
20 de fevereiro de 2026
Mindfulness como estratégia para produtividade na era da hiperinformação corporativa
Maria Eduarda Ribeiro Loureiro; Mariane Pires Batista
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O objetivo desta pesquisa foi analisar a relação entre a prática de Mindfulness e a produtividade no contexto corporativo, investigando a percepção de profissionais sobre seus efeitos no foco, equilíbrio emocional e desempenho, bem como o grau de disseminação e aceitação dessa prática nas organizações. O estudo buscou compreender a atenção plena como ferramenta estratégica para a gestão de pessoas diante dos desafios da era digital, caracterizada pela sobrecarga de informações e pressão por resultados. A investigação partiu da premissa de que o excesso de estímulos e a operação em “piloto automático” comprometem a capacidade cognitiva e o bem-estar dos colaboradores, afetando a eficiência organizacional. Desta forma, o trabalho explorou o Mindfulness não apenas como prática de bem-estar individual, mas como um recurso para aprimorar a performance profissional e promover ambientes de trabalho mais saudáveis.
A sociedade contemporânea, imersa na Quarta Revolução Industrial, enfrenta uma transformação impulsionada pelo avanço tecnológico (Schwab, 2016). A era digital, ao mesmo tempo que democratizou a informação, gerou um ambiente de hiperinformação que resulta em sobrecarga mental e distração crônica. Este fenômeno, detalhado por Firmino e Rodrigues (2021), afeta diretamente o desempenho dos profissionais, constantemente bombardeados por notificações e demandas simultâneas, dificultando a manutenção do foco. Nesse cenário, a produtividade organizacional torna-se um desafio. A pressão por entrega contínua pode levar a um estado de “piloto automático”, no qual as ações são executadas sem plena consciência, comprometendo a qualidade das decisões e o equilíbrio emocional (Bishop et al., 2004).
A produtividade, contudo, não pode ser analisada isoladamente. Autores como Robbins et al. (2011) destacam que ela envolve tanto a eficiência (uso otimizado de recursos) quanto a eficácia (alcance de metas). A literatura moderna sobre gestão de pessoas enfatiza a conexão intrínseca entre desempenho e qualidade de vida no trabalho. Ambientes que promovem o bem-estar e a saúde mental tendem a registrar maiores níveis de engajamento e melhores resultados (Limongi-França, 2003). Chiavenato (2014) reforça essa visão, argumentando que a produtividade atual depende da forma como as pessoas são lideradas e motivadas. Ignorar o fator humano em um ambiente competitivo é uma falha estratégica que pode comprometer a sustentabilidade do negócio. O desafio, portanto, é conciliar a alta performance com a saúde psicológica dos colaboradores.
É neste contexto que o Mindfulness, ou atenção plena, emerge como uma ferramenta promissora. Definido por Jon Kabat-Zinn (2003) como a consciência que surge ao prestar atenção de forma intencional, no momento presente e sem julgamentos, o Mindfulness é uma prática laica e cientificamente validada, originada no programa de Redução de Estresse Baseada em Mindfulness (MBSR). Sua aplicação no ambiente corporativo ganhou notoriedade com iniciativas como o programa “Search Inside Yourself”, desenvolvido no Google por Chade-Meng Tan (2012), que integra técnicas de atenção plena e inteligência emocional. Estudos demonstram que o aprimoramento da atenção favorece processos mentais, auxilia na regulação emocional, diminui o esgotamento psicológico (burnout) e influencia positivamente a satisfação no trabalho (Good et al., 2016).
A prática de Mindfulness se diferencia da meditação em seu escopo. Enquanto a meditação é um termo amplo, o Mindfulness é a prática específica de estar plenamente consciente da experiência presente (Calia, 2022). No contexto organizacional, essa habilidade se traduz em maior capacidade de gerenciar distrações, tomar decisões mais ponderadas e responder aos desafios com mais clareza e menos reatividade. Hülsheger et al. (2013) corroboram o potencial do Mindfulness como um recurso eficaz no ambiente de trabalho, capaz de mediar os efeitos negativos do estresse e da sobrecarga informacional. A presente pesquisa, portanto, alinha-se a essa crescente área de estudo, buscando evidências sobre a percepção e o impacto dessa prática no cotidiano dos profissionais brasileiros.
A metodologia adotada possui natureza qualitativa e enfoque exploratório-descritivo, abordagem adequada para a compreensão de percepções e experiências atribuídas pelos indivíduos a um fenômeno (Fontelles et al., 2009). A escolha se justifica pelo interesse em aprofundar o entendimento sobre o impacto do Mindfulness na produtividade, capturando as nuances das vivências de profissionais, conforme preconiza Richardson et al. (2011) para estudos sociais. O objetivo foi ir além de dados numéricos, interpretando as perspectivas dos participantes sobre foco, estresse e bem-estar no trabalho.
A coleta de dados foi conduzida por meio de um questionário eletrônico (Google Forms), previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE nº 88954025.6.0000.9927). Todos os participantes foram informados sobre os objetivos do estudo e consentiram por meio de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) digital. O questionário foi organizado em três seções: perfil demográfico e profissional; foco, produtividade e estresse; e conhecimento, percepção e prática de Mindfulness. A divulgação utilizou uma amostragem não probabilística, combinando a plataforma LinkedIn e a técnica de “bola de neve” (snowball sampling) para ampliar o alcance. A meta era obter de 30 a 50 participantes atuantes no mercado.
A análise dos dados seguiu os princípios da Análise de Conteúdo de Bardin (2011). Essa técnica permitiu uma abordagem sistemática para interpretar as respostas qualitativas, organizando-as em categorias temáticas que emergiram da literatura e dos objetivos da pesquisa. As respostas foram agrupadas e codificadas para facilitar a identificação de padrões e percepções recorrentes sobre a relação entre Mindfulness, estresse, foco e produtividade, permitindo a extração de inferências sobre o papel da atenção plena como potencial mediador do desempenho no trabalho.
A análise dos dados, provenientes de uma amostra de 38 participantes, revelou um panorama complexo. O perfil da amostra é predominantemente composto por jovens adultos, com 76,3% na faixa de 25 a 34 anos e com alto nível de escolaridade. A maioria ocupa cargos de Analista/Técnico (47,4%) e possui entre um e cinco anos de experiência (47,4%), configurando um grupo em fase de consolidação de carreira, exposto a um ambiente de alta demanda. Essa caracterização contextualiza os achados, refletindo a perspectiva de uma geração imersa na cultura digital e suas pressões por performance.
Um dos resultados mais expressivos foi a dificuldade de manter a concentração. Quase metade dos respondentes (47,4%) relatou dificuldade ocasional para manter o foco, enquanto 31,6% enfrentam esse problema frequentemente. Somados, os dados indicam que 79% da amostra lida com desafios de atenção. Este achado está alinhado à sobrecarga informacional, onde 28,9% afirmaram que o excesso de informações atrapalha sua produtividade “frequentemente” e 15,8% disseram que isso ocorre “sempre”. A convergência desses dados sugere uma forte correlação entre o ambiente de hiperestímulo (Firmino e Rodrigues, 2021) e a deterioração da capacidade de atenção sustentada.
Paradoxalmente, apesar dos desafios de foco, a autoavaliação da produtividade foi majoritariamente positiva. Um total de 63,2% dos participantes se consideram produtivos e 5,3% se veem como muito produtivos, com apenas 2,6% avaliando seu desempenho como baixo. Este aparente paradoxo pode indicar uma notável capacidade de resiliência, mas também pode mascarar um custo oculto relacionado ao desgaste mental. A manutenção de um alto desempenho sob constante pressão pode não ser sustentável a longo prazo, levantando questões sobre a qualidade do trabalho e o bem-estar.
Essa hipótese é reforçada pelos dados sobre cansaço mental e emocional. Uma parcela de 39,5% dos participantes relatou sentir-se cansada “frequentemente” após um dia de trabalho, e 15,8% afirmaram sentir-se assim “sempre”. Isso significa que 55,3% da amostra experimenta um nível elevado de exaustão regularmente. A análise cruzada sugere que a produtividade percebida pode estar sendo mantida às custas da saúde mental, uma condição que precede quadros de burnout (Hülsheger et al., 2013). A relação observada entre alto cansaço e menor percepção de produtividade corrobora que o equilíbrio emocional é um componente essencial para um desempenho consistente e saudável (Limongi-França, 2003).
No que tange ao Mindfulness, os resultados apontam para um conhecimento crescente, mas prática incipiente. Mais da metade dos respondentes (55,3%) já ouviu falar sobre o tema, mas a prática regular é rara. As experiências relatadas, embora pontuais, foram associadas a benefícios como maior clareza mental e redução do cansaço, validando empiricamente os efeitos documentados em estudos (Kabat-Zinn, 2003; Good et al., 2016). A percepção sobre o potencial da prática é notavelmente positiva: 68,4% dos participantes acreditam que o Mindfulness pode contribuir para a melhoria da produtividade.
Essa crença positiva se traduz em alta receptividade a iniciativas corporativas. A grande maioria demonstrou interesse (71,1%) ou curiosidade (23,7%) em participar de programas de Mindfulness oferecidos pela empresa, com uma taxa de recusa de apenas 5,3%. Essa disposição sinaliza um terreno fértil para a implementação de políticas de bem-estar. Contudo, os dados revelam uma lacuna entre o interesse dos colaboradores e a oferta das organizações. Apenas 15,8% das empresas promovem ações de saúde mental de forma frequente, enquanto a maioria o faz ocasionalmente (34,2%) ou não oferece suporte (21,1%).
Essa desconexão entre a demanda por bem-estar e a estratégia de gestão de pessoas representa uma oportunidade perdida. A alta adesão potencial a programas de Mindfulness sugere que tais iniciativas seriam vistas como um benefício valioso. Investir em ferramentas que capacitem os colaboradores a gerenciar o estresse e a atenção pode gerar retornos significativos em produtividade, redução de turnover e clima organizacional. Os achados dialogam com estudos como o Projeto Aristóteles do Google (2015), que identificou a segurança psicológica como pilar de equipes de alta performance, e com pesquisas que demonstram o impacto financeiro positivo de investir no bem-estar (Great People Mental Health; GPTW Brasil, 2024).
Em síntese, os resultados pintam o retrato de uma força de trabalho que, embora se perceba produtiva, opera sob estresse e com dificuldades de foco. A sobrecarga informacional é um fator de impacto real, e o cansaço mental é uma consequência prevalente. O Mindfulness é visto pela maioria como uma solução viável e desejável, mas as empresas ainda não estão respondendo adequadamente a essa demanda. A pesquisa evidencia que a atenção plena não é apenas uma tendência, mas uma necessidade estratégica percebida pelos profissionais para conciliar desempenho e saúde mental no ambiente de trabalho moderno.
A presente pesquisa buscou avaliar a relação percebida entre a prática de Mindfulness e a produtividade organizacional, investigando sua expansão e aceitação no ambiente corporativo. Os resultados indicam que os profissionais enfrentam desafios significativos de foco e cansaço mental, decorrentes da sobrecarga informacional. Apesar disso, a percepção sobre a própria produtividade permanece alta, sugerindo um esforço adaptativo que pode acarretar custos à saúde mental. Nesse contexto, o Mindfulness é amplamente reconhecido como uma ferramenta com potencial para mitigar o estresse e aprimorar a concentração, beneficiando tanto o bem-estar individual quanto o desempenho coletivo. Os achados reforçam a importância de estratégias organizacionais que integrem a saúde mental como pilar da performance, alinhando-se a práticas de gestão de alto desempenho e à Norma Regulamentadora nº 17 (Ergonomia).
A investigação revelou uma forte receptividade dos colaboradores a programas de atenção plena, contrastando com uma oferta ainda tímida por parte das empresas, o que aponta para uma oportunidade estratégica na gestão de pessoas. Embora o estudo apresente como limitação o número reduzido de participantes, seus resultados são consistentes e abrem caminho para pesquisas futuras com amostras mais amplas e abordagens longitudinais. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se a percepção positiva dos profissionais sobre a relação entre a prática de Mindfulness e a produtividade organizacional, identificando-a como uma ferramenta estratégica para a gestão de pessoas na contemporaneidade.
Referências:
Bardin, L. 2011. Análise de conteúdo. 70. ed. Edições 70, São Paulo, SP, Brasil.
Bishop, S. R.; Lau, M.; Shapiro, S.; Carlson, L.; Anderson, N. D.; Carmody, J.; Devins, G. 2004. Mindfulness: A proposed operational definition. Clinical psychology: Science and practise, 11(3): 230-241.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 17: Ergonomia. Portaria nº 3.214, de 8 de junho de 1978. Disponível em: https://www. gov. br/trabalho-e-emprego/pt-br. c. Acesso 16 set. 2025.
Calia, R. 2022. Série Acadêmica: Mindfulness. Pecege, Piracicaba, SP, Brasil.
Cebolla, A.; Demarzo, M.; Garcia-Campayo, J. 2016. Mindfulness e Ciência: da tradição à modernidade. Palas Athena, São Paulo, SP, Brasil.
Firmino, G. P.; Rodrigues, K. C. 2021. Mindfulness: Uma visão crítica de sua aplicação para as organizações. Revista Boletim do Gerenciamento 23(23): 59-72.
Fontelles, M. J.; Simões, M. G.; Farias, S. H.; Fontelles, R. G. S. 2009. Metodologia da pesquisa científica para elaboração de um protocolo de pesquisa. Disponível em: https://docs. bvsalud. org/upload/S/0101-5907/2009/v23n3/a1967. pdf. Acesso 20 mar.2025.
Good, D. J.; Lyddy, C. J.; Glomb, T. M.; Bono, J. E.; Brown, K. W.; Duffy, M. K.; Lazar, S. W. 2016. Contemplating mindfulness at work: An integrative review. Journal of management, 42(1): 114-142.
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Kabat-Zinn, J. 2003. Mindfulness-based interventions in context: Past, present, and future. Clinical psychology: Science and practise, 10(2): 144-156. Disponível em: https://psycnet. apa. org/doiLanding? doi=10.1093%2Fclipsy. bpg016. Acesso em: 20 mar.2025.
Limongi-França, Ana Cristina. 2003. Qualidade de vida no trabalho: conceitos e práticas nas empresas da sociedade pós-industrial. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Markus, P. M. N.; Lisboa, C. S. M. 2015. Mindfulness e seus benefícios nas atividades de trabalho no ambiente organizacional. Disponível em: https://revistaseletronicas. pucrs. br/graduacao/article/view/20733. Acesso em: 10 mar.2025.
Richardson, Roberto Jarry et al. 2011. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
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Schwab, K. 2018. A quarta Revolução Industrial. 1ed. Edipro, São Paulo, SP, Brasil.
Tan, C. M. 2012. Search inside yourself: increase productivity, creativity and happiness. HarperCollins. Nova York, NY, EUA.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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