Imagem Gestão de riscos na siderurgia brasileira frente à concorrência do aço chinês

20 de fevereiro de 2026

Gestão de riscos na siderurgia brasileira frente à concorrência do aço chinês

Maria  Clara  Ageu  Franklin  de Freitas; Matheus  Alves  Albino

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo demonstra como a gestão de riscos otimizada – baseada em governança transversal, análises quantitativas e na superação do “organizational drag” – pode reduzir perdas, acelerar respostas e aumentar a competitividade das siderúrgicas nacionais diante do avanço do aço chinês. A pesquisa identifica estratégias para vencer barreiras institucionais à adoção de uma gestão de riscos integrada e orientada por dados, contribuindo para a eficiência decisória, resiliência operacional e sustentabilidade do setor. A relevância da análise reside na necessidade de mitigar os riscos que a proeminência do aço chinês representa para a siderurgia nacional, pilar da economia brasileira.

O cenário global do aço foi reconfigurado pela ascensão da China, processo iniciado com as reformas econômicas da década de 1980 e apoiado por incentivos estatais e subsídios à produção (BNDES, 2005). Essa estratégia expandiu a capacidade siderúrgica chinesa para além da demanda interna, forçando a busca por mercados externos para absorver excedentes (Cidades e Minerais, 2014). Atualmente, a China lidera a produção e exportação global de aço, utilizando subsídios que reduzem artificialmente os custos de seus produtos e criam uma concorrência assimétrica em escala mundial (Smink, 2024; Aços Piasentin, 2024).

Entre 2024 e 2025, essa política de exportação resultou na “invasão do aço chinês” nos mercados latino-americanos. O influxo de aço subsidiado levou Brasil, México e Chile a adotarem tarifas antidumping para proteger suas indústrias (Attwood; Durão; Jaramillo, 2024). Este fenômeno intensificou a pressão por custos, tornando a gestão de riscos um fator crítico de sobrevivência e vantagem competitiva para as siderúrgicas brasileiras. A capacidade de antecipar, mitigar e responder a riscos tornou-se um diferencial estratégico fundamental.

A evolução da gestão de riscos expandiu seu escopo do foco tradicional em finanças e seguros para uma visão holística, abrangendo riscos operacionais, estratégicos e de reputação, conforme defendido por Kaplan e Mikes (2012). Contudo, a implementação eficaz é frequentemente obstruída pelo “organizational drag”: barreiras internas como burocracia, lentidão decisória, desalinhamento funcional e resistência à mudança (“Corporate Executive Board”, 2014). Esse atrito organizacional reduz a agilidade e a capacidade de resposta, minando a competitividade em um mercado que exige decisões rápidas.

O caso da siderúrgica sul-coreana POSCO ilustra a superação desses desafios. Ao enfrentar forte concorrência, a empresa identificou fragilidades em sua capacidade de resposta e promoveu mudanças estruturais, como a criação de comitês interdepartamentais e o engajamento da alta liderança, integrando a gestão de riscos ao processo decisório estratégico para aumentar sua resiliência e agilidade (Lee & Kim, 2023). Diante deste contexto, o estudo analisa como práticas de gestão de riscos eficientes podem fortalecer a competitividade das siderúrgicas brasileiras, identificando barreiras internas e propondo estratégias para superá-las, promovendo maior resiliência no setor.

A metodologia é qualitativa, combinando revisão bibliográfica e análise documental de artigos, livros e relatórios setoriais. Foram selecionadas referências relevantes, como o framework de Enterprise Risk Management (ERM) de Kaplan e Mikes (2012), cuja aplicabilidade ao contexto brasileiro foi avaliada. A seleção priorizou trabalhos com insights práticos e teóricos sobre mitigação de riscos em ambientes de alta volatilidade.

Para complementar, foi realizada uma análise econômico-financeira do setor siderúrgico nacional, com coleta de dados de empresas de grande porte de fontes públicas (relatórios anuais, demonstrações contábeis). O período de análise foi de 2020 a 2024, marcado por flutuações de mercado e pela intensificação da presença chinesa. As variáveis foram agrupadas em três categorias: desempenho econômico-financeiro (produção, faturamento, inovação), estratégia de gestão de riscos (práticas, priorização de riscos) e sustentabilidade e tecnologia (consumo de biocarvão, emissões, automação).

A análise dos dados confrontou a literatura com a realidade operacional das siderúrgicas brasileiras. A teoria do “organizational drag” foi usada como lente analítica para interpretar como barreiras burocráticas e culturais impactam a tomada de decisão e a implementação de estratégias de risco. O objetivo foi identificar boas práticas na gestão de riscos e avaliar seu impacto potencial na resiliência e competitividade do setor. A natureza qualitativa da análise permitiu um aprofundamento nas nuances das estratégias empresariais.

Uma limitação da pesquisa é a base exclusiva em dados públicos, que pode não capturar a totalidade das estratégias internas. Os resultados não são generalizáveis estatisticamente. O propósito do estudo, contudo, não é a generalização, mas o aprofundamento teórico e prático do tema, oferecendo um diagnóstico e recomendações estratégicas para o fortalecimento da indústria siderúrgica brasileira.

A criticidade da gestão de riscos no setor é ilustrada por experiências internacionais. O caso da British Steel é emblemático: em 2023, a companhia registrou faturamento de £1,2 bilhão, mas acumulou prejuízo operacional de £205 milhões e dívidas de £736 milhões (Financial Times, 2023). A situação se agravou com o risco de desligamento de até 2.700 empregados devido ao fechamento de altos-fornos (Reuters, 2025). Os números refletem não apenas os custos de energia no Reino Unido, mas a ausência de uma estratégia robusta de mitigação de riscos frente à volatilidade de preços e tarifas de importação (UK Parliament Research Briefings, 2024). A SSI Redcar Steelworks, uma das maiores usinas da Inglaterra, enfrentou a liquidação em 2015, resultando na perda de mais de 2.200 empregos (The Guardian, 2015). Em ambos os casos, a falta de políticas proativas de gestão de riscos foi um fator decisivo para a crise.

Esses exemplos reforçam a urgência de uma abordagem integrada de gestão de riscos nas siderúrgicas brasileiras. Enfrentar a ameaça do aço chinês exige uma transformação interna na maneira como os riscos são gerenciados. A gestão de riscos tradicional deve evoluir para um modelo estratégico que identifique ameaças à posição competitiva da empresa (Kaplan & Mikes, 2012). Isso implica mapear riscos de mercado, como oscilações no preço do aço, e riscos externos, como a entrada de produtos subsidiados. Seguindo o modelo de Enterprise Risk Management (ERM), os riscos podem ser classificados em três categorias: riscos evitáveis (internos, como falhas operacionais), riscos estratégicos (assumidos para gerar retorno, como investimentos em tecnologia) e riscos externos (incontroláveis, como volatilidade de preços e dumping).

Para operacionalizar essa classificação, é fundamental associar cada categoria a indicadores-chave de desempenho (KPIs) de risco. Exemplos incluem: horas de parada não programada (risco operacional); percentual de alertas críticos de processo (risco evitável); e a sensibilidade da margem EBITDA às variações do preço da bobina laminada a quente (HRC), do custo de energia e da taxa de câmbio (risco estratégico e externo). A volatilidade do mercado, com o preço do HRC variando mais de 200% entre 2018 e 2024 (SteelBenchmarker, 2024), demonstra a magnitude dos riscos e a necessidade de incorporar análises de mercado, hedge e contratos futuros.

Um dos maiores entraves à agilidade é o “organizational drag”. Um estudo do Corporate Executive Board (CEB, 2014) alerta para o perigo de estruturas pesadas e processos lentos. As siderúrgicas brasileiras precisam criar estruturas mais leves, com comitês de risco multifuncionais capazes de tomar decisões rápidas. É fundamental envolver todos os colaboradores na identificação de riscos. Conforme a Harvard Business Review (2015), quando cada funcionário atua como gestor de riscos, a capacidade de detecção de ameaças se amplia. Dados do CEB (2014) mostram que apenas 37% dos funcionários não gerenciais compreendem os riscos de suas funções, contra 62% dos líderes seniores, uma lacuna perigosa.

A falta de uma cultura de risco robusta afeta a qualidade das decisões. Uma pesquisa da McKinsey, citada pelo CEB (2014), revela que apenas 28% dos executivos acreditam que suas decisões são bem-informadas por riscos, enquanto 60% reconhecem que decisões ruins são tão comuns quanto as boas. Isso ocorre porque informações críticas da base não chegam ao topo, com 50% das condutas indevidas não sendo reportadas. Empresas como ArcelorMittal e Gerdau já avançam na superação desses desafios. A ArcelorMittal Brasil implementou um sistema de Governança, Riscos e Compliance (GRC) com monitoramento contínuo para identificar vulnerabilidades (ArcelorMittal Brasil, 2024). A Gerdau estabeleceu um centro de inovação em inteligência artificial para simular cenários operacionais, permitindo que equipes de chão de fábrica antecipem falhas (Gerdau Next; Spacetime Labs, 2023).

A superação do “organizational drag” depende de uma governança transversal com um fluxo claro de reporte e gatilhos de decisão. Operadores na base usam tecnologias como IoT e video analytics para reportar indícios de riscos. Comitês multifuncionais analisam os dados e, ao atingir um gatilho (como uma queda projetada no EBITDA), a diretoria aciona respostas estratégicas, como operações de hedge ou aceleração de projetos de eficiência. Assim, a gestão de riscos se torna uma prática distribuída, garantindo a resiliência. A sustentabilidade e a inovação tecnológica emergem como diferenciais. A produção de aço na China, baseada em carvão mineral, emite cerca de 2,4 toneladas de CO₂ por tonelada de aço, enquanto o Brasil, com carvão vegetal e reciclagem, reduz sua emissão média para 1,7 tonelada (Global Energy Monitor, s. d.).

