
14 de janeiro de 2026
Percepção de investidores sobre Governança Corporativa no mercado brasileiro
Autor(a): Bianca Rodrigues De Paula — Orientador(a): Luana Zanetti Trindade Ferraz
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A governança corporativa responde ao problema da separação entre propriedade e gestão, delineado pela Teoria da Agência de Jensen e Meckling (1976). Nesse contexto, a governança corporativa é o sistema de práticas e estruturas que alinha os interesses de gestores e acionistas, baseado em transparência, equidade, prestação de contas (accountability) e responsabilidade corporativa. Seu propósito, segundo Andrade e Rossetti (2014), é proteger os stakeholders e maximizar o valor da organização a longo prazo, sinalizando ao mercado que a empresa adota processos que mitigam riscos e promovem a sustentabilidade. No Brasil, a governança corporativa ganhou relevância nos anos 2000 com a criação dos segmentos especiais de listagem da B3, como o Novo Mercado.
Esses segmentos estabeleceram padrões mais rigorosos, como a emissão exclusiva de ações ordinárias com direito a voto e a garantia de tag along de 100% para todos os acionistas, visando aumentar a transparência e proteger acionistas, reduzindo a assimetria de informação e aumentando a atratividade do mercado. Hoje, a governança é considerada um pilar para o sucesso das empresas, visão corroborada pela Comissão de Valores Mobiliários [CVM] (2023), que promove a adoção das melhores práticas por meio de regulamentações e recomendações, e por instituições como o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), cujo Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa serve como principal referência para as companhias abertas no país. A literatura internacional aponta uma correlação positiva entre boas práticas de governança e desempenho empresarial (Gompers, Ishii e Metrick, 2003; Bhagat e Bolton, 2008). Contudo, no contexto brasileiro, os achados apresentam nuances.
Pesquisas nacionais (Sonza e Kloeckner, 2014; Ribeiro e Souza, 2023) indicam que os efeitos podem variar, ressaltando a importância de investigar se a percepção positiva sobre o tema se traduz em decisões de investimento e impacto no valor de mercado. A estrutura de propriedade concentrada, característica do mercado brasileiro, cria desafios de agência distintos, muitas vezes entre acionistas controladores e minoritários, o que torna a análise da percepção dos investidores sobre os mecanismos de proteção ainda mais pertinente. Isso justifica a necessidade de aprofundar como os investidores no Brasil valorizam os pilares da governança ao construir seus portfólios. A pesquisa adotou uma abordagem quantitativa, utilizando o método de levantamento (survey), justificado por sua eficácia em descrever as características, opiniões e percepções de uma população a partir de uma amostra representativa, permitindo a generalização dos padrões identificados e a análise de relações entre variáveis (Gil, 2017; Lakatos e Marconi, 2017).
A escolha por essa abordagem se deu pela necessidade de mensurar a frequência e a intensidade das atitudes dos investidores em relação a dimensões específicas da governança corporativa, algo que métodos qualitativos não permitiriam com o mesmo grau de escalabilidade e comparabilidade estatística. Classificado como descritivo, o estudo buscou expor as características do fenômeno sem a pretensão de explicar relações de causa e efeito, focando em mapear o cenário atual da percepção dos investidores. Os dados foram coletados por meio de um questionário estruturado, elaborado com perguntas predominantemente fechadas e utilizando uma escala de concordância do tipo Likert de cinco pontos, variando de “discordo totalmente” a “concordo totalmente”. O instrumento foi dividido em seções temáticas que abordavam os principais pilares da governança: transparência e divulgação de informações, estrutura e independência do conselho de administração, direitos dos acionistas, remuneração executiva, controles internos e a relevância de fatores ESG.
A distribuição do questionário foi realizada por meio eletrônico, utilizando redes sociais e fóruns online de investidores, o que caracteriza a amostra como não-probabilística por conveniência. A coleta de dados ocorreu durante o mês de setembro, resultando em uma amostra final de 63 respondentes.
A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva, com o auxílio de software para tabulação e cálculo de frequências absolutas e percentuais. Essa técnica permitiu identificar os padrões de resposta, hierarquizar a importância atribuída a cada mecanismo de governança e visualizar de forma clara as tendências predominantes na percepção dos participantes (Richardson, 2017).
A análise dos dados revela que 76,2% dos respondentes consideram a qualidade da governança um fator determinante em suas decisões de investimento, enquanto apenas 7,9% discordaram e 14,3% mantiveram-se neutros. Este resultado robusto demonstra que, para a grande maioria dos participantes, a governança corporativa deixou de ser um conceito abstrato para se tornar um critério de análise tangível e decisivo. O resultado alinha-se à literatura que aponta a governança como crucial para reduzir a assimetria informacional (Martins e Paulo, 2014) e mitigar custos de agência (Silveira, 2006), tornando-se um critério prático na avaliação de ativos e refletindo um amadurecimento do investidor brasileiro, que busca maior segurança e previsibilidade em seus investimentos. A independência e diversidade de competências no conselho de administração foram consideradas essenciais, com 87,3% de concordância e nenhuma discordância.
Isso reflete o entendimento de que o conselho é o principal órgão de supervisão, e sua independência em relação à gestão executiva é o pilar para a tomada de decisões alinhadas à criação de valor a longo prazo, como preconizado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC, 2018) e por teóricos como Silveira (2006). A ausência de discordância neste item sugere que a presença de um conselho forte e autônomo é vista como uma condição indispensável, um fator de higiene básico para que uma empresa seja considerada um investimento viável. A transparência na divulgação de informações financeiras e operacionais foi o segundo item mais valorizado, com 93,7% de concordância. Esse percentual quase unânime indica que a clareza e a tempestividade na comunicação com o mercado são percebidas como a base da confiança.
O resultado está alinhado a um dos princípios fundamentais do IBGC (2018), que define a transparência como o compromisso proativo de disponibilizar informações claras e acessíveis a todas as partes interessadas. A valorização da transparência é respaldada por estudos sobre assimetria de informação (Martins e Paulo, 2014), que a identificam como mecanismo essencial para a precificação justa dos ativos e para a eficiência do mercado de capitais brasileiro. O princípio da equidade no tratamento de acionistas foi considerado relevante por 68,3% dos respondentes, que veem empresas com essa prática como um investimento mais seguro. Contudo, um percentual maior de neutros (22,2%) em comparação com outros itens sugere que parte dos investidores pode não priorizar ou não compreender plenamente os mecanismos de proteção a minoritários, como o direito de tag along.
A proteção a minoritários é um pilar da governança moderna, fortemente correlacionada ao desenvolvimento de mercados de capitais (La Porta et al., 1998), e sua percepção é particularmente relevante no contexto brasileiro, historicamente marcado pela alta concentração de capital e por conflitos entre acionistas controladores e minoritários (Silveira, 2006). A estrutura de remuneração dos executivos foi outro ponto de atenção: 74,6% dos participantes acreditam que ela deve estar alinhada ao desempenho de longo prazo da empresa. Isso indica uma compreensão sofisticada sobre a importância de alinhar incentivos para evitar a “miopia gerencial”, fenômeno no qual gestores priorizam ganhos de curto prazo, muitas vezes em detrimento da saúde financeira e do valor sustentável da companhia (Graham, Harvey e Rajgopal, 2005). A percepção dos investidores é de que uma remuneração atrelada a metas de longo prazo funciona como um mecanismo de governança que força a gestão a pensar como proprietária.
Estudos no Brasil, como o de Krauter (2013), corroboram que esse alinhamento tende a criar mais valor para os acionistas. Mecanismos de controle interno robustos influenciam diretamente a percepção de segurança do investimento: 84,1% dos respondentes concordam que comitês de auditoria e de gestão de riscos independentes aumentam sua confiança na empresa. O dado evidencia o reconhecimento do papel crucial desses comitês na fiscalização da integridade da informação contábil e na supervisão dos riscos estratégicos e operacionais (IBGC, 2018). A literatura internacional demonstra a relação positiva entre comitês de auditoria eficazes e a redução de práticas de gerenciamento de resultados (Klein, 2002), e trabalhos no Brasil reforçam que eles melhoram a qualidade dos lucros reportados (Santos et al., 2012). Contudo, é notável que 12,7% dos respondentes declararam desconhecer tais práticas, apontando uma lacuna de conhecimento que pode expor esses investidores a riscos não percebidos.
A relevância das práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) foi confirmada, com 73% dos investidores afirmando que empresas com forte compromisso ESG são mais atrativas. A tendência alinha-se à evolução do conceito de governança, que hoje incorpora a sustentabilidade como um elemento central para a perenidade do negócio (IBGC, 2018), e é impulsionada por iniciativas regulatórias como o Plano de Ação de Finanças Sustentáveis da CVM (2024). O “G” de governança é visto como a fundação que garante a credibilidade e a eficácia das iniciativas “E” e “S”. No entanto, 17,5% dos respondentes desconhecem o conceito ESG, indicando a necessidade de maior disseminação de conhecimento, um desafio já apontado no contexto mais amplo da educação financeira no Brasil (Savoia, Saito e Santana, 2007).
A análise dos fatores de decisão revelou uma hierarquia de prioridades entre os investidores: a rentabilidade esperada do ativo continua sendo o principal fator (35,4%), seguida pela reputação da empresa no mercado (22,4%) e pela qualidade da governança corporativa (21,8%), que superou a sustentabilidade/ESG (13,6%). Embora a governança não seja o principal fator isolado, sua posição de destaque, praticamente empatada com a reputação, demonstra sua consolidação como um critério de análise fundamental. A forte proximidade com a reputação sugere que os investidores percebem a correlação intrínseca entre boas práticas de gestão e a construção de uma imagem pública confiável, um ciclo virtuoso que atrai capital, reduz o custo de financiamento e gera valor sustentável (Ribeiro e Souza, 2023).
A pesquisa confirmou que a má governança é percebida como uma fonte significativa de risco: 71,4% dos respondentes afirmaram que investir em empresas sem boas práticas é mais arriscado, enquanto apenas 4,8% não veem diferença. Essa percepção alinha-se a teorias financeiras que associam deficiências de governança a uma maior assimetria de informação, maior volatilidade e, consequentemente, a um maior risco percebido pelo mercado (Martins e Paulo, 2014). O comportamento prático dos investidores reflete essa preocupação de forma contundente, pois 84,1% dos participantes já evitaram ou se desfizeram de um investimento especificamente por causa de falhas de governança identificadas. Este dado é a evidência mais forte de que a avaliação da governança não é apenas uma preferência teórica, mas uma ação concreta que impacta diretamente os fluxos de capital no mercado brasileiro.
Este estudo analisou a percepção dos investidores sobre a governança corporativa no mercado brasileiro, concluindo que ela é um fator determinante nas decisões de investimento. Os resultados mostram que práticas como transparência (93,7% de concordância), independência do conselho (87,3%) e a existência de comitês de auditoria e riscos (84,1%) são consideradas essenciais para a construção da confiança e para a mitigação de risco. A evidência mais forte do impacto prático dessa percepção é o fato de que 84,1% dos respondentes já tomaram decisões de desinvestimento motivadas por falhas de governança, confirmando que sua avaliação influencia diretamente o comportamento dos agentes de mercado e a alocação de recursos. Os achados corroboram a relevância da governança no mercado de capitais brasileiro, alinhando-se à Teoria da Agência e aos princípios defendidos por instituições como o IBGC.
A alta valorização de mecanismos de controle e transparência sinaliza um amadurecimento do investidor nacional, que cada vez mais enxerga a qualidade da gestão não apenas como um diferencial, mas como um indicador fundamental da sustentabilidade e da resiliência de uma empresa a longo prazo. Foram identificadas, contudo, lacunas de conhecimento sobre temas mais específicos, como os mecanismos de proteção a minoritários e o conceito de ESG, sugerindo a necessidade contínua de ampliar a educação financeira no país.
Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que os investidores no mercado brasileiro possuem elevada consciência sobre a importância da governança corporativa, integrando-a como mecanismo de redução de riscos e fator decisivo em suas estratégias de investimento.
Referências:
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Krauter, E. 2013 Contribuições do sistema de remuneração dos executivos para o desempenho financeiro: um estudo com empresas industriais brasileiras. Tese de Doutorado em Administração. Universidade de São Paulo, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, São Paulo, SP, Brasil.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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