Resumo Executivo

22 de abril de 2026

Implementação de Software CAM no Setor Aeroespacial

Erick Pires Silva; Tania Regina Silvestre

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A atividade de fabricação tem sido fundamental desde os primórdios da civilização, passando por um desenvolvimento significativo ao longo dos anos para permitir a criação de artigos em diversos materiais e por meio de variados processos. Dentre as técnicas empregadas, a usinagem se sobressai pela vasta aplicação industrial e pelo volume de objetos produzidos. É praticamente impossível encontrar algo que não tenha demandado, direta ou indiretamente, uma operação de usinagem em sua manufatura (Amorim, 2002). Historicamente, as indústrias têm destinado grandes investimentos à usinagem, dada a complexidade das peças e o elevado tempo de execução quando o processo não é automatizado. Para otimizar esses tempos e aumentar a eficiência, o setor manufatureiro tem investido na compra de máquinas de Comando Numérico Computadorizado e ferramentas de corte mais eficazes. Complementarmente, a utilização de softwares de Manufatura Assistida por Computador com a habilidade de simulação contribui significativamente para a diminuição dos tempos de fabricação e para o aumento da qualidade dos itens usinados, influenciando diretamente o custo final do produto (Dobler, 2014). As máquinas de comando numérico computadorizado, que atuam como a etapa final de um sistema de manufatura assistida, transformaram o processo produtivo, impactando materiais, projetos de máquinas, mão de obra, qualidade do produto final e custos de fabricação (Machado e Silva, 2004). Paralelamente, os softwares de programação são essenciais para gerar estratégias de usinagem mais eficientes e simular as operações, assegurando confiabilidade e agilidade na fabricação. Após mais de três décadas de uso, as tecnologias de Desenho Assistido por Computador e Manufatura Assistida por Computador alcançaram grande sucesso em aplicações industriais, resultando em ganhos consideráveis de produtividade e competitividade (Alvares, 2005). Graças à ampla adoção dessas ferramentas no ambiente industrial, o mercado oferece diversas plataformas comerciais para atender às variadas necessidades do setor. Apesar do uso consolidado e do sucesso dessas ferramentas, o sistema de manufatura assistida não opera de forma totalmente autônoma; a presença de técnicos especializados e altamente treinados permanece indispensável (Schaffer, 2004). A escolha e a implementação de um novo software em um ambiente industrial configuram um projeto complexo que demanda uma gestão eficaz de recursos. A gestão de recursos de um projeto abrange os processos de identificação, aquisição e gerenciamento dos recursos necessários para o sucesso do projeto, visando garantir sua disponibilidade no momento e local apropriados para a equipe (PMBOK, 2017). Os recursos de projeto são classificados em equipe, que envolvem recursos humanos com habilidades específicas, e recursos físicos, como equipamentos, materiais, instalações e infraestruturas (Boydjian, 2019). Projetos com ciclos de vida ágil, por sua natureza de alta variabilidade, demandam equipes colaborativas e produtivas, que operam de forma praticamente autogerenciada para facilitar uma integração acelerada. O processo de aprimoramento contínuo da equipe busca melhorar competências, interação e o ambiente geral para otimizar o desempenho do projeto, resultando em benefícios como maior sinergia, aprimoramento de habilidades interpessoais, motivação dos colaboradores, redução da rotatividade e melhoria geral do desempenho (PMBOK, 2017). Nesse contexto, o desafio prático reside na necessidade constante de modernização dos processos de programação em empresas de alta tecnologia, como as do setor aeroespacial. A transição para um novo software, embora prometa ganhos em produtividade e qualidade, frequentemente enfrenta a resistência à mudança, a curva de aprendizado dos colaboradores e a complexidade de integração com sistemas já existentes, como a Gestão do Ciclo de Vida do Produto. A análise aprofundada dos desafios e benefícios dessa implementação é fundamental para demonstrar como a modernização pode aumentar a eficiência, a assertividade e a segurança dos programas, reduzir erros e retrabalho, e proporcionar maior flexibilidade no acesso remoto e na gestão do ciclo de vida do produto.

