidenciando que as habilidades de avaliação crítica são menos desenvolvidas do que as de busca.
A maior insegurança foi observada no item “Eu me sinto confiante ao usar informações da Internet para tomar decisões sobre minha saúde”, onde 72 participantes se distribuíram entre discordância ou neutralidade, e apenas 35 indicaram concordância ou concordância total. Este achado é particularmente relevante, pois aponta para uma lacuna significativa na confiança dos indivíduos em aplicar as informações encontradas online para decisões de saúde. A disparidade entre a facilidade de busca e a insegurança na avaliação crítica e na tomada de decisão pode ser compreendida à luz dos modelos neurobiológicos de processamento da informação, que distinguem entre o Sistema 1 (rápido e intuitivo) e o Sistema 2 (analítico e reflexivo).
A navegação em plataformas digitais, com sua usabilidade fluida e algoritmos focados no engajamento, tende a ativar predominantemente o Sistema 1, promovendo uma busca rápida e intuitiva. Contudo, a validação de evidências científicas e a tomada de decisões informadas exigem o engajamento do Sistema 2, que depende do córtex pré-frontal e de processos cognitivos mais elaborados. O volume massivo de dados desestruturados na internet pode sobrecarregar a memória de trabalho e levar à fadiga decisória, resultando na insegurança observada no item 8 da escala eHEALS. Essa sobrecarga cognitiva dificulta a análise aprofundada e a ponderação de diferentes fontes de informação.
A busca digital, muitas vezes, ignora a perspectiva da Avaliação Biopsicossocial, conforme proposto por Engel (1977) e a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2001). A saúde é um fenômeno complexo e dinâmico, influenciado por fatores biológicos, estados psicológicos como ansiedade e autorregulação emocional, e determinantes sociais como suporte familiar, renda, gênero e escolaridade. Quando os recursos digitais oferecem respostas focadas estritamente no sintoma orgânico, descontextualizando o indivíduo, eles falham em contemplar a dimensão biopsicossocial, o que intensifica a desorientação e o estresse decisório dos usuários, dificultando a tomada de decisões verdadeiramente informadas e seguras.
A primeira questão aberta, que explorou os hábitos de busca e uso de informação em saúde digital, corroborou a tendência de uso generalizado. Dos 107 respondentes, 82 (80,4%) afirmaram utilizar recursos digitais para buscar informações de saúde. A principal motivação para essa busca foi a investigação de sintomas ou autodiagnóstico, representando 34% das respostas. Em seguida, 20% dos participantes buscaram informações sobre tratamentos e medicamentos, o que, sem orientação profissional, pode acarretar riscos. Apenas 15% mencionaram a busca por informações qualificadas, como artigos científicos ou diretrizes, indicando uma possível lacuna no letramento em saúde.
O uso de tecnologias digitais mais avançadas, como aplicativos e inteligência artificial (IA), foi mencionado por 17% dos participantes, refletindo a crescente digitalização do cuidado. Um comportamento mais seguro foi observado em 15% das respostas, que indicaram utilizar essas ferramentas como complemento à consulta médica. De forma geral, esses achados revelam uma alta digitalização do cuidado em saúde, mas com um uso predominantemente voltado ao autodiagnóstico, o que reforça a necessidade de maior orientação, mediação crítica da informação e validação por profissionais de saúde para garantir a segurança e a eficácia das práticas de autocuidado.
A qualidade da informação em ambientes digitais é um ponto crítico, pois frequentemente é mediada por lógicas algorítmicas de recomendação que priorizam conteúdos com maior engajamento em detrimento da acurácia científica. Esse cenário pode amplificar a exposição a informações incompletas, imprecisas ou equivocadas, reforçando práticas de autodiagnóstico e automedicação sem respaldo profissional. A mediação por algoritmos de recomendação comercial pode agravar esse risco ao priorizar conteúdos sensacionalistas ou não validados, desconsiderando o contexto de vida do sujeito e impulsionando o viés de confirmação.
A segunda questão aberta investigou o uso prático de tecnologias de autocuidado, revelando que 77 dos 107 participantes (72%) já utilizaram aplicativos ou ferramentas digitais para auxiliar no cuidado da saúde, enquanto 30 (28%) não o fizeram. A percepção geral da experiência foi predominantemente positiva, com 63% das respostas classificadas como “positiva”, 22% como “moderada/mista” e 15% como “negativa/não uso”. Palavras como “boa”, “ótima”, “positiva”, “maravilhosa” e “enriquecedora” foram recorrentes, evidenciando satisfação, sensação de organização, disciplina e maior controle sobre a própria saúde.
Os participantes destacaram a utilidade dos aplicativos para lembrar de tomar medicamentos, monitorar atividades físicas, controlar peso, acompanhar o ciclo menstrual e apoiar hábitos de alimentação saudável. No entanto, é fundamental diferenciar autocuidado de autodiagnóstico. O autocuidado, conforme Orem (2001), é uma prática deliberada, contínua e reflexiva, orientada à manutenção da saúde e prevenção de agravos, integrando a perspectiva biopsicossocial. Já o autodiagnóstico é uma tentativa reativa e isolada de rotulação de enfermidades e indicação terapêutica baseada em um reducionismo biomédico, impulsionada pela ansiedade somática (cibercondria) e pelo viés de confirmação, contornando a avaliação clínica qualificada.
Alguns relatos também indicaram experiências com inteligência artificial, como o uso do ChatGPT para planejamento de dieta. Contudo, foram apontadas limitações, incluindo aplicativos gratuitos com funcionalidades restritas, falta de precisão em monitoramentos e engajamento intermitente por parte do usuário. Essas observações ressaltam que, embora as tecnologias digitais ofereçam suporte valioso, sua eficácia e segurança dependem da qualidade da ferramenta e da capacidade do usuário de utilizá-la de forma crítica e consciente, evitando a dependência excessiva de soluções que podem não ser totalmente adequadas ou validadas.
A terceira questão aberta buscou verificar a confiança dos participantes para entender e aplicar as informações de saúde encontradas online, relacionando essa percepção à literacia digital em saúde. A análise das 101 respostas revelou uma percepção predominantemente cautelosa, marcada por diferentes níveis de confiança e pela adoção de estratégias de validação das informações. Aproximadamente 20% dos participantes demonstraram alta confiança, associando-a à capacidade de compreensão das informações ou à experiência prévia, especialmente quando possuíam formação na área da saúde.
Cerca de 50% dos participantes apresentaram confiança moderada ou parcial, reconhecendo a utilidade das informações digitais, mas adotando uma postura crítica. Por outro lado, aproximadamente 30% demonstraram baixa confiança, justificando-a pela percepção de desinformação e pela falta de conhecimento técnico. Essas categorias de confiança indicam que os indivíduos ajustam seu nível de confiança conforme a credibilidade percebida das fontes, o que é um aspecto positivo da literacia digital em desenvolvimento.
A categoria “estratégia de verificação” identificou que muitos participantes não utilizam as informações de forma passiva. As principais estratégias relatadas incluem a busca por múltiplas fontes, a comparação de conteúdos, a consulta a profissionais de saúde e a verificação da credibilidade de sites, especialmente aqueles vinculados a instituições reconhecidas, como órgãos governamentais, hospitais e literatura científica. Esse comportamento sugere o desenvolvimento de habilidades críticas no uso da informação em saúde, embora ainda haja espaço para aprimoramento na aplicação dessas estratégias de forma consistente e sistemática.
Entretanto, a análise também evidenciou a presença de “limitações percebidas”, nas quais os participantes destacam a existência de informações falsas, incompletas ou contraditórias, além da dificuldade de aplicar conteúdos generalizados a situações individuais. Essas limitações contribuem para a insegurança relatada e reforçam a necessidade de validação com profissionais de saúde. De modo geral, os resultados indicam que, embora haja amplo uso de tecnologias digitais para informação em saúde, a confiança dos usuários é moderada, evidenciada por um senso crítico e pela necessidade de confirmação, apontando para um processo em desenvolvimento no campo da literacia em saúde digital.
Os dados analisados revelam um cenário de dualidades. Por um lado, há elementos que fortalecem a literacia, como a busca ativa por informações, o uso de múltiplas fontes e a preocupação com a credibilidade das fontes. Por outro lado, persistem fragilidades importantes, como a predominância da busca por sintomas, frequentemente associada ao autodiagnóstico, a baixa priorização de fontes científicas e a insegurança na aplicação prática das informações. A adoção de tecnologias digitais mais avançadas ainda é limitada, o que evidencia a necessidade de maior divulgação, familiarização e capacitação dos usuários para o uso seguro e eficaz dessas ferramentas, a fim de maximizar seus benefícios e mitigar os riscos associados à desinformação.
Em síntese, os resultados desta pesquisa demonstram que os participantes possuem um nível moderado a elevado de literacia digital em saúde no que tange à busca de informações, mas enfrentam limitações significativas na avaliação crítica e na confiança para a tomada de decisões informadas. As tecnologias digitais são amplamente utilizadas e percebidas como úteis para o autocuidado, mas o uso predominante para autodiagnóstico e a insegurança na validação das informações ressaltam a urgência de estratégias educativas que promovam o letramento digital, o pensamento crítico e o uso seguro dessas ferramentas, alinhando-se ao objetivo de fortalecer a autonomia e a tomada de decisão informada em saúde.
4. Conclusão
O presente estudo objetivou analisar o nível de literacia digital em saúde de adultos e suas percepções sobre o uso de tecnologias digitais para o autocuidado, investigando como as experiências pessoais contribuem para a autonomia e a tomada de decisão informada. Verificou-se que a maioria dos participantes utiliza amplamente a internet e aplicativos para buscar informações sobre saúde, com percepções predominantemente positivas em relação ao apoio ao autocuidado. Identificou-se um nível moderado a elevado de literacia digital para a busca de informações, conforme o escore médio da escala eHEALS. Contudo, observou-se uma lacuna significativa nas habilidades de avaliação crítica da qualidade das informações e na confiança para a tomada de decisões em saúde. A busca por sintomas e o autodiagnóstico inicial foram as principais motivações, enquanto a priorização de fontes qualificadas foi menos frequente. Essa disparidade entre a facilidade de busca e a insegurança na avaliação crítica e na decisão é explicada por modelos neurobiológicos, que distinguem o processamento rápido e intuitivo da navegação digital do processamento analítico e reflexivo necessário para a validação de evidências, frequentemente sobrecarregado pelo volume de informações desestruturadas e pela desconsideração da avaliação biopsicossocial.
A principal contribuição deste trabalho reside em reforçar a relevância das tecnologias digitais para o fortalecimento da autonomia em saúde, ao mesmo tempo em que evidencia a urgência de ações educativas e políticas públicas que promovam o letramento digital, o pensamento crítico e o uso seguro dessas ferramentas. Embora a amostra por conveniência, composta por indivíduos já familiarizados com tecnologias digitais, restrinja a generalização dos resultados para a população brasileira, os achados indicam que as limitações na avaliação crítica podem ser ainda mais acentuadas em grupos com menor instrução. Sugere-se que estudos futuros aprofundem a investigação das lacunas nas habilidades de análise crítica e aplicação de informações, bem como desenvolvam e avaliem estratégias educacionais baseadas em evidências neurocientíficas para fortalecer a literacia digital em saúde. Tais iniciativas são essenciais para reduzir desigualdades e aprimorar a tomada de decisões informadas, diferenciando o autocuidado promotor de saúde do autodiagnóstico reducionista.
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