Imagem Gestão e inovação: soluções estudantis para a permanência na educação profissional

02 de março de 2026

Gestão e inovação: soluções estudantis para a permanência na educação profissional

Gilmar Talarico e Silva; Natália Capristo Navarro

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este trabalho analisa os impactos de uma ação de cocriação na qual estudantes da Educação Profissional Técnica propuseram soluções para sua permanência, evidenciando como a escuta ativa, a gestão participativa e o protagonismo discente contribuem para reduzir a evasão. A pesquisa parte do pressuposto de que a evasão é um fenômeno multifacetado, com causas sociais, econômicas e emocionais que transcendem a aprendizagem. Compreender o problema pela perspectiva dos alunos é fundamental para políticas institucionais eficazes. A iniciativa, em uma unidade de São Paulo, deu voz aos estudantes, transformando-os de objetos de políticas em sujeitos ativos na construção de um ambiente escolar acolhedor.

A evasão na Educação Profissional Técnica é um desafio sistêmico. A expansão de matrículas não foi acompanhada por estratégias de permanência. Fatores como conciliar trabalho e estudo, a falta de identificação com a instituição e a inadequação de práticas pedagógicas são barreiras significativas (Nunes e Silvano, 2024). O cenário exige uma gestão escolar proativa e inovadora, focada em um clima organizacional positivo e no bem-estar da comunidade, como defendem Cara e Navarro (2023).

A literatura aponta o protagonismo estudantil como pilar no enfrentamento da evasão. A participação ativa dos alunos nos processos decisórios fortalece o pertencimento e gera soluções alinhadas às suas necessidades. A escuta ativa torna-se uma ferramenta de gestão, permitindo que a escola se reinvente a partir das vivências de seus atores (Freitas, 2014). A inovação educacional, portanto, não reside apenas na tecnologia, mas na reconfiguração das relações para construir uma cultura de colaboração e corresponsabilidade; alunos são parceiros (Souza e Ribeiro, 2024).

Este estudo se justifica pela urgência em analisar modelos de gestão democráticos e eficazes na promoção da permanência. A experiência de cocriação investigada é um exemplo prático de inovação colaborativa, envolvendo a comunidade discente na resolução de problemas. Ao analisar as propostas geradas, a pesquisa busca identificar as principais demandas e percepções, oferecendo subsídios para que outras instituições repliquem práticas semelhantes, com a gestão traduzindo as vozes estudantis em estratégias viáveis.

A abordagem da unidade, ao convidar os estudantes a serem protagonistas, alinha-se a uma educação que valoriza a autonomia. Em vez de impor soluções verticalizadas, a gestão optou pela construção conjunta, reconhecendo o conhecimento de quem vivencia o problema. Essa postura reflete os princípios da gestão democrática, caracterizada pela participação da comunidade escolar na definição dos rumos da instituição (Libâneo, 2004). A análise dos resultados contribui, assim, para o debate sobre como inovação e participação podem ser eixos de uma política de permanência bem-sucedida.

A investigação foi conduzida por análise documental com abordagem mista (quantitativa e qualitativa). O corpus foi constituído pelos documentos produzidos em um evento de cocriação em junho de 2024, em uma Unidade Educacional de Aprendizagem Profissional de Qualificação na zona leste de São Paulo. A análise documental permite imersão na fonte primária para interpretar os registros como expressões de uma realidade específica (Cellard, 2008), exigindo um olhar crítico para contextualizar os materiais (Evangelista, 2012). A metodologia foi adequada por capturar as vozes dos estudantes diretamente de suas propostas, tratando registros de práticas cotidianas como fontes de conhecimento (Sá-Silva et al., 2009). A abordagem quantitativa sistematizou dados numéricos (participantes, frequência de temas), enquanto a qualitativa analisou o conteúdo das propostas. A combinação dos métodos enriquece a análise, cruzando a precisão dos números com a profundidade das interpretações (Marconi e Lakatos, 2017).

O evento de cocriação, organizado pelo Comitê de Inovação da unidade, visou fomentar o empreendedorismo social e o protagonismo discente. Com duração de três horas em cada turno (matutino, vespertino e noturno), envolveu alunos da Educação Profissional Técnica e do Programa de Aprendizagem. Organizados em grupos de até cinco pessoas, foram desafiados a responder à pergunta “O que dificulta sua permanência na unidade?” e a estruturar propostas com descrição do problema, solução, custos e benefícios. Os grupos receberam mentoria de representantes da instituição. Ao final, as propostas foram avaliadas pelo Comitê com base em viabilidade financeira, custo-benefício e grau de inovação, com premiação para as melhores ideias. A estrutura motivou a participação e conferiu um caráter formativo à atividade, desenvolvendo competências de análise, planejamento e trabalho em equipe. A abordagem mista permitiu explorar as causas e os impactos por trás dos resultados (Sampieri et al., 2013).

