Resumo Executivo

08 de maio de 2026

Modelo de Negócio para Consultoria em Agroecologia e Sustentabilidade

Marigot Bellver Negri; Andréa Cristina Dorr

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A crescente demanda por práticas sustentáveis e a necessidade imperativa de inovação no setor agrícola impulsionam a busca por consultorias especializadas que integrem empreendedorismo, agricultura e sustentabilidade. Essas consultorias desempenham papel crucial ao auxiliar organizações e indivíduos na adoção de práticas que promovam o desenvolvimento econômico aliado à responsabilidade ambiental e social. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE, 2023), as micro e pequenas empresas representam 99% dos negócios brasileiros e geram 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado, evidenciando a importância de iniciativas que fomentem o empreendedorismo e a necessidade de consultorias especializadas para orientar novos negócios. Esse cenário é ainda mais relevante no contexto da agricultura familiar, que é responsável por aproximadamente 70% dos alimentos consumidos no Brasil, e mais de 80% no cenário global, representando cerca de um terço de todo alimento consumido no mundo (FAO, 2021). Essa forma de produção, caracterizada pelo consórcio de diferentes culturas, não apenas fortalece a segurança alimentar das famílias rurais, mas também contribui para a preservação do meio ambiente. Os pequenos agricultores, ao adotarem práticas diversificadas, oferecem serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação do microclima, a qualidade da água e a preservação da biodiversidade, aspectos fundamentais para a sustentabilidade de suas atividades e a resiliência frente aos desafios ambientais, como a maior frequência de estiagens (IBGE, 2017).

No setor agrícola, a incorporação de práticas sustentáveis é essencial para garantir produtividade e preservação dos recursos naturais. A adoção de práticas agroecológicas tem se mostrado uma estratégia eficaz para promover a sustentabilidade na agricultura familiar. Estudos revelam que a implementação dessas práticas resulta em maior diversificação da produção e aumento da renda familiar, contribuindo para a permanência das famílias no campo (Santos et al., 2012). No entanto, desafios como a falta de assessoria técnica e dificuldades na contabilização dos custos de produção ainda persistem. Embora os agricultores reconheçam a importância da sustentabilidade, enfrentam barreiras significativas para a adoção plena de práticas sustentáveis, incluindo escassez de recursos e assistência técnica inadequada (Silva, 2024). A maioria dos agricultores adota práticas sustentáveis e possui conhecimentos sobre o manejo ambiental, embora enfrentem desafios relacionados ao acesso a recursos e às influências de práticas urbanas (Santos et al., 2024). Nesse contexto, consultorias especializadas desempenham um papel fundamental ao apoiar esses pequenos produtores, principalmente aqueles que buscam inovação e sustentabilidade em suas práticas. Existem diversas consultorias no Brasil que se destacam ao apoiar clientes na jornada de governança ambiental, social e corporativa, alinhando estratégias de negócio com foco em resultados e fortalecimento dos vínculos com os públicos-alvo. Contudo, consultores independentes enfrentam desafios na estruturação de seus modelos de negócio, principalmente em nichos que exigem conhecimentos multidisciplinares. A ausência de um modelo bem definido pode gerar inconsistência nos serviços prestados e comprometer a sustentabilidade financeira das consultorias.

A investigação adota uma abordagem qualitativa, estruturada como um estudo de caso múltiplo, com elementos de pesquisa-ação. De acordo com Yin (2001), o estudo de caso é uma investigação empírica que analisa um fenômeno contemporâneo em profundidade e em seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não são claramente evidentes. O estudo foi realizado com três consultorias brasileiras independentes, todas focadas em práticas sustentáveis e negócios agroecológicos. A seleção dessas consultorias buscou representar a diversidade de cenários e desafios enfrentados pelos consultores, permitindo uma análise abrangente e uma maior aplicabilidade dos resultados. A coleta de dados ocorreu entre os meses de maio e junho de 2025, utilizando diferentes estratégias para garantir uma compreensão aprofundada do tema. As entrevistas semiestruturadas foram conduzidas com os consultores participantes para identificar desafios, estratégias e boas práticas adotadas em seus negócios. O roteiro de entrevistas foi dividido em blocos que abordaram desde informações iniciais sobre a região de atuação e tempo de experiência até detalhes sobre o modelo de negócio, serviços oferecidos, perfil dos clientes, desafios enfrentados na gestão e sustentabilidade financeira, além de metodologias e ferramentas utilizadas para estruturar os negócios e medir impactos.

Além das entrevistas, foi realizada observação participante, acompanhando as atividades em campo para registrar métodos aplicados e interações no contexto real de trabalho. Esse acompanhamento permitiu verificar a aplicação prática de conceitos teóricos e a dinâmica de relacionamento entre consultores e agricultores. A análise documental foi utilizada para revisar relatórios de atividades, planos de trabalho e materiais didáticos fornecidos pelas consultorias, contribuindo para a compreensão dos processos e estratégias utilizadas. Complementarmente, fez-se um levantamento de dados secundários por meio da consulta a fontes institucionais relevantes, como SEBRAE, Embrapa e FAO, com o objetivo de contextualizar os achados da pesquisa. A análise dos dados foi realizada por meio da identificação de padrões e práticas eficazes que pudessem ser incorporadas a um guia prático. A análise comparativa entre os três casos estudados permitiu destacar pontos convergentes e divergentes, evidenciando soluções adaptáveis a diferentes contextos. Para garantir maior precisão e consistência nos resultados, foi utilizada a triangulação de dados, cruzando as informações obtidas por meio das entrevistas, observações e documentos analisados. Os aspectos éticos foram rigorosamente observados, garantindo a anonimização dos dados coletados e o cumprimento das diretrizes institucionais, assegurando que os participantes tivessem seus direitos preservados ao longo de todo o processo.

Os dados coletados permitiram identificar padrões relevantes sobre o cotidiano e os desafios enfrentados por consultores independentes que atuam no campo da assessoria técnica com enfoque agroecológico. Um dos principais desafios relatados diz respeito à estruturação de modelos de negócio sustentáveis e financeiramente viáveis. A dificuldade em atrair e manter uma carteira de clientes recorrentes, bem como em comunicar de maneira clara a proposta de valor dos serviços prestados, aparece como um obstáculo comum, impactando diretamente a capacidade de fidelização e a previsibilidade de receita. Essa lacuna na comunicação muitas vezes está associada a uma ausência de posicionamento estratégico e à complexidade de traduzir conceitos como agroecologia e economia solidária para públicos diversos. Esse panorama dialoga com as críticas ao modelo econômico tradicional, que muitas vezes ignora a contextualização territorial e social das práticas sustentáveis (Veiga, 2009). Outro ponto recorrente nos relatos foi a precificação dos serviços. Muitos consultores relataram dificuldades em estabelecer preços justos e viáveis, especialmente em territórios com alta vulnerabilidade social ou em contextos nos quais práticas sustentáveis ainda não são amplamente reconhecidas como geradoras de valor econômico. Essa tensão entre viabilidade financeira e compromisso ético com os públicos atendidos representa um dilema central. A literatura sobre consultoria agroecológica sinaliza a necessidade de modelos híbridos de financiamento, combinando subsídios, parcerias e políticas públicas para viabilizar a atuação (Veiga, 2017).

Apesar das dificuldades, foram evidenciadas boas práticas, como o fortalecimento de redes colaborativas entre consultores, a construção de parcerias institucionais com organizações do terceiro setor e poder público, e o investimento em formações práticas e adaptadas aos territórios. A observação participante contribuiu para validar e aprofundar percepções trazidas nas entrevistas, verificando-se que os consultores atuam como facilitadores de processos formativos, promovendo metodologias participativas que valorizam o saber local. Oficinas comunitárias, práticas em campo e rodas de conversa foram identificadas como formatos que estimulam o engajamento dos agricultores e favorecem a apropriação do conhecimento de forma dialógica e crítica. Essas abordagens promovem autonomia e protagonismo, sendo coerentes com os princípios da agroecologia que consideram o conhecimento dos territórios como base para construções sustentáveis (Primavesi, 1984). Ao mesmo tempo, observou-se a sobreposição de funções atribuídas aos consultores, que acumulam tarefas técnicas, pedagógicas e administrativas em contextos marcados por escassez de recursos. Essa multiplicidade de exigências tende a gerar sobrecarga e comprometer a capacidade de planejamento e acompanhamento de médio e longo prazo.

No que diz respeito à análise documental, os documentos fornecidos indicam uma forte aderência aos princípios da agroecologia e da economia solidária, bem como uma conexão com metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, sobretudo os ODS 2, 8 e 13. No entanto, observa-se uma limitada padronização e sistematização dos registros. Em muitos casos, os resultados das ações não são documentados de forma consistente para análise a longo prazo, o que dificulta a avaliação de impacto e a possibilidade de replicar experiências bem-sucedidas em outros territórios. A ausência de formalização limita o acesso a editais, contratos públicos e parcerias institucionais, gerando insegurança quanto à continuidade das ações. Essa fragilidade é apontada como um ponto onde a economia solidária oferece potencial de reinserção institucional e fortalecimento da associação produtiva como mecanismo de resistência à informalidade (Singer, 2002). A transição para sistemas agrícolas sustentáveis exige modelos de negócio que integrem práticas agroecológicas, justiça ambiental e viabilidade econômica, apontando para a necessidade de consultorias que facilitem essa integração ética e técnica (Altieri, 2016).

As estratégias de fortalecimento incluem a adoção de metodologias participativas, como oficinas comunitárias e atividades práticas em campo, que se mostram eficazes para promover o engajamento dos agricultores e valorizar os saberes locais. Essa abordagem dialoga diretamente com a pedagogia dialógica, que defende a educação libertadora baseada na participação ativa e na construção coletiva do conhecimento (Freire, 1987). A atuação em rede de cooperação também merece destaque, pois consultores que se articulam com coletivos e instituições públicas ampliam sua capacidade de ação e fortalecem a visibilidade do trabalho realizado. A produção de materiais didáticos adaptados aos territórios, como cartilhas e vídeos, promove a autonomia das famílias atendidas. A articulação com políticas públicas, como programas de alimentação escolar e compras públicas da agricultura familiar, amplia o reconhecimento institucional e gera estabilidade financeira. A análise das experiências mostra a emergência de padrões que ajudam a qualificar a prática da consultoria técnica, centrados na escuta ativa e no diálogo com os saberes dos beneficiários.

A estruturação de um guia prático surge como resposta às lacunas identificadas, organizando a trajetória do consultor em cinco etapas fundamentais. A primeira etapa foca no início da carreira, exigindo a definição do perfil profissional, dos serviços oferecidos e da proposta de valor, além da identificação do público-alvo, que pode incluir agricultores familiares, cooperativas, organizações da sociedade civil e órgãos públicos. A segunda etapa aborda a organização do negócio, tratando da formalização jurídica, controle financeiro e gestão do tempo, utilizando ferramentas como planilhas eletrônicas e softwares de gestão de projetos. A terceira etapa dedica-se à captação e fidelização de clientes, destacando a importância da presença digital, do marketing boca a boca e da construção de redes de contato. A quarta etapa foca na execução e acompanhamento dos serviços, enfatizando o planejamento com cronogramas claros, o uso de métodos participativos e a realização de registros e avaliações de qualidade. Por fim, a quinta etapa trata do crescimento e sustentabilidade do negócio, sugerindo a diversificação de fontes de renda, como a oferta de cursos e produtos digitais, e a manutenção do aprendizado contínuo e do autocuidado.

A integração entre conhecimento técnico, sensibilidade socioambiental e habilidades de gestão é fator determinante para o sucesso de consultorias neste setor. A flexibilidade do modelo proposto permite a adaptação a diferentes escalas e territórios, respeitando as especificidades locais. O papel do consultor é cada vez mais estratégico ao apoiar agricultores e organizações na construção de soluções sustentáveis e inovadoras. Manter-se organizado, conectado a redes de colaboração e comprometido com o aprendizado contínuo são pilares essenciais para a longevidade profissional. A sistematização de experiências bem-sucedidas e a superação de desafios como a precificação inadequada e a sobrecarga de funções são passos necessários para o fortalecimento da identidade profissional dos consultores independentes. A transição para sistemas mais sustentáveis de produção e consumo depende da capacidade desses profissionais em traduzir conceitos complexos em práticas aplicáveis e geradoras de valor para a sociedade e para o meio ambiente.

Conclui-se que o objetivo foi atingido por meio da elaboração de um guia prático fundamentado em experiências reais, que serve como instrumento de apoio à prática profissional de consultores independentes. A análise evidenciou que a estruturação de um modelo de negócio sólido, aliado ao uso de metodologias participativas e à atuação em rede, é essencial para garantir a viabilidade econômica e o impacto socioambiental das consultorias em agroecologia e sustentabilidade. O estudo reforça a importância da flexibilidade e da adaptação constante aos contextos territoriais, consolidando o papel do consultor como um agente estratégico na promoção de sistemas agrícolas resilientes e socialmente justos. Recomenda-se que futuras iniciativas foquem na validação contínua deste modelo em diferentes regiões, ampliando o suporte técnico e gerencial para profissionais que atuam na interface entre o empreendedorismo e a preservação ambiental.

Referências Bibliográficas:

ALTIERI, Miguel. “Agroecologia e os desafios da transição para sistemas agrícolas sustentáveis.” Ciência & Agrotecnologia, Lavras, v. 40, n. 1, p. 1‑12, 2016. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/1054395/1/2016AP05.pdf. Acesso em: 24 jul. 2025.

FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Pequenos agricultores familiares produzem mais de um terço dos alimentos no mundo. 2019. Disponível em: https://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/en/c/1397857/. Acesso em: 12 mar. 2025.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. Disponível em: https://pibid.unespar.edu.br/noticias/paulo-freire-1970-pedagogia-do-oprimido.pdf. Acesso em: 24 jul. 2025.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Atlas Rural. 2017. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/apps/atlasrural/pdfs/11_00_Texto.pdf. Acesso em: 12 mar. 2025.

PRIMAVESI, Ana Maria. Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais. São Paulo: Nobel, 1982. Disponível em: https://anamariaprimavesi.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Manejo-Ecologico-del-Suelo.pdf. Acesso em: 19 ago. 2025.

SANTOS, Christiane Fernandes dos; SIQUEIRA, Elisabete Stradiotto; ARAÚJO, Iriane Teresa de; MAIA, Zildenice Matias Guedes. A agroecologia como perspectiva de sustentabilidade na agricultura familiar. Ambiente & Sociedade, v. 15, n. 1, p. 1-18, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/Q8YfrW7m6mLWBWBcmcbKKrQ/. Acesso em: 1 abr. 2025.

SANTOS, Naianna De Lima et al. Agricultura familiar e sustentabilidade: práticas ambientais em Riacho Grande, Araripe – CE. Anais do X Congresso Nacional de Educação, 2024. Disponível em: https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/112221. Acesso em: 1 abr. 2025.

SEBRAE. Micro e pequenas empresas: dados e estatísticas. 2023. Disponível em: https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/pequenos-negocios-a-base-da-economia-do-nosso-pais,85e97325a3937810VgnVCM1000001b00320aRCRD. Acesso em: 12 mar. 2025.

SILVA, Allan Elias da. Sustentabilidade na agricultura familiar: desafios e oportunidades – um estudo de caso dos agricultores familiares de Caiuá/SP. Seven Editora, p. 328-353, 7 out. 2024. Disponível em: https://sevenpublicacoes.com.br/editora/article/view/5770. Acesso em: 1 abr. 2025.

SINGER, Paul Israel. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002. Disponível em: https://fpabramo.org.br/publicacoes/wp-content/uploads/2018/04/Introducao-economia-solidaria-WEB-1.pdf. Acesso em: 24 jul. 2025.

VEIGA, José Eli da. A primeira utopia do antropoceno. Ambiente & Sociedade, v. 20, n. 2, p. 233‑252, abr./jun. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/asoc/v20n2/pt_1809-4422-asoc-20-02-00227.pdf. Acesso em: 24 jul. 2025.

VEIGA, José Eli da. Economia socioambiental. São Paulo: Senac, 2009. Disponível em: http://www.zeeli.pro.br/wp-content/uploads/2015/04/2009_-_Veiga__Cechin_-_Intr_%C3%A0_econ_socioamb.pdf. Acesso em: 19 ago. 2025.

YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2001. Disponível em: https://maratavarespsictics.pbworks.com/w/file/fetch/74304716/3-YIN-planejamento_metodologia.pdf. Acesso em: 1 abr. 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Negócios do MBA USP/Esalq

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