
23 de março de 2026
Viabilidade econômica da cafeicultura na Fazenda Forquilha (GO)
Adilson Pereira Oliveira; Renata Maria Christofoleti Furlan
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A introdução do café no território brasileiro ocorreu no ano de 1727, momento em que sementes e mudas foram transportadas da Guiana Francesa por Francisco de Melo Palheta para serem cultivadas inicialmente em Belém do Pará. Embora existam registros históricos sugerindo a presença da cultura no Maranhão em períodos anteriores (Taunay, 1939), a consolidação da cafeicultura como atividade econômica de larga escala demandou a identificação de regiões com condições edafoclimáticas superiores às encontradas na zona amazônica. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café (2025), a ausência de fatores ambientais adequados impediu o estabelecimento precoce no norte, levando o cultivo a migrar para o Rio de Janeiro por volta de 1960, onde encontrou solo e clima mais favoráveis à expansão comercial. No Estado de Goiás, a chegada da cultura remonta a 1819, mas foi a partir da década de 1920 que o café se manifestou como um fenômeno socioeconômico transformador, influenciando diretamente a formulação de políticas públicas, a ampliação da infraestrutura regional e o fluxo migratório para o interior do país (De Souza, 2024).
A relevância da produção cafeeira é sustentada por dados robustos de consumo interno e exportação. Entre novembro de 2023 e outubro de 2024, o consumo nacional atingiu 21,91 milhões de sacas de 60 kg, apresentando um crescimento de 1,11% em relação ao período anterior. A distribuição desse consumo revela a predominância da região Sudeste com 41,7%, seguida pelo Nordeste com 26,9%, Sul com 14,6%, Norte com 8,8% e Centro-Oeste com 8%. O consumo per capita anual de 5,01 kg demonstra a integração do produto à dieta brasileira, enquanto as exportações, que somaram 3,97 milhões de sacas a um valor médio de US$ 330,88 por unidade, reforçam o papel do café como uma commodity estratégica para a balança comercial (ABIC, 2021). Para além de ser um item essencial na alimentação global, o café transformou-se em um ativo valioso que exige processos de industrialização sofisticados para a agregação de valor, atendendo tanto às exigências do mercado interno quanto aos padrões internacionais de qualidade (De Melo, 2018).
O setor cafeeiro é estruturado por uma rede complexa de entidades que abrangem desde a pesquisa científica e o fornecimento de insumos até a produção primária, industrialização e logística de distribuição. Esse ecossistema produtivo exerce influência significativa no desenvolvimento local e regional, impactando a geração de renda e a dinâmica social das comunidades envolvidas (Bliska et al., 2009). Contudo, a produção no bioma Cerrado impõe desafios técnicos consideráveis, como a necessidade de correção da acidez elevada do solo, a gestão da baixa fertilidade natural e a adaptação a um regime climático variado, exigindo responsabilidade socioambiental na preservação dos recursos hídricos e na conservação do solo (De Souza, 2024). Nesse contexto, o município de Petrolina, em Goiás, com uma população de 9.573 habitantes, surge como uma área de potencial expansão agrícola, onde a realização de estudos de viabilidade econômica torna-se fundamental para orientar novos investimentos e promover a melhoria da qualidade de vida da população local (IBGE, 2022).
A fundamentação teórica para a análise de investimentos rurais baseia-se em indicadores financeiros que permitem mensurar o retorno e o risco associados ao capital empregado. O Valor Presente Líquido relaciona-se ao retorno mínimo esperado, descontando os fluxos de caixa futuros para o momento presente (Gitman, 2002). Complementarmente, a Taxa Interna de Retorno identifica a taxa de juros que equaliza o valor presente das entradas e saídas, sendo considerada viável quando supera a Taxa Mínima de Atratividade (Evangelista, 2006). O conceito de Payback, por sua vez, determina o tempo necessário para a recuperação do investimento inicial, podendo ser calculado de forma simples ou descontada, integrando o valor do dinheiro no tempo (Gitman, 2002). A definição da Taxa Mínima de Atratividade é um passo crítico, representando o ganho mínimo desejado pelo investidor frente ao custo de oportunidade (Casaroto e Kopittke, 2000). No cenário brasileiro, essa taxa deve considerar a taxa nominal do Sistema Especial de Liquidação e Custódia, deflacionada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, para garantir uma avaliação rigorosa do retorno real (BCB, 2025).
A metodologia adotada para a investigação consistiu em um estudo de caso, caracterizado pela investigação empírica de um fenômeno contemporâneo em seu contexto real, utilizando múltiplas fontes de evidência para uma análise profunda e detalhada (Yin, 2001). A pesquisa classifica-se como aplicada, pois busca gerar conhecimentos voltados à solução de problemas específicos enfrentados por produtores rurais na implementação de novas culturas (Thiollent, 2022). O objeto de estudo foi a Fazenda Forquilha, situada em Petrolina, Goiás, a uma distância de 74,6 km da capital Goiânia, sob as coordenadas geográficas de latitude 16º 5’ 42” Sul e longitude 49º 20’ 16” Oeste. A propriedade possui uma área total de 14,5 hectares, dos quais cinco hectares são destinados à reserva legal, 0,5 hectare à Área de Preservação Permanente, cinco hectares à pastagem e quatro hectares para culturas anuais, onde foi planejada a implantação da lavoura de café.
O detalhamento operacional da pesquisa envolveu duas fases distintas de coleta de dados. A primeira fase concentrou-se no levantamento bibliográfico e documental em bases de dados públicas, fornecendo o suporte teórico e estatístico necessário para validar as informações coletadas em campo. A segunda fase consistiu na realização de entrevistas semiestruturadas com o proprietário da fazenda durante o mês de maio de 2025, abordando aspectos técnicos, operacionais e financeiros do empreendimento. Para a sistematização e análise dos dados, utilizou-se o software Excel, que permitiu a elaboração de planilhas de custos, fluxos de caixa e o cálculo preciso dos indicadores de viabilidade. O projeto foi estruturado para ser executado integralmente com capital próprio, eliminando a incidência de juros bancários sobre o financiamento inicial.
A análise técnica previu a produção de café em quatro hectares com um adensamento de 3.300 plantas por hectare, totalizando 13.200 mudas da variedade Conilon (Coffea canephora). O espaçamento definido foi de 3×1 metros, visando otimizar o uso da área e facilitar as operações mecanizadas e manuais. A topografia da área, caracterizada por uma inclinação de 6%, e o solo de textura média foram considerados adequados para a cultura, especialmente sob temperaturas entre 22 °C e 30 °C. O sistema de irrigação por gotejamento foi selecionado para garantir o suprimento hídrico necessário, dada a disponibilidade de água suficiente na propriedade. O planejamento incluiu práticas de manejo como gessagem, preparo de covas por meio de sucos e manutenção de palhada para conservação do solo, seguindo as recomendações técnicas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (2015).
O cálculo da depreciação dos bens duráveis seguiu o método linear, distribuindo o custo dos ativos ao longo de sua vida útil estimada, assumindo que ao final do projeto de dez anos, equipamentos como pulverizadores, roçadeiras e ferramentas teriam seu valor totalmente exaurido (Simões, 2013). Os custos totais foram decompostos em fixos e variáveis. Os custos fixos incluíram despesas inalteráveis no curto prazo, como salários e encargos da mão de obra fixa, energia elétrica, impostos territoriais, telefonia e internet (Richetti et al., 1997). Já os custos variáveis contemplaram insumos cujas quantidades oscilam conforme o volume de produção, tais como fertilizantes, combustíveis, defensivos, calcário e embalagens (Garcia, 2018). A estimativa de receitas baseou-se na produtividade média esperada de 50,4 sacas por hectare, com um preço de venda inicial de R$ 1.800,00 por saca, projetando-se um acréscimo anual de 4% tanto nos custos quanto nos preços de comercialização, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (2025).
A mensuração dos investimentos iniciais revelou um montante total de R$ 196.240,00 para a estruturação da lavoura e adequação da fazenda. Entre os itens de maior peso financeiro, destacaram-se o kit de irrigação, com custo de R$ 50.410,00, e a aquisição de um veículo para apoio logístico, orçado em R$ 45.000,00. O despolpador de café representou um investimento de R$ 40.000,00, essencial para o processamento pós-colheita e garantia da qualidade do grão. Outros ativos incluíram o descascador (R$ 7.550,00), o preparo do solo para os quatro hectares (R$ 6.000,00), lavador/despolpador (R$ 5.500,00) e a aquisição das 12.000 mudas iniciais por R$ 18.000,00. Itens menores, mas indispensáveis, como pulverizador costal, roçadeira, derriçador, balança agrícola, ferramentas, Equipamentos de Proteção Individual e materiais para secagem (terreiro e reforma de galpão), completaram o quadro de investimentos necessários para o início das operações.
Os custos variáveis de manutenção apresentaram uma trajetória ascendente ao longo dos dez anos. No primeiro ano, o desembolso total foi de R$ 28.272,00, sendo a adubação o item de maior impacto, totalizando R$ 16.800,00. Essa concentração de gastos em fertilizantes justifica-se pela necessidade de estabelecer um elevado nível de fertilidade no solo do Cerrado para alcançar as metas de produtividade. Outros custos relevantes no ano inicial incluíram combustível (R$ 1.872,00), energia elétrica (R$ 1.320,00), manejo de pragas (R$ 1.080,00) e materiais de limpeza (R$ 1.200,00). A partir do segundo ano, com a inclusão de despesas como calcário (R$ 6.000,00), embalagens, frete e mão de obra de colheita (R$ 3.000,00), o custo variável saltou para R$ 34.234,48, atingindo R$ 51.583,16 no décimo ano devido ao ajuste inflacionário de 4% ao ano e ao aumento da demanda por insumos e serviços conforme a maturação da lavoura.
A estrutura de custos fixos manteve-se estável em termos nominais, totalizando R$ 103.358,53 anuais. O componente mais expressivo foi a folha de pagamento, somando R$ 53.361,00, que incluiu a contratação de dois funcionários permanentes com encargos sociais de 23% (20% para o Instituto Nacional do Seguro Social e 3% sobre a receita bruta). O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços foi estimado em R$ 46.345,78, enquanto o Imposto Territorial Rural representou o menor encargo, com R$ 51,75 anuais. Despesas com análise de solo (R$ 800,00), telefonia e internet (R$ 1.800,00) e reposição de kits de proteção individual (R$ 1.000,00) completaram os gastos fixos. A gestão eficiente desses custos é vital para a manutenção das margens de lucro, especialmente em períodos de oscilação nos preços de mercado do café.
As receitas foram projetadas considerando a evolução da produtividade da variedade Conilon. No segundo ano, estimou-se a primeira colheita com 80% do potencial (161,28 sacas totais), evoluindo para 90% no terceiro ano (181,44 sacas) e atingindo 100% da capacidade (201,6 sacas para os quatro hectares) a partir do quarto ano. Com o preço da saca reajustado anualmente, a receita bruta partiu de R$ 256.623,90 no segundo ano, alcançando R$ 439.008,19 no décimo ano. O faturamento total acumulado no horizonte de dez anos foi projetado em R$ 3.297.228,49. Essa progressão reflete não apenas o crescimento biológico das plantas, mas também a estratégia de comercialização direcionada para torrefadoras em Goiânia, buscando canais de venda que valorizem o produto regional.
O fluxo de caixa demonstrou a dinâmica financeira do projeto, evidenciando o período de déficit inicial e a subsequente recuperação. No ano zero, o fluxo de caixa livre foi negativo em R$ 327.870,52, compreendendo o investimento em ativos fixos e o aporte de capital de giro de R$ 65.815,26. O primeiro ano de operação também apresentou saldo negativo de R$ 131.630,53, uma vez que ainda não havia produção para comercialização. A partir do segundo ano, o fluxo tornou-se positivo com R$ 86.297,40, crescendo consistentemente até atingir R$ 205.948,21 no último ano da análise. A recuperação do capital de giro ao final do décimo ano, somada ao valor residual dos ativos, contribuiu para o fechamento positivo do ciclo financeiro.