O evento mobilizou 183 alunos em 43 grupos de trabalho. A participação foi distribuída entre os turnos: 40% do matutino, 35% do vespertino e 25% do noturno, garantindo diversidade de perfis e realidades. A análise das 43 propostas identificou 11 categorias temáticas principais. A mais frequente foi “Apoio Psicológico”, mencionada por 11 grupos, seguida por “Apoio Pedagógico”, com 8 grupos. Outras categorias relevantes foram “Ações de Acolhimento”, “Alimentação”, “Empregabilidade” e “Melhoria no Acesso à Informação”, cada uma citada por 5 grupos.

A proeminência de temas ligados ao bem-estar emocional, como apoio psicológico e acolhimento, indica que a evasão não é percebida pelos alunos como um problema estritamente pedagógico. Os resultados sugerem que a ausência de vínculos afetivos, a falta de espaços de escuta e o sentimento de invisibilidade são fatores determinantes. Essa constatação reforça a necessidade de uma gestão escolar com abordagem humanizadora, que reconheça o estudante em sua integralidade. A demanda por atendimento psicológico, rodas de conversa e tutoria emocional reflete a crescente conscientização sobre a importância da saúde mental na trajetória acadêmica (Mendes, 2023). Educar, como defendia Freire (1996), envolve cuidado e respeito, e a construção de um ambiente seguro é condição para a aprendizagem.

No eixo de “Apoio Pedagógico”, as propostas foram concretas, incluindo plantões de dúvidas, grupos de estudo autônomos com tutoria, reforço escolar e monitorias entre pares. As sugestões revelam que as dificuldades de aprendizagem precisam ser enfrentadas com políticas institucionais estruturadas, e não apenas com esforço individual. O acompanhamento constante é crucial, especialmente para jovens que conciliam estudos e trabalho (Tardif, 2014). As propostas também apontaram para a diversificação de recursos, como o uso de plataformas digitais e a criação de espaços físicos adequados para o estudo, demonstrando que os alunos valorizam uma rede de suporte multifacetada.

A análise das propostas revelou uma percepção crítica sobre o papel da gestão. Os estudantes apontaram a necessidade de melhorias na comunicação institucional, com canais mais claros e transparentes para o diálogo com a direção. Sugeriram também a flexibilização de horários e uma organização mais eficiente da oferta de aulas, demandas relevantes na Educação Profissional. Essas ideias alinham-se à defesa de uma gestão democrática, que valoriza a participação de todos na vida da escola (Paro, 2001). A preocupação com a falta de integração entre as turmas, expressa em propostas de eventos interclasses, reforça a importância de fortalecer os laços comunitários como estratégia de permanência (Paro, 2007).

Um dado significativo é que, do total de 43 soluções, 24 foram classificadas como executáveis diretamente pela unidade escolar, enquanto 19 dependem de autorização de instâncias superiores. Isso demonstra que, embora existam limitações estruturais, há um vasto campo para a atuação autônoma da gestão local. A capacidade de implementar rapidamente parte das demandas estudantis pode gerar um impacto positivo imediato no clima escolar e fortalecer a confiança na gestão. Essa autonomia, contudo, precisa ser exercida com base em uma liderança que valorize a inovação, o trabalho em equipe e a aprendizagem contínua (OECD, 2016). A gestão, nesse modelo, atua como articuladora, transformando as necessidades da comunidade em ações concretas.

A experiência de cocriação foi uma ferramenta de inovação pedagógica, alinhada às metodologias ativas que centralizam o estudante (Moran, 2015). Ao envolver os alunos na solução de um problema real, a escola proporcionou uma aprendizagem significativa, desenvolvendo competências técnicas e socioemocionais, resgatando princípios da “educação nova” que defendia uma pedagogia baseada na experiência (Pintassilgo, 2018). Os resultados reforçam que a evasão reflete falhas institucionais, não apenas uma escolha individual (Lück, 2013), pois a falta de acolhimento e diálogo afasta os estudantes. O clima escolar, a percepção coletiva sobre a instituição, influencia diretamente o engajamento (Stokols, 1992), e um ambiente de respeito e confiança contribui para o desenvolvimento integral (Libâneo et al., 2012). Os dados demonstram que os estudantes têm uma visão crítica sobre os fatores de sua jornada, desejando uma escola mais humanizada. A valorização da escuta ativa e do protagonismo discente é essencial para repensar a escola (Souza e Ribeiro, 2024), pois ao se sentirem ouvidos, os alunos fortalecem seu vínculo com a instituição e se tornam corresponsáveis por sua melhoria.