A investigação caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, de abordagem mista, combinando métodos qualitativos e quantitativos para permitir uma compreensão mais completa do fenômeno, unindo a análise de dados estatísticos com a interpretação de aspectos contextuais e subjetivos (Creswell e Plano Clark, 2017). A estratégia metodológica adotada foi o estudo de caso, aplicada em uma empresa do setor aeroespacial localizada no estado de São Paulo. A escolha do estudo de caso mostrou-se adequada visto que o processo de implementação de um novo software em um ambiente de alta complexidade é um fenômeno contemporâneo e particular, que se beneficia de uma análise aprofundada em seu contexto real (Yin, 2018). A coleta de dados foi realizada por meio de três fontes principais. Primeiramente, aplicou-se um questionário estruturado aos 20 colaboradores envolvidos na programação e na operação das máquinas. O questionário buscou avaliar a percepção dos participantes quanto aos impactos do novo software, considerando critérios como facilidade de uso, produtividade, redução de erros, qualidade dos programas e integração com outros sistemas. Este instrumento foi projetado para capturar as percepções diretas dos usuários sobre a experiência com o sistema anterior e as expectativas em relação à nova solução. Em segundo lugar, procedeu-se à análise documental, com o levantamento e a consulta de documentos técnicos dos softwares envolvidos no processo. Nesta etapa, foram levantadas informações detalhadas sobre softwares disponíveis no mercado, especificamente o Autodesk Fusion 360 e o SolidCAM, com base em propostas comerciais e especificações técnicas. A consulta a manuais de uso, guias de funcionalidades e comparativos de mercado também foi parte integrante dessa análise para subsidiar a avaliação comparativa inicial das soluções tecnológicas. Por fim, realizou-se a observação direta, de forma exploratória e não sistemática, durante o período de pesquisa, com o intuito de captar impressões sobre o ambiente e possíveis dificuldades ou adaptações percebidas no cotidiano, sem focar no acompanhamento detalhado de implementação ou treinamento formal, visto que o projeto se encontrava em fase de avaliação preliminar. As observações foram registradas em notas de campo, focando nas interações dos usuários com o sistema atual e nos desafios operacionais. Os dados quantitativos provenientes dos questionários foram tratados por meio de análise estatística descritiva, possibilitando a geração de indicadores de desempenho. Os dados qualitativos, oriundos das respostas abertas do questionário e das observações, foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo para identificar padrões, desafios e benefícios percebidos (Bardin, 2011). O processo de análise dos softwares seguiu uma matriz comparativa com critérios técnicos e operacionais, considerando o custo de aquisição e manutenção (Turban, Pollard e Wood, 2018), a qualidade e disponibilidade dos treinamentos oferecidos (Brynjolfsson e Mcafee, 2017), as funcionalidades e aderência às necessidades da empresa (Pressman e Maxim, 2020) e o retorno sobre o investimento (Remenyi e Sheriff, 2015). Todo o processo foi conduzido de forma ética, garantindo o anonimato dos participantes e a confidencialidade das informações.

A fase inicial da pesquisa concentrou-se no levantamento e análise preliminar de opções de softwares de manufatura assistida disponíveis no mercado, alinhando-se aos critérios de custo, funcionalidades e oferta de treinamento. As análises documentais e a coleta de propostas comerciais permitiram a identificação de soluções como o Autodesk Fusion 360 e o SolidCAM. Para facilitar a comparação, todos os valores foram convertidos para Dólar Americano, considerando a cotação de 1 BRL equivalente a 0,18 USD. O Autodesk Fusion 360 apresenta módulos que abrangem fresamento 2.5D, torneamento, usinagem 3D, quatro e cinco eixos simultâneos e simulação de máquina. Seu licenciamento ocorre por assinatura, com a versão padrão custando 484,20 USD por ano. Com a extensão de manufatura, o valor sobe para 1528,20 USD anuais. Os serviços de treinamento para esta plataforma são orçados em 298,35 USD por módulo para cada pessoa, abrangendo desde o desenho assistido até o fresamento complexo e torneamento com ferramenta acionada. Os pós-processadores customizados para o Fusion 360 variam conforme a máquina: 300 USD para torno simples, 400 USD para centros de usinagem de três eixos, 550 USD para quatro eixos e 650 USD para cinco eixos. A integração com o sistema de gestão do ciclo de vida do produto ocorre via nuvem ou pelo software Vault, com custo de 600,58 USD anuais. Em contrapartida, o SolidCAM oferece módulos similares, mas com um modelo de licenciamento perpétuo cujo custo inicial é de 18.000 USD, acrescido de um contrato de manutenção anual de 2.752 USD após o primeiro ano. Alternativamente, a assinatura anual do SolidCAM é de 5.890 USD. O treinamento é fixado em 600 USD por pessoa e os pós-processadores customizados possuem valores mais elevados, chegando a 873 USD para centros de usinagem de cinco eixos e 425 USD para três eixos. A análise comparativa evidencia que o Fusion 360 opera com licenças por conta nominal individual, podendo ser instalado em vários dispositivos, mas limitado a um uso por vez. Já o SolidCAM oferece modelos mais flexíveis de licenciamento de rede, permitindo que múltiplos usuários acessem o software desde que haja uma licença disponível no servidor centralizado, o que pode ser mais custo-efetivo para organizações com muitos usuários (Laudon e Laudon, 2020).

A pesquisa de campo realizada com 20 colaboradores revelou que a maioria atua na programação (13 pessoas), seguida por processos (quatro pessoas), automação industrial (duas pessoas) e operação de máquina (uma pessoa). Há uma forte concentração de profissionais experientes, com 15 respondentes possuindo mais de 10 anos de experiência na área, e um nível de familiaridade predominante entre especialista e avançado. A avaliação do software atualmente utilizado, em uma escala de 1 a 5, mostrou que a contribuição para a produtividade possui média e mediana de 4,00. A percepção em relação à qualidade e assertividade dos programas também apresentou média e mediana de 4,00. No entanto, a integração com outros sistemas, como a gestão do ciclo de vida do produto, obteve a menor média entre os critérios, com 3,44 e mediana de 3,00, sugerindo que esta é uma área de menor contribuição no cenário atual. Quanto às expectativas sobre a modernização, os colaboradores indicaram que a mudança trará um aumento de produtividade (média de 3,28) e melhoria na qualidade futura (média de 3,17). A transição é vista como desafiadora devido à curva de aprendizado, com média de 3,39. A resistência inicial à adoção de um novo sistema foi avaliada com média de 3,50 e mediana de 4,00, reforçando que este será um fator crítico a ser gerenciado. A importância de um treinamento de alta qualidade foi o ponto de maior consenso, com média de 4,22 e mediana de 4,00. A maioria dos respondentes, totalizando 14 pessoas ou 70% da amostra, acredita que a adoção de um novo software trará melhorias significativas para o trabalho e para a empresa. Os dados qualitativos aprofundaram essas percepções, indicando que as limitações do sistema atual envolvem a falta de automação, excesso de comandos manuais e a necessidade de simulações mais realistas. As funcionalidades mais desejadas em uma nova solução são a geração de trajetórias de ferramenta mais eficientes, citada por 15 colaboradores, simulações precisas, mencionada por 13, e a redução do tempo de programação, apontada por 12 participantes.

A discussão dos resultados permite conectar os achados com a literatura. A diversidade de opções no mercado reforça a necessidade de uma avaliação estratégica que transcenda a comparação de preços (Alvares, 2005). O Autodesk Fusion 360, com seu modelo de assinatura e extensões modulares, oferece uma barreira de entrada menor e flexibilidade para escalar conforme a necessidade. O custo adicional de um sistema de gestão dedicado como o Vault deve ser considerado na análise de custo total. O SolidCAM, por sua vez, pode representar um custo total de propriedade menor a longo prazo para empresas que buscam um investimento inicial robusto e duradouro. A escolha estratégica da empresa pelo Fusion 360 fundamenta-se na flexibilidade e na possibilidade de integração sinérgica com o ecossistema da mesma fabricante. As percepções positivas sobre a produtividade e qualidade do software atual são consistentes com o sucesso das tecnologias de manufatura assistida em aplicações industriais (Dobler, 2014). Contudo, a lacuna percebida na integração com sistemas de gestão pode gerar silos de informação e retrabalho, contrariando a busca por maior sinergia. Essa ineficiência impacta diretamente a fluidez da gestão do ciclo de vida do produto, exigindo a entrada manual de dados duplicados e aumentando a probabilidade de erros. A modernização busca preencher essa lacuna, promovendo a transformação digital na manufatura. A consciência sobre os desafios da transição, especialmente a curva de aprendizado e a resistência inicial, corrobora a literatura que aponta a necessidade de técnicos especializados e a complexidade de gerenciar recursos humanos em projetos de tecnologia. A importância do treinamento de alta qualidade é um consenso que reforça a necessidade de equipes colaborativas e produtivas em ciclos de vida ágeis (Boydjian, 2019). A superação desses obstáculos ressalta a importância de um plano de gestão da mudança robusto e de uma eficiente gestão de recursos humanos. O desenvolvimento da equipe e a gestão das partes interessadas são essenciais para garantir que o capital humano esteja engajado (PMBOK, 2017). O investimento em capacitação não é apenas um custo, mas um fator estratégico para a mitigação de desafios e maximização do desempenho. Embora a integração atual tenha sido avaliada como ineficiente, a criticidade esperada na implementação foi percebida de forma neutra, o que pode indicar que os usuários focam mais nos desafios operacionais cotidianos do que nas complexidades sistêmicas, que muitas vezes são vistas como responsabilidade da área de tecnologia da informação. Os resultados preliminares já apontam indícios de melhorias potenciais na produtividade e na qualidade, bem como uma possível redução de custos. A adoção de uma solução com funcionalidades avançadas de automação e simulação contribui diretamente para a redução do tempo de desenvolvimento e aumento da assertividade, minimizando falhas e colisões. Identificaram-se, contudo, limitações na migração de dados históricos e programas anteriores, o que exige adaptações operacionais e treinamento intensivo.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise do processo de implementação demonstrou que a modernização através do software Autodesk Fusion 360 é o caminho mais promissor para a empresa aeroespacial estudada. A pesquisa identificou que, embora o sistema atual seja funcional, a ineficiência na integração com o sistema de gestão do ciclo de vida do produto representa um gargalo que a nova solução poderá sanar de forma sinérgica e com custo competitivo. Os principais desafios mapeados residem na resistência humana e na curva de aprendizado, evidenciando que o sucesso da transformação digital depende intrinsecamente de um investimento robusto em treinamento qualificado e em uma gestão de mudanças que considere a vasta experiência da equipe técnica. A transição para o modelo de assinatura e a adoção de ferramentas de simulação mais precisas alinham-se à necessidade de aumentar a produtividade, a segurança e a competitividade da organização no setor aeroespacial.