Os indicadores de viabilidade econômica confirmaram a atratividade do investimento. O Valor Presente Líquido apurado foi de R$ 358.119,95, valor significativamente superior a zero, o que atesta que o projeto gera riqueza acima da taxa de desconto estipulada. A Taxa Interna de Retorno de 22,28% mostrou-se muito superior à Taxa Mínima de Atratividade de 9,7%, indicando uma margem de segurança confortável contra eventuais variações negativas no mercado ou aumento inesperado de custos. O Payback simples de 4,68 anos e o Payback descontado de 5,75 anos revelaram que o investidor recupera o capital aplicado em pouco mais de metade do tempo de vida útil do projeto, o que é considerado um prazo excelente para investimentos no setor agropecuário.
A discussão dos resultados permite inferir que a implantação da lavoura de café na Fazenda Forquilha é uma decisão financeiramente sólida. O desempenho observado é consistente com estudos anteriores, como os de Arêdes et al. (2007), que também identificaram VPL positivo para a cafeicultura irrigada, mesmo sob diferentes taxas de atratividade. A produtividade de 50,4 sacas por hectare situa o empreendimento em um patamar competitivo, superando médias de regiões não tecnificadas. A escolha pela variedade Conilon e pelo sistema de irrigação por gotejamento mostrou-se acertada para mitigar os riscos climáticos de Petrolina, garantindo a estabilidade da produção e a previsibilidade das receitas. Além disso, a manutenção de preços de venda acima do custo unitário de produção assegura margens operacionais robustas ao longo de todo o período analisado.
A viabilidade econômica encontrada também sugere benefícios sociais importantes para a região de Petrolina. A contratação de mão de obra fixa e temporária para a colheita contribui para a geração de empregos e circulação de renda local. A diversificação da produção na fazenda, que anteriormente focava em pastagens e culturas anuais, reduz a vulnerabilidade econômica do produtor frente a crises em setores específicos. No entanto, é fundamental reconhecer as limitações do estudo, como a dependência de projeções de preços e a estabilidade das políticas fiscais. Pesquisas futuras poderiam explorar o impacto da certificação de café sustentável no VPL do projeto, bem como a viabilidade da integração de sistemas agroflorestais para reduzir os custos com fertilizantes químicos e aumentar a resiliência ambiental da lavoura.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, demonstrando que a implantação da lavoura de café na Fazenda Forquilha em Petrolina, Goiás, é economicamente viável e altamente atrativa sob as condições analisadas. O projeto apresentou um Valor Presente Líquido positivo de R$ 358.119,95 e uma Taxa Interna de Retorno de 22,28%, superando o custo de oportunidade do capital. O tempo de recuperação do investimento, inferior a seis anos no formato descontado, reforça a segurança financeira do empreendimento. A combinação de manejo técnico adequado, uso de irrigação e planejamento rigoroso de custos permite ao produtor diversificar sua atividade com rentabilidade, contribuindo para o desenvolvimento do agronegócio regional e garantindo a sustentabilidade econômica da propriedade no longo prazo.
Referências Bibliográficas:
Arêdes, A. F.; Santos, M.L; Rufino, J.L.S; Brício, S.R. 2007. Viabilidade econômica da irrigação da cultura do café na região de Viçosa-MG. Tese de Doutorado em Economia Aplicada. Departamento de Economia Rural da UFV, Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG, Brasil. Disponível em: <https://www.locus.ufv.br/bitstream/123456789/19920/1/artigo.pdf>. Acesso em: 16 set. 2025.
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Casaroto F.N.; Kopittke, B.H. 2000. Análise de Investimentos. 9.ed. São Paulo, SP, Brasil.
Censo Agropecuário [IBGE]. 2022. Cidades e Estados. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/go/petrolina-de-goias.html>. Acesso em: 05 fev. 2025.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de MBA em Agronegócios
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