A principal estratégia de descarbonização do Brasil é a substituição parcial do carvão mineral por biocarvão. Em 2021, 11% da produção nacional de aço utilizou carvão vegetal, posicionando o país como líder na produção de aço à base de biochar. Gerdau, Aperam e ArcelorMittal possuem vastas áreas de florestas plantadas para esse fim (World Steel Association, 2024). Assumindo que o biocarvão seja neutro em carbono, a intensidade média de emissões da rota produtiva brasileira é de 1,55 tCO₂ por tonelada de aço, inferior à média global de 2,0 tCO₂/t. Essa vantagem carrega um risco: a neutralidade do biocarvão pode não ser reconhecida por parceiros comerciais como a União Europeia, exigindo investimentos em tecnologias como o hidrogênio verde. A gestão de riscos ESG pode ser monitorada por métricas como intensidade de emissões e percentual de sucata reciclada, transformando a sustentabilidade em vantagem competitiva.

A competitividade das siderúrgicas brasileiras não se apoia em uma única medida, mas em uma gestão de riscos tratada como eixo transversal. A redução de custos, a agilidade decisória, a capacitação dos colaboradores, o monitoramento de mercado e os investimentos em tecnologia limpa se articulam em um processo integrado. Essa abordagem posiciona as empresas não apenas para resistirem à concorrência, mas para construírem uma indústria mais ágil, sustentável e resiliente.

A presença do aço chinês no mercado brasileiro revelou desafios externos e fragilidades internas na gestão de riscos das siderúrgicas nacionais. Respostas eficazes não podem depender apenas de políticas governamentais; é imprescindível que as empresas adotem uma postura estratégica e proativa. A pesquisa demonstrou que a gestão de riscos é central para a competitividade. A superação do “organizational drag” é um passo decisivo para melhorar a capacidade de resposta, exigindo estruturas flexíveis e processos dinâmicos. O fortalecimento da cultura de risco em todos os níveis, envolvendo colaboradores na identificação precoce de ameaças, transforma a gestão de riscos em uma prática distribuída, ampliando a resiliência corporativa.

A adaptação às novas condições de mercado requer investimentos contínuos em tecnologia, inovação e sustentabilidade. A integração entre ferramentas digitais, inteligência de mercado e práticas operacionais fortalece a capacidade de antecipar tendências. Ao alinhar eficiência operacional com responsabilidade ambiental, as siderúrgicas brasileiras podem conquistar vantagens competitivas duradouras. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a implementação otimizada da gestão de riscos, superando o ‘organizational drag’ e integrando tecnologia e cultura em uma governança transversal, aumenta significativamente a competitividade e a resiliência das siderúrgicas nacionais diante do avanço do aço chinês.

Referências:
AÇOS PIASENTIN. A invasão do aço chinês: como a concorrência com o produto da China afetou o mercado brasileiro, 2024.
ARCELORMITTAL BRASIL. ArcelorMittal inova nos processos e governança corporativa, 2024.
ATTWOOD, James; DURÃO, Mariana; JARAMILLO, Andrea. Brasil, México e Chile elevam tarifas sobre aço da China após “invasão” do mercado. Bloomberg, 2024.
BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL – BNDES. Para onde vai a China? O impacto do crescimento chinês na siderurgia brasileira, 2005.
CEB. Reducing risk management’s organizational drag, 2014.
FINANCIAL TIMES. British Steel financial results 2023. Financial Times, 2023.
GERDAU NEXT; SPACETIME LABS. Gerdau lança soluções com gêmeos digitais. Indústria 4.0, 24 jan. 2023.
GLOBAL ENERGY MONITOR. Forging a Sustainable Future: Brazil’s Opportunity to Lead in Steel Decarbonization, s. d.
HARVARD BUSINESS REVIEW. When every employee is a risk manager, 2015.
KAPLAN, Robert S.; MIKES, Anette. Managing risks: a new framework, 2012.
LEE, Jae-Hyuk; KIM, Hyun-Joo. Risk Management Practices in POSCO: Building Resilience in the Steel Industry. International Journal of Risk Assessment and Management, v. 24, n. 2, p. 101–120, 2023.
REUTERS. British Steel mulls blast furnace closures over 2,000 jobs at risk, 2025.
SMINK, Veronica. Como o aço chinês mergulhou a indústria siderúrgica da América Latina em uma enorme crise. BBC News Brasil, 2024.
STEELBENCHMARKER. Steel Price History: Hot Rolled Coil, 2018–2024.
THE GUARDIAN. SSI Redcar steel plant goes into liquidation, 2015.
UK PARLIAMENT RESEARCH BRIEFINGS. British Steel Financial Performance, 2024.
WORLD STEEL ASSOCIATION. World Steel in Figures 2024.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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