Resumo Executivo

23 de fevereiro de 2026

Incidência de fatores de burnout em professores universitários de São Paulo

Mário Henrique Scapin Lopes; Helena Wollinger da Costa

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisa a incidência de fatores relacionados à síndrome de burnout em professores universitários de São Paulo. A pesquisa mensura estressores na atividade docente utilizando uma versão adaptada do Inventário de Burnout de Copenhagem para avaliar as dimensões de burnout pessoal, relacionado ao trabalho e derivado das interações com alunos, colegas e supervisores. O objetivo é diagnosticar a incidência de tais fatores na subpopulação de docentes paulistas para subsidiar futuras intervenções e políticas de gestão. A análise de variáveis sociodemográficas, como sexo, idade e tempo de carreira, permite identificar os grupos com maior vulnerabilidade ao esgotamento profissional, contribuindo para o conhecimento sobre saúde ocupacional no ensino superior.

A síndrome de Burnout é definida como um estado de exaustão emocional, despersonalização e reduzida realização pessoal, decorrente da exposição crônica a estressores no ambiente de trabalho não gerenciados eficazmente (Maslach et al., 1997). As consequências impactam a produtividade organizacional e as relações interpessoais (Campos et al., 2011). O burnout é também um fator de risco para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade, depressão e doenças cardiovasculares (Toppinen-Tanner et al., 2009). Sua complexidade exige uma abordagem que considere tanto os aspectos do ambiente de trabalho quanto as características individuais.

A docência universitária se destaca pela alta prevalência de fatores associados ao burnout (Salami, 2011). Professores universitários enfrentam estressores como a elevada carga de trabalho, a pressão por produtividade científica e a necessidade de conciliar ensino, pesquisa, extensão e gestão administrativa (Carlotto e Câmara, 2017). Fatores como baixa remuneração, percepção de desvalorização profissional e dificuldade de progressão na carreira também contribuem para o esgotamento crônico (Rocha et al., 2020).

A etiologia do burnout é multifatorial, envolvendo a interação entre o ambiente de trabalho e as disposições pessoais. Fatores como estilo de vida, incluindo hábitos de sono, alimentação e prática de atividades físicas, podem atuar como agravantes ou protetores (Nowack e Pentkowski, 1994). A qualidade das relações sociais e o tempo dedicado à família e amigos são elementos que modulam a resiliência do indivíduo frente aos estressores laborais (Soares et al., 2007). Essa interação ressalta a importância de compreender o contexto de vida do profissional para uma intervenção eficaz.

O burnout pode se manifestar já nos primeiros anos de carreira, com professores iniciantes relatando altos níveis de esgotamento associados a uma quebra de expectativas (Gavish e Friedman, 2010). A falta de reconhecimento, a ausência de um ambiente colaborativo e a carência de mentoria contribuem para o desenvolvimento precoce da síndrome. Para mensurar este fenômeno, o Inventário de Burnout de Copenhagem (CBI) foi escolhido por ser uma ferramenta moderna que permite uma avaliação precisa das dimensões pessoal, profissional e relacional do burnout (Kristensen et al., 2005).

A metodologia empregada neste estudo tem delineamento quantitativo, descritivo e transversal para caracterizar a amostra de docentes universitários em São Paulo (Berman e Parker, 2016). A coleta de dados ocorreu por meio de um questionário online, anônimo e voluntário. O instrumento foi uma versão adaptada do Inventário de Burnout de Copenhagem (CBI) (Kristensen et al., 2005). As questões éticas foram observadas, com a inclusão de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), cujo aceite era pré-requisito para a participação.

A população-alvo foi composta por docentes de instituições de ensino superior, públicas e privadas, no estado de São Paulo. A amostragem foi por conveniência. Uma lista de e-mails de professores, obtida em websites de universidades, foi utilizada para o envio de convites, e o link para o questionário foi divulgado em redes sociais acadêmicas. Foram enviados um convite inicial e dois lembretes para maximizar a taxa de resposta (Nowack e Pentkowski, 1994). A coleta de dados ocorreu de 16 de abril de 2025 a 30 de julho de 2025, visando um mínimo de 100 respostas.

O questionário continha 33 questões. A primeira seção, após o TCLE, tinha cinco perguntas sociodemográficas (sexo, faixa etária, tempo de docência). A seção seguinte era composta por 23 questões adaptadas do CBI, com escala Likert de 1 a 5. Estas questões foram agrupadas em quatro dimensões: burnout pessoal (seis questões, ex: “Com que frequência você se sente fisicamente exausto?”), burnout relacionado ao trabalho (sete questões), burnout ligado às relações com alunos (seis questões, ex: “Você acha frustrante trabalhar com seus alunos?”) e burnout ligado às relações com colegas e superiores (quatro questões, ex: “Trabalhar com seu superior drena sua energia?”). A última seção continha cinco questões sobre estilo de vida.

Os dados de 121 respondentes foram analisados com o software JMP v.14. Foram calculadas as medidas de estatística descritiva (média e desvio-padrão). A normalidade foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk e a homogeneidade das variâncias pelo teste de Levene. Como os dados não apresentaram distribuição normal, foram empregados testes não paramétricos. As médias entre os grupos foram comparadas com o teste de Kruskall-Wallis. Para identificar as diferenças específicas entre os pares, foi aplicado o teste de comparações múltiplas de Dwass-Steel-Critchlow-Fligner, com nível de significância de p < 0,05.

A literatura classifica os fatores predisponentes ao burnout em individuais (características sociodemográficas, valores pessoais) e situacionais (carga de trabalho, demandas ocupacionais, características organizacionais) (Mousavy e Nimehchisalem, 2014; Schaufelli e Enzmann, 2020). A confiabilidade do instrumento foi confirmada pelo cálculo do coeficiente Alfa de Cronbach. Os resultados demonstraram alta consistência para todas as dimensões: burnout pessoal (0,919), burnout relacionado ao trabalho (0,911), burnout relacionado aos alunos (0,893) e burnout relacionado aos colegas/supervisores (0,853), com um alfa geral de 0,949, alinhados à proposta do CBI (Revelle, 2019).

A análise sociodemográfica revelou uma amostra de 59,5% de mulheres (N=72) e 40,5% de homens (N=49). A faixa etária predominante foi de 53-65 anos (29,8%), e a maioria possuía mais de 20 anos de carreira (38,8%). Embora estudos anteriores sugiram diferenças de gênero no burnout (Taka et al., 2016; Llorent e Ruiz-Calzado, 2016), esta pesquisa não encontrou diferenças significativas na dimensão geral de burnout pessoal. No entanto, as mulheres apresentaram uma média significativamente superior para a questão “Com que frequência você se sente fisicamente exausto?” (p = 0,034) em comparação com os homens. Este resultado pode estar associado à dupla jornada de trabalho feminina, que potencializa a exaustão física (Nilsen et al., 2017; Zhao et al., 2020), corroborando pesquisas que identificaram maior exaustão emocional em docentes mulheres (Arquero e Donoso, 2013).

A idade emergiu como um fator crucial, com diferenças significativas entre as faixas etárias para todas as seis questões da dimensão de burnout pessoal (p < 0,05). Docentes de 47 a 52 anos apresentaram as maiores médias de esgotamento (média geral de 3,73), enquanto o grupo com mais de 65 anos reportou as menores (média geral de 2,25). Este resultado alinha-se a estudos que observaram maior burnout em docentes na faixa dos 50 anos (Llorent e Ruiz-Calzado, 2016). A literatura sugere que docentes mais jovens podem sofrer burnout por inexperiência, enquanto os mais velhos podem ser afetados pela frustração com métodos de ensino e exigências físicas (Yslado et al., 2010). A baixa incidência no grupo acima de 65 anos pode ser explicada pela possibilidade de parte dos respondentes já estar aposentada.

O tempo de docência revelou uma diferença estatisticamente significativa (p = 0,002) para a questão “Com que frequência você se sente mentalmente esgotado?”. O valor mais elevado (4,08) foi registrado no grupo com 1 a 3 anos de carreira, sugerindo que o início da carreira é um período crítico. Uma possível explicação é a pressão para aumentar publicações, captar recursos e consolidar linhas de pesquisa, muitas vezes sem uma rede de apoio (Tijdink et al., 2013). Os grupos nos extremos da experiência — menos de um ano e mais de 20 anos — apresentaram os menores índices. Para os recém-ingressos, o entusiasmo inicial pode ser um fator protetor, enquanto os mais experientes podem ter desenvolvido estratégias de enfrentamento ou alcançado posições de maior realização (Julieta, 2005).

A análise das relações interpessoais revelou dinâmicas opostas. A dimensão de burnout relacionada a colegas e supervisores apresentou médias gerais elevadas (3,16), indicando um nível de dificuldade moderado e constante, independentemente do tempo de carreira (p > 0,05). Este achado é consistente com a literatura que aponta a pressão por publicações e o ambiente competitivo como preditores de burnout (Miller et al., 2011). A competição por recursos e o julgamento constante podem minar as relações de trabalho (Anderson et al., 2007; Tijdink et al., 2013).

Em contrapartida, a dimensão de burnout relacionada aos alunos apresentou médias mais baixas (2,19), sugerindo que o trabalho com estudantes não é um estressor principal para a amostra. Não foram observadas diferenças significativas nesta dimensão entre docentes com diferentes tempos de carreira (p > 0,05). Este resultado indica que a relação docente-discente pode atuar como um fator protetor contra o burnout. A literatura apoia essa visão, demonstrando que o desenvolvimento de competências emocionais e sociais para se relacionar com alunos aumenta a satisfação e a motivação no trabalho (Jennings e Greenberg, 2009; Aldridge e Fraser, 2016).

A análise geral revela alta incidência de fatores preditores de burnout entre os docentes. As dimensões mais críticas foram o burnout pessoal e o relacional derivado da interação com pares e superiores. Os resultados apontam para grupos de risco: docentes em início de carreira (1 a 3 anos) demonstram maior esgotamento mental; mulheres relatam maior exaustão física; e docentes de 47 a 52 anos apresentam os maiores índices de burnout pessoal.

As implicações práticas destes achados são urgentes. As instituições de ensino superior precisam repensar a gestão de pessoas e a cultura organizacional. É fundamental criar redes de apoio e mentoria para novos docentes, flexibilizar as exigências de produtividade nos anos iniciais e promover um ambiente de trabalho colaborativo. Mitigar a cultura de competitividade e a pressão por publicações é um passo crucial para preservar a saúde mental do corpo docente.

A pesquisa demonstrou que os professores universitários da amostra apresentam elevada incidência de fatores preditores para o burnout, com destaque para o esgotamento pessoal e as dificuldades nas relações com colegas e supervisores. Idade e tempo de atividade se correlacionaram com a intensidade desses fatores, sendo que docentes com 1 a 3 anos de carreira relataram maior esgotamento mental, atribuível à combinação de altas expectativas e pressão por produtividade. Apesar das limitações do estudo, como o foco geográfico e a amostragem por conveniência, os dados reforçam a necessidade de medidas institucionais de apoio à saúde mental e de melhoria das condições de trabalho. Estudos futuros são necessários para aprofundar a investigação sobre os fenômenos relacionais e pessoais que mais contribuem para os riscos. O presente estudo elucidou pontos críticos e destacou diferenças no acometimento da condição em relação a sexo, idade e tempo de carreira. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que há uma elevada incidência de fatores relacionados ao burnout em professores universitários no estado de São Paulo, com variações significativas entre diferentes perfis demográficos e de carreira.

Referências:
Aldridge, J. M., Fraser, B. J. 2016: Teachers’ views of their school climate and its relationship with teacher self-efficacy and job satisfaction.: Learning Environments Research 19, 291–307.
Anderson, M. S., Ronning, E. A., De Vries, R., Martinson, B. C. 2007: The Perverse Effects of Competition on Scientists’ Work and Relationships.: Science and Engineering Ethics 13, 437–461.
Arquero, J. L., Donoso, J. A. 2013: Docencia, investigación y burnout: el síndrome del quemado en profesores universitarios de Contabilidad.: Revista de Contabilidad 16, 94–105.
Berman, N. G.; Parker, R. A. 2016: Cross-Sectional Studies. Em: Planning Clinical Research. Cambridge: Cambridge University Press, 2016. p. 104–110.
Campos, J. A. D. B., Zucoloto, M. L., Bonafé, F. S. S., Jordani, P. C., Maroco, J. 2011: Reliability and validity of self-reported burnout in college students: A cross randomized comparison of paper-and-pencil vs. online administration.: Computers in Human Behavior 27, 1875-1883.
Carlotto, M. S., Câmara, S. G. 2017: Psychosocial Risks Associated with Burnout Syndrome Among University Professors.: Avances en Psicología Latinoamericana 35, 447-457.
Correa-Correa, Z., Muñoz-Zambrano, I., Chaparro, A. F. 2010: Síndrome de Burnout en docentes de dos universidades de Popayán, Colombia.: Revista de Salud Pública 12,4, 589–598.
Cruz, O. A., Pole, C. J., Thomas, S. M. 2007: Burnout in Chairs of Academic Departments of Ophthalmology.: Ophthalmology 114,12, 2350-2355.
Gavish, B.; Friedman, I. A. 2010: Novice Teachers’ Experience of Teaching: A Dynamic Aspect of Burnout. Social Psychology of Education 13, 141-167.
Gluschkoff, K.; Elovainio, M.; Kinnunen, U.; Mullola, S.; Hintsanen, M.; Keltikangas-Järvinen, L.; Hintsa, T. 2016: Work Stress, Poor Recovery and Burnout in Teachers. Occupational Medicine 66, 564-570.
Inocente, N. J. 2005: Estresse ocupacional em professores universitários do Vale do

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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