
02 de março de 2026
Onboarding como estratégia competitiva para retenção de talentos na indústria cafeeira
Geisyane Polini Candido Fabrício; Cristiana Correa Dias Lopes
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Esta pesquisa investigou o processo de onboarding sob a perspectiva do colaborador, analisando sua eficácia na redução da rotatividade e propondo um novo programa de integração para três empresas do setor cafeeiro, baseado em boas práticas e lacunas identificadas. O estudo também evidenciou a relevância estratégica do RH na formulação de políticas de acolhimento e examinou modelos de integração aplicáveis à gestão de pessoas humanizada e alinhada aos negócios. A premissa central é que a experiência inicial de um funcionário define sua trajetória de engajamento, produtividade e permanência na organização.
A valorização do capital humano consolidou-se como pilar estratégico, reconhecendo o colaborador como um ativo cuja expertise e alinhamento cultural são uma vantagem competitiva (Chiavenato, 2014). Nesse contexto, a jornada do colaborador, desde o primeiro contato, é crítica. Segundo Drucker (2001), falhas em gerenciar a primeira impressão podem resultar em alta rotatividade e na perda de profissionais valiosos antes que possam contribuir plenamente para a organização.
A integração e socialização de novos membros são indispensáveis para alinhar expectativas individuais com a cultura da empresa. O onboarding, notório desde a década de 1970, surgiu como resposta estruturada à insuficiência dos treinamentos tradicionais, que não abordavam a dimensão cultural e social da adaptação (Neilpet, 2023). A socialização organizacional é um processo deliberado para moldar comportamentos, valores e atitudes, integrando colaboradores à cultura corporativa por meio de rituais de iniciação e aculturamento (Chiavenato et al., 2014).
A relevância do onboarding vai além da integração, impactando engajamento, produtividade e retenção de talentos. Um processo bem-sucedido acelera a curva de aprendizado, fortalece o sentimento de pertencimento e alinha o colaborador com os valores da organização, o que é fundamental para a comunicação e colaboração (Pinto et al., 2014). O acolhimento nos primeiros meses é um fator determinante para o sucesso e a longevidade do profissional na empresa. Cada etapa, da apresentação da equipe ao treinamento técnico, contribui para a adaptação cultural e para um desempenho superior.
Empresas que negligenciam um onboarding estruturado enfrentam desvantagens como custos com novos processos seletivos, perda de conhecimento institucional e clima organizacional instável. A alta rotatividade gera despesas financeiras, desmotiva as equipes remanescentes e prejudica a imagem da marca empregadora. Portanto, analisar e melhorar as práticas de integração é uma iniciativa estratégica para organizações que buscam crescimento sustentável e equipes de alta performance.
O estudo adotou uma abordagem de pesquisa experimental, manipulando variáveis para observar seus efeitos em um ambiente controlado (Gil, 2019). Este método foi selecionado por seu rigor científico, que permite ao pesquisador intervir no fenômeno e controlar fatores externos, garantindo maior validade e confiabilidade às conclusões (Lakatos e Marconi, 2021). A natureza do estudo foi, simultaneamente, descritiva e investigativa, buscando descrever a percepção dos colaboradores sobre o onboarding e investigar as causas subjacentes às suas avaliações.
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário online no Google Forms, com perguntas objetivas e discursivas. Essa abordagem mista permitiu quantificar tendências e capturar percepções qualitativas detalhadas. O questionário foi divulgado por e-mail, WhatsApp e LinkedIn, permanecendo disponível por duas semanas para assegurar uma participação representativa dos colaboradores das três empresas estudadas.
Após a coleta, as respostas foram organizadas e analisadas. Do conjunto total de dados, foi extraída uma amostra representativa com base em critérios que garantissem diversidade de perfis, incluindo diferentes áreas, níveis hierárquicos e tempo de empresa. Essa seleção foi fundamental para obter uma visão multifacetada da experiência de onboarding.
A análise dos dados, quantitativos e qualitativos, concentrou-se na identificação de padrões, tendências e lacunas no processo de onboarding vigente. As informações coletadas foram a base para a proposição de um novo programa de integração, mais estruturado e alinhado às necessidades dos colaboradores e aos objetivos da organização. O propósito final foi desenvolver um modelo que otimizasse a experiência inicial e contribuísse de forma mensurável para a redução da rotatividade, o aumento do engajamento e a aceleração da produtividade.