Referências Bibliográficas:

Alvares, A.J. 2005. Uma metodologia para integração CAD/CAPP/CAM voltada para manufatura remota de peças rotacionais baseada na internet. Tese de Doutorado em Engenharia Mecânica. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

Amorim, H.J. 2002. Estudo da relação entre velocidade de corte, desgaste de ferramenta, rugosidade e forças de usinagem em torneamento com ferramenta de metal duro. Dissertação (Mestrado) – Curso de Engenharia Mecânica, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

Bardin, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.

Boydjian, J.C. 2019. Gestão de Projetos: Conhecendo os grupos de processo e suas áreas de conhecimento. Pecege, Piracicaba, Brasil.

Brynjolfsson, E.; McAfee, A. 2017. Machine, Platform, Crowd: Harnessing Our Digital Future. W. W. Norton & Company, New York, NY, EUA.

Creswell, J.W.; Plano Clark, V.L. 2017. Designing and Conducting Mixed Methods Research. 3ed. SAGE, Thousand Oaks, EUA.

Dobler, J.K. 2014. Estudo comparativo de estratégias de usinagem na fabricação de um molde de alumínio. TCC (Graduação) em [area_do_programa]. Universidade Regional do Nordeste do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

Laudon, K.C.; Laudon, J.P. 2020. Management Information Systems: Managing the Digital Firm. 16ed. Pearson, Hoboken, NJ, EUA.

MACHADO, Armando R.; SILVA, Marcelo B. Usinagem dos metais. 8. ed. Uberlândia: LEPU – Laboratório de Ensino e Pesquisa em Usinagem, Faculdade de Engenharia Mecânica, Universidade Federal de Uberlândia, 2004. 262 p.

Pressman, R.S.; Maxim, B. 2020. Software Engineering: A Practitioner’s Approach. 9ed. McGraw-Hill, New York, NY, USA

Project Management Institute [PMI]. 2017. Um Guia do Conhecimento em Gerenciamento de Projetos (Guia PMBOK). 6. ed. Project Management Institute, Newtown Square, PA, EUA.

Remenyi, D.; Sheriff, M. 2015. ROI in Business Technology: Measuring and Delivering Value. Routledge, New York, NY, USA.

Schaffer, L.; Espinoza, M. 2004. Uso do CAD/CAE/CAM na produção de matrizes para os processos novos de conformação mecânica. Revista del Instituto de Investigación FIGMMG 7(14): 84-91.

Turban, E.; Pollard, C.; Wood, G. 2018. Information Technology for Management: On Demand Strategies for Performance, Growth and Sustainability. 11ed. Wiley

Yin, R.K. 2018. Case Study Research and Applications: Design and Methods. 6ed. SAGE, Thousand Oaks, EUA.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Quem editou este artigo

Mais recentes

Você também pode gostar

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade