
20 de fevereiro de 2026
Antecedentes e processos de implementação do sistema de compliance em arena multifuncional
Maria Pollyana Sales Vicente; Leila Chaves Cunha
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo descreve a implementação do sistema de compliance em uma Arena Multifuncional, analisando as percepções da alta administração e dos colaboradores operacionais para identificar convergências e divergências na avaliação do programa. A pesquisa aprofunda o entendimento sobre os desafios e resultados práticos da adoção de mecanismos de conformidade em uma organização de grande porte, inserida no setor de eventos e entretenimento. A análise dos fatores motivacionais, etapas de execução, obstáculos e benefícios visa fornecer um panorama que sirva de referência para outras empresas que buscam fortalecer sua governança e cultura de integridade.
A implementação de programas de compliance tornou-se um pilar estratégico para fortalecer a reputação e a responsabilidade corporativa (Lima, 2023). A conformidade, definida por Lamy (2020) como a aderência a normas legais e administrativas, representa um compromisso com a conduta ética e a integridade. Este compromisso é fundamental para a boa governança e o crescimento sustentável, estabelecendo um ambiente de negócios transparente (Neves, 2018). A demanda social por práticas éticas impulsiona as organizações a adotarem o compliance como ferramenta para combater a corrupção e promover valores íntegros.
Um programa de integridade eficaz previne a ocorrência de atos ilícitos, internos ou externos (Martins, 2020). A imagem de uma organização pode ser comprometida por falhas culturais, éticas e financeiras. Nesse contexto, a construção de uma cultura de ética, apoiada por um programa de compliance, deve incluir canais de denúncias seguros e acessíveis para o relato de condutas inadequadas (Andrade, 2020). A existência de tais canais desestimula práticas ilícitas e demonstra o compromisso da organização com a transparência, fortalecendo a confiança dos stakeholders.
A implementação de um sistema de compliance aprimora os controles internos e externos, resultando em processos decisórios mais claros e no aumento do valor de ativos intangíveis como reputação e marca (Coimbra e Manzi, 2010). A execução eficaz de um programa de conformidade depende da elaboração e atualização de manuais de conduta e políticas. A comunicação clara desses documentos é um fator crítico para garantir que todos os colaboradores compreendam as diretrizes, as penalidades e os mecanismos para relatar irregularidades (Helou, 2018). Sem comunicação eficaz, as políticas tornam-se meros documentos formais.
No Brasil, a Controladoria-Geral da União (CGU) promove a integridade no setor privado por meio do programa Pró-Ética, que certifica empresas que adotam medidas de prevenção, detecção e remediação de atos de corrupção e fraude. O selo Pró-Ética é um dos principais indicadores de um ambiente corporativo íntegro, com reconhecimento internacional de órgãos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), servindo como modelo para outros países no combate à corrupção (CGU, 2024). A busca por essa certificação motiva as empresas a aprimorarem seus programas de compliance.
A pesquisa é de caráter descritivo e exploratório. Pesquisas descritivas focam nas características de uma população ou fenômeno, enquanto as exploratórias aprofundam a familiaridade com um problema (Lakatos, 2022). A abordagem foi qualitativa, focando nos aspectos subjetivos e buscando compreender significados e motivações não quantificáveis. Esta abordagem se caracteriza pela coleta de dados descritivos, priorizando a análise do processo em detrimento de resultados numéricos e não se baseando em hipóteses pré-definidas.
O método de pesquisa foi o estudo de caso, adequado para investigações que retratam fenômenos complexos em seu contexto real (Yin, 2022). O foco não é estabelecer causalidade, mas proporcionar uma compreensão profunda do objeto. A Arena Multifuncional foi escolhida por estar em pleno processo de implementação de seu sistema de compliance, oferecendo uma oportunidade para observar os desafios em tempo real. A Arena, inaugurada para a Copa do Mundo de 2014, tem capacidade para 31 mil pessoas e opera com uma equipe de 100 a 150 funcionários, número que pode ultrapassar 300 em grandes eventos.
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas estruturadas e análise documental. As entrevistas permitiram explorar questões relevantes de forma sistemática (Yin, 2022). As perguntas foram elaboradas com base em Emediato (2019), Gastaud (2020), Carneiro (2020) e nas diretrizes do guia Pró-Ética da CGU (2024). A amostra de entrevistados incluiu membros da alta administração (diretor geral e diretor jurídico) e colaboradores de áreas operacionais como Recursos Humanos, Administrativo-Financeiro, Contábil, Manutenção, Segurança e Suprimentos. A análise documental do Código de Conduta e Ética, das políticas de compliance e dos procedimentos do canal de denúncias complementou os dados das entrevistas. Essa triangulação de fontes permitiu validar as informações, garantindo maior credibilidade aos resultados. Para assegurar os princípios éticos, todos os participantes assinaram um termo de compromisso e ciência.
Os resultados revelam uma percepção majoritariamente positiva da alta administração sobre a implementação do programa. Utilizando uma escala Likert de cinco pontos, os diretores atribuíram notas elevadas (níveis 4 e 5) à maioria dos fatores. Aspectos como a clareza da motivação, o papel da alta gestão, o impacto positivo na imagem da empresa e o fortalecimento da cultura organizacional receberam concordância unânime (nível 5). A superação dos desafios e a eficácia do código de conduta também foram avaliadas positivamente, reforçando a visão de sucesso da liderança.
Apesar do consenso, a questão da resistência à implementação obteve respostas que variaram de “Discordo Totalmente” (nível 1) a “Neutro” (nível 3), sugerindo percepções não uniformes sobre os obstáculos entre os colaboradores. Contudo, as estratégias para superar resistências foram consideradas eficazes, com avaliações nos níveis 4 e 5. Fatores como a adequação da avaliação de riscos, a atuação da auditoria e a qualidade dos treinamentos também mostraram respostas diversificadas, indicando áreas para aprimoramento. Nas perguntas abertas, os diretores confirmaram que a principal motivação foi aprimorar a gestão de riscos, especialmente contratuais, e que a comunicação clara foi crucial para a adesão dos colaboradores.
A percepção da equipe operacional, embora também positiva, revela nuances e desafios não tão proeminentes na visão da diretoria. A maioria dos colaboradores concordou que o programa de compliance influenciou positivamente a cultura organizacional e o comportamento ético, com respostas concentradas nos níveis 4 e 5. A melhora no ambiente de trabalho e o fortalecimento dos valores éticos foram amplamente reconhecidos, mostrando que os princípios do programa foram bem comunicados e absorvidos.
No entanto, a análise das respostas dos colaboradores expõe divergências críticas. O fator de maior preocupação foi a segurança e a confiança para utilizar o canal de denúncias. As respostas se distribuíram por toda a escala, evidenciando que uma parcela da equipe não se sente segura para relatar irregularidades. Este achado contrasta com a visão dos diretores, que consideram o canal bem estruturado. Outro ponto de divergência foi o impacto das políticas internas no trabalho diário; muitos colaboradores afirmaram não perceber como as diretrizes se aplicam às suas rotinas. A eficácia dos treinamentos também foi avaliada de forma dividida.
A triangulação dos dados com a análise documental aprofundou a compreensão dessas percepções. O Código de Conduta e Ética e as políticas internas da Arena são documentos bem estruturados, e a documentação do canal de denúncias descreve os mecanismos de proteção ao denunciante. Essa estrutura formal corrobora a percepção positiva da diretoria, que avalia o programa com base em seu design. No entanto, a existência formal desses mecanismos não garante sua eficácia prática, como evidencia a hesitação dos colaboradores.
A principal divergência reside na lacuna entre a estrutura formal do programa e sua vivência no cotidiano. Enquanto a alta administração enxerga um sistema funcional, os colaboradores apontam falhas na comunicação, na construção de confiança e na aplicabilidade das ferramentas. O receio em utilizar o canal de denúncias pode indicar temor de retaliação ou falta de clareza sobre o anonimato, questões que precisam ser endereçadas pela liderança. A percepção de que as políticas são distantes da realidade do trabalho sugere a necessidade de maior envolvimento dos colaboradores em sua construção e de treinamentos mais contextualizados.
A discussão desses resultados reforça a importância do “tom da liderança” (Neves, 2018), que foi claramente estabelecido na Arena. Contudo, também evidencia que o sucesso de um programa de compliance depende não apenas do apoio da gestão, mas de sua capacidade de se conectar com a realidade operacional e de construir uma cultura de segurança psicológica (Carneiro, 2020). A eficácia de ferramentas como canais de denúncias está diretamente ligada à confiança que os colaboradores depositam no sistema (Andrade, 2020), e os resultados indicam que este é um ponto crítico a ser desenvolvido.
A implementação do programa de compliance na Arena Multifuncional pode ser considerada bem-sucedida em seus aspectos estruturais e no alinhamento com a visão da alta administração. Os diretores reconhecem avanços no fortalecimento da cultura interna e na gestão de riscos, alinhado aos benefícios esperados de tais programas (Coimbra e Manzi, 2010). A motivação focada na gestão de riscos e o envolvimento da liderança foram determinantes para o progresso. A percepção positiva sobre a imagem da empresa e o ambiente de trabalho demonstra que os resultados já são tangíveis.
A análise da perspectiva dos colaboradores, contudo, revela que a efetividade do programa no dia a dia ainda enfrenta desafios. As principais áreas que demandam atenção são a clareza na comunicação das políticas, a construção de uma confiança sólida no canal de denúncias e a customização dos treinamentos. A divergência entre a visão estratégica da diretoria e a percepção operacional dos colaboradores não invalida os avanços, mas aponta para a necessidade de ajustes finos e de um esforço contínuo para garantir que o compliance seja integrado à cultura e às práticas cotidianas. A pesquisa apresenta como limitação o fato de se concentrar em um único estudo de caso, o que restringe a generalização dos resultados. Sugere-se que futuras pesquisas realizem estudos longitudinais para acompanhar a evolução das percepções e que ampliem a análise para outras organizações. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o processo de implementação do sistema de compliance na Arena Multifuncional foi percebido de forma distinta entre a alta administração, que o considera um sucesso estratégico, e os colaboradores, que, apesar de reconhecerem melhorias, apontam desafios significativos na comunicação, na confiança no canal de denúncias e na aplicabilidade dos treinamentos.
Referências:
Andrade, A. F. 2020. Gestão de compliance. 1. ed. São Paulo: Contentus.
Araújo, J. 2008. A multifuncionalidade das arenas esportivas contemporâneas. Rio de Janeiro.
Carneiro, M. C. L. 2020. Responsabilidade social e ética empresarial. Porto Alegre: Bookman.
Casa de Apostas Arena das Dunas. Apresentação. 24 out. 2024. Disponível em: https://casadeapostasarenadasdunas. com. br/arena/apresentacao/. Acesso em: 24 out. 2024.
Coimbra, J. L.; Manzi, S. A. 2010. A importância do compliance para empresas. São Paulo: Revista de Administração e Negócios.
Controladoria Geral da União (CGU). Empresa Pró-Ética. [S. l.] 22 out. 2024. Disponível em: https://plataforma. bvirtual. com. br. Acesso em: 22 out. 2024.
Controladoria Geral da União (CGU). Empresa Pró-Ética. 28 out. 2024. Disponível em: https://www. gov. br/cgu/pt-br/assuntos/integridade-privada/avaliacao-e-promocao-da-integridade-privada. Acesso em: 29 out. 2024.
Emediato, L. F. 2019. Gestão de riscos e compliance. Rio de Janeiro: Elsevier.
Gastaud, A. C. 2020. Gestão de riscos e sustentabilidade. São Paulo: Cengage Learning.
Helou, C. 2018. Atuação de compliance nas organizações privadas. Monografia – Bacharel em Administração. Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Brasília, DF, Brasil.
Lakatos, E. M. & Marconi, M. A. 2022. Fundamentos da metodologia cientifica. 9. ed. São Paulo: Atlas.
Lamy, M. 2020. Compliance: A importância da implementação do programa de integridade nas empresas. São Paulo: Almedina.
Lima, R. 2023. Compliance: a ética como estrutura de sustentabilidade nas empresas. São Paulo: Atlas.
Martins, A. 2020. Compliance, gestão de riscos e combate à corrupção. 2. ed. São Paulo: Saraiva.
Neves, E. C. 2018. Compliance empresarial: o tom da liderança. São Paulo: Trevisan.
Yin. R. K. 2022. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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