A análise dos dados revelou um perfil demográfico predominantemente feminino (60%), indicando um engajamento particular das mulheres com o tema e reforçando a necessidade de considerar a diversidade de gênero nas estratégias de gestão (Brum, 2020). Em contrapartida, a baixa participação de gestores foi um ponto de atenção, limitando a compreensão da perspectiva da liderança. A Gestão de Pessoas 4.0 pressupõe uma atuação proativa dos líderes, tornando sua inclusão em processos de escuta essencial para o sucesso de iniciativas de RH (Barros Neto, 2022). A promoção da equidade de gênero desde o acolhimento é crucial, pois a gestão da diversidade começa no primeiro contato do colaborador com a organização (Fleury, 1999).
A faixa etária predominante dos participantes, entre 26 e 35 anos (56%), seguida pela de 18 a 25 anos (16%), revela uma força de trabalho de jovens adultos em desenvolvimento de carreira. Este público demanda programas de integração que ofereçam inspiração, propósito e clareza sobre oportunidades de crescimento. O fato de 84% dos respondentes estarem na empresa há mais de um ano sugere uma taxa de retenção considerável, permitindo uma avaliação retrospectiva do impacto das práticas de onboarding na decisão de permanência.
A distribuição por área de atuação mostrou concentração no setor Administrativo (74%), em detrimento de áreas como Produção (6%), Logística (6%) e Torrefação (2%). Essa disparidade pode refletir maior facilidade de acesso à pesquisa, mas também levanta a hipótese de que o onboarding seja mais estruturado nessas áreas. A menor participação de setores operacionais sinaliza a necessidade de investigar a uniformidade do processo. Diferentes setores possuem demandas específicas, e uma abordagem padronizada pode não ser eficaz se não for adaptada às particularidades de cada função (Dutra et al., 2019).
A avaliação geral do processo de integração foi majoritariamente positiva, com 84% dos colaboradores classificando-o como “bom” (52%) ou “excelente” (32%). Este resultado corrobora a visão de que os primeiros dias são cruciais para o engajamento (Bradt e Vonnegut, 2009). Programas de onboarding eficazes podem aumentar a retenção em até 58% (Maurer, 2015). Embora a baixa incidência de avaliações negativas (“ruim” ou “regular”, com 8% cada) indique práticas sólidas, a margem de 16% de insatisfação aponta para um espaço claro para aprimoramentos.
Sobre a comunicação da cultura organizacional, 70% dos participantes relataram ter recebido informações claras sobre missão, visão e valores, elementos fundamentais para o alinhamento cultural (Schein, 2010). Contudo, os 30% que não receberam essa informação de forma clara representam uma falha de comunicação que pode levar ao desengajamento e a conflitos de valores, fatores associados ao aumento da rotatividade (Pinto, 2022).
A análise do treinamento técnico revelou resultados mistos: 52% o consideraram completo e eficaz, mas 42% o avaliaram como apenas parcialmente eficaz. Sendo o treinamento uma ferramenta estratégica para a produtividade (Chiavenato, 2014), a alta porcentagem de eficácia parcial sugere que a capacitação pode ser excessivamente teórica ou desvinculada das demandas práticas. Em paralelo, o apoio de um mentor ou “buddy” foi uma prática bem-sucedida, com 74% dos colaboradores relatando ter contado com esse suporte e o considerado útil. Esse acompanhamento acelera o estabelecimento de conexões sociais e reduz a incerteza inicial (Du Toit, 2019; Brum, 2020).
As maiores fragilidades do onboarding foram identificadas na interação social e no acompanhamento da liderança. Apenas 40% dos respondentes participaram de atividades de integração social que consideraram úteis, enquanto 48% afirmaram que não houve qualquer iniciativa nesse sentido. Essa lacuna é crítica, pois a construção de laços interpessoais é fundamental para a socialização, influenciando o sentimento de pertencimento e a motivação (Bradt e Vonnegut, 2009). A ausência de oportunidades para relações sociais prejudica o envolvimento emocional e o senso de equipe, essenciais para a retenção (Chiavenato, 2014), e pode refletir uma desconsideração da gestão sobre a importância do capital humano (Brum, 2020).
De forma ainda mais alarmante, o acompanhamento dos supervisores diretos foi insuficiente. Apenas 28% dos colaboradores tiveram reuniões regulares com seus gestores no período inicial, enquanto 38% tiveram encontros ocasionais e 34% não tiveram nenhum acompanhamento estruturado. Este dado contraria os princípios da gestão de pessoas que valoriza o feedback contínuo e uma liderança presente (Barros Neto, 2022). A presença ativa da liderança no onboarding é crucial para alinhar expectativas e fornecer orientação (Du Toit, 2019). A ausência desse suporte pode gerar insegurança, desmotivação e aumentar a probabilidade de uma saída prematura (Pinto, 2022), intensificando a sensação de isolamento (Oliveira, 2017; Silva, 2017).
A análise qualitativa das respostas abertas revelou uma experiência marcada por insegurança, falta de clareza e suporte inadequado. A necessidade de maior integração interpessoal e articulação entre setores foi um tema recorrente, com colaboradores solicitando “mais oportunidades de interação” e uma “apresentação a diversas áreas da empresa”, indicando que a socialização permanece superficial (Brum, 2020; Shinyashiki, 2003). A ambiguidade sobre funções foi outro ponto crítico, com relatos pedindo “mais clareza sobre as expectativas” e uma “descrição clara das atividades”, pois alinhar expectativas minimiza a incerteza (Chiavenato, 2014). Outras falhas apontadas foram a falta de orientação e feedback, a ausência de treinamentos práticos e a comunicação deficiente da cultura. A modernização do processo, com tecnologia e padronização, também foi sugerida (Bogdanova et al., 2020).
Este trabalho analisou o onboarding pela experiência do colaborador, focando em sua contribuição para engajamento, produtividade e retenção. A investigação demonstrou que, apesar de uma percepção geral favorável, persistem fragilidades estruturais no acompanhamento da liderança, clareza de funções, socialização e uniformidade das práticas entre setores. Os resultados indicam que programas de integração bem desenhados facilitam a adaptação, fortalecem o vínculo com a cultura e impulsionam a motivação. Ações pautadas no acolhimento, comunicação transparente e suporte ativo da liderança são determinantes para consolidar uma experiência positiva.
Ficou evidente que o onboarding deve ser um processo estratégico e contínuo, não uma mera formalidade. A manutenção do acompanhamento, feedbacks constantes e oportunidades de socialização são cruciais para o desenvolvimento de vínculos e o sentimento de pertencimento. Investir em políticas de integração é uma estratégia competitiva para reter talentos e fortalecer a identidade organizacional. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que um processo de onboarding estruturado, focado na clareza de papéis, no acompanhamento da liderança e na integração social, é um diferencial competitivo essencial para o engajamento e a retenção de talentos.
Referências:
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Bradt, George B.; VONNEGUT, Mary. Onboarding: how to get your new employees up to speed in half the time. Hoboken: John Wiley & Sons, Inc., 2009.
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Castro, C. O trote no Colégio Naval: uma visão antropológica. Antíteses, [S. l.], v. 2, n. 4, p. 569–595, 2010.
Chiavenato, Idalberto. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. Barueri: Manole, 2014.
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Du Toit, Charles. Onboarding: a practical guide to creating extraordinary new employee experiences. Randburg: KR Publishing, 2019.
Dutra, Joel Souza; Dutra, Tatiana Almendra; Dutra, Gabriela Almendra. Gestão de pessoas: realidade atual e desafios futuros. São Paulo: Atlas, 2017.
Dutra, Joel Souza; Hipólito, José Antonio Monteiro; Maillard, Nathalie de Amorim Perret Gentil Dit; MIYAHIRA, Ney Nakazato. Gestão de pessoas em empresas e organizações públicas. São Paulo: Atlas, 2019.
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Gil, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
Lakatos, E. M.; Marconi, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2021.
Maurer, Roy. “Onboarding Key to Retaining, Engaging Talent.” Www. shrm. org, 16 Apr. 2015.
Nunes, B. et al. O processo de integração de novos colaboradores. Centro Paula Souza ETEC de Cidade Tiradentes, 2023.
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Pinto, L. P., et al. A importância do onboarding (socialização organizacional) de novos funcionários: um estudo exploratório. International Journal of Scientific Management and Tourism, 2014.
Schein, E. H. Organizational culture and leadership. 4th ed. San Francisco: Jossey-Bass, 2010.
Shinyashiki, G. T. Socialização Organizacional Implicações na Gestão de Recursos Humanos. In: Third International Conference of Iberoamerican Academy of Management, São Paulo, 2003.
Silva, R. F. da. O processo de integração de novos colaboradores nas organizações. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Administração) – Universidade Estadual Paulista (UNESP), 2017.
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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