Este estudo destacou a complexidade dos desafios de permanência dos estudantes. As propostas da cocriação evidenciam que os alunos possuem uma visão crítica dos fatores de sua trajetória, apontando caminhos que envolvem dimensões emocionais, sociais e estruturais, além da pedagógica. As soluções revelaram a importância de ações de acolhimento, apoio psicopedagógico, melhoria na comunicação e integração, além de medidas como oferta de alimentação e aulas híbridas. As demandas mostram que, embora algumas soluções sejam executáveis pela unidade, outras dependem de instâncias superiores, exigindo articulação institucional. Os resultados reforçam a relevância de uma gestão escolar humanizada e participativa, que valoriza a voz e o protagonismo discente. A escuta ativa e a corresponsabilidade são centrais para construir um ambiente de pertencimento, pois a evasão decorre também de condições sociais e psicológicas. A experiência demonstrou o poder da gestão que se abre ao diálogo e à inovação, reafirmando a escola como espaço de construção coletiva. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a escuta ativa e o protagonismo discente, por meio de uma ação de cocriação, são ferramentas eficazes para identificar soluções multifacetadas e contextualizadas para a redução da evasão escolar na Educação Profissional Técnica.

Referências:
Cara, D. S.; Navarro, N. C. 2023. Gestão e motivação na percepção dos funcionários da escola: um estudo de 2012 a 2022. RevistaE&S 4: 2-9.
Cellard, A. 2008. A Análise Documental. p. 295-316. In: Poupart, J. et al. (Orgs.) A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. 1ed. Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil.
Evangelista, O. 2012. Apontamentos para o trabalho com documentos de política educacional. p. 52-71. In: Araujo, R. M. L.; Rodrigues, D. S. (Orgs.). A pesquisa em trabalho, educação e políticas educacionais. 1 ed. Alínea, Campinas, SP, Brasil.
Freire, P. 1996. Pedagogia do oprimido. 41ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Freitas, L. C. 2014. Os reformadores empresariais da educação e a disputa pelo controle do processo pedagógico na escola. Revista da Educação e Sociedade 35(129): 1085-1114.
Gatti, B. A. 2019. Formação de professores no Brasil: características e problemas. Revista da Educação e Sociedade 31(113): 1355-1379.
Libâneo, J. C. 2004. A escola e a gestão democrática. 10ed. Loyola, São Paulo, SP, Brasil.
Libâneo, J. C.; Oliveira, J. F.; Toschi, J. F. de O. 2012. Educação escolar: politicas, estrutura e organização. 10ed. Cortez, São Paulo, Sp, Brasil.
Lück, H. 2013. Concepções e processos democráticos de gestão educacional. 9ed. Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil.
Marconi, M. A.; Lakatos, E. M. 2017. Fundamentos de metodologia científica. 8ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Mendes, R. M. O. 2023. Saberes docentes: a prática pedagógica para educação de idosos na EJA. Dissertação de Mestrado em Ensino de Ciência e Tecnologia. Programa de Pós-Graduação em Ensino da Ciência e Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Ponta Grossa, PR, Brasil.
Moran, J. M. 2015. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 1ed. Papirus, Campinas, SP, Brasil.
Nunes, E. B.; Silvano, A. M. DA C. 2024. Práticas pedagógicas e evasão discente: uma análise no curso técnico. Educação em revista 40: 01-19.
OECD. 2016. The future of education and skills: Education 2030. OECD, Paris, França.
Paro, V. A. 2001. Gestão democrática da escola pública. 4ed. Ática, São Paulo, SP, Brasil.
Paro, V. A. 2007. Gestão democrática e a participação dos alunos. 2ed. Cortez, São Paulo, SP, Brasil.
Pintassilgo, S. 2018. Inovação pedagógica e práticas de ensino. Revista Brasileira de Educação 23(72): 125-143.
Sá-silva, J. R.; de Almeida, C. D.; Guindani, J. F. 2009. Pesquisa documental: pistas teóricas e metodológicas. Revista Brasileira de História e Ciências Sociais 1(1): 1-14.
Sampieri, R. H.; Collado, C. F.; Lucio, M. D. P. B. 2013. Metodologia de pesquisa. Tradução Daisy Vaz de Moraes. 5ed. Penso, Porto Alegre, RS, Brasil.
Silva, M. G. T. B.; Santos, M. P. M. 2023. O abandono escolar na zona rural. Revista Ibero Americana de Humanidades, Ciências e Educação 9(11): 4242–4256.
Souza, J. H. A. de.; Ribeiro, M. S. de S. 2024. Metodologias Ativas e Protagonismo Juvenil No Ensino Médio: As interferências no processo de aprendizagem. Revista Ciências Humanas 17(2): 85-98.
Stokols, D. 1992. The social ecology of health promotion: implications for research and practice. American Psychologist 47(1): 6-22.
Tardif, M. 2014. O trabalho colaborativo na educação. 1ed. Cortez, São Paulo, SP, Brasil.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão Escolar do MBA USP/Esalq

Saiba mais sobre o curso; clique aqui:

Quem editou este artigo

Você também pode gostar

Quer ficar por dentro das nossas últimas publicações? Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade